O Amanuense Belmiro

Cyro dos Anjos · Capítulo 19 de 51

Páginas do PDF

O Amanuense Belmiro

§ 16. Um São João que Vai Longe. 42

§ 16. UM SÃO JOÃO QUE VAI LONGE.

 

QUANDO vi a fogueira, passei ao largo, com m edo de que os m eninos m e atirassem bom binhas. Mas, m esm o de longe, pude apreciar esse São João alegre e buliçoso, cheio de balões e de vozes gratas da infância.

Apesar da literatura que se faz pelo Natal e pelo São João, esses dias continuam inundados de um a poesia própria, que resiste a todas as agressões dos principiantes das letras. Perm anecem com sua força evocativa e voltam com aquela pontualidade inexorável para vir lem brar-nos que estam os envelhecendo irrem ediavelm ente. Eis o lado m elancólico do São João, do Natal e do Ano-Bom . Cada ano, ao vê-los chegar, verificam os que a paisagem do passado vai ficando m ais azul, m ais distante, com o aquela serra que azula no horizonte, além , m uito além da qual nasceu Iracem a.

Por que, afinal, essa fogueira, esse balão que se queim a no ar e os foguetes, que vão atrás dos balões, hão de fazer-m e inclinar sobre m im m esm o, para viaj ar pelo tem po afora, perdidam ente, em busca de um balão que as m onções carregaram para outras latitudes? Vã tentativa de reintegração de porções que se desprenderam da alm a nesse traj eto im enso. Em cada ram o à beira do cam inho ficou um pouco de nossas vestes e é inútil voltar, porque os bichos com eram os trapos que o vento não levou.

Certo São João de Vila Caraíbas é um fenôm eno que não se reproduzirá j am ais. As m oças de trancas e bandos não m ais lerão sortes no copo d'água nem saberão m ais qual delas terá a grinalda, qual delas se cobrirá de flores e de perfum es e arrastará um véu com prido no pavim ento da velha Matriz, onde j azem os restos m ortais de Dona Ana de Freitas e Ataíde, que deixou um legado para a freguesia de Caraíbas.

Naquele tem po a fogueira crepitava até horas m ortas, e até horas m ortas um arom a brando de batatas assadas m e m antinha, rente do braseiro, a pensar nas terras im possíveis e no destino trágico da Nau Catarineta.

Tem po velho. Velho Belm iro. Hoj e é o nosso dia. Enquanto a fogueira funcionar, nós ficarem os de braços dados, nem tristes,

nem alegres, apenas nos nam orando e nos lem brando daquela m oça de cabelos de retrós e de brancas vestes, que cantava inefável m odinha. Qualquer coisa a respeito de um viaj or e de um a estrela. A estrela sem pre longínqua, sem pre adiante do viaj or. E ele viaj ava toda a vida, pensando que chegaria à estrela. Tem po velho. Moço Belm iro. Vam os peram bular pela rua, contem plando as fogueiras e cantando certa m odinha que ninguém ouvirá.