O Chamado do Anjo

Guillaume Musso · Capítulo 7 de 47

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O Chamado do Anjo

4. Fuso horário

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Fuso horário

 

O coração da mulher é um labirinto de sutilezas que desafia o espírito

grosseiro do macho voraz. Se quiser realmente possuir uma mulher,

você precisa antes pensar como ela, e a primeira coisa a fazer é

conquistar sua alma.

— CARLOS RUIZ ZAFON

 

ENQUANTO ISSO, EM PARIS...

— Takumi, preciso de um favor.

O relógio de parede da loja acabava de dar onze horas da manhã. Encarapitada num banquinho alto, o coque preso por um prendedor de flores, as mãos raladas, Madeline terminava de pendurar um imenso buquê de azevinho.

— Claro, patroa — respondeu o jovem estagiário.

— Pare de me chamar de “patroa”! — irritou-se ela, descendo alguns degraus.

— Tudo bem, Madeline — consertou o asiático, corando.

Chamar a patroa pelo nome criava uma intimidade que o constrangia.

— Eu queria que você postasse um embrulho para mim — explicou, estendendo-lhe o pequeno envelope de papel-bolha no qual enfiara o celular de Jonathan.

— Claro, patr... éhh, Madeline.

— É um endereço nos Estados Unidos — ela esclareceu, dando-lhe uma nota de vinte euros.

Takumi examinou o endereço:

Jonathan LEMPEREUR

French Touch

1606 Stockton Street

San Francisco, CA 94133

USA

— Jonathan Lempereur… Como assim, o chef? — ele perguntou, montando na bicicleta elétrica que usava para fazer entregas.

— Conhece? — admirou-se a florista, que saíra com ele na calçada.

— Todo mundo conhece — ele replicou, sem se dar conta da gafe.

— Quer dizer que sou a rainha das imbecis? — perguntou Madeline.

— Não, éhh... de jeito nenhum... eu... — ele balbuciou.

Takumi ficou escarlate. Pequenas gotas de suor lhe brotavam da testa, e seus olhos estavam grudados no chão.

— Bom, faça haraquiri outro dia — ela troçou. — Enquanto isso, me conte quem é esse sujeito.

O japonês engoliu a saliva.

— Há alguns anos, Jonathan Lempereur tinha o melhor restaurante de Nova York. Meus pais me levaram para jantar lá para comemorarmos minha formatura. Era um lugar mítico: um ano de lista de espera e sabores originais, que não se encontravam em nenhum outro lugar.

— Não acho que seja o mesmo cara — ela disse, apontando para o envelope. — O endereço que ele me deu é de um restaurante, mas muito mais para um pé-sujo do que para um cinco estrelas.

Takumi guardou o embrulho na mochila e deu uma pedalada sem procurar saber mais.

— Até já.

Madeline fez um acenozinho com a mão e voltou para a loja.

As palavras do estagiário haviam excitado sua curiosidade, mas ela tentou voltar ao trabalho como se nada tivesse acontecido. Desde a abertura, a loja não esvaziara. Assim como o Dia dos Namorados, o Natal despertava emoções: amor, ódio, solidão, melancolia. Só naquela manhã vira desfilar em sua loja uma penca de personagens, um mais original que o outro: um velho sedutor enviara doze buquês a doze conquistas em doze cidades diferentes; uma mulher de meia-idade expedira orquídeas para si mesma a fim de fazer bonito diante das colegas de escritório; uma jovem americana chegara aos prantos querendo mandar para o namorado parisiense um arranjo murcho simbolizando o rompimento. Quanto ao padeiro do bairro, encomendara de presente para a adorada sogra um enorme cacto mexicano com espinhos compridos e afiados...

Madeline herdara do pai a paixão pela arte floral. Guiada pelo entusiasmo, primeiro se formara como autodidata, depois fizera o curso da Piverdière, a prestigiosa escola de floristas de Angers. Sentia orgulho de praticar uma atividade que marca todos os grandes acontecimentos da vida. Nascimento, batismo, primeiro encontro, casamento, reconciliação, promoção profissional, aposentadoria, enterro: as flores acompanham as pessoas do berço ao túmulo.

A moça se concentrou num novo arranjo, mas o abandonou cinco minutos depois. Não conseguia tirar da cabeça a história que Takumi lhe contara.

Passou para trás do balcão e abriu o navegador do computador da loja. Digitando “Jonathan Lempereur” no Google, obtinham-se mais de seiscentos mil resultados! Conectou-se à Wikipédia. A enciclopédia online continha um longo verbete sobre o chef, ilustrado com uma fotografia que reproduzia, sem dúvida alguma, a figura do homem com quem ela esbarrara no aeroporto, embora na foto Jonathan parecesse mais jovem e mais sexy. Perplexa, Madeline colocou os finos óculos de leitura e, mordiscando um lápis, concentrou-se na leitura da tela:

Jonathan Lempereur, nascido em 4 de setembro de 1970, é um chef de cozinha e empresário francês, tendo construído o essencial de sua carreira nos Estados Unidos.

Formação

De origem gascã, é oriundo de uma família de modestos donos de restaurante e começou a trabalhar muito jovem no estabelecimento do pai, La Chevalière, na Place de la Libération, em Auch. Aos 16 anos, começa a fazer estágios e

diversifica suas atividades: auxiliar de cozinha de Ducasse, Robuchon e Lenôtre, antes de se tornar auxiliar do célebre chef provençal Jacques Laroux dentro dos muros do La Bastide, em Saint-Paul-de-Vence.

Revelação

O brutal suicídio de seu mentor leva Lempereur para o comando do La Bastide. Contrariando todas as expectativas, ele consegue manter o nível do estabelecimento, tornando-se, aos 25 anos, o mais jovem chef francês à frente de um três estrelas no Guia Michelin.

O prestigioso Hôtel du Cap d’Antibes recorre então a seus serviços para relançar seu restaurante, o La Trattoria. Menos de um ano após a abertura, o estabelecimento também obtém três estrelas, tornando-se Jonathan Lempereur um dos quatro chefs do mundo a acumular seis estrelas no célebre guia.

Consagração

Em 2001, conhece Francesca, filha do empresário americano Frank DeLillo, que viera passar no Hôtel du Cap a lua de mel com o banqueiro Mark Chadwick. A herdeira e o jovem chef se apaixonam à primeira vista e Francesca entra com um pedido de divórcio menos de uma semana depois do casamento, brigando assim com sua família, enquanto o hotel da Côte dispensa Lempereur para preservar a reputação.

O novo casal se instala em Nova York e se casa. Com a ajuda da esposa, Jonathan Lempereur abre seu próprio restaurante, o L’Imperator, no topo do Rockefeller Center.

Para Lempereur, é o início de um período particularmente criativo. Experimentando novas tecnologias, embora

preservando os sabores da cozinha mediterrânea, transforma-se num dos pioneiros da “culinária molecular”. O sucesso é imediato. Em poucos meses, torna-se o queridinho das estrelas, políticos e críticos gastronômicos. Com apenas 35 anos, é eleito o melhor chef do mundo por um júri internacional de quatrocentos jornalistas, que elogiam sua “cozinha flamejante” e sua capacidade de oferecer aos clientes “uma viagem gustativa extraordinária”. Por essa época, seu restaurante recebe anualmente dezenas de milhares de encomendas dos quatro cantos do mundo, e não é raro ter de esperar mais de um ano para conseguir uma reserva.

Ícone midiático

Paralelamente à carreira de chef, Jonathan Lempereur se torna uma celebridade, com seus diversos programas de tevê, em especial An Hour with Jonathan, na BBC America, e Chef’s Secrets, na Fox, reunindo todas as semanas milhões de telespectadores, além das versões em livro e DVD.

Em 2006, apoiado por Hillary Clinton, senadora de Nova York, Lempereur empreende uma cruzada contra os cardápios das cantinas escolares da Big Apple. Seus encontros com alunos, pais e professores terminam por resultar na adoção de cardápios mais equilibrados nesses estabelecimentos.

Com seu sorriso encantador, sua jaqueta de couro e seu irresistível sotaque francês, o jovem chef se impõe como um ícone da cozinha moderna e integra a lista da Time Magazine das personalidades mais influentes do mundo. Nessa ocasião, o semanário chega a chamá-lo de “Tom Cruise dos fogões”.

— Suas decorações estão à venda?

— Perdão?

Madeline ergueu a cabeça da tela. Absorta na vida de Lempereur, não se dera conta de que uma cliente acabava de entrar na loja.

— Suas decorações estão à venda? — repetiu a mulher, apontando para os mostruários pastel de madeira esbranquiçada que guardavam acessórios: termômetros centenários, velhos cucos, gaiolas de passarinhos, espelhos enferrujados, lanternas e velas perfumadas.

— Éhh... Não, sinto muito, elas fazem parte da loja — mentiu Madeline, com pressa de dispensá-la para voltar a mergulhar na biografia de Jonathan.

O empresário: a construção do grupo Imperator Valendo-se dessa recente notoriedade, Lempereur cria, com a mulher, o grupo Imperator, encarregado de gerir sua marca sob a forma de diversos produtos. O casal inaugura então uma série de estabelecimentos: bistrôs, brasseries, adegas, hotéis de luxo... Seu império gastronômico estende-se aos quatro cantos do mundo, de Las Vegas a Miami, passando por Pequim, Londres e Dubai. Em 2008, o grupo Imperator agrega mais de dois mil empregados em mais de quinze países, com faturamento de dezenas de milhões de dólares.

Dificuldades financeiras e retirada do mundo da gastronomia

Enquanto os clientes continuam a afluir a seu restaurante nova-iorquino, o chef francês é alvo de ataques cada vez mais virulentos. Os mesmos críticos que alguns anos antes elogiavam sua criatividade e seu talento agora o recriminam por se dispersar e ter se transformado “numa simples máquina de dinheiro”.

Entretanto, as múltiplas atividades de seu conglomerado estão longe de alcançar um patamar de rentabilidade. O

grupo Imperator desmorona com as dívidas e fica à beira da falência em dezembro de 2009. Algumas semanas mais tarde, após o fim de seu casamento, Jonathan Lempereur joga a toalha, declarando-se “cansado das críticas”, “com a inspiração esgotada” e “desiludido com o mundo da gastronomia”. Aos 39 anos, obrigado a ceder a licença de exploração de seu nome, Lempereur retira-se definitivamente dos negócios, após ter deixado sua marca na cozinha contemporânea.

O fim do verbete informou a Madeline que o chef publicara um livro em 2005, Confissões de um cozinheiro apaixonado. Uma nova busca, seguida por dois ou três cliques, levou-a ao site da brasserie French Touch, que Jonathan tocava agora em San Francisco. O site visivelmente não estava atualizado. Encontravam-se alguns exemplos de menus de vinte e quatro dólares: sopa de cebola, morcela com batatas, torta de figos. Nada de muito extravagante para alguém que, poucos anos antes, estava à frente da melhor cozinha do mundo.

Como ele chegou a esse ponto?, ela se perguntou, perambulando em meio a pinheiros e orquídeas. Foi ao fundo da loja, decorado como um jardim, e, com os olhos no vazio, sentou-se no balanço pendurado num enorme galho preso ao teto.

A campainha do telefone da loja a arrancou de suas reflexões.

Levantou-se de um pulo da tabuinha e atendeu. Era Takumi.

— Continua no correio?

— Não, patr... éhh, Madeline. Por causa da greve, todas as agências estão fechadas.

— Bom, antes de voltar, dê uma passada numa livraria e compre um livro para mim. Tem como anotar? O título é Confissões de um cozinheiro apaixonado, de...