O Amanuense Belmiro
§ 12. Conversação com Jandira. 35
É o hom em que m anda o peticionário selar a petição e que volte, querendo. O processo é sua religião e o senhor diretor a instância suprem a. Quando sorri, seu sem blante se abre com o que recitando a fórm ula "saúde e fraternidade". Quando franze os sobrolhos, e isso acontece sem pre que a praxe foi relaxada, seu vulto assum e a solenidade de um edifício público, e sente-se que, atrás dele, está todo um sistem a de leis fiscais, com m ultas e penas.
Mas, na generalidade dos casos, m eus am igos da Seção exercem com desencanto suas funções; não nasceram para esta vida.
Quanto a m im , se algo há de que m e ache firm em ente convencido é ter neste bureau um destino lógico, que, no fundo, não m e contrista. Mal posso, na verdade, conter um m ovim ento de ternura, quando contem plo, ao pôr do sol, o edifício grave, acolhedor, de nossa Secretaria, e quando m e lem bro da prom essa honrada, que nos faz o Estado, de um a aposentadoria condigna.
Ponho-m e a im aginar um Belm iro sexagenário que tenha renunciado com pulsoriam ente aos j ogos do am or e j á não sofra a necessidade dolorosa de com por um poem a, ou de, com em oção m al disfarçada, ir tentando sacar, do Glicério, inform ações m ais circunstanciadas acerca da m oça que apareceu na j anela de um a casa, num a rua.
Aos sessenta anos, um Belm iro triste, céptico, m as pacificado, j á não sofrerá donzelas, nem arabelas.
***
—Mas, será o fenôm eno am or? Creio que vos estou am ando, Arabela. Zom be eu, em bora, do flautista que, neste instante, acorda dentro de m im e tenta um a serenata. Eu vos estou am ando e prestes m e acho para as nossas im possíveis bodas.
§ 12. CONVERSAÇÃO COM JANDIRA.
DESCOBRI hoj e o m otivo por que nossa am iga Jandira veio ver-m e anteontem . Depois de anim ada reunião em sua casa, ou m elhor, no pequeno apartam ento que ocupa, com a tia, em um a casa de côm odos da Rua Curitiba, ela m e cham ou à parte e tez algum as confidencias m elancólicas.
Vivem os tão preocupados com o nosso próprio espetáculo que no geral ficam os cegos para o alheio. Conheço-a desde dois ou três anos, fizem os boa cam aradagem (é m inha única am izade fem inina) e, entretanto, não tive olhos para lhe ver algum a coisa, além das graças de m ulher, nestas com preendidas tam bém as de espírito, de que a am iga é bem dotada.
Foi o Florêncio quem prom oveu o encontro. Inform ado de que Jandira se em pregara, ele lhe exigiu, em nom e dos am igos com uns, que o acontecim ento tivesse com em oração condigna. Todos nós nos preocupávam os com o problem a, e a colocação deveria ser bebem orada, segundo a expressão do Florêncio, que, satisfeito com o trocadilho, o repetia para cada um que encontrava.
Jandira levou a ultim ação a sério e nos convocou esta noite. Quando lá cheguei, j á estavam todos, e m ais um , desconhecido. A instalação é quase tão pobre com o esta que m e arranj ei na
Rua Erê. Mas a am iga dá uns toques tais, no arranj o dom éstico, que ali sem pre tenho a im pressão de estar sendo recebido em casa de finos burgueses.
Fui saudado com um "oh!" geral da roda e, vindo a m eu encontro, Jandira m e trouxe, logo um a cadeira e um copo, pois o chope j á ia adiantado. Ela se pôs m uito bonita para nos receber e fiquei lisonj eado por m im e pelos dem ais. Apesar das dificuldades internas da casa (quando a am iga está desem pregada, as duas passam aperturas com a m agra pensão que a velha Hortênsia recebe da Caixa Beneficente das Viúvas e Órfãos dos Militares), Jandira se veste com o filha de ricos. O que lhe falta em dinheiro, sobra-lhe em engenho, e as coisas se dispõem de tal form a que ela a ninguém cede em elegâncias e m odas. Tanto pior para o am anuense incauto, a quem estas m odas de 1935 causam profundas perturbações. Jandira está na força da carne, e as form as, fielm ente m odeladas pelo vestido, não eram ontem propícias a pensam entos castos. Que deponha, a respeito, o Silviano, que as devorava com os olhos, j á estando m eio alterado pela bebida e sem os freios que a discrição nos im põe.
Com a m inha chegada, o colóquio, que deveria correr anim ado antes, parou um pouco. Falariam de m im ? Alguém devia estar penando, pois o tom geral era de sorrisos m aliciosos.
Para dizer qualquer coisa e integrar-m e na roda, livrando-m e dessa situação aborrecida de quem chega e interrom pe o fio da conversa, aproxim ei-m e do Silviano, perguntando-lhe com o conseguira habeas-corpus da Joana, para com parecer na reunião.
A presença do Silviano era, realm ente, de se notar. Joana, em bora conform ada com as extravagâncias do m arido, não abre m ão dos direitos de exercer sobre ele um a fiscalização contínua. Por outro lado, Silviano não é dos m ais assíduos em casa de Jandira, pois brigam , sem pre que se encontram .
—Mentindo! respondeu nosso filósofo. Para todos os efeitos, estou na Gazeta de Minas fazendo revisão de um artigo que dei para o Suplem ento. A m entira, Porfírio, é a base da ordem dom éstica...
—Porfírio, não, Belm iro, retifiquei pela centésim a vez. Silviano tem a m ania de batizar cada pessoa com o nom e que lhe apraz. Ao Florêncio, costum a cham ar-lhe Abundâncio.
Satisfeito com a oportunidade que lhe dei para um discurso, apegou-se ao assunto e continuou:
—O que ignoram os é com o se não existisse para nós. Com este princípio, arranj o-m e em casa. Sou triplo, sou m últiplo, m as Joana só conhece um a face do m onstro. É o que é preciso fazer, para acom odar as m ulheres. Mas não pensem que é fácil estabelecer um a com binação constante de m entiras, que sustente o equilíbrio do lar. É preciso um exercício longo...
—Não para você, cortou o Florêncio, provocando um a gargalhada de todos, com essa alusão à m itom ania do Silviano.
Sem responder, com o um parlam entar experim entado que não dá atenção aos apartes, este continuou a falar, no seu tom professoral:
—Um exercício longo, a fim de que cada m entira se articule perfeitam ente no sistem a e sej a, ao m esm o tem po, espontânea, lógica, estabelecida, entre ela e a verdade, apenas a diferença de substância e não de form a. Para atingir a perfeição, devem os sem pre m entir, haj a ou não haj a necessidade, isto é que é. Assim a m entira acaba vindo fácil, fluente, instintiva. Hoj e sou um artista no gênero...
—Ninguém duvida, aparteou outra vez Florêncio, provocando novos aplausos.
Dessa vez, Silviano encolerizou-se:
—Não m e dirij o a você, truão! Estou falando é às pessoas qualificadas desta roda...
Um pouco im paciente com aquela farsa, Jandira interveio, m anifestando-se solidária com o sexo e assum indo um ar conservador, que m e surpreendeu:
—Não acho graça nenhum a nisso. Vocês, casados, deviam ter m ais com postura. E se as m ulheres resolvessem adotar sua teoria, para enganar os m aridos? Acharia bom ?
Silviano não se perturbou:
—A m ulher, m inha flor, não necessita disso. Basta-lhe um hom em , e o guerreiro requer m uitas m ulheres. São o passatem po do guerreiro...
Glicério, que é nietzschiano, sorriu satisfeito. Anim ado pelo olhar de adm iração deste, que contrabalançava a expressão hostil de Redelvim , Silviano continuou a discursar:
—A felicidade para a m ulher está unicam ente em divertir o guerreiro e pensar suas feridas...
—O que sei é que vocês são uns cínicos, disse Jandira, irritada, interrom pendo-o.
A chegada da tia, que veio de um a novena na igrej a do bairro, evitou que a conversa descam basse, conquanto a velha sej a um a criatura apática, um a som bra, cuj a presença m al se sente. Fica, durante horas, j unto a nós, alheada, com o se estivesse a pensar no defunto m aj or, cuj o retrato pende da parede. Jandira diz que D. Hortênsia sem pre anda assim , desde a m orte do m arido. Com o despregada do m undo.
Cum prim entou a todos, dando silenciosam ente a m ão a cada um , e se pôs a um canto, talvez assustada com tam anho alarido em sua sala.
Redelvim , que até então apenas bebia, atacou um assunto perigoso, exprim indo seu desprezo pelo Silviano e pelo Glicério:
—Mentalidade sórdida de burgueses! Vocês são uns idiotas e uns palhaços.
—Um palhaço, o Pensador! Oh! Com o isso m e diverte! disse Silviano com um ar que parecia afetado, m as que lhe é habitual. Já o pilhei a conversar sozinho, e o tom que em prega em seus m onólogos não é outro.—Chega a escandalizar-m e esta m inha condescendência em vir conversar com vocês. É um a verdadeira descida dos m eus altiplanos.