O Chamado do Anjo

Guillaume Musso · Capítulo 6 de 47

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O Chamado do Anjo

3. Em segredo

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Em segredo

 

Todo mundo tem segredos.

Só é preciso descobri-los.

— STIEG LARSSON

 

Jonathan pisou na embreagem e engatou a terceira. A caixa de câmbio emitiu um barulho estridente de ferragem, como se o carro fosse se desmilinguir ali mesmo. Fez questão de dirigir o 4L — ainda que morassem perto, era impensável deixar Marcus dirigir. Refestelado no assento do passageiro, o amigo curtia seu porre emendando estrofes obscenas do repertório de Georges Brassens:

 

Quand je

 

pense à

 

Fernande,

 

je bande,

 

je

bande...*

 

— Um pouco mais baixo! — ordenou Jonathan, dando uma espiada no retrovisor para se certificar de que o filho continuava no país dos sonhos.

— Desculpe — disse Marcus, erguendo-se para abaixar o vidro da janela.

O canadense pôs a cabeça para fora, oferecendo o rosto ao vento, como se o ar noturno fosse ajudá-lo a curar a bebedeira.

Esse cara é completamente doido..., pensou Jonathan, diminuindo até alcançar a velocidade de um caracol asmático.

O carrinho entrou na parte oeste da Filbert Street, uma das ruas mais íngremes de San Francisco. Diante da ladeira, o calhambeque engasgou, ameaçou pifar, mas terminou recuperando o fôlego para alcançar penosamente o topo da colina, iluminado pela luz branca da Coit Tower, a torre que domina a cidade. Jonathan executou uma manobra arriscada para estacionar na perpendicular, com as rodas voltadas para o interior da calçada. Aliviado por chegar a um porto seguro, pegou o filho no colo e entrou numa passagem em meio a eucaliptos, palmeiras e buganvílias.

Marcus ia atrás, cambaleando. Voltara às suas canções despudoradas, que balbuciava estridentemente.

— Tem gente querendo dormir! — queixou-se um vizinho.

Jonathan agarrou o amigo pelo ombro para incitá-lo a apertar o passo.

— Você é meu único amigo de verdade, meu único amigo do peito... — gaguejou o bebum, agarrando-se a seu pescoço.

Jonathan teve dificuldade para colocá-lo de pé, e foi passo a passo que os “two and a half man” desceram a escadinha de degraus de madeira que rasgava o flanco de Telegraph Hill. A escada serpenteava em meio a uma vegetação quase tropical, dando acesso a pequenas casas coloridas. Poupadas pelas devastações do terremoto de 1906, aquelas habitações de ripas de madeira, construídas originalmente para marinheiros e estivadores, eram hoje prezadas por uma clientela de artistas e intelectuais ricos.

Finalmente chegaram diante do portão de um jardim selvagem e exuberante, onde as ervas daninhas haviam definitivamente vencido a luta com as fúcsias e azaleias.

— Bom, todo mundo para a cama! — lançou Jonathan com a autoridade de um chefe de família.

Então despiu Charly, deitou-o e beijou-o após tê-lo coberto. Em seguida, fez o mesmo com Marcus, menos o beijo. Afinal de contas, não precisava exagerar...

 

* * *

Finalmente em paz, Jonathan foi até a cozinha, serviu-se de um copo de água e saiu para a varanda com o celular embaixo do braço. Atordoado pelo fuso horário, reprimiu um bocejo, esfregando as pálpebras, e desabou numa cadeira de teca.

— E aí, meu velho, perdeu o sono?

Jonathan levantou a cabeça para a voz que o interpelava: a de Bóris, o papagaio tropical da casa.

Tinha me esquecido desse aí!

O animal pertencera ao ex-dono do imóvel, um excêntrico que incluíra em seu testamento a obrigação, para qualquer comprador da mansão, de cuidar ad vitam aeternam de sua ave predileta. Bóris tinha mais de sessenta anos. Durante décadas, seu dono lhe dedicara uma hora diária de logopedia, ensinando-lhe umas boas mil palavras e várias centenas de expressões que ele repetia com um bom senso impressionante.

Impassível, Bóris se adaptara muito bem ao novo lar e era uma fonte de alegria para Charly. Como se não bastasse, entendia-se às mil maravilhas com Marcus, que lhe ensinara toda a coleção de pragas do capitão Haddock. Mas o animal era um maldito bufão, e Jonathan só apreciava moderadamente seu mau caráter e sua língua suja.

— Não está com soooono? — repetiu a ave.

— Estou cansado demais para dormir.

— Bexiguento! — xingou-o Bóris.

Jonathan se aproximou da ave, que, com o grande bico adunco e as patas com garras poderosas, reinava majestosamente no poleiro. Apesar da idade avançada, a plumagem dourada e turquesa conservara o brilho, e a penugem negra que zebrava o contorno dos olhos lhe dava uma aparência orgulhosa e arrogante.

O animal balançou a longa cauda e abriu as asas, reclamando:

— Quero maçã, ameixa, banana...

Jonathan examinou a gaiola.

— Você não comeu os pepinos e as endívias.

— Nojentas as endívias! Quero alpiste, nozes e amendoiiiim.

— Negócio fechado, e eu quero a Miss Universo na minha cama.

Jonathan balançou a cabeça e abriu o laptop. Verificou os e-mails, respondeu a dois fornecedores, confirmou algumas reservas e acendeu um cigarro, enquanto observava os pontos de luz que brilhavam aos milhares no oceano. Dali, a vista para a baía era magnífica. Os arranha-céus do bairro empresarial se recortavam diante da imensa silhueta da Bay Bridge, que corria para Oakland. Aquele momento de quietude foi perturbado por um toque de celular incomum: um trecho de violino, o início de um Caprice de Paganini, segundo seus remotos conhecimentos musicais.

O celular de Madeline Greene.

Se queria mesmo dormir, o melhor era não se esquecer de desligá-lo, pois, com o fuso horário, os telefonemas corriam o risco de se multiplicar. Decidiu, contudo, atender a ligação.

— Alô?

— É você, minha querida?

— Éhh...

— Cansada? Espero que tenha feito boa viagem.

— Excelente. Obrigado por se preocupar.

— Ora, não é a Madeline?

— Claro que não!

— É você, Raphaël?

— Não, sou eu, Jonathan, de San Francisco.

— Juliane Wood, prazer. Pode-se saber por que atendeu o celular da minha melhor amiga?

— Porque trocamos nossos celulares por engano.

— Em San Francisco?

— Em Nova York, no aeroporto. Para resumir. É muito comprido para explicar.

— Ah, engraçado...

— É, principalmente quando acontece com os outros. Então você...

— E como aconteceu?

— Escute, já é tarde e não é muito interessante.

— Ora se não é! Ao contrário, me conte!

— Está ligando da Europa?

— De Londres. Vou pedir para a Madeline me contar. Qual é o seu número?

— O quê?

— Seu número de telefone.

— ...

— Para eu ligar para a Madeline...

— Ora, não vou lhe dar o meu número, eu nem te conheço!

— Mas se a Madeline está com o seu celular!

— Ah, dane-se! Você certamente tem outro jeito de falar com ela! É só ligar para o Raphaël, pronto!

Que tagarela!, ele pensou, apressando-se em encerrar a conversa.

— Alô, alô — repetiu Juliane do outro lado.

Mas que grosso!, ela se irritou, ao perceber que ele desligara o telefone na cara dela.

 

* * *

Jonathan estava decidido a desligar o aparelho quando uma ponta de curiosidade o incitou a olhar novamente as fotos armazenadas no celular. Além das duas ou três poses sensuais, o essencial dos arquivos era formado por fotos turísticas, um verdadeiro álbum de recordações das viagens românticas do casal. Madeline e Raphaël exibiam assim seu amor na Piazza Navona em Roma, numa gôndola em Veneza, diante dos edifícios de Gaudí em Barcelona, agarrados nos bondes lisboetas ou calçando esquis nos Alpes. Lugares que o próprio Jonathan visitara com Francesca quando estavam apaixonados. Porém, como a felicidade dos outros ainda o machucava, deu apenas uma passada de olhos nessa galeria.

Em contrapartida, prosseguiu com a exploração do celular, percorrendo com interesse a biblioteca musical de Madeline. Quando esperava pelo pior — compilações de música brega, pop e R&B —, esfregou os olhos ao descobrir... todas as músicas que amava: Tom Waits, Lou Reed, David Bowie, Bob Dylan, Neil Young...

Músicas melancólicas e boêmias que cantavam a fossa, o blues das manhãs lívidas e dos destinos malfadados.

Era surpreendente. Claro, o hábito não faz o monge, mas era difícil imaginar a moça sofisticada, maquiada e louisvuittonizada do aeroporto se embrenhando naqueles mundos atormentados.

Levando adiante suas investigações, consultou os títulos de filmes que Madeline baixara. Nova surpresa. Nada de comédias românticas, episódios de Sex and the City ou Desperate Housewives, mas longas-metragens menos padronizados e mais controvertidos: Último tango em Paris, Crash, A pianista, Perdidos na noite e Despedida em Las Vegas.

Jonathan se deteve no último título — a história de amor impossível entre um alcoólatra suicida e uma prostituta pirada era seu filme preferido. Quando o descobrira, estava no auge do êxito profissional e familiar. Apesar disso, a longa viagem etílica de Nicolas Cage, afogando no álcool o fracasso de sua vida, parecera-lhe quase familiar. Era o tipo de filme que reacendia as mágoas, despertava os velhos demônios e os instintos de autodestruição. O tipo de história que nos remetia a nossos medos mais secretos, a nossa solidão, lembrando-nos de que ninguém está imune a uma descida aos infernos. Dependendo do nosso estado de espírito na hora, a obra podia nos causar náusea ou nos fazer enxergar mais claro dentro da gente. Em todo caso, ela ia ao ponto.

Decididamente, Madeline Greene tinha gostos inesperados.

Cada vez mais perplexo, dedicou-se a percorrer seus e-mails e mensagens. Afora as mensagens profissionais, o essencial de sua correspondência se compunha de conversas com Raphaël — o namorado, visivelmente superapaixonado e solícito —, bem como com sua melhor amiga — a famosa Juliane, faladeira, teimosa e fofoqueira, mas amiga fiel e bem-humorada. Dezenas de e-mails de um empresário parisiense sugeriam a iminência de uma mudança para uma casa em Saint-Germain-en-Laye que Madeline e Raphaël haviam arrumado com o zelo e o fervor que empenhamos no primeiro ninho de amor. Visivelmente, o casal estava nas nuvens, só que...

... continuando o que merecia certamente ser qualificado como “busca”, Jonathan deu com a agenda eletrônica de Madeline e observou encontros regulares com um certo Esteban. Imaginou imediatamente um playboy argentino, amante da jovem inglesa. Duas vezes por semana, às segundas e quintas, entre seis e sete horas da noite, Madeline ia ao encontro de seu Casanova sul-americano! O amável Raphaël estaria a par dos pecadilhos de sua bela noiva? Não, claro que não. Jonathan passara pelo mesmo dissabor e nunca percebera nada até descobrir a traição de Francesca, quando imaginava seu relacionamento ao abrigo dos tornados.

São todas iguais..., pensou, completamente desencantado.

Nas fotografias, Raphaël lhe parecera um pouco sem sal, com o suéter nos ombros e a camisa azul de genro ideal. Mas, diante do destruidor de felicidade conjugal que sem dúvida era Esteban, Jonathan não podia deixar de sentir por ele a empatia e a solidariedade características dos maridos enganados.

 

* * *

Entre outros compromissos, o termo “ginecologista” aparecia regularmente: a doutora Sylvie Andrieu, que aparentemente Madeline consultava havia seis meses em virtude de um problema de infertilidade. Pelo menos era o que deixavam supor os e-mails enviados por um laboratório de exames clínicos que ela salvara.

Diante da tela do celular, Jonathan se sentia um pouco voyeur e constrangido, mas alguma coisa naquela mulher começava a cativá-lo.

Nas últimas semanas, Madeline fizera os exames mais corriqueiros para detectar uma eventual esterilidade: curvas de temperatura, coleta de material, ecografias e radiografias. Jonathan se achava em terreno conhecido — Francesca e ele haviam passado por problemas similares e se submetido ao mesmo percurso antes de conceber Charly.

Deu-se ao trabalho de ler os resultados com atenção. Pelo que entendia, até que não eram maus. Madeline tinha ciclos regulares, taxas hormonais tranquilizadoras e uma ovulação que não precisava de estímulo. Até o seu queridíssimo se prestara a uma coleta de sêmen, e Raphaël deve ter constatado com alívio que seus espermatozoides eram suficientemente numerosos e móveis para lhe permitir procriar.

Faltava apenas um exame, conhecido como teste de Hühner, para completar o quadro. Examinando as anotações contidas na agenda eletrônica, Jonathan constatou que, de três meses para cá, a data fora sempre adiada.

Estranho...

Ele se lembrava muito bem de seu estado de espírito na época, quando ele mesmo realizara aquele exame com Francesca. Decerto o teste, destinado a verificar a compatibilidade do casal, dava trabalho — o exame devia ser efetuado nos dois dias anteriores à data de ovulação e menos de doze horas depois de uma relação sexual não protegida —, mas, uma vez tomada a decisão de se submeter àquela bateria de exames, você só queria uma coisa: terminá-los o mais rápido possível para ficar tranquilo.

Por que Madeline adiou três vezes a data do teste?

Queimou os miolos, embora sabendo que não encontraria resposta para a pergunta. Enfim, talvez as consultas desmarcadas fossem culpa da ginecologista ou de Raphaël.

— Hora de dormir, palhaço! — interpelou-o Bóris.

Dessa vez, a ave tinha razão. Que ideia era aquela, de pé às duas da madrugada, espionando desesperadamente a tela do celular de uma mulher que só vira por dois minutos na vida?

 

* * *

Jonathan se levantou da cadeira, decidido de uma vez por todas a ir dormir, mas o celular continuava a exercer seu poder de atração. Incapaz de soltá-lo, conectou-o na rede wi-fi da casa antes de consultar mais uma vez a coleção de fotografias. Fez desfilarem as poses de Madeline até encontrar a que procurava. Mandou imprimir e foi para a sala.

A impressora estalou antes de cuspir um retrato em plano americano da moça diante do Grande Canal, em Veneza. Jonathan pegou a imagem e mergulhou o olhar no de Madeline.

Havia um mistério naquele rosto. Atrás da luz e do sorriso, sentia uma rachadura, alguma coisa de irremediavelmente quebrado, como se a foto carregasse uma mensagem subliminar que ele não conseguia decodificar.

Jonathan voltou ao terraço. Hipnotizado pelo celular, verificava agora os diferentes aplicativos baixados por Madeline — jornais informativos, mapa do metrô de Paris, previsão do tempo...

— Qual é o seu segredo, Madeline Greene? — ele sussurrou, roçando na tela.

— Madeline Greeeeeene — repetiu o papagaio, berrando.

A luz se acendeu na casa defronte.

— Queremos dormir! — reclamou um vizinho.

Jonathan abriu a boca para repreender Bóris, quando um programa chamou sua atenção: um “calendário feminino”, no qual Madeline registrava boa parte de sua vida íntima. Organizado como uma agenda, o aplicativo guardava na memória as datas em que ela menstruava, marcava os dias de ovulação, as datas férteis e calculava a média dos ciclos menstruais. Um diário acompanhava a evolução do peso, da temperatura e dos humores, enquanto discretos ícones em forma de coração permitiam à usuária identificar os dias em que tivera relação sexual.

Foi quando observou a disposição dos corações no calendário que a evidência saltou aos olhos de Jonathan: Madeline declarava querer um filho, mas tomava cuidado para só fazer amor fora de seus períodos férteis...

Nota

* Em tradução livre: “Quando penso em Fernande, fico com tesão, com

tesão...” (N. do T.)