O Chamado do Anjo

Guillaume Musso · Capítulo 8 de 47

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O Chamado do Anjo

5. You’ve got mail

5

You’ve got mail

 

O desejo de conhecer plenamente uma pessoa é uma maneira de se

apropriar dela, de explorá-la. É um desejo vergonhoso ao qual devemos

renunciar.

— JOYCE CAROL OATES

 

SAN FRANCISCO, DE MADRUGADA

Jonathan deu um puxão seco na correntinha que acionava a luz fria pendurada sobre o espelho do banheiro. Impossível pregar o olho. Culpa do nervosismo e das ardências estomacais que não cessavam de torturá-lo desde que bebera aquele maldito vinho. Cercado por um halo de luz pálida, procurou no armário um ansiolítico e um remédio para gastrite. Tendo encontrado os dois comprimidos, foi até a cozinha para tomá-los com um gole de água.

A casa estava silenciosa. Marcus, Charly e até mesmo Bóris já tinham caído nos braços de Morfeu havia tempo. A janela de guilhotina permanecia entreaberta, mas não fazia muito frio. Um vento quente soprou, fazendo tilintar baixinho o sino dos ventos de bambu, enquanto um raio de luar atravessava o vidro para iluminar a tela do celular que ele deixara carregando no balcão. Jonathan não se conteve: com uma pressão no único botão, acionou o aparelho, que se tornou instantaneamente luminoso e cristalino. O pequeno ícone vermelho indicando um e-mail para Madeline estava aceso. Uma espécie de sexto sentido matizado de curiosidade o levou a clicar no ícone para ler a mensagem. Fora enviada dez minutos antes e, por mais estranho que pudesse parecer, destinava-se a ele...

Caro Jonathan (poupemo-nos logo do sr. Lempereur e sra. Greene, tudo bem? Afinal, imagino que, se está tendo a cara de pau de ler minha mensagem, deve ter igualmente dado uma espiada em minhas fotos e deleitado os olhos com as duas ou três poses “artísticas” do meu álbum. Isso mostra que você é um pervertido, e o problema é seu, mas faça o favor de não postá-las no Facebook, porque não tenho certeza de que o meu futuro marido vá gostar disso...).

Caro Jonathan (bis), aproveito minha pausa do almoço (pois é, já passa de meio-dia em Paris) para lhe escrever degustando um sanduíche de rillettes do Mans artisticamente preparado por Pierre & Paul, membros eminentes da Confraria dos Cavaleiros das Rillettes do Sarthe e artesãos-padeiros, cuja loja fica defronte da minha. Estou instalada ao sol, no balcão de degustação. Minha boca, portanto, está cheia de embutidos, tenho farelos de pão espalhados no suéter e manchas de gordura na tela de seu belo celular. Não é muito glamouroso, admito, mas é uma delícia. Enfim, não é a você que vou ensinar a desfrutar dos prazeres da boa carne...

Portanto, caro Jonathan, deixo-lhe esta pequena mensagem para lhe comunicar duas notícias, uma boa, a outra ruim. Comecemos pela ruim: como talvez saiba, neste início de férias escolares uma greve paralisa este magnífico país que é a França. Aeroportos, estradas, transportes públicos, serviço postal, parou tudo. Takumi, meu jovem estagiário, acaba de encontrar fechada a porta da agência do correio do Boulevard Montparnasse, e vejo-me assim, por ora, na impossibilidade de lhe enviar seu celular.

Saudações,

Madeline

A reação de Jonathan não se fez esperar. Doze minutos mais tarde, sua resposta decolou:

Está zombando de mim? Que história é essa de greve?

Se ela não lhe devolvesse o celular, estava fora de questão que ele devolvesse o dela!

Trinta segundos depois, Madeline já o provocava novamente:

Ainda de pé a essa hora, Jonathan? Não dorme nunca? Essa falta de sono não seria responsável pelo misto de irritabilidade e mau humor que parece caracterizá-lo?

Jonathan deu um longo suspiro e enviou uma nova mensagem à moça:

Na verdade, você tinha me prometido uma boa notícia para compensar a ruim...

Encarapitada no banquinho, Madeline engoliu o último pedaço do sanduíche, antes de responder na lata:

Exatamente, eis a boa notícia: apesar do frio e das greves, o tempo está lindo em Paris.

Assim que enviou o e-mail, ela já espreitava uma resposta, que não demorou a chegar.

Bom, pelo menos dessa vez não resta dúvida: você está se lixando para mim.

A despeito de sua inquietude, ela foi obrigada a sorrir. Impedindo-a de despachar o celular para seu dono, aquela greve dos serviços públicos a deixava em apuros. Fazia com que carregasse o peso de uma responsabilidade que ela não queria. Deveria advertir Jonathan a respeito da mensagem deixada por sua ex-mulher, que ligara para ele de Nova York suplicando que voltasse a morar com ela? Involuntariamente, Madeline detinha uma informação crucial para o futuro de um casal e isso não lhe agradava.

A moça pediu um segundo copo de vinho, que tomou observando o movimento dos passantes e dos carros através do vidro. Próxima de grandes estabelecimentos, a Rue Delambre estava animada naquele último fim de semana de compras de Natal. Nas calçadas borrifadas pelo sol, os casacos acinturados das parisienses, as grossas jaquetas dos adolescentes, os cachecóis coloridos, os gorros das crianças, os saltos que estalavam e o vapor que saía das bocas se misturavam num movimento inebriante de cores e rostos.

Madeline terminou sua taça de vinho, e foi um pouco altinha que pegou da pena — modo de falar — para redigir uma última mensagem:

Caro Jonathan,

É uma hora da tarde. Minha pausa para o almoço chega ao fim, ainda bem, pois, se ficar mais um minuto neste estabelecimento, sinto que vou sucumbir à tarte Tatin de maçã com bola de sorvete e todos os acompanhamentos. Uma verdadeira “matança”, como dizem na sua terra, mas uma tentação que, a menos de uma semana das festas de fim de ano, não seria nada razoável, você há de convir.

Foi um prazer conversar mesmo brevemente com você, e isso a despeito de seu humor execrável e esse lado resmungão, deselegante e antipático que, compreendi muito bem, constituem uma espécie de “marca registrada” que algumas devem certamente achar o máximo. Antes de me despedir, contudo, permita-me matar a curiosidade fazendo-lhe três perguntas:

1) Por que o pretenso “melhor chef do mundo” serve hoje bife com fritas num simples bistrô de bairro?

2) Por que ainda está de pé às quatro horas da manhã?

3) Você ainda ama sua ex-mulher?

 

* * *

Tão logo apertou a tecla ENVIAR, Madeline percebeu que tinha cometido uma tolice. Mas era tarde demais...

Saiu do Pierre & Paul e atravessou a rua, tonta por causa do vinho.

— Ei! Olhe por onde anda, SUA ANTA! — vociferou um playboyzinho que, de franjinha nos olhos, quase a atropelou de bicicleta.

Para se esquivar, Madeline recuou bruscamente um passo, mas foi “colhida” pela buzina de um 4x4 que tentava ultrapassar a bicicleta pela direita. Teve medo e se esquivou por um triz do carro para alcançar a calçada defronte, quebrando no caminho o salto de uma de suas botas.

— Merda! — esbravejou, abrindo a porta da loja para se refugiar em seu Jardin Extraordinaire. Adorava Paris, mas detestava os parisienses...

— Tudo certo, patroa? — perguntou Takumi, percebendo que ela estava em estado de choque.

— Você é mesmo lento no gatilho! — ela o repreendeu por sua formalidade.

— Desculpe — voltou atrás o asiático. — Tudo bem, Madeline?

— Tudo, exceto esse maldito salto que...

Ela interrompeu a frase no meio e passou um pouco de água no rosto antes de tirar os sapatos e a jaqueta, sob o olhar embasbacado de seu funcionário.

— Não adianta me olhar com essa cara sacana, não prosseguirei com o striptease.

Quando viu Takumi ficar vermelho como um pimentão, Madeline se arrependeu de sua exaltação e não quis que um clima de constrangimento se instalasse entre eles.

— Pode ir almoçar. Não tenha pressa, eu cuido de tudo.

A sós na loja, a moça ligou sofregamente o celular de Jonathan, que acabava de lhe responder:

Cara Madeline,

Se isso pode satisfazer sua curiosidade, eis a resposta às suas perguntas:

1) Se é que um dia fui, faz tempo que não sou mais o “melhor chef do mundo”. Digamos que, como um escritor, perdi a inspiração e a paixão necessárias para realizar criações inovadoras. Dito isso, se passar por San Francisco com seu Raphaël, não se furtem a vir degustar o “bife com fritas” do nosso restaurante. Nosso prime rib é maravilhosamente macio e saboroso; quanto

às fritas, são na realidade batatas salteadas no alho, no manjericão e na salsa. “Belles de Fontenay”, cultivadas em pequena quantidade por um produtor local e que todos os nossos clientes acham macias e douradas no ponto.

2) É verdade que são quatro horas da manhã e que ainda estou de pé. A razão disso? Duas perguntas que martelam na minha cabeça e me impedem de dormir.

3) Vá catar coquinho.

 

* * *

Na Rue d’Odessa, Takumi entrou no pequeno restaurante aonde costumava ir. Cumprimentou o dono e se instalou timidamente na segunda sala, menos barulhenta e movimentada. Pediu um folheado de tomate com queijo de cabra, uma especialidade que Madeline lhe revelara. Esperando a entrada, tirou da mochila um dicionário de bolso para procurar o sentido da palavra “lúbrico”, que, acanhado, descobriu. Como que pego em flagrante, teve subitamente a impressão irracional de que todos os fregueses lhe dirigiam olhares acusadores. Madeline tinha um prazer sádico em provocá-lo, espezinhá-lo com suas certezas e referências. Ele ficava chateado porque ela não o levava a sério, considerando-o mais um adolescente que um homem. Aquela mulher o fascinava como uma flor misteriosa. Na maior parte das vezes, ela era como um “grande sol”, loura como um girassol, espalhando luz, confiança e entusiasmo à sua volta. Porém, em determinados momentos, podia ser secreta e soturna, como uma orquídea negra: uma flor rara procurada por colecionadores, que desabrocha em pleno inverno sobre as palmeiras de Madagascar.

 

* * *

O cliente entrou numa hora imprópria. Para atendê-lo, Madeline interrompeu a redação de seu e-mail e escondeu o celular no bolsinho do avental. Era um adolescente, entre quinze e dezessete anos, com visual de roqueiro baby, como se viam à saída dos liceus dos bairros chiques: tênis Converse, jeans slim, camisa branca, jaqueta de grife acinturada, cabelos minuciosamente despenteados.

— Posso ajudar?

— Eu... éhhh... Sim, queria comprar flores — explicou, descansando o estojo do violão numa cadeira.

— Ainda bem. Se tivesse me pedido croissants, seria mais difícil.

— Hã?

— Nada, esqueça. Um buquê pequeno ou grande?

— Na verdade, não faço ideia.

— Pastel ou colorido?

— Hã? — repetiu o adolescente, como se lhe falassem hebraico.

Com certeza não é o mais esperto de sua geração, ela pensou, tentando manter a calma e o sorriso.

— Bom, tem ideia de quanto você gostaria de gastar?

— Não sei. É possível comprar alguma coisa com trezentos euros?

Dessa vez, ela não pôde reprimir um suspiro; detestava as pessoas que não tinham nenhuma noção do valor do dinheiro. Numa fração de segundo, algumas recordações de infância vieram à tona: os anos de desemprego do pai, os sacrifícios da família para que ela pudesse estudar... Como podia existir um fosso tão profundo entre aquele guri nascido em berço de ouro e a menina que ela fora?

— Bom, preste atenção, garoto. Ninguém precisa de trezentos euros para comprar um buquê de flores. Em todo caso, não na minha loja, sacou?

— Saquei — ele respondeu frouxamente.

— Então, essas flores são para quem?

— Para uma mulher.

Madeline ergueu os olhos para o teto.

— Para sua mãe ou sua namorada?

— Na realidade, para uma amiga da minha mãe — ele respondeu, um pouquinho mais constrangido.

— Certo, e que mensagem você quer transmitir ao dar esse buquê?

— Mensagem?

— Está dando essas flores com que objetivo? Agradecer por ela ter te dado um suéter de aniversário ou para lhe dizer outra coisa?

— Éhh... na verdade, a segunda opção.

— Porra, foi o amor que te deixou bobo ou você é sempre assim? — ela perguntou, sacudindo a cabeça.

O adolescente não julgou útil responder. Madeline se afastou do balcão e começou um arranjo.

— Como se chama?

— Jeremy.

— E qual é a idade da amiga da sua mãe?

— Éhh... mais velha que você, eu acho.

— E quantos anos você acha que eu tenho?

Nesse caso também, ele preferiu não responder, prova de que talvez não fosse tão burro quanto parecia.

— Bem, você não merece, mas é o que tenho de melhor — ela explicou, estendendo-lhe o buquê. — São minhas flores prediletas: violetas de Toulouse, ao mesmo tempo simples, chiques e elegantes.

— São muito bonitas — ele admitiu. — O que significam na linguagem das flores?

Madeline deu de ombros.

— Esqueça a linguagem das flores. Dê o que achar bonito e pronto.

— Tudo bem, mas fale.

Madeline fingiu refletir.

— No que você chama de “linguagem das flores”, a violeta representa a modéstia e a timidez, mas simboliza também um amor secreto, portanto, se está com medo que fique parecendo ambíguo, posso substituir por um buquê de rosas.

— Não, as violetas combinam muito bem — ele respondeu, abrindo um largo sorriso.

Pagou a conta e, no momento de deixar a loja, agradeceu a Madeline pelos conselhos.

A sós novamente, ela pegou o celular e se apressou para terminar de escrever a mensagem:

Mil vezes desculpas, Jonathan, por essa tão pouco sutil incursão em sua vida privada. Culpa de uma taça a mais que me fez escrever mais rápido do que minha sombra (um branco macio de Vouvray com aromas de mel, rosa e abricó. Claro que você conhece e, se for o caso, me perdoará ;-)

Acho que a greve do correio não vai durar muito, mas, para não correr nenhum risco, vou contratar um serviço de entrega privado. Chamei um boy que virá pegar seu celular no fim da tarde. Mesmo descontando o fim de semana e os feriados, me garantiram que você vai receber sua encomenda antes de quarta-feira.

Permita-me lhe desejar boas festas, bem como a seu filho.

Madeline

PS: Sou curiosa, perdão. Você me escreveu na última mensagem que, se ainda está de pé no meio da noite, é porque duas perguntas martelam na sua cabeça e o impedem de pregar o olho. Seria indiscreto perguntar quais?

Cara Madeline,

Você quer conhecer os dois enigmas que me impedem de dormir. Ei-los:

1) Eu me pergunto quem é ESTEBAN.

2) Eu me pergunto por que você finge para os seus amigos que quer ter um filho quando toma todas as precauções justamente para NÃO ter...

Em pânico, Madeline desligou o celular e se afastou dele como se para escapar de um perigo.

Ele sabia! Aquele sujeito vasculhara seu celular e descobrira sobre Esteban e sobre o filho!

Uma gota de suor lhe escorreu ao longo da espinha. Ouviu o coração bater forte no peito. As mãos tremiam e as pernas vacilavam.

Como era possível aquilo? A agenda e os e-mails, claro...

Sentiu um grande e inesperado vazio na barriga e teve de lutar para não cair. Precisava se acalmar; apenas com aqueles elementos, Jonathan Lempereur não poderia atingi-la. Enquanto não se apoderasse de outra coisa, não era uma ameaça efetiva.

Mas havia nas entranhas de seu celular um documento que ele não podia encontrar de jeito nenhum. Uma coisa que Madeline não tinha o direito de possuir. Uma coisa que já destruíra sua vida e a levara à beira da loucura e da morte.

Teoricamente, seu segredo estava bem protegido. Lempereur era um bisbilhoteiro sujo, não um ás da informática ou um delator. Jogara com ela, divertindo-se à sua custa, mas, se ela não o cutucasse, ele esqueceria.

Pelo menos, era o que ela esperava.