O Chamado do Anjo

Guillaume Musso · Capítulo 39 de 47

Páginas do PDF

O Chamado do Anjo

33. As testemunhas

33

 

As testemunhas

 

O procurador-geral dos Estados Unidos pode dispensar medidas de proteção a uma testemunha num processo relativo a uma atividade

criminosa organizada, caso estime que a testemunha corre o risco de ser

vítima de violência ou de medidas de intimidação.

— ARTIGO 3.521, TÍTULO 18 DO CÓDIGO DOS ESTADOS UNIDOS

 

Enregelados depois de tanto tempo sentados no banco, Madeline e Danny retomaram a caminhada ao longo do cais. Apesar do frio, as margens do rio East estavam longe de estar desertas. Equipado com puçás, baldes de plástico e caniços de pesca, um grupo de idosos se rejubilava por ter encontrado um recanto písceo bem em frente ao skyline de Manhattan, tirando da água robalos listrados, linguados e pequenos halibutes. Falavam polonês, russo, espanhol... O melting pot no que tinha de melhor.

— No início — explicou Danny —, respondi a Alice que a ideia do Programa de Proteção a Testemunhas era ingênuo e inviável. Eu não tinha nada a dar em troca, nenhuma carta na manga. Mas ela insistiu: “Tenho certeza de que você pode usar aqueles que te encurralam nessa vida”. Essa reflexão frutificou. Nos Estados Unidos, faltavam poucos meses para as eleições presidenciais, e a luta contra as drogas era um dos temas de campanha. Todos os candidatos falavam do México, onde a guerra dos cartéis já havia feito dezenas de milhares de mortos. Os americanos se preocupavam com a escalada de insegurança na fronteira. A eleição do Obama representou uma guinada, quando ele reconheceu a responsabilidade do país no tráfico como principal país consumidor. Antes mesmo da posse, ele se reuniu com seu colega mexicano e os dois países reafirmaram a intenção de travar uma luta sem concessões contra os traficantes de drogas. Era uma plataforma ousada de presidência: tudo que Washington não queria era se ver com um narcoestado às suas portas.

— O que isso tem a ver com você? — perguntou Madeline. — Lavagem de dinheiro?

— Quinze anos atrás, quando estudei na Califórnia, conheci Jezebel Cortes nos bancos da UCLA.

— A filha do chefão do cartel? O nome dela está em todos os jornais por causa do julgamento.

— Nós permanecemos em contato. Tínhamos em comum um passado familiar bastante pesado. Mas filhos de criminosos se entendem.

— Tão bem que vocês dois assumiram a bandeira de seus pais...

— A Jezebel não tem sangue nas mãos, não diretamente. Ela era a contadora da organização. Uma executiva discreta e inteligente, que durante anos lavou os milhões da droga reciclando-os em atividades legais.

— Você tem uma maneira bastante sedutora de apresentar as coisas...

— Ao longo dos anos, com a intensificação da luta contra o dinheiro sujo, ficou mais difícil para os traficantes lavarem seus dólares via bancos e paraísos fiscais. A Jezebel foi obrigada a se voltar para outras atividades e intermediários.

— Foi então que ela recorreu a você...

— Sim, durante cinco anos fiz investimentos no nome dela, em imóveis e hotelaria. Eu sabia que os agentes do fisco americano estavam tentando derrubá-la, mas éramos prudentes. Quando a Alice me falou do Programa de Proteção a Testemunhas, pedi ao meu advogado que entrasse em

contato com o escritório de fiscalização do IRS.*

— Você propôs a eles um acordo?

— Imunidade e uma nova identidade para mim e para Alice, em troca do meu testemunho para derrubar Jezebel Cortes. Eles faziam questão absoluta de prendê-la nos Estados Unidos para poderem apreender os bens dela: contas bancárias, uma centena de apartamentos, complexos hoteleiros, casas de câmbio e agências imobiliárias por toda a Califórnia.

— Eles aceitaram com facilidade?

— Não, mas o Congresso se preparava para votar um polpudo auxílio de um bilhão de dólares destinado ao México. O FBI precisava de uma prisão simbólica para que a medida fosse aceita pela opinião pública. O caso chegou ao procurador-geral, que terminou por fazer um acordo com o MI6.

— O serviço secreto britânico?

— Foram eles que arranjaram a transferência da Alice, fazendo crer num sequestro. Estava combinado que eu a encontraria depois.

De repente, Madeline se sentiu completamente desamparada — durante meses, tentara resolver um caso que o Intelligence Service tomava o cuidado de abafar. Tudo se explicava: as câmeras de vigilância defeituosas, a ausência de indícios, os depoimentos furados e contraditórios. Poderia ter investigado durante dez anos e não avançaria um milímetro. Ou então terminaria como Jim, “suicidada” em seu gabinete...

Uma raiva impotente se apoderou dela. Tentou em vão calar sua fúria.

— Por que você fez isso comigo, Danny? Por que me fez acreditar que estava atrás dela, por que me enviou o coração dela?

— Assim que chegou em Manhattan, a Alice se tornou resistente aos medicamentos. A insuficiência cardíaca piorou. Fiquei muito preocupado. Ela estava sozinha, cada vez mais cansada, com sucessivos episódios de gripe e bronquite. Apenas um transplante podia salvá-la. Pressionei o FBI: eu não testemunharia se a minha filha morresse. Eles se viraram para inscrevê-la na lista de receptores prioritários e a cirurgia se desenrolou com agilidade num hospital nova-iorquino. Não foi um período fácil para ela...

— Mas por que me enviar o coração dela? — insistiu Madeline.

— Não fui eu que fiz isso, mas quem nos protegia. Porque você estava se tornando um problema, Madeline — ele admitiu, com a voz roufenha estragada pelo tabaco. — Você estava revirando céus e terras para encontrar a Alice. Ia acabar estabelecendo o elo comigo. O MI6 entrou em pânico. Foram eles que tiveram a ideia do coração. Para encerrar o caso.

— Qual foi o papel do Bishop nisso tudo?

— O Bishop foi obra do acaso. O serviço secreto sabia perfeitamente que mais cedo ou mais tarde um maluco se apresentaria como assassino da Alice. Só aconteceu mais rápido que o previsto. Em seguida, como combinado, alguns meses após o “desaparecimento” da Alice, encenei minha própria morte e fui me encontrar com ela em Nova York.

— Você matou o seu irmão!

— Não, o Jonny se matou sozinho. Você conhecia o cara: era um zumbi carcomido pelas drogas, um doente mental e um assassino. Fiz minha escolha, e a Alice era a minha prioridade. Quem age sempre tem um preço a pagar.

— Me poupe do seu discurso, já o conheço! E o Jonathan? Como ele esbarrou com você?

— Durante as férias do Natal seguinte, a Alice e eu fomos passar uns dias na Côte d’Azur. Depois da cirurgia, ela não resistiu e digitou o próprio nome nos sites de busca para checar os rumos da investigação do “sequestro”. Descobriu reportagens sobre você e sobre a sua tentativa de suicídio. Ela queria te colocar a par do segredo, mas Blythe Blake, a marshal encarregada da nossa segurança, não deixou, o que contrariou a Alice. Quando chegamos na França, ela fugiu para ir ao seu encontro em Paris, mas, uma vez na capital, desistiu para não nos colocar em perigo, e foi então que deu de cara com Jonathan Lempereur.

Madeline sentiu um aperto no coração. Não apenas Alice sabia de sua existência, como procurara entrar em contato com ela.

— Isso fez com que o FBI e a polícia alfandegária passassem a ter seus nomes cadastrados, e um alarme disparava automaticamente quando vocês se deslocavam em solo americano. Ontem à noite, Blythe Blake foi informada de que vocês dois estavam em Nova York. Impossível ser uma coincidência. Pedi a ela que usasse de um estratagema a fim de atrair vocês para cá.

— Para me fazer calar?

— Não, Madeline, para que me ajude.

— Te ajude a fazer o quê?

— A encontrar a Alice.

 

* * *

Reformado como um loft, o apartamento dava para a garagem e o cais. Com a testa colada no vidro da sacada, a agente Blythe Blake não desgrudava os olhos de Danny e Madeline. A marshal respondera sumariamente às perguntas de Jonathan e continuava totalmente concentrada em sua tarefa: vigiar e proteger a testemunha. O francês esmiuçava aquela mulher estranha, de beleza graciosa e aristocrática. Tinha a lourice e a elegância fria das heroínas hitchcockianas. Cintura de vespa, calça justa preta, botas de amarrar e jaqueta de couro aberta sobre uma blusa de gola rulê. Pequenos grampos prendiam seus cabelos num coque sofisticado. Quando vista do ângulo certo, era impossível não ficar seduzido pela nobreza de seus traços e do olhar delicadamente maquiado.

Até mesmo a cicatriz tinha algo de fascinante. Longe de desfigurá-la, a marca que lhe ultrajava o rosto lhe dava um lado “mulher fatal”, que alguns homens decerto achavam excitante.

— Devem perguntar muito a você... — ele começou.

Enquanto apontava os binóculos para Danny, ela respondeu com uma voz monocórdica:

— Um estilhaço de granada no Iraque, no “triângulo da morte”. Três milímetros para o lado e eu perdia o olho...

— Quando foi isso?

— Faz oito anos. Me alistei como voluntária. Se tivesse que fazer de novo, eu faria.

— Ficou muito tempo no exército?

— Sou uma agente do governo, meu histórico é confidencial.

Como ele insistiu, ela terminou deixando escapar:

— Abandonei os marines depois do ferimento. Permaneci dois anos em

Quantico,** depois realizei missões undercover pela DEA, antes de ser destacada para o regimento dos marshals.

— Onde eram essas missões?

— Escute aqui, meu velho, sou eu quem faço as perguntas, ok?

— É isso que você diz quando um cara se interessa por você numa festa?

Ela se irritou.

— Não estamos numa festa e, para seu governo, você não faz o meu tipo.

— Qual é o seu tipo? Caras como o Danny?

— Por que diz isso? Está preocupado por causa da sua namorada?

— E você? Gosta de sair com assassinos?

— Mais do que com pais de família — ela o provocou. — Mas, se quer saber, minha função é vigiar o Doyle, não dormir com ele.

Com o fone enfiado no ouvido, ela ladrou algumas instruções, ordenando aos dois brutamontes que intensificassem a segurança.

— Acha que o Danny pode ser eliminado pelos mexicanos?

— Não é impossível, mas não acredito nisso.

— Por quê?

— Porque, de certa maneira, ele já testemunhou.

Jonathan se sentiu perdido.

— Há cinco minutos você me disse que o interrogatório dele está marcado para a próxima semana!

Blythe esclareceu:

— Como a lei permite nesse tipo de situação, o Danny gravou o depoimento antes mesmo do início do julgamento. Um depoimento filmado, na presença de um juiz e de um advogado, que acaba com Jezebel Cortes.

Jonathan começava a compreender.

— Então, mesmo que ele fosse morto hoje...

— ... essa fita seria suficiente para condenar a traficante — confirmou Blythe. — A única esperança do cartel seria que o Danny mudasse sua versão no dia do julgamento.

— E por que ele faria uma coisa dessas?

— Por causa disso — ela respondeu.

Com um controle remoto, ligou uma grande tevê de tela plana presa na parede e projetou um vídeo.

Notas

* Uma das agências do Departamento do Tesouro americano, encarregada

de recolher impostos e implementar leis fiscais.

** Base americana, sede da academia de formação e treinamento do FBI.