O Amanuense Belmiro

Cyro dos Anjos · Capítulo 11 de 51

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O Amanuense Belmiro

§ 8. O Luar de Caraíbas Tudo Explica. . . 28

O m ito donzela Arabela tem enchido m inha vida. Esse absurdo rom antism o de Vila Caraíbas tem um a força que supera as zom badas do Belm iro sofisticado e faz crescer, desm esuradam ente, em m im , um Belm iro patético e obscuro. Mas vivam os m itos, que são o pão dos hom ens.

Nesta noite de quarta-feira de cinzas, chuvosa e reflexiva, bem noto que vou entrando num a fase da vida em que o espírito abre

m ão de suas conquistas, e o hom em procura a infância, num a com ovente pesquisa das rem otas origens do ser.

Há m uito que ando em estado de entrega. Entregar-se a gente às puras e m elhores em oções, renunciar aos rum os da inteligência e viver sim plesm ente pela sensibilidade—descendo de novo, cautelosam ente, à m argem do cam inho, o véu que cobre a face real das coisas e que foi, aqui e ali, descerrado por m ão im prudente —parece-m e a única estrada possível. Onde houver claridade, converta-se em fraca luz de crepúsculo, para que as coisas se tornem indefinidas e possam os gerar nossos fantasm as. Seria um a fórm ula para nos conciliarm os com o m undo.

 

§ 8. O LUAR DE CARAÍBAS TUDO EXPLICA. . .

 

HÁ TRÊS ou quatro sem anas não tenho tocado nestas notas (senão ligeiram ente, para acrescentar um a ou outra linha a esta ou àquela página.

Exam inando-as, hoj e, em conj unto, noto que, j á de início, se com prom ete m eu plano de ir registrando lem branças de um a época longínqua e recom por o pequeno m undo de Vila Caraíbas, tão sugestivo para um livro de m em órias.

Vej o que, sob disfarces cavilosos, o presente se vai insinuando nestes apontam entos e em m inha sensibilidade, e que o passado apenas aparece aqui e ali, em evocações ligeiras, suscitadas por sons, arom as ou cores que recordam coisas de um a época m orta.

Analisado agora friam ente, o episódio do carnaval m e parece um ardil engenhoso, arm ado por m im contra m im próprio, nesses dom ínios obscuros da consciência. Tudo se torna claro aos m eus olhos: depois de um a infância rom ântica e de um a adolescência m elancólica, o hom em supõe que encontrou sua expressão definitiva e que sua própria substância j á lhe basta para as com bustões interiores; crê encerrado o seu ciclo e volta para dentro de si m esm o, à procura de fugitivas im agens do passado, nas quais o espírito se há de com prazer. Mas as forças vitais, que im pelem o hom em para a frente, ainda estão ativas nele e realizam um sorrateiro trabalho, fazendo-o voltar para a vida, sedento e agitado. Para iludir-lhe o espírito vaidoso, oferecem -lhe o presente sob aspectos enganosos, encarnando form as pretéritas. Trazem -lhe um a nova im agem de Arabela, hum anizando o "m ito da donzela" na rapariga da noite de carnaval. Foi hábil o em buste, e o espírito se deixa apanhar na arm adilha.. .

Não farei violência a m im m esm o, e estas notas devem refletir m eus sentim entos em toda a sua espontaneidade. Já que as seduções do atual m e detêm e desviam , não insistirei teim osam ente na exum ação dos tem pos idos. E estas páginas se tornarão, então, contem porâneas, em bora isso exprim a o m alogro de um plano.

Com eçarei por contar honestam ente os m otivos por que, durante as três últim as sem anas, abandonei este caderno de apontam entos. São dois, e o segundo é fácil de dizer: foram as velhas. Mas o prim eiro... ainda há pouco eu hesitava em confessá-lo: foi a m oça.

Depois da quarta-feira de cinzas veio-m e um a aura rom ântica que m e pôs m eio lunático, trazendo-m e dias agitados. Presum ivelm ente curado da m oléstia, posso contar as coisas tal e qual se passaram . Com o na noite de carnaval, e j á sem a desculpa do álcool e do éter, voltei, de novo, a essa a que vou cham ando Arabela, por lhe ignorar o nom e de batism o e porque, afinal, o que lhe dei se m e afigura o adequado. Pus-m e a procurá-la quase com aflição e, perdendo a noção do ridículo, confiei o episódio e m inha desordem sentim ental ao Silviano. Felizm ente (e com certeza por solidariedade, visto que anda em m aré análoga), ele não fez troça. Pelo contrário, ouviu, sério, a confidencia.

Podem rir-se de m im , m as os nam orados m e com preenderão: am ei, com o se se tratasse de um ser real, aquilo que não passava de um a criação do espírito. A vida não se conform a com o vazio, e a im agem da m oça encheu-m e os dias.