O Chamado do Anjo

Guillaume Musso · Capítulo 45 de 47

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O Chamado do Anjo

Epílogo

 

NA MANHÃ SEGUINTE

O sol a pino irradiava seus raios sobre a cidade de madrepérola.

Vergando sob sessenta centímetros de neve, Nova York estava isolada do mundo. Os montes gelados bloqueavam ruas e calçadas. Nesse dia, os ônibus e táxis permaneceriam no pátio, os trens nas estações e os aviões pregados no solo. Durante pelo menos algumas horas, Manhattan se tornara uma imensa estação de esportes de inverno. Calçando esquis ou patins, inúmeros nova-iorquinos desafiavam o frio apesar da hora matinal, e as crianças se esbaldavam: corridas de trenó, guerras de bolas de neve, confecção de bonecos com acessórios engraçados.

Com um copinho numa das mãos e uma caixa de papelão na outra, Jonathan descia com passos prudentes a calçada congelada. Passara boa parte da noite na delegacia, para uma longa conversa com os policiais locais e os agentes do FBI, que agora cuidavam da proteção de Danny.

Apesar das precauções, terminou por escorregar naquele sabão. Como um equilibrista, apoiou-se com o cotovelo num poste de luz, inundando de líquido fervente a tampa do copinho. Atravessou com alívio as portas do Hospital St. Jude, vizinho de Chinatown e do Financial District.

Foi de elevador até o andar em que Alice estava sendo medicada. O corredor estava apinhado de policiais uniformizados montando guarda em frente ao quarto.

Jonathan mostrou a credencial antes de empurrar a porta. Deitada na cama, com uma sonda no braço, Alice se recuperava. Ela ergueu os olhos para ele e, ainda um pouco aturdida, iluminou o semblante com um belo sorriso. Operava-se o milagre da reidratação: Alice estava rosada e dava provas de uma serenidade espantosa depois do que acabava de viver. Ele lhe retribuiu o sorriso, dirigindo-lhe um sinal com a mão para indicar que passaria de novo depois que a enfermeira partisse.

Jonathan foi em seguida ao andar onde Madeline estava recebendo cuidados. Passando diante de um carrinho metálico, pegou uma bandeja de plástico, na qual pousou o copinho de chocolate quente. Abriu a caixa de papelão e dela retirou três cupcakes, que arrumou o mais harmoniosamente possível. Finalmente, notando um arranjo de flores brancas preso na parede, roubou uma anêmona, que completou o equilíbrio da bandeja.

— Café da manhã! — exclamou, entrando no quarto.

Embora julgasse encontrar Madeline sozinha, deu de cara com o capitão Delgadillo, um dos chefões da NYPD, um latino alto, com dentes brancos e ar severo. Empertigado, um tanto desdenhoso, o tira não lhe concedeu um único olhar.

— Espero sua resposta até o fim da semana, srta. Greene — ele afirmou antes de deixar o quarto.

Madeline estava deitada. Na véspera, tomara uma anestesia geral. A operação se desenrolara a contento, mas os dentes dos cães haviam penetrado profundamente na carne e ela guardaria para sempre as marcas daquela batalha com os mastins.

— Isso é para mim? — ela perguntou, pegando um bolinho.

— Baunilha, chocolate, marshmallow. Os melhores cupcakes de Nova York — ele garantiu.

— Você faz para mim um dia? Sabe que nunca provei seus pratos!

Ele concordou com a cabeça e se sentou ao seu lado no colchão.

— Viu a Alice? — ela perguntou.

— Agorinha mesmo. Ela vai dar a volta por cima.

— E na polícia, correu tudo bem?

— Creio que sim. Eles me disseram que tomaram seu depoimento aqui mesmo. É verdade?

— É, por intermédio desse sujeito que você viu. Você não vai acreditar: ele me ofereceu um emprego!

A princípio, ele pensou que fosse uma piada, mas ela se entusiasmou:

— Detetive consultora da NYPD!

— Vai aceitar?

— Acho que sim. Adoro flores, mas carrego a profissão de tira no sangue.

Jonathan aquiesceu em silêncio e se levantou para abrir as cortinas. Embora o sol inundasse o quarto, um arrepio glacial sacudiu Madeline. Qual era o futuro da relação deles? Durante aqueles poucos dias, tinham vivido na febre do perigo. As provações que haviam superado juntos eram tão intensas que se tornariam um marco em suas vidas. Sucessivamente, cada um tivera a vida do outro nas mãos. Haviam construído uma relação de confiança mútua, se completado, se amado.

E agora?

Ela se embrulhou na coberta e foi se juntar a ele em frente à vidraça. Ia lhe fazer a pergunta, quando ele tomou a iniciativa:

— O que acha desse lugar? — perguntou, estendendo-lhe o celular.

Na tela do aparelho, fez desfilar as fotos de uma casa antiga com fachada de terracota, numa ruazinha de Greenwich Village.

— Bonito, por quê?

— Está à venda. Poderia dar um belo restaurante. Acho que vou arriscar.

— Sério? Olha que não é má ideia — ela sussurrou, sem conseguir esconder a alegria.

Ele brincou:

— Assim, se você ficar em Nova York, vou poder te dar uma mãozinha nas suas investigações.

— Uma mãozinha nas minhas investigações?

— Exatamente. Notei que você costuma precisar do meu cérebro incrível quando se encontra em dificuldades.

— É verdade — ela admitiu. — E, em troca, vou poder te ajudar na cozinha!

— Hum... — ele ponderou, fazendo cara de dúvida.

— “Hum” o quê? Conheço algumas receitas, viu? Eu te disse que a minha avó era escocesa? Ela me deixou o segredo de sua famosa tripa de cordeiro recheada.

— Que horror! E por que não pudim de gordura de rins de cabrito?

Jonathan fez correr o batente da janela envidraçada. Unidos em sua cumplicidade renovada, saíram para continuar a conversa na minúscula sacada que dava para o rio East e a ponte do Brooklyn.

O ar estava frio e o céu cristalino. Admirando a neve cintilante sob o sol, Madeline se lembrou da frase que Alice copiara na primeira página de seu diário: “Os anos mais belos de uma vida são os que ainda não vivemos”.

E, naquela manhã, teve vontade de acreditar nisso...