O Amanuense Belmiro
§ 2. O "Excomungado". 17
§ 2. O "EXCOMUNGADO".
PARA surpreender as velhas, entrei pé ante pé, m as a porta, im pelida pelo vento, fechou-se atrás de m im com estrépito.
— O Excom ungado j á vem ! resm ungou Em ília. Estava com Francisquinha no quarto grande, onde costum am passar, j untas, as horas em que a m áquina dom éstica tem seu funcionam ento restrito a um a ou duas peças. Term inado o j antar e arrum ada a cozinha, as duas se entregam ao bilro segundo a tradição da casa, até à hora de se deitar. Francisquinha não faz coisa que aproveite e apenas em baraça os fios, m as Em ília dá-lhe essa ocupação para a ter quieta. Notei que, anunciando m inha chegada, Em ília não levantou os olhos da alm ofada, nem interrom peu o com plicado trabalho. É um hábito das rendeiras, m as, no caso, o fato deveria ter significação particular, pois estava com a fisionom ia carregada. Com o de costum e, talvez não desej asse que Francisquinha, anim ada com esse princípio de conversa, com eçasse a tagarelar. A necessidade de falar a alguém , na solidão da casa, obriga-a a conversar com a outra, m as procura, pelo m elhor m odo, reduzir o efeito dessa concessão. Fala dirigindo-se a si m esm a, com o quem está pensando em voz alta, e, por essa form a, suprim e a presença m inha ou da m ana.
Não resisti ao desej o de provocá-las:
—Boa noite, m eninas! Trouxe aqui um as lem brancinhas de Papai Noel para vocês. Ou de Vovô Índio, conform e preferem os nacionalistas.
—Olha o doido, olha o doido, disse Em ília, irritada.
Francisquinha deu um a risadinha feroz, pousando em m im os olhinhos brilhantes e fixos.
"Decididam ente, as velhas estão bravas hoj e", pensei. Pus os pacotes na m esa e fui ao quarto, trocar o j aquetão pelo pij am a. No corredor, Tom e pregou-m e o susto de costum e. Aprendeu a dizer, com o as velhas: "Excom ungado! Excom ungado!" e arrepia-se todo ao ver-m e, ensaiando um a agressão. Ainda m e arranj ará um a psitacose. E, na verdade, é só o que m e falta.