O Chamado do Anjo
37. A febre no sangue
37
A febre no sangue
Enquanto um animal se encolhe no escuro para morrer, o homem busca
a luz. Quer morrer em casa, em seu elemento, e as trevas não são seu
elemento.
— GRAHAM GREENE
CONEY ISLAND
DEZ HORAS DA MANHÃ
Alice estava encharcada da cabeça aos pés. Grossas gotas de suor escorriam pelo seu rosto. Abaixou a cabeça e constatou que uma mancha de sangue atravessara a calça de moletom na altura do baixo-ventre. Os rins sangravam. Agora não teria mais muito tempo. Ainda devorada pela febre, voltou a si apesar do delírio, recuperando um pouco da lucidez.
Não vou morrer antes de tentar tudo...
Sentiu que o cordão de náilon que imobilizava os tornozelos afrouxara um pouco. Não o bastante, mas dava para soltar os pés. As pernas estavam pesadas. Deitada no chão, fez um esforço para empurrá-las para cima, a fim de se apoiar na mureta estreita que sustentava a latrina. Nessa posição, começou a esfregar o cordão de náilon contra a aresta da parede. O canto estava desgastado e serrilhado, mas algumas partes continuavam suficientemente afiadas para carcomer a fibra.
Gotejando de suor, os músculos torturados por cãibras, continuou aquele movimento de vaivém durante quinze minutos, até que...
O náilon cedeu!
Animada com a pequena vitória, recuperou com alívio certa liberdade de movimentos. Claro, as algemas ainda a acorrentavam ao encanamento, mas mais nada lhe parecia impossível. Ficou de cócoras e passou um pé sobre o outro para reanimar as pernas. Apesar da luz fraca, examinou minuciosamente a canalização. O sistema tinha pelo menos uns cem anos. Detectou um ponto de emenda entre dois canos onde a ferrugem começara a atacar o ferro.
Se essa porcaria ceder, vai ser naquele ponto ali!
Posicionou-se e, com a sola direita do tênis, deu um chute violento na junção dos canos. Toda a estrutura se abalou, mas não se quebrou. Sob o efeito do choque, os braceletes metálicos lhe cortaram um pouco mais a carne, mas precisava vencer aquela dor.
O cano ia se romper. Alice tinha certeza disso. Infelizmente, sua investida contra a tubulação provocara um barulho estridente que se espalhara por todo o prédio. Rezava para que o russo não estivesse por ali...
De qualquer jeito, o que tinha a perder?
Determinada, reuniu o pouco de forças que lhe restava para encadear uma série de golpes cada vez mais violentos. Sua intuição se revelou correta: após ter resistido a uma dezena de investidas, o encanamento cedeu na altura do ponto nevrálgico.
Alice soltou um grito furioso e libertador.
Livre dos ferros, voltou-se e...
... a silhueta inquietante de Yuri apareceu no vão da porta. Uma contração sinistra deformava o rosto inchado.
— Minha pequena Matrioshka... — ele disse, avançando em sua direção.
Alice emitiu um berro bestial e perdeu os sentidos.
* * *
MANHATTAN
Madeline e Jonathan saíram do conjunto habitacional. O céu estava escuro e a tempestade continuava a varrer a cidade. A neve caía insistentemente havia cerca de doze horas. A camada fofa ultrapassava agora trinta centímetros, e nada indicava que iria parar de crescer. Ao contrário, flocos pesados e grossos caíam num ritmo cada vez mais intenso. Para piorar, os pedestres tinham dificuldade para andar, refreados pelas ventanias glaciais que lhes atingiam o rosto em cheio.
— Como vamos para Coney Island? — gritou Madeline, a fim de encobrir a nevasca.
— Vamos tentar o metrô. Tem uma estação do outro lado da rua.
Para Jonathan, que residira durante anos em Nova York, a neve não era novidade, mas a amplitude da tempestade pegara a prefeitura desprevenida.
Até mesmo na 14th Street, embora bem larga, um ônibus estava impedido de avançar. Os táxis patinavam, e um ciclista temerário acabava de levar o tombo mais memorável de sua vida. Os removedores de neve e as retroescavadeiras varriam laboriosamente as grandes artérias, mas pareciam em número insuficiente para limpar as ruas secundárias. As equipes de manutenção estavam manifestamente com falta de pessoal. Sem dúvida, em razão das festas natalinas.
Madeline e Jonathan se engolfaram na estação, cuja escada se transformara num autêntico rinque de patinação.
— A neve vai causar um pandemônio! — preocupou-se Jonathan. — Isso vai virar um caos em menos de uma hora.
Na plataforma, os atrasos se acumulavam. Com dificuldade, conseguiram se esgueirar num vagão lotado.
— É longe? — perguntou Madeline, consultando o relógio.
Jonathan verificou no mapa afixado no trem.
— A linha não é direta. Temos de fazer uma baldeação na Union Square. De lá, é menos de uma hora.
— E de carro?
— Normalmente uns vinte minutos, mas não num dia como hoje.
O vagão avançava devagar e parou tantas vezes que levou uma eternidade para percorrer a distância entre três estações.
Assim que desceu na plataforma, Madeline agarrou Jonathan pelo braço.
— Me beije! — pediu, para enganar eventuais câmeras de vigilância.
E se aproveitou do enlace para enfiar o Colt no jeans de Jonathan.
— O que quer que eu faça com isso?
— Você continua de metrô, eu tento a sorte na rua.
— Isso é loucura, Madeline! O trânsito vai estar parado na saída de Manhattan.
— Tenho uma ideia — ela disse. — O primeiro que chegar faz o que tem que fazer. Take care.
Ele tentou protestar, mas ela não lhe deu tempo.
* * *
O céu estava tão escuro que parecia noite fechada. Em geral bastante movimentada, a Union Square estava quase deserta. Os raros carros haviam acendido os faróis de neblina e avançavam lentamente. Os dizeres “Off duty” reluziam no teto dos táxis. Para liberar a rua, um 4x4 da NYPD rebocava um carro abandonado. Apenas os veículos utilitários circulavam normalmente. Madeline percebeu uma limusine chafurdada na neve no início da Park Avenue. Posicionou-se perto do automóvel e esperou que um dos Ford Explorer da polícia parasse para guinchar o veículo. Aguardou o momento preciso em que os dois policiais saíram do 4x4 para se instalar no banco da frente.
— Ei! — gritou o oficial.
Ela arrancou feito um raio. Aquele carro devia pesar duas toneladas e medir quase cinco metros. Em todo caso, era superestável. Madeline prendeu o cinto, ajustou o assento e os retrovisores. Agora conhecia bem o bairro e tomou a direção sudeste. No GPS, inseriu as coordenadas fornecidas por Anthony, o ladrão do depósito de carros. Daquela vez, sabia que estava perto do alvo. Graças a Jonathan, conhecia o local do cativeiro de Alice. Estava prestes a escrever o epílogo de uma investigação que a atormentava fazia mais de três anos.
Claro, os tiras tentariam interceptar seu carro e todas as viaturas policiais eram localizáveis por satélite, mas era justamente isso que ela pretendia: atrair o máximo de policiais para Coney Island para qualquer eventualidade.
Os primeiros quilômetros se desenrolaram como um sonho. No comando do utilitário, Madeline tinha a impressão de que a cidade abandonada lhe pertencia. Um pouco mais à frente, nas imediações da Brooklyn Bridge, o trânsito piorou. Ela sintonizou o rádio numa estação local. O alerta da prefeitura era incansavelmente repetido, pedindo aos moradores que evitassem se deslocar durante a tempestade. Mas aqueles bordões eram ignorados pelos nova-iorquinos, que, naquele fim de semana de Natal, não desistiriam de Manhattan.
Madeline acionou o giroflex e a sirene. O efeito foi imediato. Os carros se afastaram docilmente abrindo caminho, o que lhe permitiu atravessar a ponte sem enfrentar congestionamento. Determinada a tirar o maior proveito daquele salvo-conduto, entrou na Interstate 278, a autoestrada de três pistas que margeava os cais da Upper Bay. Embora a neve prejudicasse a circulação, as autoridades ainda não haviam fechado pontes e túneis. Segundo as informações, isso poderia acontecer de uma hora para outra.
Enquanto o 4x4 se esgueirava por entre os veículos de socorro, Madeline percebeu uma placa luminosa anunciando a iminência de um novo engarrafamento. Dois quilômetros adiante, numa área em que as pistas se estreitavam, os para-choques dos carros chegavam a se roçar. Ela tentou forçar passagem, derrapou, atingiu o meio-fio central e quebrou o retrovisor, raspando a toda velocidade num muro de cimento.
Merda!
Dessa vez estava sem saída. Uma carreta encurralada pela neve obstruía a passagem.
Sem se deixar perturbar, vasculhou no 4x4. Um dos tiras tivera a imprudência de deixar a arma na lateral da porta: a famosa Glock 17, arma regulamentar dos tiras da NYPD. Apoderou-se da pistola automática e abandonou o SUV na beira da rua. O céu de chumbo e a parede de flocos que vedava o horizonte davam à autoestrada uma aparência espectral. A pé, percorreu o acostamento por uma centena de metros a fim de transpor o local do acidente. Graças a manobras arriscadas, alguns carros conseguiam fugir do pântano de neve. Madeline apontou a arma para o primeiro que passou por ela, uma caminhonete familiar conduzida por um reacionário que exibia no vidro traseiro um adesivo em homenagem ao Tea Party.
— Desça! — ela berrou, mirando seu rosto.
O homem não quis ouvir duas vezes e esperou prudentemente que a ladra tomasse distância para erguer o punho e lhe dirigir uma enxurrada de palavrões.
Madeline afundou o pé no acelerador. Não tinha mais sirene nem giroflex, mas mantinha a mão na buzina.
Nunca estivera tão perto do alvo. Fez uma curva fechada para pegar a rampa que dava acesso a Coney Island. O carro adernou, as rodas traseiras travaram por um instante, mas, reduzindo e executando um belo golpe de direção, ela conseguiu endireitá-lo.
A imagem de Alice Dixon presa, tal como a vira no filme, voltou a assombrá-la. Ainda que saísse viva daquele calvário, em que estado físico e mental a adolescente se encontraria depois daquele novo pesadelo? Alice já dera provas de coragem e equilíbrio, mas que tipo de adulto resultaria daquela série de traumas? Como não se deixar invadir pelo ódio ou pela loucura?
Varreu da cabeça aquelas perguntas ao chegar à Neptune Avenue e entrar no beco indicado por Anthony.
* * *
LINHA F DO METRÔ NOVA-IORQUINO
ESTAÇÃO PARK SLOPE
O trem permanecerá parado por alguns instantes. Para sua segurança, pedimos que não desembarquem...
Jonathan consultou o relógio com ansiedade. Perguntou-se onde estava Madeline. Tentou falar com ela, mas não havia sinal. As paradas entre as estações se tornavam cada vez mais frequentes. Visivelmente, os trilhos começavam a congelar, as estações iam fechando uma a uma, e Coney Island ainda estava distante...
* * *
O beco pelo qual ela enveredara o carro estava praticamente bloqueado pela neve. Madeline pegou a pistola automática, verificou se o pente estava cheio e abandonou o 4x4 no começo da estreita rua. Foi pela calçada, examinando aquele estranho lugar. Com seus prédios caindo aos pedaços e seus carrosséis enferrujados, o antigo parque de diversões tinha um aspecto de fim de mundo. Alguns canteiros de obras, começados aqui e ali, sugeriam que a área seria revitalizada um dia, mas isso não era para amanhã. Em meio à tempestade, as ruas estavam vazias e ameaçadoras. Ouvia-se apenas o barulho do vento e das ondas fazendo ranger as carcaças de metal.
Então, subitamente... um latido.
Lembrou-se do que dissera o cara do depósito de carros: Lembro que tinha uns cães que latiam o tempo todo.
Encontrara o lugar.
Madeline afastou duas tábuas apodrecidas de uma cerca e viu um dogue alemão de pelo amarelo e olhos ameaçadores, arreganhando os dentes e rosnando sem parar. Sua magreza a impressionou. O mastim era pele e osso. Será que estava doente? Ou um desmiolado o mantinha de propósito naquele estado de tortura...
Sentiu a adrenalina invadi-la e se misturar ao medo; não tinha muita intimidade com cachorros. Desde que um boxer a mordera na infância, só os olhava de longe, alimentando um medo excessivo que todos os cães do mundo percebiam a três quilômetros de distância, presenteando-a com um latido agressivo sempre que ela passava por eles.
Era possível acessar o terreno por uma cancela gradeada. Sacou a Glock do estojo e atirou no cadeado para explodir a fechadura. Como esperava, a detonação assustou o mastim, que se afastou, um tanto desorientado. Ela entrou na propriedade, que conduzia a um grande entreposto prestes a se desfazer em ruínas. Antes que conseguisse alcançar o galpão, o dogue já estava acompanhado por cinco de seus pares. Cinco cérberos agora a cercavam num concerto de latidos. O primeiro pulou sobre ela e cravou as mandíbulas em seu braço esquerdo.
Madeline soltou um grito dilacerante, sentindo os dentes do animal penetrando em sua carne. Outro a atacou na perna, derrubando-a na lama, enquanto um terceiro pulou em seu pescoço.
Foi o que ela matou primeiro. Uma bala à queima-roupa na cabeça. Depois os outros dois que se haviam lançado sobre ela. No auge do pânico, abateu num ataque de fúria os dois últimos cães que se precipitavam em sua direção.
Cercada por cinco cadáveres, ela recuperou o fôlego e ficou de sobreaviso, disposta a abrir fogo se outros monstros exibissem o focinho. Havia sangue por toda parte. Recusou-se a examinar seus ferimentos, mas o braço doía, lacerado em vários lugares.
Mais tarde.
Pôs-se de pé e acertou outra bala na fechadura do galpão.
* * *
— Alice? — ela gritou.
O entreposto estava mergulhado na escuridão. Pegou a lanterna no estojo da pistola e a posicionou no trilho do cano.
— Alice? — repetiu, avançando lentamente, com os dedos crispados no gatilho e a lanterna apontada para frente. No chão de terra batida, notou pegadas que levavam a uma escada metálica.
Se tiver alguém escondido aqui, vai me abater como a um coelho.
Por que não esperara Jonathan? Por que não avisara os tiras?
Porque estava convencida de que não havia um segundo a perder.
— Alice?
Enveredou pela escada, que a levou a uma espécie de túnel escuro. Levantou um pouco mais a Glock, varrendo com o facho de luz a passagem apertada através da qual o vento penetrava. Sentia o sangue do ferimento escorrer pelo braço, mas por ora o medo era o melhor analgésico. O subterrâneo, tomado por encanamentos de ferro, servia de fossa, na qual se amontoava todo tipo de imundícies. Não pôde evitar os arrepios ao topar com tabuletas de madeira enfeitadas com os monstros repugnantes que assombravam THE SCARIEST SHOW IN TOWN.
Atravessou uma poça d’água e ouviu um grunhido. Apontou imediatamente a arma para baixo, mas era apenas um bando de ratos. No fim do túnel, um corrimão em espiral convidava o incauto a se embrenhar ainda mais nas trevas.
— Alice? — gritou novamente, tanto para se fazer ouvir quanto para se dar coragem.
Chegou diante de uma dezena de portas de ferro, que se sucediam. Explodiu a primeira fechadura, varreu com o cano da pistola o recinto, que cheirava a fechado e a mofo. Estava vazio. Atacou metodicamente todas as outras portas, com o mesmo resultado. Até a última.
Nesse cômodo, reinava uma luz débil. Haviam instalado um leito de armar bastante sumário, mas o principal era que... havia um encanamento semelhante àquele em que Alice fora algemada. Vasculhando cada recanto da masmorra, Madeline achou uma corda de náilon arrebentada, um pedaço de fita isolante e o suéter cor-de-rosa e cinza com capuz da adolescente. Ajoelhou-se para recolhê-lo e o levar perto do rosto: estava encharcado de um suor quente. Considerando o frio que dominava naquela prisão, Alice certamente estivera ali menos de quinze minutos antes.
Tarde demais! Ela chegara tarde demais! Por causa daquela porra de neve! Por causa de sua falta de perspicácia! Por causa de seu cérebro lento demais! Por causa de...
O desânimo durou menos de dois segundos. Madeline já se levantava e, de arma em punho, atravessava o corredor úmido e deixava o entreposto, determinada a prosseguir sua caçada.