O Chamado do Anjo

Guillaume Musso · Capítulo 36 de 47

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O Chamado do Anjo

30. A face oculta da lua

30

A face oculta da lua

 

Cada um de nós é uma lua, com uma face oculta que ninguém vê.

— MARK TWAIN

 

LOWER EAST SIDE

OITO E MEIA DA MANHÃ

Jonathan encaixou o Smart entre dois carros, próximo à calçada, e desceu a Bowery até a 2nd Street. Após ter sido por muito tempo um bairro mal-afamado, o Lower East Side era agora um dos lugares da moda, com seus pequenos cafés e restaurantes incrementados. Jonathan empurrou a porta do Peels, seu lugar preferido para tomar um brunch. O local tinha autenticidade e transmitia calor. Apinhado entre onze e treze horas, ficava mais calmo pela manhã.

Jonathan procurou Madeline no meio da sala irrigada de luz. Em volta de um comprido balcão de madeira clara, uma clientela boêmia e trendy devorava panquecas de banana e tomava cappuccinos.

Madeline não estava ali, o que o deixou imediatamente preocupado. Teria se arrependido da noite que passaram juntos? Teria ido embora intempestivamente? Teria...

Seu celular vibrou. “Estou no andar de cima”, anunciava a mensagem. Ele ergueu a cabeça e a viu debruçada na grade de proteção, fazendo-lhe sinal com a mão.

Aliviado, subiu a escada para se juntar a ela na mesa. Paredes brancas e assoalho claro, grandes sacadas envidraçadas, luminárias modernas; o aposento era agradável.

— Faz tempo que chegou?

Não ousou beijá-la, embora não lhe faltasse vontade de fazê-lo. Ela usava calça jeans e jaqueta de couro acinturada, que ele não conhecia e que sublinhavam sua magreza.

— Acabei de chegar. Simpático aqui. Onde você estava?

— Na casa da minha ex-mulher. Vou lhe contar tudo — ele disse, sentando-se de frente para ela.

Madeline fez cara de indiferença, no entanto ficou admirando-o tristemente, como se fosse o fim... Jonathan tentou pegar sua mão, mas ela não permitiu. Seus olhares se cruzaram, e o silêncio se prolongou. Madeline, delicadamente, terminou entrelaçando os dedos nos dele. Agora estava claro que sentiam mais que um simples desejo mútuo, ainda que não estivessem prontos para qualificar de “amorosa” a relação que os unia.

Óculos de geek, camisa xadrez e bigode gaulês: um garçom de visual hipster se aproximou para pegar o pedido. Jonathan percorreu o cardápio e escolheu um expresso e um monkey bread. Madeline optou por um blueberry cream cookie e um copo de leite.

— Peguei emprestadas umas roupas da sua namorada. Estão um pouco apertadas, mas...

— Ficaram bem em você. E ela não é “minha namorada”... Notícias do Jim?

— Nenhuma — ela respondeu, entristecendo-se. — O celular dele continua na secretária. Vou ligar diretamente para a delegacia.

Enquanto ela digitava o número, Jonathan deu uma espiada no exemplar do New York Post que um cliente abandonara no banquinho. O jornal voltava a um caso de que ele ouvira falar no rádio:

TEM INÍCIO O JULGAMENTO DA HERDEIRA DE UM

CARTEL DE DROGAS

O julgamento de Jezebel Cortes teve início hoje perante uma corte especial da Califórnia. Apelidada de La Muñeca, ela é filha do finado Alfonso Cortes, famoso chefe de um poderoso cartel mexicano, extinto por uma quadrilha rival em março de 2001. Vivendo em Los Angeles sob identidade falsa, Jezebel Cortes foi

presa há três anos quando fazia compras na Rodeo Drive. O teor das acusações incide, sobretudo, no controle de várias quadrilhas de exportação de cocaína para os Estados Unidos, bem como na implementação de um vasto sistema de lavagem de dinheiro. O julgamento foi adiado várias vezes, com os advogados de La Muñeca explorando todo tipo de brechas jurídicas.

Ele interrompeu a leitura assim que Madeline conseguiu falar com a delegacia de Manchester. Ligara para o ex-parceiro, mas foi o detetive Trevor Conrad quem atendeu:

— Madeline? Que prazer...

— Estou tentando falar com o Jim desde ontem à noite. Ele está por aí?

Do outro lado da linha, o policial fez um longo silêncio e revelou:

— O Jim está morto, Madeline.

— Como assim? Ele me ligou faz dois dias!

— Sinto muito. Encontramos o corpo dele hoje de manhã no gabinete. Ele se suicidou.

Madeline ergueu olhos incrédulos para Jonathan, articulando silenciosamente a palavra: “Morto!” Atônito, ele se aproximou dela para acompanhar a conversa. A moça procurou saber mais:

— Espere, o Jim que eu conheço não é o tipo de cara que acaba com a própria vida. Ele estava passando por problemas pessoais?

— Não creio.

— Como aconteceu, Conrad?

O policial hesitou em responder.

— O inquérito está em curso. Não posso revelar detalhes.

— Não banque o idiota. O Jim foi meu parceiro durante seis anos!

Novo silêncio.

— Ligo de volta dentro de cinco minutos — ele anunciou, antes de desligar.

 

* * *

Em estado de choque, Madeline agarrou a cabeça nas mãos. A morte fulminante de Jim lhe provocou uma torrente de emoções e tristeza. Repeliu-as vivamente para não abrir a guarda. Atônito com a notícia, Jonathan se sentiu desamparado. Tentou um gesto carinhoso, mas Madeline se trancara.

— O Conrad certamente vai me ligar do celular dele ou de um orelhão. Todas as ligações da delegacia podem ser gravadas. Ele não quer correr riscos, imagino.

— Não acredita na tese de suicídio?

— Não sei — ela admitiu. — Afinal, você esteve com ele há menos tempo que eu.

Jonathan se lembrou de seu encontro com o policial e tentou transmitir suas impressões:

— Ele estava cansado e irritado, totalmente absorto na investigação sobre Alice Dixon e ansioso para fazer novas descobertas. Mas suicídio é um gesto misterioso, dificilmente previsível ou detectável.

E sei muito bem do que estou falando...

O celular tocou. Era Conrad.

— Bom, o que quer saber? — perguntou o tira.

— Como aconteceu?

— O Jim meteu uma bala na cabeça no gabinete, por volta das quatro e meia da manhã.

— Com a arma de serviço?

— Não, com uma arma não cadastrada.

— E você não acha isso estranho?

— Não comece, Madeline.

— Todos os tiras que se suicidam usam a arma de serviço!

— Nem todos — replicou Conrad. — Conheço uma que se enforcou na sala da casa dela.

O golpe foi inesperado, mas Madeline não desmontou.

— Fale mais sobre essa arma.

— Uma Beretta 92 equipada com silenciador.

— Isso não existe! Quando você decide meter uma bala na cabeça, está se lixando se vai acordar os vizinhos!

E sei muito bem do que estou falando!, ela quase acrescentou.

— Se formos nessa direção, tem outro detalhe perturbador — confidenciou o tira.

— Fale.

— O Jim estava com a arma na mão direita.

— Porra!

Flaherty era canhoto.

— É estranho, mas não prova nada — amenizou o tira.

— Está gozando com a minha cara?

— Quando você coloca o cano na cabeça, não é tiro de precisão. É difícil errar o alvo, dá para usar qualquer uma das mãos...

Madeline se recobrou.

— O que o Jim estava fazendo na hora?

Mas Conrad não estava disposto a contar tudo.

— Já falei demais. Preciso desligar.

— Espere! Poderia me encaminhar os últimos e-mails recebidos pelo Jim, nas horas que antecederam a morte dele?

— Está brincando? Você não é mais da casa, Madeline!

— O Jim era meu amigo!

— Não adianta insistir. E, mesmo que eu quisesse, não poderia.

— Por quê?

— Porque hoje de manhã um vírus contaminou o nosso servidor e atingiu todas as máquinas. Ninguém tem acesso aos computadores.

— Invente outra desculpa.

— É verdade. Se cuide, Madeline.

 

* * *

Ela repeliu o copo de leite que acabavam de depositar à sua frente e pediu no lugar uma caneca de café preto. Em seguida, tirou da mochila o notebook de Jonathan.

— Trouxe o seu computador. Quero verificar de novo o dossiê Dixon. Você não disse que baixou os documentos? Vai ser mais fácil consultar aqui do que no meu celular.

Jonathan ligou a máquina.

— Acredita que o Jim foi assassinado?

— Não sei.

— Pois eu acho que o mataram e que esse crime está ligado ao que ele tinha acabado de descobrir sobre a Alice.

— Não se anime. Há uma semana você nunca tinha ouvido falar desse caso.

— O que me permite ver as coisas de outra perspectiva.

— O que te leva a concluir que...

— Acho que a polícia ou o serviço secreto fizeram de tudo para abafar esse rapto.

— Está viajando!

— Quer fatos estranhos? As câmeras de vigilância! Li o dossiê: na época, uma dúzia de aparelhos filmava as ruas em torno do colégio da Alice. Doze! E, como que por acaso, estavam todas danificadas naquele dia. Isso não lhe pareceu estranho?

— É sua teoria da conspiração que é absurda.

— Eu vi a Alice seis meses depois que você recebeu o coração dela num isopor!

— Nunca saberemos se era mesmo ela.

— Era ela! E o Jim foi morto porque tinha a prova disso!

— Não basta afirmar as coisas. Tem que prová-las.

— A Alice não morreu, acredite em mim.

— Não é uma questão de acreditar ou não.

— A Alice não morreu — ele repetiu. — E, se ainda está viva, foi porque fez um transplante cardíaco. Uma operação que não aparece nos registros de nenhum hospital. Imagine a rede de cumplicidades e a organização necessárias para esquematizar tudo isso! Quem seria capaz de planejar uma operação desse tipo a não ser uma agência do governo?

— Você está vendo muita série de tevê. Escute, todo mundo se lixava para Alice Dixon quando eu investiguei o desaparecimento dela. A mãe foi a primeira, uma junkie que morava num pardieiro. Essa garota era uma coitada, e não vejo o que o governo pode ter a ver com o caso.

Madeline engoliu o café, depois mergulhou no dossiê de Alice pela centésima vez para refrescar a memória. Os autos do primeiro interrogatório de Bishop, o serial killer, estamparam-se na tela, bem como diversas fotografias: a casa miserável de Erin contrastando com o quarto todo arrumado de Alice, seus livros, seus cartazes de concerto, seus pacotes de Oreo e suas caixinhas de leite sabor morango.

Mas a imagem de Jim permanecia incrustada na mente de Madeline. O que ele fizera depois do encontro com Jonathan? O que ela teria feito? Sem dúvida, ele pedira uma análise grafológica e um levantamento das impressões digitais. Talvez uma análise de material genético também... Vasculhando no celular, encontrou o número de Tasha Medeiros, especialista em DNA, do laboratório da polícia científica de Birmingham. Bióloga brilhante, estava longe de ser inflexível quanto aos procedimentos. No passado, Jim e Madeline a solicitaram várias vezes, porque ela aceitava fazer análises urgentes sem passar necessariamente pelos trâmites legais. Convém dizer que Tasha fazia um consumo “controlado” de cocaína, e que Jim, para manter boas relações com ela, lhe passava eventualmente algumas doses apreendidas durante prisões de pequenos traficantes.

— Moral esquisita — comentou Jonathan.

— A polícia não é o mundo da carochinha! — objetou Madeline, discando o número.

Tasha estava de folga naquele dia. Encontrava-se em casa com a filha, mas confirmou que Jim efetivamente lhe pedira para fazer uma análise. Ela estava de plantão na véspera e lhe enviara os resultados por e-mail durante a madrugada.

— Lembra do que se tratava?

— Uma comparação entre dois DNAs.

— Pode me encaminhar o e-mail, por favor?

— Hoje vai ser difícil.

— É muito importante, Tasha. O Jim acabou de morrer. Estou tentando entender por quê.

— Merda...

— Estou lhe enviando meu endereço de e-mail.

— Ok, vou passar no laboratório com a Paola. Você terá os resultados em menos de uma hora.

 

* * *

No computador, Jonathan consultava as fotografias das chacinas de Bishop. Ele reivindicara o assassinato de Alice sem jamais apresentar provas. Em meio àquele dilúvio de sangue e violência, Jonathan teve a súbita consciência de que era graças àquelas atrocidades que Madeline e ele estavam juntos aquela manhã. Se não fosse pelo desaparecimento de Alice, eles nunca teriam se reencontrado...

Enquanto mexia no celular para se conectar à rede, Madeline começou a limpar o filtro de lixo eletrônico. Ele continha uns trinta spams variados, que a incentivavam a comprar relógios de luxo, pílulas para aumentar a energia sexual ou produtos milagrosos capazes de fazê-la perder dez quilos em dez dias.

— Veja isto!

Em meio aos e-mails não solicitados, um chamou sua atenção. Fora-lhe enviado vinte e quatro horas antes por... Jim Flaherty!

Seu coração disparou. Por que o e-mail de Jim fora filtrado pelo programa antispam? Seria em razão dos numerosos e pesados anexos? Madeline leu com ansiedade:

De: Jim Flaherty

Para: Madeline Greene

Data: 22 de dezembro de 2011 18:36 Assunto: Autópsia

Querida Madeline,

Você não vê nada de estranho em nenhuma dessas fotos? Ligue para mim, se for o caso.

Seu amigo, Jim

Seguiam anexos um documento pdf e várias fotografias. Madeline salvou o e-mail no computador para exibir os documentos em modo tela cheia. Referiam-se todos à autópsia de Danny Doyle, o capo de Cheatam Bridge.

— O que esse sujeito tem a ver com isso tudo? — perguntou Jonathan bem alto.

E se debruçou para ler o relatório da autópsia com Madeline. Como ele já sabia, haviam encontrado o corpo de Danny no meio de um depósito industrial, abatido por uma bala na cabeça, com as mãos e os pés decepados e os dentes arrancados. Uma execução atribuída a uma gangue ucraniana, cujo chefe recebera as mesmas atenções meses antes. Os autos do médico-legista eram tradicionais: precisão da hora da morte após a rigidez cadavérica, evidência de vestígios de pólvora em torno do ferimento, análise dos órgãos, do sangue, do conteúdo gástrico, do DNA. Inúmeros elementos confirmavam a identidade de Danny Doyle, sem sombra de dúvida.

Como é frequente nas autópsias de crimes violentos, as fotos davam náuseas: o rosto violáceo e deformado pela tortura, o tórax esverdeado riscado até o abdome, dezenas de hematomas pelo corpo inteiro. Danny havia sido torturado e não partira em paz. Mas o que Jim conseguira ver de “estranho” naquelas fotos?

Madeline deu zoom para ampliar algumas partes.

— Chegaram a arrancar um pedaço da orelha dele — observou Jonathan.

Madeline franziu as sobrancelhas e examinou a área que ele apontava com o dedo. Era verdade: o cadáver tinha uma parte do lobo da orelha direita rasgada. Mas aquele ferimento parecia antigo. Ora, Danny nunca tivera uma orelha defeituosa, ao contrário de... Jonny, seu irmão gêmeo.

— Não é o Danny, é o irmão dele! — ela exclamou.

Ela contou a história a Jonathan: os dois bebês nascidos num intervalo de cinco minutos, a rivalidade entre eles, a violência e a crueldade de Jonny, que sofria de esquizofrenia, tendo sido internado várias vezes após se afundar no alcoolismo.

Voltou ao relatório da autópsia para ler o parágrafo sobre a análise dos órgãos. O fígado do cadáver estava acometido de uma “degenerescência dos tecidos possivelmente causada por absorção de álcool”.

Uma cirrose.

— O Danny tomava umas de vez em quando, mas nunca foi alcoólatra.

— Como os policiais puderam confundir uma coisa dessas?

— Os gêmeos idênticos possuem a mesma carga genética, o que torna impossível distinguir com precisão seu DNA.

— Tem certeza?

— Já houve diversos casos dessa natureza. Lembro de um assaltante na Alemanha e um traficante na Malásia. Nos dois casos, o suspeito tinha um irmão gêmeo idêntico, e a justiça foi obrigada a soltá-lo, por não ser capaz de identificá-lo com certeza.

— Mas se esse cadáver é do Jonny...

— Isso significa que o Danny está vivo — confirmou Madeline, pensativa.

 

* * *

Eles pediram outra caneca de café. Durante vários minutos, perderam-se em conjecturas até Madeline receber o e-mail de Tasha Medeiros, a especialista em DNA do laboratório de Birmingham.

De: Tasha Medeiros

Para: Madeline Greene

Data: 23 de dezembro de 2011 14:48 Assunto:

Madeline,

Aqui está o resultado da análise que o Jim havia me pedido para fazer sem passar pelos trâmites oficiais.

Estou muito triste por ele.

Espero que isso possa ajudá-la.

Tasha

Intrigadíssima, ela clicou no anexo enquanto Jonathan se debruçava sobre seu ombro para espiar o documento, que tinha a forma de uma tabela complexa com cerca de quinze linhas e seis colunas. Cada espaço continha vários algarismos. Eles precisaram de alguns segundos para compreender que se tratava de um teste de paternidade. Pularam então para o último parágrafo, que mencionava o resultado, e o que descobriram os deixou sem voz:

Teste de paternidade realizado sem material

genético da mãe

Baseado na análise do DNA.

Pai alegado: Daniel Doyle Filho: Alice Dixon

Foram encontrados alelos similares nos 15 loci analisados.

Probabilidade de paternidade estimada em: 99,99%

Antes de morrer, Jim tivera uma intuição genial. Depois de três anos de inquérito, conseguira provar não apenas que Danny Doyle não estava morto, como também que era pai de Alice Dixon.

Uma descoberta que ele pagara com a própria vida.