O Amanuense Belmiro
§ 47. Nenhum Desejo Neste Domingo. 95
—Vai m orar com a viúva?
—Não. Não. Está lá, por insistência dela, apenas enquanto se instala convenientem ente e se adapta m ais ou m enos ao m eio. Só agora veio a Minas. Viveu sem pre de São Paulo para o Rio e do Rio para a Europa. Muito viaj ado, o Jorge.
Mudam os, depois, de assunto. Cá dentro, porém , o tem a foi o m esm o, pela tarde toda, e ainda agora m e ocupa. Não há dúvida que se casarão. Posso com por m eu olhar oceânico para, disfarçado
no m eio do povo, assistir à cerim ônia. E casar-se-ão m esm o na igrej a de Lourdes. Dei para vidente. Ora bolas, que se casem e sum am .
§ 47. NENHUM DESEJO NESTE DOMINGO.
NESTES últim os cinco dias não toquei nestes assentam entos. Andei lendo, andei peram bulando, quase despreocupadam ente. Quando o espírito se m e torna, assim , leve, procuro o Florêncio. Com ele estive duas ou três noites a bebericar. E a vida é quase boa, quando é vazia com o neste dom ingo. "Nenhum desej o neste dom ingo, nenhum problem a nesta vida", com o diz o poeta.
Pus-m e à j anela, a ver a rua. Giovanni, vestindo o velho j aquetão preto e levando um chapéu-de-sol ao braço, ia à m issa. Outra coisa não deveriam fazer o Prudêncio Gouveia e Beppe, o sapateiro. Enquanto eu dorm ia, Em ília devia ter estado na igrej a, para ouvir a m issa das cinco. A ciática passou, e ela anda, há um a sem ana, em boas condições. Com as notícias que lhe dei sobre Francisquinha, parece m uito anim ada. Contei-lhe que o m édico m e disse ontem , no Instituto, haverem as duchas e os rem édios produzido bom efeito. Talvez possam os trazer a m ana para casa no fim desta sem ana. Em ília sem pre acredita, ao ver term inada um a crise, que a Chica ficou boa, definitivam ente. É adm irável esse otim ism o que a faz esquecer-se da longa série de crises e m elhoras, experim entadas pela pobre irm ã, sucessivam ente, desde que, ainda m oça, a m oléstia m ental se m anifestou nela.