O Amanuense Belmiro

Cyro dos Anjos · Capítulo 48 de 51

Páginas do PDF

O Amanuense Belmiro

§ 45. Extraordinárias Declarações de Glicério. 88

—Acho que você lhe pode ser útil, continuou Jandira, procurando recuperar seus papéis e livros, na polícia.

Era, pois, este o obj etivo de Jandira, ao cham ar-m e. Prom eti-lhe arranj ar a devolução das coisas por interm édio do Senador Furquim , via Glicério. Sem pre é bom conhecer um senador.

E voltei logo para casa, porque Em ília aqui está com a gota ciática de sem pre, necessitando de m im .

Não term inarei esta página sem dizer que Jandira estava um a tentação, m ais desej ável do que nunca. Trazia um a flor artificial no peito, m uito chique. Esquecia-m e dizer, tam bém , outra coisa im portante: arranj ou em prego num escritório com ercial. O patrão é pessoa idosa e não tem filhos. Por ora, o problem a Pereirinha está, portanto, afastado.

 

§ 45. EXTRAORDINÁRIAS DECLARAÇÕES DE GLICÉRIO.

 

MEU ESPÍRITO está, agora, serenado, e procurarei expor ordenadam ente o que se passou.

O sonho a que m e referi num a destas páginas não deixou de ser exato, no que toca a Glicério. Pelo que hoj e m e disse, percebi que m inhas confidencias o im pressionaram de tal form a, que tem , agora, um a visão diferente de Carm élia e a olha por um ângulo aproxim adam ente idêntico àquele sob que ela m e surgiu, na noite de carnaval. Sugestionável com o é, foi em polgado pelo m ito da Donzela ou, pelo m enos, em presta, agora, a Carm élia parte dos atributos m isteriosos de que a dotei. Ela se cristaliza, rapidam ente, a seus olhos, se m e perm item o uso da expressão stendhaliana.

Hoj e, na Secretaria, falou-m e da m oça com o se se tratasse quase de um ser quim érico. Ao ouvi-lo, oscilei, de início, entre a satisfação de autor que verifica o êxito de sua criação, e a angústia de nam orado que pressente um rival.

Disse-m e que Carm élia é antes um sím bolo do que criatura hum ana, pelo que há de im aterial beleza, graça, dança, m úsica e poesia nos seus dezoito anos.

Sem perceber as reservas com que lhe recebia as expansões e supondo que m e iludiria quanto aos seus sentim entos, continuou a falar, aj untando que a m oça lhe despertara grande interesse (puram ente estético, sublinhou), depois que eu, com m inha confissão, lhe cham ara a atenção sobre ela.

Fora quatro ou cinco vezes à casa da viúva Miranda e estivera com Carm élia. Não m e contou isso há m ais tem po, esclareceu, porque acredita, de acordo, aliás, com as m inhas declarações, que o caso j á não m e seduz. E insistiu nisso: aproxim ando-se da m oça, procurando conhecê-la de perto, verificara tratar-se, realm ente, de um a criatura fora do com um . Não se deve dar a Carm élia o apelativo "m ulher", que com im propriedade se aplica indiferentem ente a ela e a D. Paculdina, m ulher do nosso chefe de Seção. Esta é um a porção bestial de gorduras, enquanto Carm élia é toda harm onias.

Não disfarçando o despeito que m e causava a dissertação de Glicério em torno de tem a originariam ente m eu, respondi-lhe que, sobre essa diferença de substância entre Carm élia e D. Paculdina, haveríam os de conversar depois. Deixasse vir os anos, os cuidados, o casam ento e os filhos à m oça. E acrescentei que, no m ais, estava fazendo literatura.

Com a água fria que lhe pus no entusiasm o, calou-se. Notando-o aborrecido, recuei e pus-m e a procurar um m eio de reaver suas boas graças. Não o fiz por generosidade, m as para obter novas inform ações sobre seus encontros com a donzela. O aparecim ento oportuno do Carolino, que nos veio trazer café (estávam os a um a j anela do edifício), ofereceu-m e ensej o para rom per o silêncio e reatar a conversação. Ao servir-nos, Carolino nos pôs ao corrente de grande novidade: nosso com panheiro Sepúlveda havia tirado sessenta contos na loteria. Por isso não fora hoj e à repartição.

—Suj eito de sorte, o Sepúlveda! com entei eu.

—É, é... respondeu, am uado.

Fui, então, m ais direto:

—Desam arre essa cara, hom em ! Está ficando m uito m elindroso. Não se pode fazer um a brincadeira.

—É claro, respondeu. Você anda irritante, ultim am ente.

Achando-o m ais abordável, insinuei que j á nem m e lem brava de m eus ardores sentim entais pela m oça. Contudo, sentia prazer em verificar que a ele, Glicério, a garota parecera excepcional. Perguntei-lhe que coisas ela dizia. Se cantava ainda, com o há dois anos, quando por acaso lhe ouvi um a canção napolitana.

Já confiante, respondeu-m e que a achava sim plesm ente fabulosa. Fazia gosto conversar com ela. Tinha palavras ágeis, finas. Gostava m uito de versos. Lia o m elhor que vinha da França. E que educação perfeita, que naturalidade! Quando cism ava, "tinha a expressão casta, m elancólica e terna de um a virgem descuidosa, dessas que a gente vê nas telas de..." (nessa altura, ficou suspenso, sem saber que pintor m encionaria. Não sendo versado em pintores, não o pude socorrer).

—Im agino, im agino, disse-lhe, esforçando-m e por fingir indiferença.

Desem baraçado, pelo aparte, de um pintor teim osam ente anônim o, Glicério continuou, explicando que os m om entos de cism a da m oça é que lhe deram , a ele, as im pressões, a m eu ver, literárias ...

Receando que a evocação do incidente viesse suspender a conversação sobre Carm élia, cortei:

—Ora, j á lhe disse que aquilo foi brincadeira. Ou m elhor, foi despeito... Mas você não m e contou se a m oça ainda canta, com voz tão bonita.. .

Não, esclareceu, não estava cantando. A m orte do pai lhe trouxera grande tristeza. Sem som bra de convencionalism o. Havia na casa, ainda, um a densa nuvem de m elancolia.

Depois de pequeno intervalo deixou escapar, com hesitação, esta coisa fulm inante:

—Esquecia-m e de lhe falar: conversei com ela, ontem , a respeito de você.

—Não é possível! exclam ei, sem querer. Você não faria isso...

—Dou-lhe m inha palavra. Falei, sim . Se não gostar, desculpe-m e. Disse-lhe que você a conhecia... Inform ei-a a seu respeito...

Fiquei suspenso, com o coração batendo desordenadam ente.

—Contei-lhe que, na últim a noite de carnaval...

—Você é louco? Você falou nisso? indaguei, ainda m ais aflito.

—Sossegue, hom em ! Contei-lhe apenas que você a achou linda e m uito "distinta". Depois de tentar lem brar-se do episódio, ela disse que se recordava. Um hom em de pince-nez, m agro, alto, m eio m aduro (Glicério sorriu com m alícia neste ponto). Estava m uito triste, olhando o salão com o se olhasse para o m ar. Ela ficou com pena e quis alegrá-lo. Notou que você a fitou, depois de lhe ter dado a m ão, com um m odo esquisito, com o quem estivesse vendo qualquer coisa extraordinária... Quase lhe fez m edo.

Eu retinha a respiração para ouvi-lo. Acrescentou porm enores:

—Disse que deram apenas alguns passos. Você teve um desfalecim ento e ela pediu ao pai, que se achava atrás, que o levasse para fora, a um pequeno salão, onde havia um sofá. O pai a inform ou de que, provavelm ente, por efeito de álcool e éter, você tinha tido um desm aio, m as era coisa sem im portância. Falava em "Arabela... Arabela...". Mas pouco depois voltou a si. Isso foi quase de m anhã, e você ficou deitado no sofá, recom endado a um dos garçons do clube. Ela acabou achando graça na história.

Fiquei arrasado. Aqui reproduzo, com a fidelidade que m e é possível, as palavras ouvidas a Glicério.

Não notando m eu m ortal desgosto, ainda m e perguntou:

—Acha que fiz m al em lhe falar nisso?

Respondi-lhe, com o pude, que não. Não. Pela form a com o se referira a m im , não houvera m al.

Disse-m e, depois, que ela m ostrou desej o de m e conhecer e pediu-lhe que m e levasse lá, um dia, caso eu não tivesse ficado encabulado com o incidente. Não respondi nada. Glicério, com sua incapacidade de perceber certas coisas, insistiu no assunto, falando-m e que as pessoas que freqüentam a casa não são desinteressantes e que há lá agora um rapaz m uito "distinto", prim o de Carm élia, com o qual eu gostaria de conversar.

Cortei o assunto, consultando o relógio com fingida ansiedade, e disse ao Glicério que precisava sair para alcançar o horário do Banco. Tinha um título vencido e precisava reform á-lo.

—Vai suj igar a onça? perguntou-m e, sorrindo, quando lhe fiz um aceno de m ão, num gesto de despedida.

A incom preensão do Glicério atingiu a esse lim ite. Ou, sei lá, talvez se estivesse divertindo à m inha custa. Fez-m e, porém , tão extraordinárias revelações que não lhe guardo rancor. Sinto-m e cansado e interrom perei, aqui, estas notas. Não sei bem que dizer de tudo isso.