O Amanuense Belmiro

Cyro dos Anjos · Capítulo 4 de 51

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O Amanuense Belmiro

§ 1. Merry Christmas! 15

§ 1. MERRY CHRISTMAS!

 

ALI pelo oitavo chope, chegam os à conclusão de que todos os problem as eram insolúveis. Florêncio propôs, então, o nono, argum entando que esse talvez trouxesse um a solução geral.

Éram os quatro ou cinco, em torno de pequena m esa de ferro, no bar do Parque. Alegre véspera de Natal! As m ulatas iam e vinham , com requebros, sorrindo dengosam ente para os soldados do Regim ento de Cavalaria. No caram anchão, outras dançavam m axixe com pretos reforçados, enquanto um cabra gordo, de m elenas, fazia a vitrola funcionar.

O proletariado negro se expandia, com em orando o Natal. Satisfeito, o alem ão do bar se m ultiplicava em chopes, expedindo, para aqui e para ali, garçons urgentes.

—A solução é a conduta católica, afirm ou o am igo Silviano, m eio vago, com o que atendendo a um a ordem interior de reflexões, que não era bem a de nossa conversação.

Redelvim convidou-m e, com um olhar m alicioso, a prestar atenção ao filósofo.

—Hein? indaguei, voltando-m e para este.

—A conduta católica! Isto é, fugir da vida, no que ela tem de excitante, continuou, com o que a falar para si m esm o.—Jerônim o anda m ergulhado na teologia. É a solução. Sublim ou-se nos doutores.

Só pelo gosto de vê-lo dissertar, obj etei-lhe que, nesse caso, não haveria solução. O que haveria é supressão da vida. Sem perceber que eu apenas puxava a língua ao Silviano e supondo contar com o m eu apoio, o j ovem Glicério ousou enfrentá-lo. Im prudentem ente apanhou a m inha deixa e entrou em cena com entusiasm o, dizendo que o católico destrói a vida pelo m odo m ais violento. Introduz, em nosso cotidiano, a preocupação da vida eterna, sacrificando, a esta, aquela.

Silviano olhou-o da cabeça aos pés. Glicério é novo na roda, e nosso am igo não lhe perm ite tais intim idades.

—Não discuto com m enores, disse m aj estosam ente.

E, voltando-se para m im :

—Você não sabe o que está dizendo, m as, ainda que fosse um a supressão, por que não havíam os de realizá-la para encontrar tranqüilidade? A grande estupidez é viverm os num conflito constante. Já que não se possui a vida com plenitude, o m elhor é renunciar, de vez.

Florêncio pôs a m ão sobre o om bro dele e disse m aliciosam ente:

—Estam os ruinzinhos hoj e, hein? A pequena deu o fora?

—Recolha-se, alim ária! respondeu, irritado. Não m e dirij o a prim ários.

Florêncio deu um a gargalhada e assentou-se de novo. Redelvim devia estar de bom hum or, pois apenas sorria, sem nada dizer. Sem pre que se encontra com Silviano, trava discussões acaloradas. Aproxim ei-os um dia, tentando fazê-los am igos, m as desde o prim eiro encontro se repeliram .

Para serenar a roda, propus novo chope, no que fui aplaudido calorosam ente por Florêncio. Aqui escreverei que a razão estava com este últim o. Silviano anda em crise aguda. Jandira, que de tudo sabe, contou-m e que o filósofo, j á à beira dos quarenta, retrocedeu aos vinte: está am ando as m oças em flor. O pior é que a m ulher, em vez de irritar-se, vive a ridicularizá-lo. Às voltas com os filhos, Joana diz não ter tem po para se ocupar dele. É um a sólida filha de fazendeiro, raça teim osa e viril. A princípio, andou tendo ciúm es e fazia cenas. Depois, fincou pé e deliberou não tom ar conhecim ento desses descam inhos que, se arranham a fé conj ugai, m ais arranham ainda as veleidades do quarentão. Pois Jandira acrescentou que, de suas sortidas, o nosso Dom Juan traz m ais baldões do que troféus.

—Cidade besta, Belo Horizonte! exclam ou Redelvim , consultando o relógio. A gente não tem para onde ir...

—Não acho! retrucou Silviano. Em Paris é a m esm a coisa.

—Em Paris? perguntou Florêncio. Não sabia que você andou por Paris... É boa!

—Ó parvo, quero dizer que o problem a é puram ente interior, entende? Não está fora de nós, no espaço!

Florêncio, j á m eio alegre, levou as m ãos ao ventre, num riso convulsivo. Redelvim e Glicério tam bém desataram a rir. Silviano, indignado, quis retirar-se. Disfarçando o m au epílogo da festa, alvitrei um a retirada em conj unto. Já era hora de j antar e o Parque ia ficando vazio. Sem que percebêssem os, as m ulatas e os soldados tinham saído, e as som bras de um crepúsculo averm elhado desciam sobre as árvores.

Separam o-nos, no portão do Parque, e, a cam inho de casa, fui rum inando a tese do Silviano. Mas o chope m e faz versátil, e m inha atenção logo se desviou para outras coisas.

A euforia que o chope traz! A vida se torna fácil, fácil.

Todos os passageiros do bonde Calafate m e sorriam . Certam ente sorriam , desej ando-m e um largo "saúde e fraternidade". Com o se m ostravam ansiosos, rápidos, denunciando pressa de chegar a casa, carregados de em brulhos, onde adivinhei variada m atéria-prim a para as com em orações dom ésticas do Natal! A hum anidade se transfigura de súbito, neste dia extraordinário. Que elem ento se introduzirá na essência das coisas para que tudo venha, assim , apresentar um a face nova e desconhecida, e para que todos os seres ganhem um a expressão especial, quase graciosa, de agitada felicidade? As árvores se fazem m ais verdes, e os pardais, com o cantam ! Será o poder de criar e de transfigurar, que possui a alm a hum ana, ou haverá um a efetiva transform ação no tecido íntim o das coisas? Afinal, pouco im porta. A realidade é a aparência, e o que é—no fundo—não o é para nós, com o diz Silviano.

Um Merry Christmas, que m e foi dito com um a palm adinha nas costas, por alguém que ia descer do bonde, fez-m e lem brar de que o próxim o poste de parada era o da Rua Erê.

Dei o sinal, e voltei-m e para saudar o hom em . Deveria ser o Prudêncio Gouveia, vizinho de quarteirão. Bom suj eito o Prudêncio. É chefe de Seção e pessoa m uito conceituada. Em m oço, estudou inglês, e seu único vício é cum prim entar-nos diariam ente com um how do you do. A m ulher, Juliana Gouveia, tom a ar aborrecido e cham a-lhe antipático. Mas, lá dentro, fica vaidosa, pois acha o m arido erudito: "Sem pre é um a vantagem , não acha, seu Belm iro? Vem um dia, ele tirará o seu proveito de saber outras línguas." Na verdade, só fala inglês, m as Juliana lhe encarece as habilidades, aludindo a "outras línguas".

—Merry Christm as, Prudêncio am igo! Merry Christm as!