O Amanuense Belmiro

Cyro dos Anjos · Capítulo 51 de 51 · parte 1/4

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O Amanuense Belmiro

§ 48. Finados. 96

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Tom o o café, que a velha traz silenciosam ente. Leio o Minas que deixou sobre a m esa. Lá fora, na cidade, a m anhã deve estar alegre e o parque cheio de gente. Veio-m e a idéia de sair um pouco, para espairecer. Depois, à tarde, talvez o futebol. Os j ornais anunciam um encontro sensacional. Mas talvez sej a m elhor arm ar a rede no quintal e folhear revistas velhas.

Finalm ente resolvo, entre bocej os, dar um giro. Tom o o bonde, desço na Avenida. Hom ens e m ulheres sobem a escadaria da igrej a de São José. Por que não fazer o m esm o? Devo, ou não, tirar o chapéu, em frente da igrej a? O m elhor é dar um a volta e não criar este problem a. Um a banda m ilitar desce m arcialm ente a Rua da Bahia, rum o à estação da Central. Algum político im portante deve estar a chegar. Ah! é verdade, o chefe da Seção pediu-m e que com parecesse ao desem barque do Ministro. Ir, ou não ir, eis a questão. Qual, o m elhor é, lá no Parque, ver m orenas que não nos verão. Depois, tom a-se um refresco no Bar. Depois, voltarem os para casa, abrirem os a rede, cham arem os o velho Giovanni para um dedo de prosa.

Dom ingo bom e alegre. Nenhum desej o neste dom ingo, nenhum problem a nesta vida.

 

§ 48. FINADOS.

 

NÃO TENDO nenhum defunto fam iliar no Bonfim , poucas vezes ali fui, em anos anteriores, no dia de Finados. Ia por esporte, ou para acom panhar algum am igo.

Neste Finados de 1935, logo pela m anhã, senti desej o de visitar o cem itério. Para dizer verdade, escreverei neste caderno que não era tanto pelos seus hóspedes: im aginei que talvez encontrasse Carm élia, ao pé do túm ulo do pai. Mas, não estando m uito prem ido pela necessidade de vê-la, fiquei o dia todo a hesitar entre ir e não ir. À tarde, quando j á escasseavam os visitantes, foi que m e decidi, afinal.

Ali chegado, pus-m e a andar a esm o, abeirando-m e de um ou outro retardatário par de nam orados—para ouvir-lhes a conversa —ou exam inando alguns m ausoléus e inscrições.

Passando, depois, à parte nova do cem itério, vi que se enterrava alguém . Defunto m etódico esse que deliberou m orrer no próprio dia de Finados, poupando, aos seus, visitas extraordinárias ao cem itério. Aproxim ei-m e do local e fui deitar, tam bém , m inha pá de terra ao m orto. O coveiro não se assem elhava em nada ao de Vila Caraíbas, que enterrava as pessoas com um pesar que se adivinhava sincero, am igo que era de todos. Lem bra-m e que, inform ado da m orte de um com padre, não encontrou outras palavras, senão estas, para exprim ir à viúva sua grande dor: "Console-se, arranj arei um a terrinha virgem para ele..." Mas, convenham os em que cada um exprim e o seu sentim ento com o pode e que, para um coveiro consciencioso, nada se poderia prom eter de m elhor, a um defunto, do que terra virgem .

O coveiro da quadra 55, do cem itério do Bonfim , não tinha o ar am igo nem a expressão honesta do coveiro caraibano. Hom em som brio, segundo o padrão habitual, im pressionou-m e fortem ente com o olhar frio que m e deitou. Sem que nada m e recom endasse, suponho eu, às preferências daquela pessoa de tão fúnebre ofício, seu olho m ole, esquisito, não deixou de fitar-m e um só m om ento, enquanto estive à beira da cova.

Por que m e encararia assim , com ar agoureiro? Parecia dizer-m e: "Não dem orarás a vir tam bém , seu m anguarão!" Havia qualquer coisa de triunfante e de perverso naquele olho aguado. Um calafrio correu-m e pela espinha, e deixei o cem itério com o espírito opresso. Era j á lusco-fusco, e um vento frio e fino soprava as casuarinas, fazendo-as gem er. As som bras se insinuavam aqui e ali. A um a hora dessas, o Bonfim é m enos convidativo que de costum e.

 

§ 49. JANDIRA SE MOSTRA PRUDENTE.

 

FUI HOJE à casa de Jandira com unicar-lhe que a polícia deliberou devolver a Redelvim o seu Diário. O Senador Furquim , que se incum biu do caso a pedido de Glicério, cham ou este últim o à sua residência para o cientificar de que haviam sido expedidas ordens para isso. O Senador prestou outras inform ações, que não foram boas. Consideram Redelvim bastante com prom etido. Realm ente, não encontraram no Diário senão poesias, m em órias, apontam entos diversos, relações de dívidas, e este fora encerrado havia m ais de quatro anos. Mas na correspondência e em papéis avulsos, que a polícia conservou, acharam indícios de que fora um dos prom otores da últim a greve de operários, term inada tragicam ente. Em consideração ao Senador, o delegado m ostrou-lhe, m esm o, um a cópia de carta enviada pelo nosso am igo a um estudante Lousada, ou Alm ada. Nesse docum ento Redelvim concitava o com panheiro a agir, dizendo-lhe que não criasse problem as de consciência. Que não entrasse em indagações sobre se a greve surtiria, ou não, efeito. Que o hom em de ação não deve ter escrúpulos. Que se a greve falhasse e os operários fossem postos no olho da rua, teria ela, m esm o assim , ou m esm o por isso, alcançado os seus obj etivos, pois os hom ens sem trabalho, acossados pela necessidade, seriam outros tantos agitadores. Que a m iséria e o sacrifício, até de um a geração, seriam com pensados pela felicidade das gerações futuras.

De acordo com o que m e repetiu Glicério, era, assim , a carta. Em vista de tais docum entos, resolveram m anter Redelvim sob vigilância constante. O investigador, que lhe devia levar o Diário, teve tam bém a incum bência de transm itir-lhe recom endação expressa do delegado, no sentido de que não se afastasse de Belo Horizonte, nem m udasse de residência, sem notificar a polícia. "Desconfia o Senador, aj untou, que não o soltaram senão para lhe acom panhar o desenvolvim ento das atividades, pois o delegado é finório." Por últim o, Glicério m e disse que entrou em tudo isso apenas em atenção a m im e que não se interessava pelo Redelvim . "Ele se m eteu em em brulhos, que se agüente. Além disso, vive falando m al de m im e do Silviano, cham ando-nos im becis, reacionários. Qualquer dia a idiota da Jandira estará, tam bém , Jia cana."

Glicério foi duro, m as reconheço que Redelvim o tem hostilizado bastante.

Tive de esperar um pouco. Jandira fora dar um a volta na Avenida com a am iga nova que descobriu: um a professora j á m eio entrada em anos que se instalou na m esm a casa de côm odos.

Quando voltou, cum prim entou-m e com ar alegre. Arranj ou, com certeza, algum nam orado nestes dez dias em que tenho estado ausente de sua casa.

Dei-lhe conhecim ento das inform ações prestadas pelo Senador. Ficou apreensiva e m anifestou o propósito de ir procurar o delegado, a fim de lhe pedir um pouco de condescendência no caso. Conhecia-o, era hom em atencioso. Respondi-lhe que seria bom isso, m as talvez fosse inútil a tentativa, pois a polícia anda rigorosa, na expectativa de qualquer coisa. E que nosso am igo não fará nada, provavelm ente; assim , nada lhe acontecerá.

—Mas é um absurdo, retrucou. Redelvim conversou com igo longam ente.

Não tem m ais ligação com o Partido. Nesse negócio da greve entrou por lirism o. É orgulhoso e não confessa, m as acredito que anda decepcionado com os antigos com panheiros.

Fiquei satisfeito com suas palavras. Jandira se m ostra prudente e não se tem envolvido em com plicações. Não lhe exprim i esta satisfação, receoso de que se m elindrasse e, por picardia, viesse, sem convicção algum a, a assum ir atitude oposta. Mas estava em m aré de confidencias e, sem que eu insistisse no assunto, disse-m e:

—Olhe, Belm iro, tenho pensado que o papel de indivíduos com o nós é conter os im pacientes. O m undo está errado, m as receio que, apelando para a violência, se com etam erros m aiores. Confio na evolução social. Som os criaturas sem fé e pensam os dem ais. Tem os problem as que nenhum regim e resolve. Além disso, você vê com o tudo anda em brulhado na Rússia...

Depois, ou porque tivesse j ulgado o discurso cheio de chavões e quisesse anular o efeito das frases m ais ou m enos convencionais, que eu ouvira, surpreso, de sua boca—ou sim plesm ente m ovida pela sua natural versatilidade, falou, andando para lá, para cá, com ar brej eiro:

—Prolongada salva de palm as. O orador é vivam ente cum prim entado.

Suas m udanças súbitas, seu j eito provocante, sua m ím ica m uito fem inina m e fazem lem brar a Jandira m ulher, que tantas vezes desaparece a m eus olhos, em nossas conversações. Aos vinte e cinco anos, tem a m esm a graça leve e a m esm a carne ágil dos dezenove. Poderia talvez fazer a felicidade do velho m ancebo que escreve estas notas, ou do seu am igo Redelvim . Redelvim ? Com o m e ocorreu isso? Excelente m eio de dar cabo de duas personagens difíceis: casá-las. Mas isto aqui não é rom ance, e os cam inhos da vida são m ais com plicados. Não sei para onde irá um a, nem outra.

Depois de tom ar um café, que D. Hortênsia nos arranj ou, saí, com esta preocupação, da casa de Jandira. E aqui a escrevo.

Escreverei tam bém que não m e falta sim patia hum ana e m uito m e preocupam os m ales do m undo. A inj ustiça social m e dilacera a sensibilidade. Mas há, em m im , escrúpulos de espírito e de sentim ento que não aceitam radicalism os revolucionários. E há, sobretudo, um a contínua suspeita de que é desconhecer a natureza do hom em , pretender discipliná-lo com teorias rígidas... Enfim , pensam os dem ais, com o diz Jandira. Pensam os e sofrem os.

§ 50. UMA SEMANA QUE PASSA.

 

NADA de novo nesta sem ana, a não ser a volta de Francisquinha. Fui buscá-la, anteontem , no Instituto. Está outra pessoa: arrum adinha, lim pa, alim entada. Vej am os por quanto tem po poderem os conservá-la assim . Em ília anda radiante: volta e m eia, entra-m e no quarto, para m e contar qualquer coisa que a Chica falou. Josefa lavadeira, um pouco despeitada por haverem os m édicos conseguido o que não conseguiram seus am igos espiritistas, pôs-se a resm ungar que Francisquinha só há de ficar inteiram ente boa é com as rezas da "sessão". Com o cedi um a vez, quer converter a casa em centro espírita e fala em voltar, de novo, com os seus hom ens, quando a m ana piorar.

Há m uito não tenho um a sem ana assim tranqüila, dentro e fora de casa. Glicério não voltou a falar-m e sobre o prim o de Carm élia, nem isso m e preocupou. Talvez o am or continue a lavrar m anhosam ente, com o fogo de m onturo, m as não lhe sinto as cham as.

Tenho lido alguns livros do Silviano e consegui liquidar o Hom ero. Silviano anda sum ido.

 

§ 51. JÁ ANDAM JUNTOS PELA RUA.

 

ESCREVO à m eia-noite, depois de ter andado m uito pela cidade, e ainda m e acho um pouco transtornado pelo que m e ocorreu à tarde. Não é m eu hábito sair com Glicério depois do trabalho, nem costum o freqüentar as sorveterias da Rua da Bahia ou da Avenida. Ao sorvete prefiro o chope, e o chope só pode ser tom ado com a devida unção nos bares, m enos freqüentados, das ruas transversais. Mas o dem ônio as arm a: não sei por que desci hoj e com o rapaz e entrei num a sorveteria onde se reúnem as elegâncias de Belo Horizonte.

Pouco depois que chegam os, observei que, com teatral m esura, Glicério se levantava e saudava pessoas que entravam . Estando de costas para a rua, não vi essas pessoas, e perguntei-lhe a quem cum prim entava, assim tão m esureiro. Segredou-m e, num gesto disfarçado, pegando um j ornal e fingindo m ostrar-m o, que os recém -vindos eram Carm élia, a viúva e o Dr. Jorge de Figueiredo.

Fiz um esforço sobre-hum ano para ocultar m inha agitação e apenas lhe disse um "Ah!" distraído. Daquele m om ento em diante, pouco ou quase nada percebi do que se passava em torno de m im e do que Glicério dizia. Fiquei m edrosam ente a fitar a im agem de Carm élia, refletida nos espelhos da parede, sem ânim o de sequer m exer-m e na cadeira. O luto fechado lhe realçava singularm ente os traços finos, a epiderm e branca e delicada e os cabelos castanho-claros, ondulados. Em bebi-m e na sua contem plação, através do espelho, sem pre transido de tem or cada vez que os seus olhos, dirigindo-se para um ponto ou outro, m e davam a im pressão de que ela estava notando a insistência do m eu olhar. Eu respondia por palavras vagas ao que m e dizia Glicério e este deverá ter notado m inha ausência.

Finalm ente, trouxe-m e de m odo brusco à realidade, dizendo que não poderia deixar de ir à m esa da viúva e da filha, apresentar-lhes cum prim entos. Pediu-m e licença para se afastar por instantes. Voltaria logo. Vi nisso um a tábua de salvação e respondi-lhe que, tendo necessidade de sair, ia fazê-lo im ediatam ente: ele poderia ficar à vontade. Insistiu em m inha perm anência, supondo que seu propósito m e houvesse agastado. Resum i a conversa, apanhando o chapéu e dizendo-lhe ter um encontro urgente com Redelvim . E saí rápido da sorveteria, sem olhar para os lados. Devia estar com um a cara de alm a do outro m undo, pois sentia que o sangue m e tinha fugido do rosto.

Andei a Avenida a passos largos, pelo lado do Correio, que é m enos transitado, e m eti-m e num bar da Rua Espírito Santo, onde estive m ais de duas horas, a tom ar chope. O chope m e levantou o m oral, e pude vir para casa, ainda que atrasado, para j antar.

Em ília j á está m ais ou m enos habituada à m inha im pontualidade e guarda-m e o prato feito. Com i às pressas e sem vontade, voltando logo para a rua e tentando assistir a um a sessão de cinem a. Acabei por m e interessar: era um a com édia leve, que provocava grandes risadas do público. À saída, encontrei Sepúlveda, que m e levou a um café e se pôs a contar o m odo por que em pregou o dinheiro tirado na loteria. Em cada Banco depositou dez contos, pois, no caso de um dos Bancos quebrar, não perderia senão aquela quantia. E os vinte restantes foram despendidos em reparos na casa e com pra de terrenos. Recusou a m uitos colegas em préstim os de dinheiro. Não era tolo para pôr fora o cobrinho. Mas com igo o caso era diferente: se eu quisesse era só falar. Esqueceu-se de m e dizer que gastou cinco contos com um a espanhola, e que levou, por isso, um a surra de m adam e Sepúlveda...

Voltei para casa, abri um ou outro livro, j á tranqüilo, e, finalm ente, cá estou a escrevinhar, m ais ou m enos conform ado com o casam ento de Carm élia. Pois o casam ento se dará, com toda a certeza. Já andam j untos pela rua.

 

§ 52. UMA EXTRAVAGÂNCIA DE FRANCISQUINHA.

 

HÁ TRÊS dias não saio de casa senão para ir à farm ácia, ou com prar um a coisa ou outra, pois Francisquinha está - passando m uito m al. Quando eu a supunha bem m elhor, fez um a grande extravagância. Saiu de m adrugada, do seu quarto, quase despida, e foi para o quintal, pondo-se de cócoras a um canto do m uro. E ali ficou durante m ais de um a hora, presum ivelm ente, sob um a chuvinha m iúda, até que Em ília, acordada pelos m iados de um gato, se levantasse para o pôr fora de casa e desse por falta dela. Em ília m e despertou, agitada; pusem o-nos a procurar a pobre m ana e a encontram os naquela postura.

Voltou, com relutância, para o leito, dizendo que não podia estar ali, não, pois havia um a m ula-sem -cabeça dando coices debaixo da cam a. Ficam os acordados o resto da m adrugada, tentando acalm á-la.

O resultado da extravagância foi um a forte gripe. A pobre m ana está presa ao leito com febre alta, ansiada. Tosse com violência e sente dores agudas nas costas. Não m e tenho afastado do seu quarto e nada ou pouco dorm i nestas duas noites.

Cham ei ontem o Dr. Fagundes, que é o m édico da casa, desde anos. O velho está apreensivo, pensando na possibilidade de um a pneum onia. É um hom em excelente, e tanto Em ília com o Francisquinha o estim am m uito, a seu m odo. Noto que sua sim ples presença tem ação sedativa. Parece possuir nas m ãos um m agnetism o especial, um a força qualquer que faz bem e dom ina os m ales.

Recom endou-m e estar atento, quanto a Francisquinha, e cham á-lo, sem pre que houvesse qualquer novidade. Receia que, vindo a pneum onia, a m ana, fraca com o é, não resista à m oléstia.

Em ilia tem revelado qualidades excepcionais de enferm eira. Sua rudeza cedeu lugar à ternura. Trata Francisquinha com o a um a criança e é indulgente para com as suas im pertinências.

Silviano esteve ontem aqui em casa, m as notou m inhas preocupações e não disse ao que veio. Ofereceu m andar-m e a Joana, se for preciso, para nos auxiliar no tratam ento da irm ã.

 

§ 53. FORTALEZA DE EMÍLIA.

 

OBRE Francisquinha! Lá se foi. Não resistiu sete dias. O corpo velho, desnutrido, baqueou com a pneum onia.

Vej o agora quanto estava preso a ela. Tratei-a sem pre com desvelo, m as olhava-a talvez com esta quase neutralidade com que se contem pla o que é de todo estranho a nós, perguntando-m e se algo m e ligava, realm ente, àquela deform ação do espírito, àquela caricatura da razão. Pobre m ana. Com o se transform ou nos últim os m om entos! Encolhia-se feito um a criancinha doente e fitava-m e com olhos tão com preensivos...

Em ília foi m ais forte do que eu. Vestiu-a, arranj ou tudo, com fisionom ia resignada, sem pre dizendo: "Deus cham ou a coitada, Deus cham ou a coitada!" Pôs-lhe ao peito um crucifixo de ferro, que pertenceu à velha Maia.

Penso nos gestos serenos e sim ples de Em ília. Donde lhe virá tanta força? Talvez de seu Deus que tudo explica. Deus bom , que assiste os coitados. Que felicidade poder pensar que Francisquinha foi para o seio do Eterno, e lá se acham o velho Borba, a velha Maia, todos, todos. Em sua pouca luz, Em ília encontra um a paz que não atinj o. É m ais forte, possui invisíveis pontos de apoio: m ostrou um a singela grandeza.

Faz dois dias j á que a m ana está no Bonfim . Levei-a até lá com Giovanni, Prudêncio, Silviano, Redelvim , Glicério, Florêncio, Jandira e Sepúlveda. Dá-m e vontade de sair desta casa, que se tornou m ais som bria, porém Em ília não quer. Já aqui estam os há doze anos, e ela se afeiçoou às coisas e ao m eio. E a som bra de Francisquinha a prende m ais ainda. Em ília está m udada, apegando-se m uito a m im , agora. Conversa pouco, com o de costum e, m as perm anece a m eu lado, sem pre que pode, pretextando arrum ar um a ou outra coisa.

O velho papagaio, que m e parecia hum orístico, dá-m e, agora, grande pena. Anda decadente, perde a plum agem , e passa o dia todo a cochilar, com o que alheio a tudo. Quase sem pre deixa, na lata, a m aior parte da com ida que lhe dam os.

Depois do enterro ainda não saí. Fechado dentro de casa, tenho a im pressão de que estou vivendo não em Belo Horizonte, m as no âm bito da fazenda, na atm osfera m oral da casa velha, em cuj a sala de j antar este m esm o relógio de repetição assinalava as horas de um dia grande, grande...

 

§ 54. CASTOS AMORES.

 

OUVIMOS hoj e m issa de sétim o dia pela alm a de Francisquinha. Não queria convidar ninguém , m as Jandira se inform ou do local e da hora e avisou os am igos. Redelvim tam bém com pareceu, em bora não entrasse na Capela. Esperou-m e à saída, deu-m e um rápido abraço e desapareceu. Em ília assistiu à m issa das cinco da m anhã, para não ser vista.

Durante estes dias em que tenho estado encerrado, poucas vezes peguei neste caderno e apenas duas escrevi. Experim entei um a sorte de inibição para escrever, ler, ou m esm o para pensar. Não conseguia fixar a atenção em coisa algum a. Depois de ter andado hoj e, um pouco, pelo Parque, tenho a im pressão de haver saído de longa noite de insônia. Nessa longa noite, as coisas se m isturaram no m eu espírito, talvez enfraquecido pelas dem oradas vigílias e pela m á alim entação, e as im agens se confundiam , com o no dom ínio do sonho. Deve ter sido um pesadelo.

Carm élia apareceu-m e com freqüência, ora sob o seu aspecto real, ora encarnada em Cam ila e integrada na paisagem caraibana, circulando por entre m eus fantasm as. Um a tarde, sentado ao alpendre da casa, com o corpo extrem am ente fraco, cheguei a vê-la transpor o portãozinho de ferro e aproxim ar-se de m im . Soubera da m orte de Francisquinha e viera consolar-m e. Conversam os m uito tem po, horas infindas, até ao m om ento em que Em ília veio trazer-m e um copo de leite, e a visão desapareceu.

Estava de vestido branco, o que a torna m ais leve e lhe realça o ar virginal. Com o é casto este am or! Nenhum desej o, nenhum a representação sensual. Sem pre m e apareceu assim , sem contornos precisos, com o em um a tela esfum ada. Só as feições se m ostram nítidas, concentrando-se nos olhos grandes, cism adores.

Já não reaj o contra as visitas dessa doce im agem . Associei-a à m inha vida, ela m e pertence. A Carm élia real, inatingível, será de outro, casará, terá filhos. Mas a que construí será sem pre m inha, e o tem po não exercerá sobre ela sua ação desagregadora, porque está fora dos dom ínios do tem po.

Tam bém não reaj o contra o sentim ento rom ântico que m e dom ina. Por que esta preocupação de parecer o que não som os?

Ponham -m e a data de 1830, m as a verdade é que esses sentim entos são de natureza eterna, e é inútil situá-los em outras épocas. Não se pode negar o hom em .

 

§ 55. REDELVIM VAI PRESO.

 

JANDIRA veio procurar-m e, ontem , aflita, quando eu saía para sua casa com o m esm o obj etivo: Redelvim foi preso. e está incom unicável. Pela m adrugada, havia rebentado um a revolução com unista no Rio, depois de term os vivido dois dias de inquietação, com a notícia das sublevações de Recife e Natal. Foi sufocado o levante, após duros com bates cuj os porm enores os cartazes dos j ornais ainda estão registrando febrilm ente. Neste instante, não se sabe ainda se o m ovim ento surgirá em outros pontos do país, e a polícia está prendendo todos os elem entos suspeitos. Vivem -se horas ansiosas e a cidade anda cheia de boatos.

Sabíam os que Redelvim estava ultim am ente alheio às atividades do Partido e nenhum a ligação tinha com os conspiradores, m as a carta a que aludi o com prom eteu aos olhos da polícia.

Jandira veio propor-m e um entendim ento com o delegado seu conhecido. Desej ava que fôssem os j untos àquela autoridade, a fim de lhe explicar a situação do am igo e pedir-lhe, se possível, a soltura.

Com binam os fazê-lo im ediatam ente e dirigim o-nos à Polícia Central. Só depois de duas horas de espera, conseguim os falar com o hom em . Interrogava num erosas pessoas que, a todo m om ento, entravam , entre policiais. Chegada a nossa vez, Jandira dirigiu-lhe a palavra nervosam ente, dizendo que ali fora para esclarecer que Redelvim , não obstante as aparências em contrário, nada tinha com os acontecim entos.

—Hum ... Hum ... Havem os de ver isto, respondeu, olhando-m e com insistência. Os prisioneiros vão ser ouvidos com toda a atenção. Os que não estiverem envolvidos serão postos em liberdade. Ninguém receberá m aus tratos. Apenas ficarão detidos, enquanto se fazem investigações.

Um pouco intim idada, Jandira pediu, então, que lhe fosse perm itido visitá-lo.

—No m om ento é im possível, senhorita. Aconselho-a, aliás, a não insistir. Conheço-a, sei que não é suspeita, m as sua presença aqui, com esse propósito, pode com prom etê-la perante m eus colegas. Vá tranqüila para casa. Seu am igo será bem tratado.

Diante disso, deliberam os retirar-nos, e eu ia fazê-lo com Jandira, quando o delegado m e cham ou à parte.

—Quanto ao senhor, desej o que volte aqui, disse. Leve a m oça à casa e apareça-m e dentro de um a hora. Não o conheço, m as, para evitar dúvidas, aviso-o de que nada lhe adiantará fugir, pois terem os m eio de encontrá-lo.

Assustado com o im previsto convite, assegurei-lhe que voltaria, dentro do prazo, e retirei-m e com Jandira. Percebi, ao sair, que o delegado cham ava um funcionário e lhe dava instruções. Calculei que expedia ordens para que m e vigiassem os passos.

Fora da delegacia, Jandira, m uito pálida, perguntou-m e o que acontecera. Disse, para tranqüilizá-la, que o delegado apenas m e pedira voltar à sua presença, a fim de prestar depoim ento sobre Redelvim .

Deixei-a em casa, vim rapidam ente à Rua Erê, para avisar Em ília de que teria de dem orar-m e fora e talvez voltasse à noite. Não se preocupasse com algum a dem ora: eu j á tom ara providências para que o contínuo da Seção viesse dorm ir em nossa casa. Com certeza supôs que eu ia a algum a pândega, pois repreendeu-m e:

—Parece que j á esqueceu da Chica...

Assegurei-lhe que não. Que o "Chefe" precisava de m im . Talvez tivesse de fazer pequena viagem com ele.

Procurei, em seguida, o delegado, depois de, passando pela Secretaria, ter ali deixado um bilhete para Glicério, nos seguintes term os:

"Suspeitam de m im . Fui cham ado à polícia. Se for detido, peço-lhe que olhe pela m ana e obtenha que o Carolino vá dorm ir lá em casa."

Sinto-m e cansado, por não ter dorm ido esta noite, e não poderei escrever agora o que se passou com igo. Fá-lo-ei am anhã cedo.

 

§ 56. ENTRE LUNFAS.

 

PROMETI-ME, ontem , à noite, que relataria hoj e tudo o que m e aconteceu na Polícia. Vou fazê-lo porm enorizadam ente, aproveitando esta m anhã sossegada.

Em bora inquieto pelo que m e poderia acontecer, apresentei-m e ao delegado com um a convicção: a de que, dentro de poucas horas, havia de ser desfeito o equívoco, se equívoco houvesse quanto a m im . O delegado recebeu-m e razoavelm ente. É suj eito antipático, m as cortês. Com untuoso sorriso profissional, desfechou-m e à queim a-roupa:

—Estou bem im pressionado com o senhor. Foi pontual e procedeu corretam ente em casa. Não tentou destruir papéis, com o outros...

Vendo m inha surpresa, prosseguiu:

—Pensou que ia sozinho? Um investigador o acom panhou durante o traj eto e o observou, pela j anela, quando entrou em casa. Posso reproduzir a conversa que teve com um a senhora velha que m ora lá... Interpreto favoravelm ente o fato de não se ter dem orado para se desfazer de docum entos incôm odos. Talvez não existam . Digo "talvez", note bem . Pode ser que os haj a e tenham sido esquecidos. É com um haver esquecim entos, im previdências. Pode fazer suas declarações, que serão tom adas por term o.

Declarei, um pouco tranqüilizado pela acolhida, que eu era pessoa inteiram ente inofensiva, sem idéias políticas, respeitava o regim e, pertencia ao serviço público, etc., etc. Poderiam tom ar inform ações com Fulano, Beltrano...

—Mas... Com o explica o fato de m andarem livros extrem istas ao sr. Redelvim , por seu interm édio? perguntou, de chofre, fitando -m e dentro dos olhos.

Vasculhei a m em ória, um tanto inquieto. Então, eram livros extrem istas? Em suas freqüentes m udanças de pensão, Redelvim as vezes dava m eu endereço para que lhe fossem enviadas cartas ou encom endas. Lem brei-m e de que, de um a feita, o pacote registrado parecia de livros. Fí-lo, naturalm ente, chegar às m ãos do destinatário, sem indagar que coisas continha.

Durante os segundos em que m e dem orei a responder, fazendo apelos à m em ória, observou-m e de m odo im pertinente.

Cessou a pressão, quando contei o que se passara.

—Sua explicação é aceitável, respondeu. Mas precisam os investigar. Sou obrigado a detê-lo, enquanto não se der um a busca em sua residência.

Pensei logo em Em ília, e na interpretação que poderia dar à busca. Pondo-o a par da situação especial de m inha casa, pedi arranj asse as coisas de form a que não atribulasse a velha; que, se fosse possível, destacasse, para a diligência, o investigador Parreiras, m eu conhecido (o que se interessou pelo caso do Giovanni), e, ainda, que este levasse, em sua com panhia, o acadêm ico Glicério de Sousa Portes, m eu com panheiro de Seção. Assim a velha não se assustaria.

—Vej am os... Vej am os... Farei o que for possível, disse o delegado.

Pelo tom de suas palavras, fiquei certo de que assim procederia.

—Conduza-o a um a das salas, onde estão os que aguardam depoim ento, recom endou a um policial, indicando-m e com um gesto de queixo.

O policial levou-m e pelo braço, por um corredor com prido, cheio de gente. Olhou três salas e achou-as repletas. Os investigadores de guarda disseram -lhe que não havia lugar para m ais ninguém e que os "pássaros" j á estavam reclam ando contra isso.

O hom em fitou-m e, então, m eio im paciente, e falou:

—Ora, seu m anguarão, deixem os de luxinhos. Você vai é m esm o para as grades.. .

É a segunda pessoa que m e trata, ou m elhor, m altrata de "m anguarão", e isso m e exasperou. Mas sufoquei a raiva e entrei na sala de j anelas gradeadas, onde havia dois presos.

Saído o investigador, acolheram -m e com chufas. Um m e dirigiu a palavra:

—Não ache ruim , não, velho. A cana é isso, não tem sopa.

—Está com pinta de lunfa de penosa, disse, rindo-se, para o outro.

Tão surpreendido fiquei, que o m au hum or se desfez. Que seria "lunfa de penosa"? Propus-m e apurar isso, ganhando a confiança dos m arotos. Na gíria policial "pinta" é aparência, j eito, e "lunfa" é ladrão. A com binação "lunfa de penosa" era-m e, porém , estranha.

Percebi que estava em m eio de larápios e a experiência despertou-m e a curiosidade.

—Qual nada! falei. Bem que tinha vontade de fazer um servicinho de vez em quando, m as não dou para isso.

—Pois olhe, respondeu-m e o baixo, gordo, de cicatriz na face, indicando-m e o com panheiro m agro e alto: Este é o Manequinho, m estre-punguista. Mancou agora. Ia para a Bahia, m as quis ver a m orena...

—Mais am or e m enos confiança, disse o m agro, fingindo zangar-se.

—Mancou, m esm o, prosseguiu. A sodade apertou, veio ver a nega e foi encanado. Nam ora, pessoar!

Depois se apresentou:

—Não ouviu falar de m im , não? Os j ornais estão cheios... disse, com orgulho profissional. Fui preso por causa dele. Fom os j untos à casa da pequena, e os tiras estavam acam panando a grinfa... Mas isto é doce de leite para m im . Já fui encanado m ais de cinqüenta vezes. Sou punguista. Banco o vigário só quando não encontro otários para punga. Não afano a carteira. Tiro só a grana e deixo o couro para o ota não dar o grito. Já corri os Estados todos, m enos Goiás, Mato Grosso e Am azonas.

E continuou a contar sua vida e aventuras, de vez em quando aparteado pelo outro. Com eles m e distraí bastante até que, pelas onze da noite, o investigador Parreiras veio procurar-m e para m e levar à presença do delegado.

—Seu Belm iro, puseram o senhor no m eio desses m alandros! Vou contar ao delegado...

Pedi que não o fizesse. Não valia a pena. Até m e haviam aj udado a passar o tem po... Depois, perguntei-lhe qual era a m inha situação. Respondeu que ficasse tranqüilo: parecia boa. Iríam os ver.

São dez da m anhã e devo preparar-m e para ir à Secretaria. À noite relatarei o resto da aventura.

 

§ 57. PARA ALGUMA COISA SERVIRAM ESTAS NOTAS.

 

VAI, AGORA, o m ais que houve na delegacia. Eram onze da noite, quando o investigador m e levou ao delegado. Surpreendeu-m e agradàvelm ente a presença de Glicério e Silviano no seu gabinete, m as não os cum prim entei senão com um gesto de cabeça, intim idado que m e achava pelas circunstâncias.

—Sim senhor. Meio m undo se m ovim entou por sua causa. Cá estão as suas "m em órias", disse o hom em , com o seu enj oativo sorriso.

Com aflição e vergonha vi, em suas m ãos, os três cadernos em que venho deixando notas, de um ano até aqui. Olhei de soslaio para Silviano e Glicério: era de m alícia a expressão deles.

—Foi o que o salvou, continuou o delegado. Apesar das declarações do Senador Furquim em seu favor, precisávam os de provas. O m om ento não é para condescendências.. .

Correu-m e um calafrio pela espinha, im aginando que o delegado fosse ler páginas dos cadernos na presença de Silviano e Glicério.

—Tive de m e enfronhar nessa m açaroca, prosseguiu, pois o Chefe de Polícia m andou exam inar o caso com urgência. As declarações íntim as, a folhas e folhas... esclarecem sua posição. Vej a se entendi bem , continuou, esforçando-se para brilhar: é um céptico. Por isso, prefere os regim es brandos, em que as transform ações se possam operar sem que sej am necessárias as revoluções. Acha que viverem os sem pre de erro em erro e que, portanto, nada j ustifica o sacrifício de sangue...

Sublinhava as palavras, tirando partido do m eu em baraço. Depois, assum iu ar professoral e disse que, afinal, m inhas idéias se com portavam bem dentro da Constituição liberal-dem ocrática. "Ou m elhor, em endou, socialdem ocrática. Nossa Constituição j á acolheu num erosos princípios da socialdem ocracia."

—Quanto ao seu am igo Redelvim , o senhor acha, no seu Diário, que não passa de um "anarquista lírico". Devo levar isso em conta, pois suas confissões (novo sorriso irônico) têm cunho de sinceridade, e o senhor deve conhecer bem o hom em . Entretanto, terem os de conservá-lo algum tem po. O senhor erra j ulgando-o de todo inofensivo. Justam ente esses é que constituem o nosso m aior problem a. Abusando de nossa tolerância, atuam lenta, m as profundam ente, sobre os espíritos fracos...

E, depois de um a pausa, de novo tornando ao seu j eito presunçoso e cínico:

—Bem ... Bem ... Já conversam os bastante. O senhor pode retirar-se. Pedim os-lhe desculpas pelo equívoco. Mas, um conselho, se m e perm ite... Seu Diário m e interessou. Noto, porém , que o senhor é platônico em dem asia. Ou, quem sabe, tím ido.. . Gostaria de vê-lo m ais ousado, um pouco, com a pequena... Mais direto na questão da...

Notando m inha angústia e o gesto, que instintivam ente fiz, pondo o dedo nos lábios, para indicar que o assunto era reservado, interrom peu a conversa e ficou a rir.

—Enfim , disse, estendendo-m e a m ão em despedida, os senhores são literatos e sabem o que lhes convém . Se publicar as m em órias, m ande-m e um exem plar...

O ím peto m eu era de esbofeteá-lo, m as o bofetão ficou na m ente, e tom ei a m ão do calhorda. Depois, m eti os cadernos debaixo do braço e saí, encabulado, em com panhia de Glicério e Silviano, que deviam ter achado a cena m uito côm ica e por certo m e consideraram um pobre-diabo.

Lá fora, Silviano pediu que eu lhe m ostrasse, tam bém , a "peça", apontando, com o queixo, os cadernos que estavam sob o m eu braço. Glicério não teve coragem de fazer o m esm o.

Respondi, irritado, que eram notas para uso íntim o, e foi um a violência do delegado o ter-lhes posto os olhos. Silviano não insistiu na zom baria. Parece necessitar de m im e querer dizer-m e confidencialm ente qualquer coisa. Mudou de assunto, aludindo à em brulhada em que o Redelvim m e m eteu. Falei-lhe que o caso estava encerrado e que, de resto, encontrei bom entretenim ento durante as horas de detenção.

Separou-se de nós, pouco adiante, em prazando-m e para um encontro am anhã.

Seguindo com igo, Glicério contou-m e, então, que j ulgou necessário solicitar os bons ofícios do Senador Furquim no m eu caso, e que isso serviu para apressar as investigações, pois, sendo grande o núm ero dos detidos, talvez eu tivesse de ficar m ofando na grade, à espera de solução. O delegado fora atencioso, apesar dos pesares. Ele, Glicério, assistiu à busca nos m eus papéis. Acom panhara o Parreiras e um estudante, funcionário da Polícia. A fim de tranqüilizar Em ília, declararam aqui ter vindo para arrolar os bens do inventário de Francisquinha.

Finalm ente, ao despedir-se, no ponto de bondes, Glicério entregou-m e um papel, dizendo que achara bom obter aquela declaração, para produzir efeitos na Secretaria. Minha fé-de-ofício não ficaria prej udicada...

Nesse docum ento se atestava nada haver contra m im e que m inha detenção fora, apenas, para colher depoim ento sobre terceiro.

Ótim o rapaz, o Glicério. Desem penhou com carinho as incum bências que lhe dei, inclusive a de pedir ao contínuo Carolino que dorm isse aqui em casa. Ao chegar, quase à m eia-noite, encontrei-o estendido num colchão, na sala de j antar. Em ília j á se havia recolhido. Ficam os a conversar até às duas da m anhã. Carolino contou-m e histórias de sua vida. É interessante que a gente conviva tantos anos com um a pessoa sem a descobrir. Eu o j ulgava um aluado, e, nisso seguia a opinião geral da Secretaria. Vi, ontem , que não lhe falta siso, em bora este se m anifeste às vezes de form a inusitada.

Partiu hoj e, cedinho, depois de tirar um as graças com a Em ília. A velha, ao que parece, criou-lhe estim a, pois lhe deu, à hora da despedida, um pedaço de bolo envolvido em papel im perm eável.

A busca não teve m aiores conseqüências: Em ília acreditou na história do inventário, lem brando-se de que fizeram o m esm o quando m orreu a velha Maia, e, m ais tarde, quando se foi o Borba.

—Os hom e da j ustiça m exeram em tudo, contou-m e, ao servir o alm oço. "Gente sem m odos"...

Carolino ficou de voltar, de vez em quando.

Ao encerrar a página de hoj e, consigno, aqui, m inha gratidão a estes cadernos: para algum a coisa serviram , tirando-m e de apuros com a Polícia.

 

§ 58. O AMOR, PELO AMOR.

 

AMANHÃ DE 3 DE DEZEMBRO.-Tento analisar e explicar os sentim entos que a notícia do noivado de Carm élia m e despertou. Desde a vinda de seu prim o, tem i essa notícia e, m ais de um a vez, folheei com em oção o Minas Gerais, percorrendo, a m edo, a coluna social, onde se anunciam os contratos de casam ento. Hoj e cedo, m eu pensam ento estava distante, vagando em torno de um a conversação havida com Silviano, no Natal de 1934, quando a inform ação m e caiu sob os olhos: "Acha-se contratado o casam ento da prendada senhorinha Carm élia Miranda, filha da Ex.m a Viúva Dr. Aurélio de Miranda, com o distinto m édico-radiologista Dr. Jorge de Figueiredo. Os noivos, que pertencem à nossa haute-gom m e, têm sido m uito cum prim entados."

Sem pre pensei que experim entaria grande abalo com o acontecim ento. Entretanto, a m inha im pressão foi de que se tratava de fato antigo, j á por m im conhecido, cuj a divulgação se fazia, agora, com atraso. E a tristeza foi resignada, aceitando eu, sem esforço, a situação. A sensibilidade nos oferece surpresas dessas. Pergunto, neste instante, a m im próprio, se é am or um sentim ento tão acom panhado de renúncias prévias, tão desvirilizado. A tal ponto se fortaleceu, em m im , a convicção de que um grande abism o m e separa de Carm élia e de que toda pretensão m inha, a seu respeito, seria ridícula, que não duvido fosse capaz de lhe procurar um noivo, se o noivo não aparecesse. Aviltei-m e dem ais e coloquei-a num altar que talvez não m erecesse. Vi-a sem pre à distância de um a estrela, e quem sabe se a convivência teria destruído a lenda que criei, teria desfechado um processo rápido de "descristalização"? Afinal, não passará de um a prendada e fina senhorinha e não terá sido senão um "m om ento" da incorpórea Arabela.

Esta solidão da Rua Erê, a tristeza de viver de carícias com pradas, a distância, sobretudo a distância da m oça em flor, é

que geraram a lenda. E o Cavaleiro da Triste Figura se pôs em m archa, pela sua Dulcinéia. Haverá despeito e m au hum or nestas linhas? Creio que não: investigo, com serenidade, o fenôm eno.

Avançarei um pouco m ais, aproveitando um a fresta de luz, que m e vem no m om ento. Verdade, verdade, desde que Carm élia foi revista, fora daquela noite de sortilégios, j á não conferiu m uito com a intem poral Arabela. Verifiquei ser um a criatura suj eita às contingências do hum ano e sem a essência eterna do m ito a que o am anuense aspira. Andei reagindo um dia ou outro, m as o desej o de realizar o m ito, ou talvez o de dar sentido a um a vida sem sentido, procurou sem pre encobrir, ao outro lado do espírito, o m eu desencantam ento. Com o aqueles que, torturados por não sofrer dem asiadam ente a perda de um ente querido, cultivam o sofrim ento e o exacerbam , terei cultivado e incitado um a paixão puram ente cerebral, receando, porventura, que seu arrefecim ento viesse privar-m e de um a em oção que enchia m inha vida. O am or era pelo am or, em si.

É essa, certam ente, a razão por que m e conform ei sem esforço com um a notícia que deveria ser catastrófica. Entretanto, só agora, quando Carm élia tem dono, é que o nam orado teve descerrada, a seus olhos, a cortina interior que ocultava sutil tram a psicológica... Há, portanto, um a ponta de despeito em tudo isso, m as, no caso, o despeito trouxe luz, e eu o bendigo.

Que se casem , tenham num erosos filhos, e Jeová lhes abençoe a prole. O que m e deve interessar, na hora que passa, é a situação do Redelvim . Farei com que lhe entreguem , hoj e, livros e frutas, para ir passando o tem po. Jandira foi quem o supriu, ontem , de um a coisa e outra.

 

§ 59. AINDA O NOIVADO.

 

NOITE DE 3 DE DEZEMBRO.-Depois de encerrado o expediente na Seção, tive com prida conversa com Silviano. Registrarei antes, porém , palavras m enos im portantes trocadas com Glicério. Um bom burocrata deve obedecer, no relato dos acontecim entos, à ordem cronológica, e, segundo esta, é Glicério quem terá prim azia.

O bacharelando Glicério de Sousa Portes não estava de boa cara, na Seção, e im agino que terá recebido a notícia do noivado com m enos espírito esportivo do que eu. Não chegarei a dizer que o am igo estej a am ando a prendada senhorinha. Talvez não passe de um prelúdio de am or. O ciúm e, há tem pos, m e fez m altratar esse excelente m ancebo: supus que m e estivesse fazendo concorrência e passei a hostilizá-lo. Reduzidas as coisas às verdadeiras proporções, noto o seguinte: Glicério é um hesitante, nesse capítulo, e não tem configuração nítida de suas aspirações; ficou um pouco sugestionado, quanto a Carm élia, contagiando-se do m eu entusiasm o pela m oça e vendo-lhe propriedades m etafísicas que lhe atribuí. Não am ou, porque não possui força de sentim ento para tanto. É um indeciso, um hom em sem endereço. Nam oricou apenas.

Continuar: parte 2 de 4