O Amanuense Belmiro
§ 36. De Novo, Carmélia. 72
Tais preocupações im pediram -m e de registrar alguns acontecim entos da sem ana. Destacarei o m ais im portante, que foi a volta do Pietro. O velho Giovanni, transfigurado, correu, há cinco dias, pela Rua Erê, desceu pela do Piau, subiu a dos Pam pas e andou pela Rua Diábase, de ponta a ponta, para anunciá-la a am igos e conhecidos. Durante as duas sem anas de separação e principalm ente nos seis prim eiros dias, quando era, ainda, ignorado o paradeiro do m enino, o velho ficou quase louco. Vivia a chorar, a bater no peito, a lam entar-se no seu dialeto (pude notar que, se está abalado em sua sensibilidade, se exprim e na língua natal, esquecendo-se da nossa, que fala m al, m as sem pre fala para ser entendido).
Foi a custo que, recebida a carta do com padre de Diam antina, consentiu em ficar m ais alguns dias sem ver o bam bino. Na carta, o com padre pediu prazo para vir. A m ulher estava adoentada e ele não poderia ausentar-se im ediatam ente.
Contou-m e o Prudêncio Gouveia que o regresso do m enino foi patético. Abraçaram -se dem oradam ente, chorando e trocando abundantes interj eições. Marianina foi para a cam a, de em oção.
Estou deixando que o velho volte à vida habitual e o m enino se adapte à situação (está m uito desapontado, de acordo com a inform ação do Prudêncio), para depois lhes fazer m inha visita.
Por últim o, registrarei aqui dois encontros com Jandira e um com Silviano, na rua. Inform ados de que eu m e achava preocupado com a situação dom éstica, lim itaram -se a pedir notícias da m ana e a oferecer os préstim os.
§ 36. DE NOVO, CARMÉLIA.
AFINAL, são inúteis essas tentativas de análise e de interpretação de nós m esm os. Há, em nós, abism os insondáveis, que j am ais explorarem os, onde se recolhem , pelo tem po que lhes apraz, as com binações m últiplas, várias, tantas vezes contraditórias, que com põem as form as sucessivas do nosso espírito. Explicar-m e-ei, dizendo que hoj e dorm im os arlequim , am anhã acordarem os pierrô. As vestes ficam guardadas num arm ário de nossas profundezas onde se am ontoam indum entos de infinita variedade. Alguém no-las troca sorrateiram ente, durante o sono, de acordo com um critério que nos escapa. E esse alguém às vezes se diverte, pondo-nos de casaca e em cuecas, ou pregando-nos um rabo de papel no j aquetão. O fato é que se frustra todo o esforço que despendem os para nos im por certa disciplina, certa unidade, certa coerência. À sorrelfa, algum diabo m alicioso inutiliza o nosso trabalho, e am anhã serem os o que não querem os, e hoj e som os o que ontem fôram os e não quiséram os ser m ais.
Faço esta divagação para m e j ustificar. Estou com vergonha de confessar o que se passa com igo. Há cerca de vinte dias, cedendo a um im pulso de revolta (?), tiro do altar o m eu m ito, faço com que, à luz do dia, se desvaneçam os espectros que, dentro de m im , com puseram um a Carm élia im aginária. Um a sem ana depois, j ulgo-m e curado da fantasia, pilherio com igo m esm o, chego a relatar ao Glicério toda a história, supondo-a um a burlesca história do passado. Não são decorridos quinze dias, e.. . a m ão esquerda terá de lim par o que a direita escreveu.
Com o j á disse, a gente não sabe com o essas coisas acontecem . Só posso dizer que experim entei hoj e um a recidiva violenta, am anheci angustiado depois de ter passado um a noite fértil em sonhos.
Carm élia m e apareceu neles, participando de cada um , ora m inha, ora de outros, ora viva, ora m orta. Um desses sonhos (não sei se foi um , ou m uitos) m e im pressionou am argam ente. Descobri que Glicério a am ava, tam bém . Com eçou a interessar-se por ela desde que o pus a par dos m eus am ores e, em vez de m e aproxim ar dela, passou a afastar-m e, com m il pretextos. Em certo m om ento, disse-m e duras franquezas, cham ando-m e à realidade, m ostrando que, em m inhas condições de vida, j am ais poderia pretender a m oça.
Depois, quem surgiu em cena foi o falecido Dr. Aurélio. Eu fazia um a serenata (com o nos velhos tem pos) sob a j anela da nam orada, e ele apareceu à porta, de pij am a, para m e aconselhar que não ficasse a cantar, na noite úm ida; poderia apanhar um a pneum onia...
Acordei, com pesar, quando o sonho se tornava rasgadam ente fantasioso: vestida com um a túnica diáfana, Carm élia bailava à som bra de árvores que refulgiam ao sol. Parecia, antes, um gracioso espírito do ar. Quando m e estendia as m ãos, com o a atrair-m e, acordei.
Fiquei aflito por que chegasse a hora do trabalho, na Seção, a fim de encontrar Glicério. Em vez de tom ar o bonde das onze, tom ei o das dez e pus-m e um tem po enorm e, na Praça, a esperá-lo.