O Chamado do Anjo

Guillaume Musso · Capítulo 12 de 47

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O Chamado do Anjo

9. Um segredo bem guardado

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Um segredo bem guardado

 

Havia entre eles a intimidade de um segredo bem guardado.

— MARGUERITE YOURCENAR

 

SAN FRANCISCO

DOMINGO

INÍCIO DA TARDE

Charly abriu a porta de casa e invadiu a sala.

— Veja, tio Marcus! Pesquei dois peixes!

Largado no sofá, os pés em leque, o canadense fumava um baseado da grossura de um cone de amendoim.

— Que cheiro estranho... — disse o menino, beliscando o nariz.

Marcus se ergueu de um pulo e deu sumiço no cigarro, mergulhando-o no vaso que reinava na mesa de centro.

— Olá, camaradas.

Mas Jonathan o fuzilou com o olhar.

— Quantas vezes preciso repetir...? — começou, irado.

— Desencana, não é nada de mais — defendeu-se frouxamente o canadense.

— Com essas suas armações, corro o risco de perder a guarda do meu filho. Você acha que isso não é nada de mais?

Jonathan abriu todas as janelas para arejar enquanto Charly tirava do isopor um belo salmão e um pequeno linguado ainda vivos.

— Estão fresquinhos! — exclamou, orgulhosíssimo das duas conquistas.

— É, diferente do tio Marcus... — acrescentou perfidamente Jonathan, para fazer o filho rir.

Era bem verdade que seu amigo tinha uma concepção personalíssima da “roupa de domingo”: cueca esfiapada, meias trocadas e camiseta, dessa vez enfeitada com uma folha de maconha sobre a bandeira jamaicana.

— Quer uma fruta? — perguntou Jonathan, arrumando dentro da geladeira o resto das compras que eles haviam levado de lanche.

— Para falar a verdade, prefiro que o tio Marcus faça um sanduíche trio...

— Hum — disse ele, vacilante.

— Considere feito! — gritou Marcus, indo buscar os ingredientes no armário.

Já lambendo os beiços, Charly trepou num dos banquinhos altos que cercavam o bar.

Concentrado, Marcus passou manteiga na primeira fatia de pão, que salpicou com chocolate em pó e cobriu com uma segunda fatia, besuntada de leite condensado, à qual superpôs um último pedaço embebido em xarope de bordo.

Charly deu uma dentada no sanduíche e, de boca cheia, exclamou:

— Extá delixioso, obrigado!

Muito orgulhoso com o elogio, Marcus preparou outro para ele próprio.

— Quer um, Jon?

Jonathan abriu a boca para recusar — nem pensar em engolir aquela mistura hipercalórica —, mas voltou atrás. Por que dar as costas para todos os prazeres e momentos de cumplicidade com Marcus e o filho? Afinal de contas, seu cunhado tinha muitos defeitos, mas trazia um pouco de alegria e dava um toque de originalidade ao lar. E, sobretudo, não havia outro igual para fazer Charly sorrir, quando ele mesmo, emparedado em sua tristeza, não era o pai mais efusivo com que um filho podia sonhar.

— Tudo bem, por que não? — disse ele, juntando-se à mesa.

Serviu a todos uma rodada de argh e ligou o pequeno aparelho de rádio, que sintonizou numa estação especializada em rock californiano. Então, foi ao ritmo dos sucessos dos Eagles, de Toto e de Fleetwood Mac que degustaram o lanche.

— Sabe de uma coisa? Vou incluir “o famoso sanduíche trio do tio Marcus” no cardápio de sobremesas do restaurante — brincou Jonathan. — Tenho certeza de que vai funcionar!

Rindo gostosamente, Charly levantou os olhos.

— Por que você espalhou todas essas fotos aí? — espantou-se, apontando para as imagens de Madeline que cobriam a parede da cozinha.

Jonathan se sentiu flagrado. Nos últimos dois dias, deixara-se arrebatar pela curiosidade, mas agora tinha dificuldade para compreender a lógica e o sentido de seu comportamento. Por que a vida daquela mulher o fascinara tanto? Por que se julgara investido de uma espécie de missão?

— Tem razão, vamos tirar — ele aprovou, quase aliviado por aquela decisão racional.

— Eu ajudo — ofereceu-se o cunhado.

Os dois homens se levantaram e começaram a soltar uma a uma as fotografias que cobriam o cômodo.

Madeline em Veneza, Madeline em Roma, Madeline em Nova York...

— Olha, você viu? É o Cantona...

— O quê?

Marcus lhe estendeu a fotografia que acabava de retirar. De jaqueta de couro e blusa cintada, Madeline sorria diante de um bolo de aniversário espetado com vinte e nove velas. A foto datava de cinco ou seis anos. Embora nitidamente mais jovem, Madeline parecia bem menos elegante e feminina do que a mulher com quem Jonathan esbarrara no aeroporto. Na época, tinha um rosto mais redondo, uma expressão de garoto traquinas e feias olheiras.

O retrato fora batido num escritório: percebiam-se pastas de papelão, um computador um pouco fora de moda, bem como canetas, lápis e uma tesoura arrumadas numa caneca. Apesar da má qualidade da foto,

distinguia-se, espetado na parede, um pôster de Eric the King* com a camisa dos Red Devils.

— Sabe onde foi tirada essa foto? — perguntou Marcus.

— Não.

— Na minha opinião, numa delegacia.

— Por quê?

Ele apontou silhuetas pretas e amarelas perdidas no fundo da tela.

— Esses dois sujeitos são tiras.

— Viajou!

— Pode ampliar a imagem?

— Escute, não estamos em CSI...

— Tente!

Sem acreditar naquilo, Jonathan pegou o laptop no qual baixara todas as fotos de Madeline. Clicou no ícone correspondente para abri-las no Photoshop e usou o zoom do programa. Claro, o nível de precisão não era excelente, mas ainda assim era possível distinguir mais detalhes.

A bem da verdade, não era impossível que as manchas amarelas no fundo da tela correspondessem aos coletes amarelos com faixas fosforescentes usados por alguns policiais ingleses. Mas aquilo não provava nada. Examinando as diferentes partes da imagem, outro detalhe chamou sua atenção: as letras “GMP”, que enfeitavam a caneca de Madeline.

— GMP? Isso te diz alguma coisa?

Jonathan abriu a janela do navegador e digitou “GMP+police”. O primeiro resultado remetia ao site da Greater Manchester Police, as forças policiais do condado de Manchester.

— Tem razão, estamos realmente numa delegacia.

— Conhece muita gente que comemora o aniversário numa delegacia?

A pergunta ficou no ar durante alguns segundos. A resposta se impunha por si mesma: num passado remoto, a moça havia sido tira!

Jonathan compreendeu que acabava de descobrir a chave do mistério que Madeline ocultava. Mas, agora que acertara o alvo, viu-se invadido pela dúvida. Com que direito se intrometia assim em seus segredos? Ele sabia que não se mexia no passado impunemente e...

— Veja isto!

Apoderando-se do computador, Marcus acabava de decidir por ele. No buscador, digitara: “Madeline+Greene+police+Manchester”.

Havia centenas de resultados, mas o primeiro que apareceu foi uma reportagem do Guardian:

MADELINE GREENE, A INVESTIGADORA DO CASO DIXON,

TENTA SE SUICIDAR

Nota

* Apelido do jogador de futebol Éric Cantona quando jogava na equipe do

Manchester United.