O Chamado do Anjo
10. A vida alheia
10
A vida alheia
Nosso grande tormento na vida decorre de que somos eternamente
solitários, e todos os nossos esforços e atos são meras tentativas de
fugir dessa solidão.
— GUY DE MAUPASSANT
PARIS
SEGUNDA-FEIRA, 19 DE DEZEMBRO
QUATRO E MEIA DA MANHÃ
Uma neve fina e cerrada caía fazia alguns minutos sobre o oitavo arrondissement. Congelado pelo frio da noite, o bairro do Faubourg-du-Roule estava deserto.
Um Peugeot Partner branco acionou o pisca-pisca antes de parar em fila dupla no meio da Rue de Berri. Embrulhada numa capa com um capuz grosso, uma silhueta feminina saiu de um prédio burguês e entrou numa caminhonete.
— Aumente o aquecimento, está congelando! — Madeline reclamou, ajustando o cinto.
— Já está no máximo — respondeu Takumi, arrancando. — Teve um bom domingo?
A jovem ignorou a pergunta e enfiou as luvas de lã, enquanto a cabine esquentava.
Takumi não insistiu. O carro percorreu a Rue d’Artois e virou à direita para chegar à Rue La Boétie e depois à Champs-Élysées.
Madeline afrouxou o cachecol, pegou um maço de cigarros do bolso e acendeu um.
— Achei que você tinha parado...
— Vai começar! Não vá se intrometer também! Sabe o que Gainsbourg dizia? “Eu bebo e fumo: o álcool conserva as frutas, e a fumaça, as carnes.”
Takumi ficou pensativo por alguns segundos, antes de observar:
— Em primeiro lugar, ele pinçou essa citação de Hemingway...
— ... e em segundo lugar?
— Em segundo lugar, os dois morreram, não?
— Muito bem, os incomodados que se mudem, ou melhor, abram um processo contra mim por fumo passivo!
— Falo isso pelo seu bem — replicou calmamente Takumi.
— Ei, vê se me esquece, pode ser? E tire essa porcaria! — ela ordenou, apontando para o rádio do carro, de onde escapava uma versão nipônica de “Que je t’aime”, interpretada pelo próprio Johnny.
O asiático ejetou o CD e Madeline zapeou pelas estações até encontrar uma rádio de música clássica, que tocava a Suite bergamasque. A música a tranquilizou um pouco. Voltou-se para a janela e observou a neve, que começava a se acumular nas calçadas.
Na rotatória da Porte Dauphine, Takumi pegou a rampa que dava acesso à marginal. Madeline levantara com o pé esquerdo, como às vezes acontecia, mas seu mau humor nunca durava muito tempo. Ele reprimiu um bocejo discreto. Aquelas saídas noturnas para irem até Rungis o encantavam. Pena que precisava acordar de madrugada... Aliás, nem todos os floristas se davam mais a esse trabalho. Boa parte de seus “colegas” se limitava agora a receber as flores diretamente na loja após terem feito a encomenda pela internet! Madeline o convencera de que aquela não era a maneira correta de exercer a profissão e que a primeira qualidade de um verdadeiro florista residia justamente na busca do produto perfeito.
Por causa da neve, a estrada estava um pouco escorregadia, mas nada diminuía o prazer de Takumi de dirigir à noite em Paris. A fluidez do tráfego tinha algo de inebriante e irreal. Continuou pela A6 como se fosse para Orly e logo chegou diante do pedágio do maior mercado de produtos frescos do mundo.
* * *
Rungis fascinava Takumi. O “ventre de Paris” fornecia metade dos peixes, frutas e legumes consumidos na capital. Era lá que se abasteciam os melhores restaurantes e os artesãos mais exigentes. Na última primavera, quando os pais do jovem japonês visitaram a França, fora o primeiro programa que ele organizara para eles, antes mesmo da Torre Eiffel! O lugar era impressionante, uma verdadeira cidade, composta por milhares de pessoas, delegacia própria, estação de trem, corpo de bombeiros, bancos, cabeleireiro, farmácia e vinte restaurantes! Ele adorava aquela efervescência, entre quatro e cinco horas da manhã, quando as atividades chegavam ao auge, em meio ao balé dos caminhões, abarrotados de um universo de aromas e sabores.
No pedágio, Madeline estendeu a carteira de compradora para entrar, e a caminhonete estacionou entre a Avenue des Maraîchers e a Avenue de la Villette, num dos estacionamentos cobertos do setor destinado à horticultura.
Escolheram um carrinho alto e entraram na imensa estufa de vidro e aço. Os vinte e dois mil metros quadrados do pavilhão C1 eram inteiramente dedicados às flores cortadas. Para além das portas automáticas, mergulhava-se num outro mundo, e a monotonia do lado de fora dava lugar a uma sinfonia de cores e cheiros.
Revigorada diante do espetáculo, Madeline esfregou os olhos, despertou completamente e atravessou o saguão num passo decidido. Numa área equivalente a mais de três campos de futebol, cerca de cinquenta atacadistas se alinhavam no imenso galpão, cujos corredores tinham nomes de flores: Alameda das Mimosas, das Íris, das Anêmonas...
— Olá, minha bela! — recebeu-a Émile, responsável pela barraca onde ela comprava boa parte da produção.
Com seu chapéu de palha, seu podador, seu macacão e seu bigode em forma de guidom de bicicleta, Émile Fauchelevent era uma instituição. No mercado de Rungis desde a inauguração, em 1969, conhecia todos os seus segredos e engrenagens.
— Aceita um “puro sem açúcar”? — perguntou, inserindo algumas moedas na máquina de café.
Madeline agradeceu com a cabeça.
— E um chá para Katsushi? — ele acrescentou, desafiando com o olhar o protegido da florista.
— Meu nome é Takumi — respondeu com frieza o asiático —, e vou tomar um cappuccino.
Émile não se desconcertou.
— E um cappuccino para Tsashimi!
O rapaz pegou o copinho sem falar nada e abaixou a cabeça, chateado por não ser respeitado pelo atacadista.
— Um dia, vai ter que dar uns tapas nele — sussurrou-lhe Madeline, enquanto Émile se dirigia a um freguês que acabava de chegar. — Isso eu não posso fazer por você.
— Mas... ele é velho.
— É três cabeças mais alto que você, e tem duas vezes o seu peso! Se isso te tranquiliza, minha birra com ele durou seis meses. Sempre que me via, ele me chamava de Rosbife ou English.
— E como deu um fim nisso?
— Atirando café fervendo na cara dele. Desde então ele me trata como uma princesa.
Takumi se sentia desamparado. No país onde nascera, buscava-se a todo custo evitar o conflito, o confronto ou as atitudes agressivas.
— Mas... por que as coisas aqui são assim?
— São assim em tudo que é lugar — ela respondeu, amassando o copinho antes de jogá-lo no lixo. — E, se quer saber minha opinião, você precisa encarar esse tipo de situação para virar homem.
— Mas eu já sou um homem, Madeline!
— Sim, mas não o que você gostaria de ser!
Ela o deixou com aquela reflexão e foi ao encontro de Bérangère, uma das vendedoras de Fauchelevent, com quem percorreu os diferentes estandes. Comprou dois fardos de folhagem, negociou asperamente o preço das tulipas, margaridas e camélias, mas cedeu quanto a três magníficos maços de rosas do Equador. Sentia-se à vontade “barganhando”, fazendo questão de pagar o preço justo pelas flores. Takumi se incumbiu de transportar aquela primeira carga e encontrou a patroa no recinto reservado às plantas.
Com olhos de conhecedora, Madeline escolheu begônias e miosótis já envasados, enquanto o estagiário pegava as indiscutíveis “estrelas” do Natal: o azevinho, o visco, os bicos-de-papagaio e os heléboros.
Encarregou-o também de comprar as plantas despoluentes — que faziam sucesso cada vez maior nas empresas, mas que ela, pessoalmente, considerava o fim da picada —, para ter mais tempo de escolher as orquídeas brancas e em tons pastel, sobre as quais construíra a reputação de sua loja.
Em seguida, fez uma rápida parada na estufa onde estavam armazenados os bricabraques que permitiam a seus clientes oferecerem presentes divertidos e baratos: velas aromatizadas, plantas “carnívoras”, pequenos cactos em forma de coração, folhas de café plantadas em xícaras de expresso...
Nas prateleiras das decorações, gamou num anjo de ferro que arrasaria em sua vitrine. Takumi a seguia, sorvendo cada uma de suas palavras. Apesar da compleição franzina, considerava uma questão de honra assumir as tarefas mais árduas, empurrando o carrinho que ficava mais pesado a cada parada, erguendo com um braço um saco de terra de dez quilos ou um enorme vaso de cerâmica.
O vento fazia as estufas tremerem. Através dos vidros, era possível distinguir flocos luminosos esvoaçando no céu antes de cobrir o asfalto com sua espuma branca e gelada.
Para adiar o momento de enfrentar a friagem, Madeline se demorou naquele casulo reconfortante. A compra de bulbos da primavera — jacintos, narcisos, amarílis — arrancou-a da melancolia. Para ela, que detestava o período das festas, o início do inverno era o momento mais triste do ano, mas era também aquele em que sentia mais necessidade de ver a vida renascer. Para ela, essa era a verdadeira promessa do Natal...
* * *
SEIS E MEIA DA MANHÃ
Takumi fechou o porta-malas com cuidado. A caminhonete estava abarrotada.
— Vamos, te pago um café da manhã! — ofereceu Madeline.
— Finalmente uma cortesia!
Empurraram a porta do Cordeliers, bistrô instalado no centro do setor hortigranjeiro. Em torno do balcão, vários fregueses jogavam conversa fora, falando sobre como o mundo poderia ser melhor, diante de uma taça de vinho ou de um cafezinho. Alguns estavam absortos na leitura do Parisien, outros preenchiam formulários da loteria ou de corridas de cavalo. Muitas conversas giravam em torno das próximas eleições presidenciais: Sarkozy seria reeleito? A esquerda escolhera o melhor candidato?
Sentaram-se a uma mesa, num lugar um pouco menos barulhento. Madeline pediu um expresso duplo e Takumi se deixou seduzir por um gorduroso kebab.
— Nossa, você deve ter um estômago de aço! Quer me passar sermão sobre o cigarro, mas tem mais é que vigiar seu colesterol.
— Estou aberto a todas as culturas — justificou-se o asiático, dando uma enorme dentada no sanduíche.
Madeline tirou as luvas e desabotoou a capa, depois de pegar o celular de Jonathan.
— Ainda não devolveu — constatou o japonês.
— Você é um bom observador.
— No fundo, isso não me espanta.
— E isso é um problema para você? — ela retorquiu, na defensiva.
— Não, eu tinha certeza de que a história de Lempereur ia lhe interessar...
Ela amansou e pareceu hesitar, antes de lhe estender uma folha de papel que imprimira durante a noite.
— Você, que morou nos Estados Unidos, já ouviu falar nisso?
Intrigado, Takumi desdobrou o artigo e leu a manchete:
JONATHAN LEMPEREUR TRAÍDO PELO MELHOR
AMIGO
Em poucos dias, o mais célebre dos chefs perdeu a mulher, o restaurante e o melhor amigo. Recapitulando uma dupla traição.
(PEOPLE MAG — 3 DE JANEIRO DE 2010)
— Eu não sabia que você lia esse tipo de revista — ele comentou, colocando os óculos.
— Me poupe de provocações, pode ser?
As quatro fotografias que ilustravam a matéria não deixavam margem à dúvida. Haviam sido tiradas em 28 de dezembro de 2009 em Nassau, nas Bahamas. Via-se Francesca na companhia de um certo George LaTulip. O casal fora flagrado por um paparazzo num cantinho de paraíso chamado Cable Beach. Embora “roubadas”, as fotos tinham um lado estético. Num conjunto de algodão claro, a ex-modelo caminhava de mãos dadas com o amante ao longo de uma praia de areia branca e águas turquesa e cintilantes. Sua atitude traía seus sentimentos: em total cumplicidade, sorriam e flertavam, com se estivessem sozinhos no mundo. Na última imagem, os dois pombinhos se beijavam amorosamente no terraço de um café de arquitetura colonial.
Aquela série de poses tinha um lado glamouroso e vintage que lembrava os anúncios da Calvin Klein dos anos 90.
Em geral mais inclinada a revelar as escapadas masculinas, a imprensa sensacionalista não deixou barato os “arroubos de Francesca”. Convém dizer que, nesse mundo hipócrita e maniqueísta, todos os ingredientes estavam reunidos para dar ares de tragédia antiga àquela traição. De um lado, a mulher adúltera de beleza fatal que partia para o fim do mundo para enganar o esposo com o melhor amigo dele. Do outro, o marido fiel que permanecera em Nova York para cuidar do filho e tentar salvar seu restaurante ameaçado. Last but not least, o papel do amante era representado com galhardia por aquele George LaTulip. O homem era alto, moreno, misterioso, sedutor. Um “bonitão”, que, apesar do nome ridículo, apresentava uma semelhança impressionante com o Richard Gere dos bons tempos.
Quando se lia o artigo com um pouco mais de atenção, compreendia-se que George LaTulip trabalhava como auxiliar de Jonathan no L’Imperator — era seu colaborador mais próximo, e também seu amigo. Antes de conhecer Jonathan, George corria as escalações de elenco vendendo cachorro-quente numa dessas carrocinhas ambulantes que pululam em Manhattan. Jonathan tinha uma espécie de dom para detectar o potencial das pessoas. Formara George até transformá-lo em seu auxiliar, dando-lhe estabilidade, conforto material e um currículo que lhe dava certeza de encontrar trabalho até o fim de seus dias. E, para agradecer, o outro lhe roubara a mulher...
— O que acha disso?
— Acho que às vezes as mulheres são putas — respondeu Takumi.
— Se isso te faz dizer tamanha besteira — resmungou Madeline —, acho que vou parar de trazer você aos bistrôs e...
O jovem japonês não permitiu que ela terminasse a frase.
— Espere! Esse nome, George LaTulip, já ouvi em algum lugar! Já não lhe entregamos flores, por acaso?
— Não, não creio. Com um nome desses, eu teria me lembrado com certeza! E depois, me admiraria que morasse em Paris...
Mas Takumi se agarrava à sua ideia.
— Está com seu laptop aí?
Madeline suspirou e tirou da bolsa o computador no qual baixara seu “banco de clientes”.
Takumi colocou a tela diante de si e digitou “LaTulip”. Não precisou de muito tempo para que aparecesse:
George LaTulip
Café Fanfan
22 bis, Avenue Victor-Hugo
75116 Paris
— Eu lhe entreguei um buquê de dálias púrpura, uns oito meses atrás. A encomenda nos foi passada pelo seu colega do 16º, Isidore Brocus. Fiz a nota fiscal em nome do restaurante, daí o nome dele não lhe dizer nada.
— E você? Lembra dele?
— Não, deixei as flores com um empregado.
Madeline não acreditava no que via. Não apenas George LaTulip assumira um restaurante, como residia em Paris. Decididamente, o mundo era uma aldeia...
— Vamos zarpar — ela ordenou. — Termine o seu kebab no carro, mas ai de você se eu encontrar um pingo de gordura no banco!
— Vamos voltar para a loja?
— Você vai voltar para a loja; já eu, acho que vou fazer uma visitinha ao “Fanfan Tulipa”...
— Mas com que pretexto?
— Se acha que preciso de um pretexto para dirigir a palavra a um homem...