O Amanuense Belmiro

Cyro dos Anjos · Capítulo 13 de 51

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O Amanuense Belmiro

§ 10. Uma Casa, Numa Rua. 31

§ 10. UMA CASA, NUMA RUA.

 

HÁ, SEM dúvida, um a tram a secreta que, encadeando os acontecim entos, envolve um a quím ica, um a física e um a econom ia social extrem am ente sutis para que a ciência hum ana possa penetrá-las. E essa tram a se evidencia, para m im , no caráter de necessidade que j ulgo acentuar as aproxim ações hum anas, os encontros m ais rápidos que sej am e se nos afiguram fortuitos.

Vivendo e observando as coisas, perceberem os que o fugidio vulto—m al entrevisto em um encontro que nos pareceu destituído de significação ou conseqüência—teve, m ais tarde, um m om ento de m aior ou m enor influência em nossa vida. As leis que regulam a circulação dos hom ens nos parecerão, então, lógicas, em tal ou qual sentido, e j á não verem os acaso nem gratuidade no desenrolar dos fatos da vida.

Se digo tolice, ou apenas repito idéias velhas, que m e perdoem : adquiri, neste escritório da Rua Erê, o hábito de filosofar e fico horas e horas a pensar em certos fenôm enos. E j á lhes contarei por que m eu pensam ento tom ou hoj e tais rum os.

Bem m e recordo, agora, de que, há dois anos, passando à noite pela Rua Paraibuna, à procura de um farm acêutico vindo de Vila Caraíbas, cuj o endereço m e fora fornecido sob indicações vagas, fiz-m e anunciar, por engano, em outra residência. Um a criada, que m e veio atender, esclareceu logo o equívoco, m as o fato m e deixou duas im pressões nítidas, um a auditiva, outra, olfativa. Explico-m e: havia, no j ardim da casa, um a trepadeira, a cuj a flor cham am os, no sertão, dam a-da-noite, por despontar som ente à noite e m urchar durante o dia. Ela desprende um arom a de alto poder evocativo. Será um a pouco vivaz, m as nem por isso desagradável. E, dentro da casa, havia um a criatura que não vi, m as ouvi. Cantava com o o faria um anj o de Van Ey ck, se os coristas angélicos se dedicassem ao gênero, um a canção napolitana que ouvi a Cam ila em tem pos idos: Tuorna a Surriento.

As duas im agens se consorciaram no m eu espírito e ainda hoj e nele perm anecem , enriquecidas de outras que lhes m inistrou este dem ônio fantasista que m e habita.

Andando esta tarde com Glicério por aqueles lados—ao voltar de um a visita de pêsam es a um com panheiro de Seção, que perdeu a filha—um a dam a-da-noite, pendente do gradil de ferro de certo j ardim , atraiu-m e a atenção e despertou-m e lem branças. Com o crepúsculo, j á a flor abria suas grandes pétalas brancas.

Era precisam ente a casa a cuj a porta bati, tem pos atrás. Recordando-m e do episódio e da voz puríssim a que trauteou a canção, perguntei ao Glicério que m oça ali m orava.

—Não a conhece? Deveras? É a Carm élia Miranda. O pai, Dr. Aurélio, m orreu há um m ês. Ela vive com a m ãe e um irm ão pequeno.

Não, não conhecia. Nunca ouvira, m esm o, este nom e tão sugestivo.

—O nom e é o m enos, observou Glicério. A m oça é que é fabulosa. Não há criatura m ais linda, nem m ais fina nestas redondezas.

Fom os cam inhando j untos até que, no ponto de espera, nos separam os, tom ando cada qual o seu bonde. Assim m e vi desem baraçado do Glicério, desci pouco adiante. Não é preciso dizer o que fiz: voltei, a passos apressados, pelo cam inho percorrido, m ovido por um pressentim ento. Queria ver novam ente a dam a-da-noite; talvez escondesse a da canção, que devia ser.. .

Quando de novo passei em frente da casa, um a j ovem estava à j anela. Um relance de olhos revelou-m e que sua fisionom ia não m e era estranha. Já adivinharam quem seria: Arabela. Apressei os passos, com o coração em desordem , e, um pouco além , voltei pelo lado oposto da rua.

Perturbou-m e bastante o encontro. Sou um incorrigível produtor de fantasias, a retalho e por atacado, e fiquei a im aginar doces coisas. Esqueci-m e desta triste figura e sonhei um terno idílio. Quando cheguei a pé, ao Bar do Ponto, estava, nada m ais,

nada m enos, transm udado em distinto cavalheiro que seria o protetor da donzela, sucedendo, na casa, ao falecido pai.

—Mas é preciso com prar as alianças e um presente m uito bonito, lem brava um anj inho am ável.

—E um a fatiota nova, sugeria um arcanj o.

Na Rua Erê, senti-m e nom eado segundo oficial e cheguei a enxergar no Minas Gerais, em caracteres nítidos, o ato do Governo prom ovendo, por m erecim ento, o am anuense Belm iro Borba.

—Aum enta-se o pecúlio da Previdência e tom a-se um em préstim o em dezoito prestações, sussurrou um a voz. Pode-se, m esm o, construir um a casa, segundo o novo plano predial...

E assim continuaria, leitor, se eu não ouvisse um a risada quando entrei em casa. Foi o dem ônio da Jandira que m e tirou daquela sorte de em briaguez.

—Que susto m e pregou, entrando aqui com essa cara de alm a do outro m undo! Há um a hora estou esperando você sozinha, neste escritório. A velha está hoj e inabordável e por pouco batia-m e a porta no nariz. Que casa hospitaleira! disse, pondo-m e a m ão sobre o om bro.

Refeito do abalo, balbuciei qualquer esfarrapada desculpa, enquanto, no íntim o, procurava descobrir a razão da presença de Jandira. Não é que sej am raras suas vindas à Rua Erê, m as, sem pre que aparece, tem qualquer problem a a resolver. Faço por ser engraçado e lhe digo tolices, m as bem sabe que. ao cabo de contas, possuo um invariável bom senso e term ino aconselhando-lhe qualquer coisa sensata.

Da roda, fui o único que não tentou conquistá-la. Já lhe disse que, infelizm ente, nisto não andou virtude, e sim tim idez. Dias houve em que ela m e perturbava profundam ente, e por pouco não lhe teria dito as palavras do desej o, que são as m esm as, em todas as línguas e em todas as épocas. Louvado Deus, que m e fez tím ido, nossa am izade sobreviveu a essas crises e acabou por criar certos tabus entre nós. Quando, com o hoj e, ela m e vem tão desej ável e tão perigosa (com o a saúde de Jandira convida a um a ligação m enos literária, m ais naturista!), volvo os olhos para um lado, recusando-m e devaneios acerca de sua geom etria e convocando este anj o latente e prestim oso que nos segue com o a som bra

Afinal, Jandira voltou sem dizer o que queria. De acordo com a tática epistolar do sexo, costum a insinuar o que desej a som ente no post-scriptum , e com ar de indiferença, m as nem isso fez esta noite. Contou-m e que obteve colocação no escritório de um advogado, o Dr. Pereirinha; referiu-se m aldosam ente à Joana e suas turras com Silviano; levou-m e um livro e lá se foi pelas oito horas, depois de, por duas vezes, tentar um a prosa com Em ília.

Talvez tenha vindo apenas m ostrar-m e seu vestido novo, realm ente encantador e provocante. As m ulheres inteligentes não têm nisso m enor prazer do que as outras.