O Chamado do Anjo
34. The girl in the dark
34
The girl in the dark
A inteligência procura, mas é o coração que acha.
— GEORGE SAND
O filme durava menos de trinta segundos. Consistia num plano fechado sobre o rosto devastado da garota. Em pânico, visivelmente no fim de suas forças, cheia de olheiras, Alice olhava para a câmera com intensidade. A luz lívida que a rodeava sugeria que estava presa num subsolo ou numa masmorra. A dicção se mostrava intermitente, entrecortada por soluços. Balbuciando, ainda assim conseguiu se dirigir diretamente ao pai, para lhe comunicar as reivindicações dos sequestradores:
Save me, Dad! Change your testimony, please! And we’ll be together again.
Right, Dad?*
Em seguida, a câmera se afastou, permitindo distinguir a franzina silhueta de Alice acorrentada ao encanamento.
— Esse filme chegou às nossas mãos esta manhã por intermédio de um mensageiro — explicou Blythe Blake, congelando a imagem.
Danny cerrou os punhos. Impotente e corroído pela culpa, estava profundamente pessimista.
— Vai fazer doze horas que ela foi sequestrada. Se não encontrarmos a Alice logo, eles vão matá-la, independentemente do que eu fizer. E, sem os remédios, ela corre o risco de ter uma insuficiência renal a qualquer momento.
Blythe se sentou a uma mesa de ferro fundido sobre a qual estavam instalados três laptops.
— Tentamos sem sucesso rastrear o celular da Alice — ela esclareceu, salvando o filme num dos discos rígidos.
Projetou várias vezes a gravação, isolando o canal de som e exibindo dezenas de tomadas, ampliando todo e qualquer detalhe.
Interessada naqueles aspectos técnicos, Madeline se aproximou dos computadores. Blythe detalhou seu procedimento:
— Temos a data e a hora precisas na parte de baixo do filme. Ampliando o canal de som, talvez seja possível detectar ruídos aparentemente inaudíveis: metrô, barulho do tráfego... que podem nos levar a uma pista.
— E a filmadora? — perguntou Jonathan.
— A imagem parece de boa qualidade, apesar da penumbra. É um modelo recente — analisou Blythe.
Com poucos passos, abriu um programa capaz de identificar a marca e o modelo.
— É uma Canon com memória flash, lançada no mercado há menos de um ano. Vou pedir ao FBI para elaborar uma lista com as últimas vendas em loja ou pela internet, mas isso vai levar tempo.
Isolou em seguida o detalhe de uma imagem, que abriu em close.
— O que me chamou atenção foi esse cano! — disse ela, apontando para a ampliação da tubulação à qual Alice estava acorrentada. — É antigo e maciço. À primeira vista, eu diria que esse encanamento tem pelo menos cem anos, mas vou entrar em contato com peritos capazes de datá-lo com precisão. Com um pouco de sorte, cruzando todos os nossos dados, poderemos localizar o esconderijo.
Voltou-se então para o agente que recebera o pen drive contendo o filme.
— Tem o depoimento do mensageiro, Chris?
Pelo celular, o man in black encaminhou um documento que apareceu na tela do computador.
— Ele trabalha para a Bike Messenger, uma agência de entregas perto de Wall Street, mas hoje estava fazendo um bico. Pegou a remessa no cruzamento da Dutch com a John Street, das mãos do próprio remetente: alto, caucasiano, atarracado, na casa dos quarenta... Ele pagou em dinheiro sem mencionar o nome.
— Temos seu retrato falado?
— Éhh... O Terence está interrogando o mensageiro.
— Muito bem, diga a ele que isso é prioridade! Quero poder divulgar as características dele dentro de dez minutos. A partir de agora, cada segundo é importante!
* * *
MEIA HORA MAIS TARDE
O Matchbox** sem dúvida devia seu nome à exiguidade do local. Deus sabe como, o dono do pub conseguira adaptar o lugar para oferecer vinte lugares numa pequena sala aconchegante aberta para um jardinzinho.
Sentado diante de um bagel com salmão, Jonathan acabara de contar a Madeline sua conversa com Francesca.
— O que acha disso?
Ele falara com sinceridade, descrevendo-lhe as circunstâncias precisas nas quais sua mulher matara Lloyd Warner e se livrara do corpo antes de arranjar um álibi com a cumplicidade de George. Uma proeza que lhe permitira não ser acusada de assassinato, mas que lhe custara o casamento.
— Acho que, depois da morte desse cara, o planeta ficou com um canalha a menos — respondeu Madeline.
Uma tirada à la Danny Doyle...
— Acho que a sua mulher tem um tremendo sangue-frio e uma inteligência que dá até medo — completou.
Ela engoliu o último pedaço da torta de queijo de cabra fresco e deu um gole no vinho.
— E acho que você devia voltar para ela.
Jonathan caiu das nuvens. Num segundo, Madeline mandara a relação deles para o espaço.
— E... nós dois?
Ela o fitou nos olhos.
— Não vamos mentir um para o outro. Nossa relação é frágil. Qual é o nosso futuro? Moramos a dez mil quilômetros um do outro, somos dois desgarrados. Sempre vai ter um momento em que você vai se arrepender de não ter voltado a morar com sua mulher e seu filho.
Jonathan tentou manter a calma.
— Ora, você não sabe do que está falando! E ninguém vai se separar por causa de uma hipótese estapafúrdia...
— Você não tem mais nada a fazer aqui. Alice Dixon não representa nada para você. Essa luta não é sua.
— Ela faz parte da minha vida tanto quanto da sua!
Ele levantara o tom de voz. O restaurante era tão pequeno que todos os olhares se voltaram para ele. Detestava aquele lugar, com as mesas grudadas umas nas outras, restringindo o movimento e a intimidade.
— Preste atenção, Jonathan, essa história começou com sangue e vai terminar com sangue. Não vai ter um final feliz, e você não está preparado para enfrentar esse tipo de violência. Eu sou tira, a Blythe trabalha para o FBI, o Danny é um assassino, mas você...
— Eu sou apenas um frágil chef de cozinha, é isso?
— Você tem família...
— Eu achei que você podia fazer parte dela — ele observou, levantando-se.
Deixou duas cédulas na mesa antes de sair da brasserie.
Era a primeira vez que Madeline se sentia realmente apaixonada por um homem. Apesar disso, não procurou detê-lo.
— Se cuide — murmurou apenas.
Mas ele já partira.
O cartel mexicano que encomendara o sequestro de Alice estava manifestamente disposto a tudo. Com o orgulho ferido, Jonathan não compreendera que era porque o amava que Madeline se recusava a arrastá-lo com ela naquele rio de trevas.
* * *
A estação de metrô da Bedford Avenue ficava a um quarteirão dali. Jonathan pegou o trem e retornou a Greenwich.
Na casa de Claire, ficou vinte minutos imóvel debaixo do chuveiro, esgotado pelo fuso horário e pela falta de sono, sentindo um fluxo de emoções e sentimentos contraditórios.
Três da tarde. Ligou para San Francisco e falou demoradamente com o filho. Charly não compreendia por que o pai não estava com ele na véspera do Natal. Mas Marcus se mostrou à altura e o substituía como podia naquele papel de pai que Jonathan nunca soubera exatamente como desempenhar.
Aquele diálogo com o filho o mergulhou ainda mais na tristeza. Para escapar da solidão, vestiu roupas limpas e saiu para tomar um café no primeiro bar que encontrou na MacDougal Street. Esperava que a cafeína o ajudasse a clarear as ideias. Por um momento, imagens de uma família novamente reunida desfilaram em sua mente à maneira de uma apresentação de slides analgésica. Relembrou todos os momentos de plenitude que partilhara com a ex-mulher e com Charly. As confissões de Francesca o haviam libertado de um sofrimento que o aprisionava havia dois anos, afogando-o num nevoeiro que o fizera perder a autoconfiança e as referências.
Agora tinha a oportunidade de reencontrar sua “vida de antes”. Não era afinal o que sempre desejara? Dentro de duas horas, poderia estar num avião para a Califórnia, pegar Charly e voltar a Nova York para passar o Natal com Francesca.
Essa perspectiva era reconfortante. Lembrava-se da frase de um de seus colegas: “Uma árvore sem raízes é apenas um pedaço de pau”. Ele precisava de uma base para não perder o chão. No entanto, a imagem de Francesca se apagou pouco a pouco por trás da de Madeline. A moça sem dúvida tinha razão: a história deles fora construída sobre o vento. E contudo...
Contudo ele era incapaz de se curvar à voz da razão. Madeline flechara seu coração e nele instilara o veneno da saudade.
Mecanicamente, ele pegou uma caneta no bolso e, tomado por uma inspiração súbita, começou a rabiscar no guardanapo de papel. No fim de três minutos, deu-se conta de que concebera uma sobremesa inspirada na jovem inglesa: um mil-folhas de chantili de rosas e violetas, com uma fina massa folheada e caramelizada com laranja-lima da Tunísia. Foi o primeiro a se surpreender. Fazia dez anos que não tinha um lampejo de criatividade e não inventava nenhum prato. Naquele momento, as comportas se abriram e o amor o inspirou novamente.
Essa ideia o reconfortou um pouco e lhe infundiu confiança no futuro. Por que não abrir um restaurante em Nova York acoplado a uma pequena escola de culinária? Finalmente, um projeto que fazia sentido.
Jonathan aprendera com os erros e não cometeria duas vezes as mesmas tolices. Fim da feira das vaidades, da corrida ao estrelato, da busca pela consagração da mídia. Tinha na cabeça um estabelecimento de personalidade, com uma cozinha original e ambiciosa, mas não num cenário luxuoso. Fim das taças de cristal e da louça de porcelana criadas por designers da moda. Nunca mais associaria seu nome a produtos derivados ou a pratos congelados nojentos, vendidos no supermercado. Agora exerceria sua profissão artesanalmente, com o único objetivo de ter e dar prazer.
Saiu do café levando consigo um fermento de esperança. Mas sabia que aquele futuro passava obrigatoriamente pela sobrevivência de Alice Dixon. Onde ele estaria hoje se não tivesse atravessado o caminho da garota? Enterrado a sete palmos do chão, sem dúvida alguma. Devia-lhe a vida; era a dívida mais forte que já contraíra. Uma dívida de sangue que ele estava determinado a honrar.
* * *
Seis da tarde. As imagens do cativeiro de Alice lhe invadiam a mente, embaralhadas. Tentou se lembrar de suas últimas palavras, mas não conseguiu. Dirigiu-se à 20th Street. Começava a anoitecer. Apesar do frio que lhe fustigava o rosto, continuou a perambular pelas ruas, pensando sempre no incrível destino de Alice. Em sua vida, que ela encarara como uma luta. Na força de caráter de que deu mostras ao se libertar das amarras e ser dona do próprio nariz. Desde a mais tenra idade, lutara sozinha, sem família nem amigos, escolhendo sempre o caminho mais árduo: o que consiste em não partilhar a mediocridade, evitar ser cooptada pelos brutos e pelos malvados. Uma linha de conduta já difícil de seguir quando se é adulto, imagine quando se tem treze anos...
Chegou à zona leste de Chelsea. Anoitecera e alguns flocos prateados, carregados pelo vento, esvoaçavam sob os postes de luz. O frio o incitou a empurrar a porta do Life & Death, um famoso bar de drinques. Uma música longínqua ecoava nos quatro cantos do recinto. Jonathan não apreciava necessariamente aquele tipo de lugar, mas o movimento e as conversas lhe davam a impressão de estar menos sozinho. Quanto à música, criava uma espécie de bolha que, paradoxalmente, o ajudava a refletir, a assentar as ideias, a amadurecer as reflexões. Alice... Tinha que se concentrar em Alice...
Sua intuição lhe dizia que a investigação de Blythe Blake e de Madeline fracassaria. Em contrapartida, ele não tinha nenhuma linha de investigação. Só contava com seus neurônios e sua psicologia. O álcool lhe queimou o estômago, mas aguçou sua sensibilidade. Pediu outro copo para manter acesa a emotividade. Como criador, sempre apostara numa forma de inteligência das emoções. Pouco a pouco, a barreira da memória se abriu e o conteúdo do filme passou novamente em sua cabeça. O olhar brilhante e febril da adolescente, seu ar desamparado, a masmorra sórdida, as algemas que imobilizavam seus pulsos, sua voz convulsiva e suas palavras:
Save me, Dad! Change your testimony, please! And we’ll be together again. Right, Dad?
Tentou criar um vazio dentro de si, entrar em sintonia com Alice. O terror que se lia em seu rosto não era fingido, mas havia também uma grande intensidade nos olhos... Apesar do medo, sua inteligência e vivacidade continuavam presentes. Como se ela procurasse não apenas suscitar compaixão, mas também... passar uma mensagem.
Não, era impossível. Certamente haviam lhe entregado um texto para ler, ou pelo menos instruções precisas. Como improvisar alguma coisa com tão poucas palavras?
Ele pegou o descanso de copo de papelão colocado embaixo do drinque e, por desencargo, escreveu as quatro frases:
Save me, Dad!
Change your testimony, please!
And we’ll be together again.
Right, Dad?
Bom, e daí? A acreditar em Danny, a garota sabia perfeitamente os riscos que corria. Sabia que seu sequestrador provavelmente fazia parte do cartel mexicano. Logo, não era a identidade do raptor, mas talvez informações sobre o cativeiro que ela teria procurado comunicar. A não ser que...
Ele teve um lampejo que subitamente impôs a evidência. Pegou a caneta e com ela reforçou a primeira letra de cada frase:
Save me, Dad!
Change your testimony, please!
And we’ll be together again.
Right, Dad?
Colocadas uma depois da outra, as iniciais formavam uma palavra de quatro letras: SCAR.
“Cicatriz” em inglês...
Notas
* “Me salve, papai! Mude o seu depoimento, por favor! E ficaremos juntos
novamente. Certo, papai?”
** Caixa de fósforos.