O Chamado do Anjo

Guillaume Musso · Capítulo 32 de 47

Páginas do PDF

O Chamado do Anjo

26. A garota com olhos de Modigliani

26

 

A garota com olhos de Modigliani

 

Não sou mais o que eu era.

— HORÁCIO

 

ENQUANTO ISSO, NA JUILLIARD SCHOOL, A MAIS PRESTIGIOSA ESCOLA DE ARTES DE NOVA YORK

— Acabei de receber uma mensagem do Luke! — exclamou Lorely, abrindo a porta do banheiro e agitando o celular para sua colega de quarto.

Com a cabeça debruçada na pia e a escova de dentes na mão, Alice perguntou:

— Ogueleguergombocê?

— Como?

A moça enxaguou a boca e articulou:

— O que ele quer com você?

— Está me convidando para jantar amanhã no Café Luxembourg!

— Que sortuda! Não acha que ele parece um pouco o Ryan Reynolds?

— Sei lá, mas que ele tem uma gracinha de traseiro, isso tem! — cacarejou Lorely, fechando a porta.

A sós, Alice se olhou no espelho e tirou a maquiagem com um lenço umedecido. O espelho lhe devolveu a imagem de uma bonita garota de dezessete anos, de rosto fino, emoldurado por cabelos louros. Tinha a testa larga, a boca rebelde e maçãs do rosto salientes. Os olhos azul-esverdeados muito escuros contrastavam com a pele de porcelana. Ali, na escola, por sua aparência e seu nome, todo mundo achava que ela era de origem polonesa. Chamava-se Alice Kowalski. Pelo menos era o que constava em sua carteira de identidade...

Terminou a toalete e brincou mais alguns segundos com sua imagem, divertindo-se em mudar rapidamente de expressão. Como durante os exercícios das aulas de arte dramática, fez cara de enfado, lançando alternadamente olhares tímidos e provocadores.

Juntou-se a Lorely no amplo quarto que dividiam. Toda animada com seu encontro, a jovem cantora afro-americana pusera Lady Gaga para tocar e experimentava diferentes roupas diante do espelho: vestido preto e jaqueta de tweed para bancar a Gossip Girl, vestido vintage meio cigano, jeans Chloé e blusa colorida à la Cameron Diaz...

— Estou exausta — confessou Alice, enrolando-se debaixo das cobertas.

— Normal. Essa noite você foi a rainha do baile!

A bela soprano fazia referência ao espetáculo de fim de ano apresentado pelos alunos do departamento delas: uma representação de Amor, sublime amor, na qual Alice fizera o papel de Maria.

— Sério, você achou que fui bem?

— Deslumbrante! Você tem talento tanto para o musical quanto para o violino.

Ruborizada, Alice agradeceu. Durante uns bons quinze minutos, as duas adolescentes papearam, resenhando a noite.

— Merda, esqueci a bolsa no camarim do auditório! — constatou bruscamente Alice.

— Ora, pegue amanhã.

— O problema é que meus remédios estão lá.

— Os troços que você toma para evitar a rejeição do enxerto?

— E os remédios para pressão alta — ela esclareceu, sentando-se com as pernas cruzadas sobre a cama.

Perplexa, refletiu por alguns segundos, depois decidiu, pulando no chão:

— Vou até lá!

Vestiu uma calça de moletom diretamente sobre o baby-doll e abriu o armário para pegar um suéter.

Por instinto, escolheu o último da pilha: um suéter acolchoado de algodão com capuz, cor-de-rosa e cinza, enfeitado com o emblema do Manchester United. O único vestígio de sua vida anterior.

Calçou um par de tênis de lona, sem se preocupar em amarrar os cadarços.

— Vou aproveitar e comprar alguma coisa para comer — resolveu. — Estou com vontade de comer Oreo com leite sabor morango.

— Compra um pacote de waffles para mim? — pediu sua roommate.

— Pode deixar. Tchau.

 

* * *

Alice saiu do quarto. No corredor, o ambiente estava calmo. Naquela véspera de férias escolares, uma atmosfera festiva reinava nos dormitórios. Os alojamentos universitários abrigavam mais de trezentos estudantes nos doze últimos andares do Lincoln Center: futuros dançarinos, atores e músicos de cinquenta nacionalidades diferentes! Embora faltasse pouco para duas da manhã, os alunos iam de quarto em quarto. Muitos faziam as malas para deixar a escola no dia seguinte e passar o Natal com a família.

No saguão, Alice chamou o elevador. Esperou, olhou pela janela as luzes dos edifícios se refletindo no rio. Ainda estava na euforia do espetáculo e fez um pequeno passo de dança. Mais que nunca, naquele fim de ano, sentia uma espécie de gratidão pela vida. O que seria dela se tivesse permanecido em Manchester? Estaria viva agora? Provavelmente não. Ali, em Manhattan, desabrochara e, apesar das sequelas do transplante cardíaco, vivia nas nuvens. Naquela noite, a garotinha de Cheatam Bridge fizera o papel principal em um espetáculo na mais prestigiosa escola de arte de Nova York!

Foi subitamente percorrida por um calafrio e enfiou a mão nos bolsos do pulôver. O velho suéter cor-de-rosa reavivou suas lembranças, e imagens de sua vida pregressa lhe atravessaram a cabeça numa rajada: sua mãe, seu bairro, sua escola, a pobreza, os prédios sujos, a chuva, a solidão terrível e o medo que nunca a abandonava. Agora, embora continuasse com o sono agitado, não se arrependia de sua decisão. E nunca viria a se arrepender.

Ali, na Juilliard School, todo mundo era apaixonado por arte e cultura. As pessoas eram abertas às ideias, tolerantes, originais e estimulantes. A vida era fácil, e as instalações, propícias ao trabalho; se ela quisesse, podia ensaiar violino no meio da noite, nas salas acusticamente isoladas presentes em todos os andares. A escola possuía vários auditórios e salas de espetáculo, uma clínica de fisioterapia, uma academia de ginástica...

Quando o elevador finalmente chegou, Alice apertou o botão do décimo segundo andar, onde se viu no salão comunitário. O canto da sala estava animado: alguns alunos assistiam a um concerto numa tela gigante, outros jogavam sinuca, alguns, sentados em bancos ao longo do balcão da cozinha, comiam cupcakes da Magnolia Bakery.

— Que azar! — ela deixou escapar, decepcionada, constatando que as máquinas de alimentação estavam desativadas.

— Qual é o problema, senhorita? — perguntou um dos vigias.

— Meus biscoitos preferidos acabaram!

O lugar era vigiado vinte e quatro horas por dia por um dispositivo imponente. Na Juilliard, ninguém brincava com a segurança — a escola recebia filhos de diplomatas, de aristocratas e até a filha de um presidente em exercício.

Antes de voltar para os elevadores, Alice comprou sua bebida e os waffles de Lorely. Dirigiu-se então aos andares inferiores, onde ficavam as salas de concerto. No segundo andar, quando as portas se abriram, Alice descobriu uma imensa silhueta escura que a esperava. Um homem encapuzado apontava uma pistola em sua direção. Ela tentou dar um passo para trás e soltou um grito abafado, mas ele avançou e abriu fogo.