O Amanuense Belmiro
§ 22. Onde Se Apresenta um Revolucionário. 52
§ 22. ONDE SE APRESENTA UM REVOLUCIONÁRIO.
UMA CONVERSA com Redelvim , na m anhã de hoj e, deixou-m e apreensivo. Ele apareceu aqui em casa, ainda cedo, for para colher o m eu aval. Nós nos servim os um do outro, sem pre que se trata de "suj igar a onça" (com o diz o Florêncio, referindo-se ao ato de reform ar um a prom issória) e tem os um a sociedade de avais m útuos. Mas o que houve de extraordinário foi que, ao ensej o desse encontro, m e contou ele, m eio nervoso, que os acontecim entos se estão precipitando e que se fala na possibilidade de um a revolução, para breve.
Respondi-lhe que isso não era m otivo para aflições. Revoluções sem pre as houve e haverá. Silviano acha, m esm o, que revoluções ou guerras são reaj ustam entos, operações da econom ia da espécie. Quando há, por exem plo, superpopulação, vem um a guerra para destruir o excesso de indivíduos que perturba o equilíbrio social. Quanto às revoluções, propriam ente ditas...
Redelvim ficou irritado com o m eu tom e interrom peu-m e dizendo que falava a sério. Tratava-se de um a revolução proletária. E que, além do m ais, Silviano era um reacionário im becil. E que a polícia, por ocasião do fecham ento da sede do Partido, apreendera docum entos, recolhera a relação de todos os seus m em bros em cuj o núm ero ele, Redelvim , estava incluído.
Supus, por um instante, que houvesse receios no espírito do am igo e perguntei-lhe acerca do que lhe poderia acontecer, se com eçasse a haver prisões.
Respondeu-m e, asperam ente, que sua situação pessoal não interessava e que um pequeno burguês, com o eu, só cuidava da própria pele. Os indivíduos nada significam , segundo seu m odo de pensar. Quanto ao m ais, não sabia de nada, não estava a par dos planos, e o fracasso era fácil de prever, pois a polícia vivia atenta, m as ele, Redelvim , seria solidário, para o que desse e viesse.
E, deixando-m e aturdido, saiu às pressas, a fim de alcançar, ainda, o expediente do Banco.
Fiquei m elancólico e cívico, pensando que, neste País, a civilização poderia ter, certam ente, um sentido m ais cordial, sem os cruentos conflitos que andam pelo m undo. Talvez algum as leis, algum a com preensão... Mas sou apenas um falido poeta lírico e rir-se-ão das idéias, que m e vêm , sobre o problem a. Elas não são, aliás, m uito claras e com um ente se m anifestam contraditórias. Ao final de um a das páginas que ficaram para trás j á lhes contei o que se passa em m im , sem pre que com eço a m editar: perco-m e num labirinto de antinom ias.