O Chamado do Anjo

Guillaume Musso · Capítulo 42 de 47

Páginas do PDF

O Chamado do Anjo

36. Finding Alice

36

Finding Alice

 

A única coisa capaz de substituir a dependência do passado é a

dependência do futuro.

— JOHN DOS PASSOS

 

LOWER EAST SIDE

UM PRÉDIO PRÓXIMO AO TOMPKINS SQUARE PARK UMA HORA DA MANHÃ

Jonathan empurrou a porta do banheiro. Madeline dormira dentro da banheira. Ele encontrou um roupão pendurado na porta e se aproximou para acordá-la suavemente. Ela estava pálida, o olhar vazio, os gestos lassos. Dócil, deixou-se envolver e massagear com a túnica atoalhada.

Era muito perigoso voltar para a casa de Claire ou se hospedar num hotel, onde poderiam ser facilmente descobertos. Após ter estacionado o carro algumas ruas adiante, haviam encontrado refúgio naquele quartinho de hóspedes pertencente a Anita Kruk, uma velha polonesa, dona de uma delicatéssen no coração de Alphabet City. Certa vez, Jonathan contratara sua filha como garçonete no L’Imperator e Anita não o esquecera. Para terem certeza de que não seriam localizados, haviam desligado os celulares e os deixado no Pontiac. Os únicos objetos que levaram consigo foram o computador e a arma de Danny.

Houve uma batida na porta. Enquanto Madeline entrava debaixo das cobertas, Jonathan abriu para Anita. A velha trazia uma bandeja sobre a qual estavam dispostas duas tigelas fumegantes de zurek, uma sopa de legumes com farinha e centeio fermentado.

Jonathan agradeceu à sua protetora e ofereceu uma das tigelas a Madeline:

— Prove, você verá, é... especial.

Ela tomou uma colherada da sopa e, nauseada, cuspiu-a de volta.

— É, talvez seja um pouco amarga, mas o que vale é a intenção, não é?

Sem esperar por resposta, ela apagou a luz e caiu no sono.

Antes de se juntar a ela, Jonathan se aproximou da janela e olhou através do vidro. A neve continuava a cair num ritmo consistente. Uma camada de mais de dez centímetros de flocos de gelo cobria a rua e as calçadas. Onde estava Alice àquela hora e naquele frio? Pelo menos continuava viva? Conseguiriam arrancá-la daquele inferno?

Ele precisava ser realista: as coisas estavam mal. A morte de Blythe tornava agora altamente hipotética a possibilidade de chegar ao local do cativeiro.

As palavras de Madeline lhe voltaram à memória como um eco premonitório: “Essa história começou com sangue e vai terminar com sangue”.

Ele ainda não sabia a que ponto ela tinha razão.

 

* * *

ENTREPOSTO DE CONEY ISLAND

DUAS HORAS DA MANHÃ

No silêncio do quarto glacial, ouvia-se apenas o ronronar de uma respiração ofegante.

Foi o frio que despertou Alice. O frio e a dor, uma dor dilacerante que lhe fustigava os rins ao menor movimento. Deitada de lado, o braço torcido, perdera quase toda a sensibilidade naquela parte do corpo, completamente dormente. O sangue pulsava nas têmporas, e à dor de cabeça se misturavam tremedeiras e palpitações.

Tossiu para limpar o pulmão, tentou engolir a saliva, mas teve a impressão de que a língua estava dura como gesso.

Não sabia quanto tempo se passara desde o rapto. Algumas horas? Um dia? Talvez dois? Tinha vontade de urinar o tempo todo, mas os músculos da bexiga davam a impressão de estar paralisados.

Sufocava. O pensamento estava fragmentado, a visão turva, a febre a fazia delirar. Imaginava que um rato gigante estava lhe devorando o ventre, enquanto sua longa cauda escamosa se enrolava no pescoço dela para estrangulá-la.

 

* * *

OITO HORAS DA MANHÃ

— De pé!

Jonathan abriu um olho e despertou com dificuldade.

— De pé! —repetiu Madeline. — Temos que ir.

Um fulgor lácteo atravessava o vidro. O dia mal despontara.

Jonathan reprimiu um bocejo e saiu da cama com dificuldade. Madeline já estava vestida. Após aquela curta noite de sono, recuperara-se e parecia mais determinada do que nunca.

Enquanto ele percorria o corredor que dava acesso ao banheiro, ela lhe atirou as roupas.

— Deixe o banho para amanhã! Não temos tempo!

Saíram na rua após terem deixado algum dinheiro para a dona da casa. Naquela manhã, não eram mais dez centímetros de neve, mas pelo menos o dobro que cobria a cidade. Os flocos continuavam a cair, prejudicando o trânsito. Nas calçadas, as pessoas limpavam as entradas, funcionários municipais jogavam sal no calçamento, e, na Bowery, dois imensos removedores empurravam a neve para os dois lados da rua, afogando sob uma avalanche as bicicletas e os carros mal estacionados.

Encontraram o Pontiac e pegaram os celulares, antes de continuarem a caminhada em direção ao Peels, seu novo quartel-general.

Por causa da neve e da hora matinal, o café estava vazio. Instalaram-se na mesma mesa da véspera e pediram café, iogurte e cereais.

Como não havia aparelho de tevê, Madeline pegou o computador e estabeleceu uma conexão wi-fi.

— Qual é o site de notícias locais mais confiável aqui?

— Tente o NY1 News.

Madeline entrou no site. A página inicial abria com um vídeo — NY1 Minute — que resumia os fatos do dia em sessenta segundos. Se três quartos das notícias se referiam às nevascas inesperadas que ameaçavam paralisar Nova York, a última parte evocava “o misterioso assassinato, esta noite, de uma US marshal, Blythe Blake, morta com uma bala na cabeça. O corpo foi encontrado no rio Hudson. A ex-militar estava encarregada da proteção de um cidadão que deve prestar um depoimento crucial na próxima segunda-feira, por ocasião do julgamento da baronesa das drogas Jezebel Cortes. Essa testemunha-chave se encontra agora sob a proteção do FBI”.

Madeline respirou. Era impossível saber se a polícia descobrira a culpa de Blythe, mas pelo menos Danny estava fora de perigo. A satisfação durou pouco: precisava encontrar a adolescente, e eles não tinham nenhuma pista.

— A Blythe sem dúvida tinha um cúmplice — observou.

Jonathan verteu café na xícara da moça antes de se servir, depois disse:

— Temos que recomeçar a investigação do zero. É evidente que, nas horas que se seguiram ao rapto da Alice, a Blythe deu um jeito de eliminar as provas e sabotar as investigações.

— Em que está pensando?

— Em localizar o celular da Alice.

— Não temos equipamento. É um trabalho de tira.

Jonathan balançou a cabeça.

— Hoje em dia, não. Com o aumento dos roubos de celular, muitas operadoras aconselham seus clientes a ativarem a função de localização a distância. Se o smartphone da Alice for recente, com certeza tem essa opção.

Madeline não tinha tanta certeza.

— Não sabemos nem o número dela...

— Não funciona com o número, mas com o endereço de e-mail.

Jonathan voltou para ele o monitor a fim de entrar no site Localizar meu Smartphone, de uma famosa marca de informática. Para conseguir detectar o aparelho, era preciso fornecer o endereço eletrônico, bem como a senha associada.

— Não temos nem um nem outro, portanto essa opção está descartada — disse Madeline, mal-humorada, vendo-o digitar.

Dessa vez, Jonathan subiu o tom:

— Eu poderia saber por que, sempre que tenho uma ideia, você não gosta dela?

— Porque vamos perder tempo para nada!

— Não esqueça que foi GRAÇAS A MIM que desmascaramos a Blythe!

— Mas foi POR SUA CAUSA que fui obrigada a atirar nela! — ela rebateu.

Pronto, era isso. A culpa que corroía Madeline acabava de voltar com força. Jonathan preferiu tentar acalmá-la:

— Como é que você falou mesmo? Um canalha a menos... Escute, independentemente do que aconteceu, a Blythe nunca teria dito onde a Alice está presa.

— Se isso é capaz de aliviar a sua consciência...

— O que é capaz de aliviar a minha consciência é você me ajudar a encontrar a Alice!

Ela apontou o dedo para ele e se preparava para lhe desfechar outra resposta quando compreendeu que ele não estava errado.

— Porra! A gente discute como um casal de velhos! — exclamou, consternada.

E se aproximou do computador.

Por favor, digite o usuário.

— E aí, Sherlock, alguma ideia?

— Podemos tentar uma conta hotmail ou gmail — sugeriu Jonathan. — Ou melhor... Por que não a conta da escola de artes?

Julgando a ideia interessante, Madeline abriu uma nova janela para se conectar ao site da Juilliard School. Aparentemente, os professores, os funcionários e os alunos se beneficiavam de uma conta básica de correio

eletrônico: prenome.sobrenome@juilliard.edu. Madeline digitou

conscienciosamente: alice.kowalski@juilliard.edu.

Agora digite a senha.

— Agora embatuquei — confessou Jonathan.

— Espere! E se ela conservou a antiga?

— A que ela usava quando tinha catorze anos?

— As pessoas fazem muito isso, não fazem? Eu, pelo menos, uso a mesma senha há séculos.

— E qual é?

— Mind your business!*

— Vamos, fale!

— Nem pensar!

— Por favor!

— violette1978 — ela suspirou. — Agora vou ter que alterar…

— 1978 é o ano do seu nascimento?

— É. Por quê, que idade você me dava? Mais ou menos?

Ele lhe respondeu com um sorriso, feliz com o retorno da cumplicidade.

— Qual era a senha da Alice na época?

— Heathcliff, o personagem principal de O morro dos ventos uivantes.

Jonathan digitou a senha.

— Vamos cruzar os dedos — disse, apertando a tecla enter.

O computador embromou alguns segundos durante os quais eles se olharam em silêncio com um misto de ansiedade e incredulidade. Não podia ser tão simples. Desde o início, a sorte lhes escorrera pelos dedos. Nada lhes sorria. Os obstáculos haviam se multiplicado, cada vez mais insuperáveis, trazendo consequências cada vez mais trágicas. Não podia ser isso.

Mas era...

Um mapa de Manhattan apareceu no computador e um ponto azul cercado por uma auréola piscou na tela — não apenas o celular de Alice se encontrava em Nova York, como estava a menos de três quilômetros dali!

 

* * *

Eles se levantaram num pulo, gritando e fazendo com que os raros fregueses erguessem a cabeça. Haviam bastado dois minutos para que a esperança voltasse.

Jonathan se debruçou sobre a tela para situar o ponto mais precisamente: um grande prédio na esquina da 5th Avenue com a 23rd Street.

— Sabe que lugar é esse? — perguntou Madeline, quase ofegante de excitação.

— O mercado italiano em frente ao Flatiron.**

Salvaram os dados nos celulares e saíram na Bowery. Nevava tão forte que desistiram do carro.

— Vamos a pé? — ela sugeriu.

— Não, com esse tempo levaríamos meia hora! Melhor tentar um táxi.

Contudo, em virtude da tempestade, muitos yellow cabs haviam ficado na garagem, e eles tiveram de batalhar mais de cinco minutos antes de conseguir um carro na Broadway.

Uma vez instalados, verificaram na tela a posição do telefone de Alice. Aparentemente, o ponto não se movera.

— Espero que o celular não tenha sido jogado fora — preocupou-se Jonathan.

— O que é esse mercado que você mencionou?

— Chama-se Eataly, o templo da gastronomia italiana em Manhattan. É uma espécie de supermercado de luxo.

Chegaram em frente a uma loja imensa. Por uma nota de vinte dólares, o táxi aceitou esperá-los com a condição de que suas compras não excedessem dez minutos.

O mercado coberto acabava de abrir, mas, naquele dia de Natal, já estava, ao contrário das ruas, entupido de gente.

— Venha!

Com os olhos grudados na tela, percorreram uma parte dos milhares de metros quadrados de lojas, restaurantes e vitrines de produtos sofisticados.

O celular de Alice emitia um sinal a cada trinta segundos, oferecendo a localização em tempo real. O poderoso GPS permitia situá-lo com uma precisão de dez metros.

— Por aqui!

Usando os cotovelos, esgueiraram-se por entre pirâmides de pão de levedo, caixas de massa e risoto, bolas de parmesão, presuntos de Parma pendurados no teto, o restaurante vegetariano, a pizzaria...

— É aqui!

Estavam agora no corredor que agrupava os estandes de degustação de sorvetes e café.

Tensos, examinaram dezenas de pessoas que se comprimiam no corredor. O movimento era grande, a multidão densa, o lugar barulhento.

— Não vai ser fácil — suspirou Madeline. — Você não teria outra ideia genial?

Jonathan abaixou os olhos para a tela.

— O site permite exibir uma mensagem no celular ou fazê-lo tocar sem parar durante dois minutos, mesmo que esteja no modo silencioso.

— Tente isso!

Ele acionou a função e eles se concentraram.

Porém, no meio do burburinho e do alarido da multidão, era impossível ouvir qualquer toque, mesmo num raio de poucos metros.

— Prepare-se para recomeçar! — disse Madeline, sacando a arma.

— O que você vai...?

Sem hesitar, ela deu um tiro para o alto.

— Agora!

A potente deflagração assustou todos os presentes. Antes da gritaria, houve meio segundo de estupor durante o qual reinou um silêncio quase absoluto. Meio segundo suficiente para que se fizesse ouvir o bipe prolongado de uma campainha.

— É ela! — indicou Madeline, apontando a arma para uma jovem vendedora da barraca de expressos.

Era uma bonita garota, entre dezoito e vinte anos. Uma mestiça com longos cabelos negros frisados. O celular saía do bolso de seu avental. Madeline se precipitou sobre ela e a puxou com força para fora do balcão.

— Venha conosco! — ordenou.

Com a garota aos prantos, quase a carregando, Madeline e Jonathan conseguiram deixar o local antes da intervenção do serviço de segurança.

Felizmente, o táxi os esperava.

— Ei, que negócio é esse? — queixou-se o motorista, percebendo o Colt.

— Ande logo ou a próxima bala é para você! — berrou Madeline.

Depois, voltando-se para a garota ainda em lágrimas:

— Quem é você?

— Meu nome é Maya.

— Desde quando está com esse celular?

— Desde... desde ontem de manhã — ela respondeu, entre dois soluços.

— Pare de choramingar! Quem te deu o aparelho?

— Foi presente do meu namorado, Anthony.

— Presente?

— Ele pegou no trabalho dele — ela esclareceu. — Pediu para não desligar, porque ele não sabe a senha para reiniciar o celular.

— E que trabalho é esse?

— O Anthony trabalha no depósito de carros do Brooklyn, na Columbia Street.

Um depósito de carros... Era um possível local de cativeiro. A pista se tornava interessante.

— Ele está trabalhando hoje?

— Não, está na casa dos pais, em Stuyvesant Town.

Madeline se voltou para Jonathan, especialista na topografia da cidade.

— Não é muito longe. Bem a leste, entre a 14th e a 23rd Street.

Ela deu duas batidinhas no vidro que os separava do motorista.

— Captou, Fangio?

 

* * *

Construído na esteira da Segunda Guerra Mundial, Stuyvesant Town era um complexo tentacular de uma centena de pequenos prédios de tijolos vermelhos. Com aluguel controlado, permitira a gerações de pessoas de classe média — policiais, bombeiros, professoras primárias, enfermeiras — que continuassem morando no coração de Manhattan, apesar da escalada dos preços dos imóveis.

Guiado pelas indicações de Maya, o táxi se esgueirou por entre os prédios de apartamentos.

— É aqui, no nono andar. A segunda porta à direita, saindo do elevador.

— Suba conosco. E você, chispa! — ela ordenou ao táxi, que arrancou sem pedir explicações.

A porta da habitação popular cedeu ao pontapé de Madeline. A ex-tira recuperara não apenas os antigos reflexos, como uma determinação que beirava a compulsão. Sua facilidade para passar à ação preocupava Jonathan, ainda que ele soubesse que era imprescindível agir rápido se quisessem encontrar Alice.

O apartamento estava vazio a não ser pelo famigerado Anthony, que se proporcionava uma manhã preguiçosa. Antes de poder se dar conta de qualquer coisa, ele se viu nu em pelo com a arma de Madeline apontada para os testículos.

O sujeito era alto e magro, com abdome de aço e tatuagens de rapper. Seu primeiro reflexo foi esconder o pênis, mas Madeline o obrigou a manter as mãos para cima.

— Se não quiser que eu exploda seu Black Mamba, vai ter que responder às minhas perguntas, entendido?

— Ent... entendido.

— De quem você roubou esse celular?

Jonathan agitou o aparelho de Alice na cara dele.

— Eu achei.

— Onde?

— Num carro que reboquei com o meu guincho ontem à noite.

— Que carro era esse?

— Um Dodge novinho em folha — explicou. — O celular estava dentro, embaixo de um dos bancos de trás.

— E esse Dodge, onde o pegou?

— Em Coney Island.

— Seja mais preciso! — exigiu Jonathan. — Dê o nome da rua.

— Não sei direito! Perto da praia. Do lado do antigo trem-fantasma. Perto do vendedor de cachorro-quente. Lembro que tinha uns cães no terreno da frente que latiam o tempo todo...

Jonathan consultou o mapa no celular.

— Aqui? — perguntou, mostrando um ponto no mapa.

— Mais perto do mar. Aqui, do lado direito.

Madeline memorizou as coordenadas.

— Vamos lá! — exclamou, saindo do apartamento.

Notas

 

* “Cuide da sua vida!”

** Um dos mais antigos e populares arranha-céus de Manhattan, de forma

triangular, como um ferro de passar (flatiron).