O Chamado do Anjo
Prólogo
Um celular?
No início, você não via realmente a utilidade, mas, para não parecer ultrapassada, deixou-se seduzir por um modelo bem simples, com uma plataforma básica. Num primeiro momento, chegou a se surpreender falando um pouco alto demais, no restaurante, no trem ou na varanda dos cafés. Verdade que era prático e tranquilizador ter sempre a família e os amigos ao alcance da voz.
Como todo mundo, você aprendeu a escrever mensagens digitando num teclado minúsculo e se acostumou a dispará-las em todas as direções. Como todo mundo, desistiu de sua agenda e a trocou pela versão eletrônica. Diligentemente, salvou os números dos conhecidos, da família e do namorado, disfarçando os dos ex, bem como a senha do cartão de crédito, que às vezes você esquece.
Mesmo sendo péssima fotógrafa, você não deixou de usar a câmera do celular. Era simpático ter sempre ao alcance uma foto engraçada para mostrar aos colegas.
Aliás, todo mundo fazia igual. O objeto casava com a época: diluíam-se as divisórias entre vida íntima, vida profissional e vida social. Afinal, o cotidiano se tornara mais urgente e flexível, exigindo permanentemente a maximização do tempo útil.
* * *
Recentemente você trocou seu velho aparelho por um modelo com mais recursos: uma pequena maravilha que lhe permite ter acesso a seus e-mails, navegar na internet e baixar centenas de aplicativos.
Foi quando você ficou viciada. Como enxertado no corpo, seu celular é agora um prolongamento de você mesma que a acompanha até ao banheiro. Onde quer que esteja, você raramente passa mais de meia hora sem consultar a tela, espreitando uma chamada perdida, uma mensagem íntima ou amistosa. E, se sua caixa de mensagens está vazia, você clica para verificar se nenhuma está a caminho.
Como seu bichinho de pelúcia da infância, o celular a reconforta. A tela é suave, tranquilizadora, hipnótica. Ele lhe confere um ar imponente em todas as situações, oferecendo-lhe uma facilidade de contato imediato que abre inúmeras possibilidades...
* * *
Certa noite, porém, ao voltar para casa, você procura nos bolsos, depois na bolsa, e percebe que seu celular sumiu. Você o perdeu? Foi roubada? Não, você se recusa a acreditar nisso. Você o procura novamente, tentando se convencer de que o esqueceu no escritório... mas não: você se lembra de tê-lo consultado no elevador, quando saiu do trabalho, e, sem dúvida, no metrô e no ônibus.
Droga!
Primeiro você fica com raiva por ter perdido o aparelho, depois dá graças a Deus por ter feito aquele seguro contra “roubo/perda/quebra”, que preserva os pontos de fidelidade, os quais, a partir de amanhã, lhe permitirão adquirir um novo brinquedo high-tech e touch screen.
No entanto, às três horas da manhã, você continua sem pregar o olho...
* * *
Você se levanta sem fazer barulho para não acordar o homem que dorme ao seu lado.
Na cozinha, em cima de um armário, pega o velho maço de cigarros já aberto, que escondeu ali para qualquer emergência. Acende um e, no estado em que se encontra, serve-se também de um copo de vodca.
Merda...
Você está sentada, curvada na cadeira. Sente frio, pois deixou a janela aberta por causa do cheiro de cigarro.
Faz o inventário de tudo que seu telefone contém: alguns vídeos, umas cinquenta fotografias, o histórico de sua navegação na internet, seu endereço (incluindo a senha da porta de entrada do prédio), o de seus pais, números de pessoas que não deveriam necessariamente estar ali, mensagens que poderiam sugerir que...
Não seja paranoica!
Você dá outra tragada e um gole na bebida.
Aparentemente, não há nada efetivamente comprometedor, mas você sabe muito bem que as aparências enganam.
O que a preocupa é a possibilidade de o aparelho ter caído em mãos mal-intencionadas.
Você já sente saudades de algumas fotos, alguns e-mails, algumas conversas. O passado, a família, o dinheiro, o sexo... Procurando bem, alguém que desejasse prejudicá-la teria material suficiente para acabar com a sua vida. Você lamenta, mas lamentar não resolve nada.
Tremendo, você se levanta para fechar a janela. Com a testa grudada na vidraça, observa as raras luzes que ainda brilham na noite lhe dizendo que, do outro lado da cidade, um homem talvez esteja com os olhos pregados na tela do seu celular, explorando prazerosamente o lado obscuro de sua vida privada e vasculhando metodicamente as entranhas do aparelho em busca de seus dirty little secrets.