O Chamado do Anjo

Guillaume Musso · Capítulo 24 de 47

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O Chamado do Anjo

19***

 

Continuamos nossa descida rumo ao sul.

Em duas horas, eu engolira duzentos e setenta quilômetros, e Alice, uns trinta macarons.

— Estou com dor de barriga — ela se queixou.

— Eu avisei.

Paramos numa área de descanso da rodovia um pouco antes de Aix-en-Provence. Paguei a gasolina no caixa enquanto ela ia ao banheiro. Voltou alguns minutos mais tarde, com o semblante pálido e vários lenços de papel na mão.

— Quer um chá?

— Não, espero você no carro.

 

* * *

CÔTE D’AZUR

SETE HORAS DA MANHÃ

O dia que despontava no horizonte coloria o céu com faixas cor-de-rosa. No meio do caminho entre Nice e Cannes, a quase ilha de Cap d’Antibes se diluía num pano de fundo de rochas e pinheiros marítimos.

— Você precisa me dizer o caminho — pedi a Alice, enquanto acompanhávamos o Mediterrâneo.

Passamos pelo famoso Eden Roc, depois Alice me guiou até o último portão do beco do Sans-Souci. Era naquela moldura prestigiosa e paradisíaca, em meio a hotéis de luxo e mansões de bilionários, que seus pais possuíam uma casa de veraneio.

O portão fora deixado aberto. Por mais de duzentos metros, uma aleia de cascalho atravessava um pinheiral antes de chegar a um casarão dos anos 30 voltado para o mar. Uma mulher longilínea e distinta nos esperava nos degraus da casa. Alice abriu o portão e elas caíram nos braços uma da outra.

— Sra. Kowalski — ela se apresentou, estendendo-me a mão.

Devia ter tido a filha bem jovem, pois não lhe dei mais de trinta e cinco anos. Os cabelos louros estavam presos num coque trançado e rebuscado. Ela tinha o olhar claro e intenso, e os traços do rosto eram incrivelmente finos e delicados, a despeito de uma cicatriz peculiar que partia do supercílio para lhe rasgar do alto da face até a comissura dos lábios. Um ultraje tão inesperado que dava vontade de conhecer as circunstâncias do ferimento. Ela me agradeceu pela ajuda e me ofereceu um café, mas expliquei que estavam à minha espera.

Enquanto eu voltava para o carro, Alice se juntou a mim para pegar os dez macarons que ela não devorara.

— Para o meu lanche — ela me disse, dando uma piscadela antes de voltar para a mãe.

Ela já tinha percorrido alguns metros quando se voltou e me aconselhou com gravidade:

— Se cuide.

 

* * *

Parti na direção contrária e estacionei em frente à praia que marcava o início da trilha do litoral. Peguei o revólver no porta-luvas, tranquei o BMW e enveredei pelo atalho, com a cabeça cheia de lembranças.

Embora eu tivesse nascido em Auch, fora em Antibes que vivera alguns dos meus mais belos momentos. Aos catorze anos, meu pai me mandara para um internato perto dali, em Sophia Antipolis. Aos quinze anos, nas muralhas do Castelo Grimaldi, eu beijara Justine, meu amor de adolescência. E, mais tarde, foi no La Bastide de Saint-Paul-de-Vence, depois no Hôtel du Cap, que dirigira meus restaurantes franceses.

Essas lembranças que subiam à tona me davam calafrios.

Estranho o destino ter me reconduzido ao lugar de meus primeiros êxitos num dia de tamanho pesar...

A trilha era estreita, ladeada por ribanceiras vertiginosas. Saltei de uma pedra a outra a fim de ficar o mais próximo possível da costa escarpada que acompanhava as ondas, oferecendo uma vista única da cidade fortificada, dos picos nevados dos Alpes e das ilhas de Lérins.

Parei de frente para o sol alaranjado que triunfava no horizonte. O ar era puro, e o espetáculo, tão intenso quanto a solidão e a angústia que me impregnavam.

Um belo dia para morrer.

Saquei o revólver do bolso. As palavras de Christophe Salveyre me voltaram à mente: “um Smith & Wesson, modelo 60, calibre 38 Special”.

Todos nós temos uma opinião sobre o suicídio. Ato corajoso ou covarde? Nem um nem outro, provavelmente. Apenas uma decisão desesperada quando estamos num beco sem saída. O último recurso para sair da vida e escapar do insuportável.

Eu sempre desafiara, sempre fizera frente. Sempre lutara contra tudo, forçando meu destino e impondo minha sorte, mas naquele dia era diferente. Eu tinha um inimigo temível a enfrentar: eu mesmo. O último inimigo. O mais perigoso.

Meu gesto nada tinha de racional. Eu não planejara com meses de antecedência, mas ele se impunha como a única resposta àquela brutal solidão que, nos últimos dias, me devorava e me fazia afundar no nada.

Pensei na amizade, mas eu nunca tivera amigos. Pensei na família, mas perdera a minha. Pensei no amor, mas ele havia virado fumaça.

A imagem de meu filho atravessou meus pensamentos e tentei me agarrar a ela, mas às vezes nem pensar nos filhos é suficiente para lutar contra a morte.

Encostei o metal frio do cano na têmpora. Destravei o percussor, olhei pela última vez o sol, inspirei e apertei o gatilho como uma libertação.