O Amanuense Belmiro

Cyro dos Anjos · Capítulo 18 de 51

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O Amanuense Belmiro

§ 15. Missa de Trigésimo Dia. 41

Quanto ao que pensam de m im os velhos com panheiros, Redelvim e Silviano o exprim iram : para o prim eiro, serei um céptico pequeno burguês que, não por ação, m as por om issão, serve o sistem a capitalista; para o segundo, sou um hom em fraco, que não tem o senso da hierarquia e tende para um igualitarism o dissolvente.

Afinal, todos, exceto eu, sabem o que sou.. . Acham indispensável classificar o indivíduo em determ inada categoria. E se eu não for coisa algum a, ou for tudo, ao m esm o tem po? Há anos passados, eu costum ava entregar-m e a um passatem po perigoso: procurar, no tocante a dado conceito, igual núm ero de argum entos, da m esm a força, a favor ou contra. Jam ais encontrei algum cuj o contrário não pudesse ser tam bém defendido. Percebendo que esse j ogo de antinom ias acabaria deixando-m e com um a telha de m enos, ou de m ais, abandonei-o.

Ora, o burguês Belm iro! Redelvim deu para hum orista. Fazendo m inhas contas, durante o dia, vi que a sim ples aquisição de um as botinas novas m e desequilibrou o orçam ento deste m ês.

 

§ 15. MISSA DE TRIGÉSIMO DIA.

 

DESDE a noite da reunião em casa de Jandira, eu não pensava m ais em Arabela (Carm élia, quero dizer) e seu vulto m al pousou a m eu lado, na escrivaninha da Seção, neste velho escritório ou em algum traj eto de bonde. Ontem , cheguei m esm o a esquecê-la. E não foi senão para favorecer o esquecim ento, dando repouso à sensibilidade, que Deus pôs no m undo paisagens, cuidados, outros bens, outros m ales, inclusive Jandira.

Essas interm itências, diz Silviano, é que entretêm a vida e a preservam dos efeitos devastadores de um sentim ento intenso e continuado.

Mas parece que a sensibilidade descansa apenas para redobrar, com m ais vigor, as operações do seu ofício. Lendo, cedinho, o Minas Gerais, a coluna dos falecim entos e das m issas fúnebres, que j am ais m e cham ou a atenção, atraiu-m a desta vez, não sei por que ardilosa conspiração das coisas. E nela vej o um aviso, convidando os am igos e parentes do saudoso Dr. Aurélio Miranda para assistirem à m issa de trigésim o dia, celebrada em intenção de sua alm a. Não sendo parente nem am igo do defunto, senti-m e, porém , convidado, ou não senti coisa nenhum a, e só fui dar acordo de m im quando entrava na igrej a da Boa Viagem .

Já estava no fim a cerim ônia, e m al pude deixá-la, ainda a tem po de, precedendo aos presentes, postar-m e à frente de um a porta lateral, por onde geralm ente se retiram as pessoas discretas ou enlutadas. Não fora preciso tanto açodam ento, se m e ocorresse que a fam ília sai por últim o, presa que fica pelos abraços de pêsam es das pessoas conhecidas. Assim foi: a filha, o irm ão pequeno e a viúva só apareceram m ais tarde. Carm élia, de chapéu e luto fechado, parecia m ulher feita e nela m al reconheci a m isteriosa m oça em flor da noite de carnaval. Desej aria bebê-la com os olhos, obter um a im agem sua que se fixasse, em m inha m em ória ótica, para alim ento dos longos dias que passarei sem a ver. Creio que j á não quero o m ito m as a pessoa.

Entretanto, assim com o, quando querem os forçar dem asiado a atenção em qualquer coisa, esta coisa nos foge, preocupados que ficam os com tal esforço, escapou-m e um a im agem nítida de Carm élia para só ficar um esboço vago de seu vulto. Com o na tarde em que voltei â Rua Paraibuna, deixando Glicério, não tive, tam bém , forças para m irá-la de frente. Quando, em um m om ento propício, ela alçou rapidam ente a vista, a procurar o carro da fam ília, desviei sem querer os m eus olhos. Por que essa tim idez? Não m e conhece e nem perceberia uns olhos plebeus que nela se detivessem furtivam ente.

Escrevendo estas notas, neste vetusto bureau da Seção do Fom ento, ainda estou a lam entar m inha inépcia. Mas, valerá a pena que eu m e incrim ine por isso? Lem bra-te, Belm iro, de que essas bodas são im possíveis. O m elhor é tom ares a xícara de café que o Carolino pôs sobre a m esa (excelente Carolino), fum ares um cigarro e assobiares um a rancheira. Já tens trinta e oito prim averas e ainda m e com pareces com tais veleidades de m ocinho. Carm élia é fina, j ovem , rica. É da alta, com o diz Glicério. Sofreia, am anuense, o corcel fogoso que contigo quer transpor esta j anela, cruzai" os ares e deixar-te em certo alpendre da Rua Paraibuna. É inútil que faças proj etos, com o outro dia, em que im aginavas um incêndio, um a inundação, um terrem oto ou um a guerra, para com pareceres, no m om ento preciso, salvando a donzela, o irm ãozinho e a viúva. Am igo Quixote, todos os cavaleiros andantes j á se recolheram e não há m ais dulcinéias.