O Chamado do Anjo
27. No cativeiro
27
No cativeiro
Ninguém usa máscara por muito tempo.
— SÊNECA
Os dois dardos do Taser atingiram Alice na barriga, liberando uma descarga elétrica que a fulminou. Paralisada, a adolescente desabou no lugar, sem respirar e com as pernas bambas e o sistema nervoso bloqueado.
Um segundo depois, o agressor já estava em cima dela. Ele a segurou pelo pescoço e lhe enfiou brutalmente um lenço na boca, antes de amordaçá-la com uma faixa de pano. As portas do elevador se fecharam. Ele apertou o botão para alcançar o subsolo e, durante a descida, colou Alice no chão. Antes que ela voltasse a si, ele a virou de bruços e imobilizou seus punhos e tornozelos com a ajuda de dois grossos cordões de náilon, que apertou o máximo que pôde.
Em poucos segundos, estavam no estacionamento. O homem, com o rosto coberto pela touca ninja, agarrou Alice como um saco e a içou no ombro. Ainda zonza, ela tentou se debater frouxamente, mas, quanto mais se mexia, mais o sujeito a apertava. Seus braços eram fortes como pesados maxilares capazes de moer ossos. Como conseguira driblar um sistema de segurança tão sofisticado? Como soubera que Alice tomaria o elevador naquele momento preciso?
Na penumbra, atravessaram o estacionamento até uma picape Dodge bordô. Com sua grade monstruosa, seus vidros fumês, seus cromados rutilantes e seus pneus enormes, a máquina tinha um aspecto assustador. O homem jogou Alice no banco de trás, separado do motorista por uma placa de acrílico, como nos táxis. Instalou-se ao volante e deixou o estacionamento sem ser incomodado, graças a um cartão magnético.
Assim que se viu do lado de fora, o desconhecido tirou o capuz, permitindo a Alice perceber seu rosto pelo retrovisor interno. Era um homem de cabelo curto, olhos vítreos e grandes faces murchas e bexiguentas. Ela nunca o vira antes. A caminhonete se diluiu no trânsito, alcançou a Broadway e virou na Columbus Avenue.
* * *
Com os joelhos trêmulos e o coração disparado, Alice mal começava a sair do estado catatônico no qual a haviam mergulhado os impulsos elétricos do Taser. Mesmo em pânico, fez força para perceber pela janela o trajeto percorrido pelo raptor. Enquanto permanecessem nos bairros “turísticos”, ela alimentava uma esperança. Tentou bater nos vidros com os pés, mas as cordas que prendiam os tornozelos não lhe davam nenhuma margem de movimento. Aterrorizada, sufocava naquela mordaça. Tentou libertar as mãos, mas as cordas de náilon penetraram dolorosamente em seus pulsos.
O carro desceu a 9th Avenue até a 42nd Street. Estavam agora ao lado de Hell’s Kitchen — a cozinha do diabo. Alice tentou raciocinar.
Acalme-se! Respire pelo nariz! Mantenha o sangue-frio!
Não iria morrer. Pelo menos, não imediatamente. Se quisesse matá-la, o homem já o teria feito. Tampouco iria estuprá-la. Um maluco querendo saciar uma simples pulsão não teria corrido tantos riscos entrando num prédio tão vigiado quanto o da Juilliard.
Quem era aquele homem, então? Alguma coisa lhe chamara a atenção: ele tomara o cuidado de não atingi-la no tórax com a arma, preferindo mirar no abdome.
Ele sabe que recebi um transplante e que uma descarga elétrica muito perto do coração poderia ter me matado...
Sem conhecer ainda as motivações do raptor, Alice já compreendera que, aquela noite, seu passado a alcançava.
O homem dirigia com prudência, mantendo-se à direita, atento para não ultrapassar a velocidade permitida, a fim de evitar qualquer controle policial. Estava na extremidade oeste da cidade e descia para o sul, margeando o rio. Avançavam fazia menos de quinze minutos quando a picape entrou no Túnel Brooklyn Battery.
Mau sinal, estamos saindo de Manhattan...
Acabavam de passar pelo pedágio quando o celular do desconhecido tocou. Ele atendeu ao primeiro toque graças ao dispositivo de viva-voz, o que permitiu a Alice captar grande parte da conversa.
— E então, Yuri? — perguntou a voz.
— Estou a caminho. Tudo correu como planejado — ele avisou, com um sotaque russo de matar.
— Não machucou muito a menina?
— Segui as instruções.
— Tudo bem. Sabe o que tem que fazer agora?
— Sei — respondeu o russo.
— Não esqueça de revistá-la e se livre da picape.
— Entendido.
A voz ao telefone... É a voz de... Não, não é possível...
Agora tudo estava claro. O coração de Alice acelerou ainda mais, pois acabava de compreender que o perigo era maior do que ela imaginara.
Sob o impacto do pânico, a mordaça fez com que sufocasse de novo. Obrigou-se a respirar lentamente. Precisava tentar alguma coisa de qualquer maneira.
Meu celular!
Tentando não chamar atenção, Alice se contorceu para arrancar o celular do bolso de trás do moletom. Infelizmente, os pulsos amarrados tornavam qualquer movimento difícil, ainda mais sob a vigilância quase constante de “Yuri”, que espiava toda hora pelo retrovisor. Contudo, sua paciência e obstinação a recompensaram e ela conseguiu agarrar o aparelho e destravá-lo. Às cegas, já havia teclado os dois primeiros algarismos do 911 quando o Dodge freou bruscamente. O celular escorregou das mãos de Alice e foi atirado debaixo do banco.
— ГaHДОH! — xingou o russo, dirigindo-se ao motoqueiro que acabava de avançar o sinal.
Amarrada como uma salsicha, Alice não podia fazer mais nada; o aparelho estava definitivamente fora de alcance.
Avançaram ainda por uns bons quinze minutos, embrenhando-se na noite em direção ao sul. Para onde estavam indo? Ela estava convencida de que já haviam deixado o Brooklyn fazia um tempo quando percebeu a placa da Mermaid Avenue, uma das principais artérias de Coney Island.
Teve uma esperança fugaz quando passaram por uma viatura policial que patrulhava a Surf Avenue, mas os dois tiras pararam em frente a uma barraca do Nathan’s Famous para se empanturrar de cachorro-quente. Não era deles que deveria esperar salvação.
O russo virou num beco escuro e apagou os faróis. Nenhum outro carro à vista. Avançou até um prédio carcomido e desligou o motor.
Após ter se certificado de que o lugar estava deserto, Yuri abriu uma das portas traseiras do Dodge para libertar a garota.
Com uma faca, cortou as cordas que prendiam seus tornozelos.
— Vamos!
Alice ouviu o barulho das ondas e sentiu a maresia varrer seu rosto. Estavam numa zona lúgubre e desolada, próxima do Atlântico. Reinava uma atmosfera fúnebre naquela espécie de ilha, longe dos arranha-céus de Manhattan e da agitação do alucinado Brooklyn. Contudo, no início do século XX, Coney Island abrigara um imenso parque de diversões. Suas atrações, famosas pela originalidade, atraíam milhões de turistas vindos dos quatro cantos dos Estados Unidos. Seus carrosséis vibravam ao ritmo dos estribilhos e da efervescência. A roda-gigante era a mais alta do país; a montanha-russa, a mais rápida; os trens-fantasmas, os mais aterradores; e o Freak Show exibia os monstros mais disformes. Pendurado num cabo, era possível até saltar de paraquedas de uma gigantesca torre.
Mas aquela época gloriosa ia longe. Naquela fria noite de dezembro, o lugar não tinha mais nada do esplendor e da magia de outros tempos. Nos anos 60, entrara em decadência, incapaz de resistir à inauguração da Disneylândia e de outros parques temáticos mais modernos. O local agora não passava de um amontoado de terrenos baldios, estacionamentos cercados de grades, altas torres caindo aos pedaços. Apenas um punhado de carrosséis continuava a girar durante os meses de verão. No resto do ano, as atrações davam a impressão de apodrecer no lugar, carcomidas pela ferrugem e pela fuligem.
— Tente fugir e te sangro como um cordeiro — avisou Yuri, colocando a lâmina do punhal no pescoço de Alice.
* * *
Ele a arrastou para um terreno enlameado, protegido por cercas altas e pichadas, por onde corria uma matilha de cães furiosos. Dogues alemães de pelo amarelo, cujos olhos irradiavam fogo na noite. A magreza deles denotava clara privação alimentar, que compensavam com agressividade e latidos pavorosos. O próprio Yuri teve dificuldade para fazer os mastins se calarem. Empurrou Alice até um galpão desativado, cuja porta ele abriu, e obrigou sua presa a descer uma escada metálica que dava acesso a um túnel estreito. Uma corrente de ar glacial se engolfou com eles no espaço exíguo. A passagem era tão escura que o russo foi obrigado a acender uma lanterna. Tubos e encanamentos de todos os tamanhos percorriam o subsolo. Velhos motores e antigas caixas de luz estavam empilhados ao longo do trajeto. Numa parede, haviam encostado um painel de madeira com dezenas de monstros pintados e que prometia: THE SCARIEST SHOW IN TOWN – uma propaganda de um daqueles trens-fantasmas que pululavam no parque cinquenta anos atrás. Visivelmente, eles estavam na sala de máquinas de um velho carrossel.
A luz era débil. As sombras dançavam na parede. O fulgor da lanterna se refletia nas poças de água estagnada. Naquele profundo subterrâneo, assustaram um bando de ratazanas que, em pânico, se puseram a guinchar e a correr para todos os lados. Lágrimas escorriam pela face de Alice. Ela fez menção de recuar, mas Yuri a ameaçou novamente com a lâmina para forçá-la a atravessar uma rampa em caracol que levava às profundezas do entreposto. Ali, passaram por uma dezena de portas de ferro que se sucediam ao longo de um corredor sem saída. Atravessando as trevas, Alice se embrenhava no medo, sentindo um abismo se cavar no estômago.
No fim do corredor, chegaram diante do último retângulo metálico. Yuri puxou um molho de chaves do bolso e abriu a porta do inferno.
* * *
Lá dentro, fazia um frio polar. A escuridão era absoluta. Yuri aproximou a lanterna para encontrar o interruptor. Uma lâmpada fria e empoeirada espalhou uma luz lívida e incipiente, revelando um pequeno recinto com as paredes descascadas. O lugar exalava cheiro de mofo e umidade. Sustentado por pilares metálicos enferrujados, o porão tinha o teto tão baixo que dava a qualquer um a sensação de claustrofobia. O ambiente era tão insalubre quanto espartano: à direita, uma latrina repugnante e uma pequena pia imunda; à esquerda, uma cama de armar de metal.
Sem cerimônia, o russo empurrou Alice para a sala exígua. Ela caiu no chão poroso, onde uma infiltração deixava a superfície esponjosa e repulsiva.
Apesar das mãos imobilizadas, ela conseguiu se levantar e desferir com toda força um pontapé raivoso na virilha de seu raptor.
— Сволочъ!*
Ele recuou, mas era preciso mais que isso para derrubá-lo. Antes que Alice conseguisse armar outro golpe, ele correu para cima dela e lhe enfiou o joelho nas costas para deitá-la no chão, quase destroncando seu ombro.
Alice sufocou. Depois de alguns segundos confusos, ouviu um clique e se viu algemada em um grosso cano que corria ao longo da parede.
Dando-se conta de que o lenço a sufocava, Yuri a desvencilhou do pedaço de pano. Em lágrimas, a garota teve um longo acesso de tosse antes de recuperar o fôlego, respirando com avidez o ar rarefeito.
Yuri recuperara a empáfia, deleitando-se com o sofrimento de sua vítima.
— Tente me bater mais uma vez! — zombou.
Alice gritou. O grito era sua última saída. Embora soubesse que, àquela profundidade e levando em conta o isolamento do lugar, ninguém poderia ouvi-la, gastou toda a energia de seu desespero rasgando o silêncio da noite.
O russo se divertiu durante um longo minuto. Tudo o excitava: o medo da garota, a exiguidade e a escuridão do lugar, a sensação de poder que sentia arrebatá-lo. Mas refreou seu desejo. Haviam lhe ordenado que não estuprasse a guria durante os três primeiros dias. Depois disso, poderia fazer dela o que bem entendesse...
* * *
Alice se esgoelou, mas logo seus gritos se transformaram em acesso de choro. Yuri julgou que a brincadeira havia durado o suficiente. Vasculhou o bolso e puxou um grosso rolo de fita isolante, que usou para amordaçar a adolescente. Por segurança, amarrou novamente seus tornozelos, antes de abandoná-la à própria sorte fechando a porta metálica atrás de si.
Fez o caminho inverso, percorreu a fileira de porões, o corrimão em espiral, o túnel gelado, a escada de ferro. Chegou finalmente à superfície e à matilha de cães, que ele deixava à míngua de propósito para afastar eventuais curiosos. Agora, para eliminar as pistas, precisava se livrar do Dodge. Tinha a possibilidade de queimá-lo num terreno baldio, mas era arriscado, pois poderia ser notado por uma patrulha policial. Seria mais simples abandoná-lo em algum lugar no Queens. Com calotas de vinte polegadas e para-choques de tanque, a caminhonete representava o máximo do exibicionismo e do supérfluo. O tipo de caranga venenosa que desperta o interesse dos ladrões. Ainda mais se deixassem as chaves na ignição...
Satisfeito com a decisão tomada, chegou à ruela onde estacionara para constatar que...
... o carro não estava mais lá!
Olhou à sua volta. Tudo estava deserto. Prestou atenção. Ouvia-se apenas o barulho das ondas e do vento, que fazia os carrosséis rangerem.
Yuri permaneceu um longo momento imóvel, perplexo com a rapidez com que haviam roubado o veículo. Deveria se preocupar ou se alegrar com isso? E, o principal, deveria avisar o chefe? Decidiu não falar nada. Haviam lhe pedido para sumir com o carro e o carro sumira. Ponto-final.
O importante era ter a garota...
Nota
* Piranha!