O Amanuense Belmiro

Cyro dos Anjos · Capítulo 3 de 51

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O Amanuense Belmiro

ESTRATÉGIA (Prefácio de Antônio Cândido) 8

ESTRATÉGIA (Prefácio de Antônio Cândido)

 

O Sr. Alm eida Salles publicou certa vez em Planalto um dos rodapés m ais inteligentes que têm aparecido na im prensa periódica de S. Paulo, no qual aplica à nossa literatura a distinção de Valéry entre escritores estrategistas e escritores táticos, alargando-se em reflexões m uito agudas e m uito j ustas sobre a natureza da criação literária. Os nossos autores, segundo o Sr. Alm eida Salles, pertencem quase na totalidade ao segundo grupo, isto é, o com posto pelos dotados de talento e habituados a construir segundo o influxo dele, no prim eiro m ovim ento da inspiração. Guiando-se quase apenas pelo instinto, opõem -se deste m odo aos do prim eiro grupo, que vêem na criação o afloram ento definitivo de um largo trabalho anterior, baseado em anos de m editação e de progressivo dom ínio, dos m eios técnicos. Confiam . num a palavra, m enos na força im pulsiva do talento que no dom ínio vagaroso, m as seguro, dos recursos da sua arte — condição prim eira para a plena expressão do seu pensam ento; e da sua sensibilidade.

Lendo o artigo, a prim eira pessoa em que pensei foi o rom ancista m ineiro Ciro dos Anj os, que. para falar com o o Sr. Alm eida Salles (ou Valéry, se quiserem ), m e parece um dos m aiores dentre os poucos estrategistas da literatura brasileira contem porânea. Segundo m e contam , Ciro dos Anj os anda pela casa dos quarenta. Há m ais de cinco anos publicou o seu único livro—O Amanuense Belmiro—um a obra-prim a, sem dúvida algum a. A im pressão de acabam ento, de segurança, de equilíbrio, de realização quase perfeita, revelam o artista profundam ente consciente das técnicas e dos m eios do seu ofício, possuidor de um a visão pessoal das coisas, lentam ente cristalizada no decorrer de longos anos de m editação e estudo. Porque esse rom ance é o livro de um hom em culto. No seu subsolo circulam rem iniscências várias de leitura, ecos de Bergson, de Proust, de Am iel, de autores cuidadosam ente lidos ou harm oniosam ente incorporados ao patrim ônio m ental. Por isso é que ele ressoa de m odo tão diferente no nosso m eio, com um som de coisa definitiva e necessária, nem sem pre produzido pelas obras dos nossos generosos táticos.

O Amanuense Belmiro é o livro de um burocrata lírico. Um hom em sentim ental e tolhido, fortem ente tolhido pelo excesso de vida interior, escreve o seu diário e conta as suas histórias. Para ele, escrever é, de fato, evadir-se da vida; é a única m aneira de suportar a volta às suas decepções, pois escrevendo-as, pensando-as, analisando-as, o am anuense estabelece um m ovim ento de báscule entre a realidade e o sonho. "Quem quiser fale m al da Literatura. Quanto a m im , direi que devo a ela a m inha salvação. Venho da rua deprim ido, escrevo dez linhas, torno-m e olím pico... Em verdade vos digo: quem escreve neste caderno não é o hom em fraco que há pouco entrou no escritório. É um hom em poderoso, que espia para dentro, sorri e diz: 'Ora bolas'."

O am anuense é infeliz. Chegou quase aos quarenta anos sem nada ter feito de apreciável na vida. Sonha; carrega nas costas a enorm e trouxa de um passado de que não pode se desprender, porque dentro dele estão as doces cenas da adolescência. De repente, um a noite de carnaval lhe traz a im agem de um a donzela gentil. O am anuense am a, m as à sua m aneira: identificando a m oça de carne e osso, que m al enxerga de quando em vez, com a im agem longínqua da nam orada da infância, ela própria quase um m ito—um m ito com o o da donzela Arabela. Não é difícil perceber o m al de Belm iro, literato in erba, lírico não realizado, solteirão nostálgico. A sua desadaptação ao m eio levou-o à solução intelectual; esta, que falhou com o solução vital, perm anece com o fatalidade, e o am anuense, a fim de encontrar um pouco de calor e de vida, é em purrado para o refúgio que lhe resta—o passado—um a vez que o presente lhe escapa das m ãos ("[___] bem noto que vou entrando num a fase da vida em que o espírito abre vôo das suas conquistas e o hom em procura a infância, num a com ovente pesquisa das rem otas origens do ser.") Ora. se fosse só isso, estava tudo m uito bem . O dram a é que o presente se insinua no passado. Se fosse possível viver integralm ente no m undo recriado pela m em ória, haveria a possibilidade de um modus vivendi, quase norm al, a seu j eito, com o o do narrador do Temps Perdu. Acontece, porém , que a sensibilidade de Belm iro, j ogando-o com o um a bola entre o passado e o presente, perturbando este com os arquétipos daquele, desm anchando a pureza daquele com a introm issão das im agens deste, não lhe perm ite um a existência atual. "[....] depois de um a infância rom ântica e um a adolescência m elancólica, o hom em supõe que encontrou a sua expressão definitiva e que sua própria substância j á lhe basta para as com bustões interiores; crê encerrado o seu ciclo e volta para dentro de si m esm o, à procura de fugitivas im agens do passado, nas quais o espírito se há de com prazer. Mas as forças vitais, que im pelem o hom em para a frente, ainda estão ativas nele e realizam um sorrateiro trabalho, fazendo-o voltar para a vida, sedento e agitado. Para iludir-lhe o espírito vaidoso, oferecem -lhe o presente sob aspectos enganosos, encarnando form as do passado."

Belm iro, então, se entrega ao presente: m as não o vive. Subm eto se, e readquire o equilíbrio pela auto-analise. Sabe que não lhe adianta pensar em com o as coisas seriam se não fossem o que são, e. concluindo que "a verdade está na Rua Erê", isto é, na sua casinha m odesta e o seu ram errão cotidiano, recita com o poeta:

 

"Mundo m undo, vasto m undo

Se eu m e cham asse Raim undo...

Seria um a rim a, não seria um a solução.

Mundo m undo, vasto m undo

Mais vasto é o m eu coração."

 

"Mais vasto é o m eu coração". Conclusão típica de introvertido, de hom em que não lam enta, com o Lawrence:

 

"I was so weary of the world.

I was so sick of it.

Every thing was tainted with m y self",

 

porque a sua evasão consiste j ustam ente em introj etar o m undo e banhá-lo todo nas próprias águas. Belm iro é o hom em que chegou ao estado de paralisia por excesso de análise "[....] j á lhes contei o que se passa dentro de m im quando com eço a m editar: perco-m e num labirinto de antinom ias." Isto significa que é um candidato ao cepticism o integral e à im obilidade através do relativism o. Sem pre a tom ar consciência plena das suas variações e dos seus aspecto:; m últiplos, Belm iro é o contrário do hom em forte de que fala Balzac. o hom em que não se lem bra, que cresce num im pulso vegetal, sem a peia do passado. Há um a circunstância, porém , que o salva, que o liberta das redes do analista: o senso lírico da vida, que restabelece o equilíbrio vital.

Falou-se m uito em Machado de Assis a propósito de Ciro dos Anj os, insistindo-se sobre o que há de sem elhante no estilo e no hum orism o de am bos. O que não se falou, porém , foi da diferença radical que existe entre eles: enquanto Machado de Assis tinha um a visão que se poderia cham ar dram ática, no sentido próprio, da vida, Ciro dos Anj os possui, além dessa, e dando-lhe um cunho m uito especial, um m aravilhoso sentido poético das coisas e dos hom ens. 0 que é adm irável, no seu livro, é o diálogo entre o lírico, que quer se abandonar, e o analista, dotado de humour, que o cham a à ordem ; ou, ao contrário, o analista querendo dar aos fatos e aos sentim entos um valor quase de pura constatação, e o lírico cham ando-o à vida. envolvendo uns e outros em piedosa ternura. Esta alternância, que ele em prega tam bém com o um processo literário, encontram o-la de capítulo a capítulo, de cena a cena. na própria construção do estilo. E a certa altura, o am anuense a torna explícita: "Tais desnivelam entos é que com põem m inha vida e lhe sustentam o equilíbrio. A um Belm iro patético que se expandiu, enorm e, na atm osfera caraibana—contem plando a destruição das suas paisagens—sem pre sucede um Belm iro sofisticado, que com pensa o prim eiro e o retifica, aj ustando-o aos quadros cotidianos. Chegado à sua toca da Rua Erê, o Belm iro egresso de Caraíbas se apalpa, se reaj usta e assobia a fantasia do hino nacional de Gottschalk."

Esta disposição excepcional, que dá um a dignidade hum ana tão grande à poesia de Manuel Bandeira e de Carlos Drum m ond de Andrade, é o fundam ento da arte de Ciro dos Anj os, e em presta ao seu rom ance um a qualidade de vida que é superior à de Machado de Assis. Para conhecer este psicólogo lírico é preciso ler todo o adm irável § 33 d'O Amanuense Belmiro, quando ele descobre que o passado que evoca não existe em si, m as é um a criação da sua saudade e da sua im aginação deform adora. O am anuense. pela prim eira vez, sofre ao perceber que "ali is tainted with myself", e considera tristem ente: "Não voltarei a Vila Caraíbas. As coisas não estão no espaço, leitor; as coisas estão é no tem po. Há, nelas, ilusórias perm anências de form a, que escondem um a desagregação constante, ainda que infinitesim al."

Se assim é, por que escrever sobre um passado que realm ente não existe e um presente que cede ante a ponta aguda da análise? Belm iro escreve porque precisa abrir um a j anela na consciência a fim de se equilibrar na vida, o que não im porta em ilusão quanto ao verdadeiro significado deste trabalho: "Grande coisa é encontrarm os um nom e im ponente, para definir certos estados de espírito. Não se resolve nada, m as ficam os satisfeitos. O hom em é um anim al definidor."

Num a ordem m ais geral de idéias, pode-se dizer que o am anuense é um a ilustração do gravíssim o problem a dos efeitos da inteligência, através do seu poder de análise, sobre o curso norm al das relações hum anas. Encarando assim o livro, o seu núcleo significativo vai ser encontrado num a página do diário de Silviano, indiscretam ente lida por Belm iro: "Problem a:—O eterno, o Fáustico.— O am or (vida) estrangulado pelo conhecim ento."

É este, com efeito, o problem a central da obra. A atitude belm iriana resulta de um a aplicação do conhecim ento aos atos da vida— entendendo-se neste caso por conhecim ento a atitude m ental que subordina a aceitação direta da vida a um processo prévio de reflexão. E assim , Ciro dos Anj os nos leva a pensar no destino do intelectual na sociedade, que até aqui tem m ovido um a conspiração geral para belm irizá-lo, para confiná-lo nas esferas em que o seu pensam ento, absorto nas donzelas Arabelas, nas Vilas Caraíbas do passado, na autocontem plação, não apresenta virulência algum a que possa pôr diretam ente em xeque a ela, sociedade organizada. Criando-lhe condições de vida m ais ou m enos abafantes, explorando m etodicam ente os seus com plexos e cacoetes, os poderosos deste m undo só o deixam em paz quando ele se expande nos cam pos geralm ente inofensivos da literatura personalista, ou quando entra reverente no seu séquito. Coisas em que a gente se põe a m atutar, quando vê aquele Belm iro tão inteligente e tão sensível, sòlidam ente m antido em paz pela m agreza do seu ordenado de am anuense, e perfeitam ente desfibrado pela prática cotidiana da introspecção (costum e m uito estim ável, segundo os cânones). Ou aquele Silviano cheio de seiva, que é reduzido a não deixar transbordar senão a sua retórica, um a vez que aceitou com o valor eterno um a filosofia que lhe aconselha a blague, côm oda para os negócios públicos, da autoperfeição pela ascese intelectual.

Mas não é esta a im pressão final que fica do livro de Ciro dos Anj os, cuj a releitura faço pela quinta ou sexta vez, o que é um deleitoso consolo, com o diria o Eça, para a ficção m ais ou m enos frouxa com que o crítico tem não raro de se defrontar.

Na página 27. Belm iro fala de um tocador de sanfona da sua Vila

Caraíbas, que "[....] tocava apenas por am or à arte, ou talvez para chorar as m ágoas. E chorava-as tão bem que cada um que o cercava, sentia suas m ágoas igualm ente choradas. O artista se revelava, por esta form a, perfeito, extraindo dos seus m otivos individuais m elodias aj ustadas às necessidades da alm a dos circunstantes, que ali iam buscar expressão para sentim entos indefiníveis que os povoavam s só se traduziriam por frases m usicais. Esse traço da generosidade inconsciente dos grandes artistas se encontrava no sanfonista da Ladeira da Conceição".

E assim é esse livro, com o são em geral os livros dos escritores de Minas.

Livros que lidam com os problem as do hom em num tom de tal m odo penetrante que autor e leitor se identificam , num adm irável m ovim ento de afinação. Não são livros que se im ponham de fora para dentro, vibrantes, cheios de força. Insinuam -se lentam ente na sensibilidade, até se identificarem com a nossa própria experiência.*

 

* O estudo que se acaba de ler do grande crítico paulista foi reproduzido de seu livro Brigada Ligeira, editado pela Livraria Martins Editora, São Paulo, s/d. [1945]. N. da E.

"Les Souvenirs que j'ai de ma vie réelle ne

sont ni pius coloria ni plus vibrants que

eeux de mes viés imaginaires."

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"Pour éerire 1'histoire d'un autre, je collabore avec ma propre vie. Qu'on ne cherehe pás à savoir ee qui, dans cette fiction, est indubitablement moi. On s'y tromperait. Et mes proches s'y tromperaient autant et plus que les autres."

 

(GE ORGE S DUHAME L—Remarques sur les

Mémoires Imaginaires—Paris—Mercure de

France—Sixièm e édition.)

A o s B o r b a s,

da linha tronco,

desde Porfírio

até Belarm ino.