O Chamado do Anjo

Guillaume Musso · Capítulo 41 de 47

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O Chamado do Anjo

35. Acossado

35

Acossado

 

Há um instante em que a morte tem todas as cartas e abaixa de uma

tacada os quatro ases na mesa.

— CHRISTIAN BOBIN

 

WILLIAMSBURG

MACONDO MOTOR CLUB

ONZE HORAS DA NOITE

Uma calma enganadora reinava no loft acima da garagem. Diante dos monitores, Blythe Blake e Madeline prosseguiam com suas análises de dados. De pé diante da sacada envidraçada, Danny roía as unhas, fumando um cigarro atrás do outro. Dois agentes montavam guarda: o primeiro, imóvel na porta do apartamento, o segundo patrulhando a garagem, em meio aos flocos de neve que turbilhonavam na noite.

Quase imperceptível, um tilintar metálico anunciou a Madeline a chegada de um SMS.

Deu uma espiada na tela:

Sei quem sequestrou a Alice!

Venha me encontrar no Life &

Death, esquina da 10th Avenue

com a 20th Street. Venha

SOZINHA. E, atenção, NÃO TOQUE

NO ASSUNTO COM NINGUÉM.

Jonathan

Incrédula, a princípio ela julgou ser um estratagema de Jonathan para revê-la.

Mas ele nunca teria usado essa tragédia...

Quem sabe ele não havia realmente descoberto alguma coisa? Nesse caso, por que não telefonar em vez de procurar atraí-la para um bar?

— Me empresta o carro, Danny?

— Vai sair?

— Preciso resolver algumas coisas — ela declarou, vestindo a jaqueta de couro.

Pegou a mochila com o laptop de Jonathan e seguiu Danny pela escada de ferro que levava à garagem. Vigiados pelo guarda-costas, atravessaram o galpão que regurgitava carros de colecionador.

— Pegue este — ele disse, apontando para um Pontiac vermelho-vivo 1964.

— Não tem algo menos chamativo?

Ela voltou a cabeça e franziu os olhos, procurando um modelo mais discreto.

— Por que não este? — sugeriu, mostrando um Peugeot 403 conversível. — Parece o carro do Columbo!

— Entre no Pontiac! — ele insistiu.

Ela compreendeu que era melhor não teimar e se instalou ao volante do esbelto americano.

Danny se debruçou na janela.

— Os documentos estão aqui — explicou, puxando o quebra-sol. Depois apontou para o porta-luvas. — Se tiver algum problema...

Madeline abriu a cavidade para perceber a coronha de um Colt Anaconda. Compreendeu então a obstinação de Danny em fazê-la aceitar seu carro particular.

— Vai encontrar o namorado? — ele perguntou, com uma expressão maliciosa.

Ela subiu o vidro, ignorando a pergunta.

— Até mais.

 

* * *

A noite e a neve dificultavam o controle do carro. Madeline pensou em usar o GPS do celular, mas terminou preferindo jogar “à moda antiga”. Fez com habilidade a curva fechada que permitia voltar à ponte e atravessou o rio East para se dirigir a Manhattan.

Até aquele momento, a adrenalina da investigação a mantivera desperta, mas de repente sentiu o cansaço acumulado se abater sobre ela, entorpecendo os movimentos e embaralhando as ideias. Naqueles últimos três dias, dormira apenas algumas horas de um sono conturbado. Os olhos ardiam, e ela sentiu uma rápida vertigem.

Porra, não tenho mais vinte anos!, queixou-se, tentando fazer o aquecimento funcionar.

Na saída da ponte, reconheceu a Bowery, que percorrera de manhã durante a perseguição a Blythe. Então a subiu até a Houston Street, onde o quadriculado impessoal da cidade voltava a imperar, tornando a orientação bem mais fácil. Verificou o endereço que Jonathan lhe dera e se deixou guiar até o Life & Death. Já era tarde e o trânsito fluía. Sentiu alívio ao notar diversas vagas livres no início da 20th Street, pois estacionar o Pontiac não seria fácil.

Atravessou o bar e percebeu Jonathan sentado diante de um copo vazio.

— Veio sozinha? — ele se preocupou.

— Como você pediu.

— Novidades sobre a Alice?

— Nada.

Ela se sentou diante dele e desamarrou o cachecol.

— Que história é essa? Por que disse saber quem sequestrou a menina?

— Julgue você mesma — ele respondeu, estendendo-lhe a bolacha do copo.

Ela observou o papelão durante uns dez segundos.

— E daí?

— SCAR! — ele exclamou. — Cicatriz em inglês.

— Sim, obrigada, é minha língua materna, fique sabendo.

— Blythe! Foi a Blythe que sequestrou a Alice! Pelo menos é o que ela está nos dizendo! A Blythe é cúmplice dos mexicanos!

A cara dubitativa da moça jogou um balde de água fria na efusão de Jonathan.

— Você acredita no Código Da Vinci? — ela zombou.

— É coincidência, na sua opinião?

— Quatro letras, isso não quer dizer nada...

Mas Jonathan não estava disposto a desistir.

— Reflita trinta segundos.

— Creio que isso está ao meu alcance.

— Ponha-se no lugar dos mexicanos. Quem você tentaria “cooptar” prioritariamente nesse caso?

— Diga você.

— A marshal encarregada da proteção do Danny, claro!

Ela ainda parecia cética, mas ele continuou:

— Nos Estados Unidos, os cartéis mexicanos tentam se infiltrar em todas as agências de manutenção da ordem: nas guardas da fronteira, na imigração, nas alfândegas... Cada vez mais funcionários americanos se deixam corromper. E a crise não melhorou em nada a situação.

— Blythe Blake é uma patriota — objetou Madeline.

— Ela tem o perfil ideal oposto! Trabalhou infiltrada junto aos narcotraficantes. Passado um tempo, você perde as referências. E, quando lhe oferecem milhões de dólares, você manda o patriotismo às favas.

Todo homem tem seu preço, ela pensou, lembrando-se das palavras de Danny. Invadida pela dúvida, observou com outro olhar as maiúsculas que formavam a palavra SCAR. Seria possível que Alice tivesse a presença de espírito de transmitir aquela mensagem?

— Temos que avisar o Danny! — decidiu Jonathan. — Ele está correndo perigo!

Madeline sacou o celular, no qual registrara o número de Danny. Após uma breve hesitação, resolveu lhe enviar uma mensagem.

Não confie na Blythe. Talvez

cooptada pelos traficantes.

Contate o FBI. Seja prudente. Você

está correndo perigo.

Madeline

— Vamos avisar os tiras e torcer para que você não esteja enganado.

Quando eles trocaram o calor do bar pelo vento gelado da noite, a Ferrari os esperava do outro lado da rua...

 

* * *

— É ela!

Esboçaram um movimento de recuo. Blythe certamente julgara suspeita a saída de Madeline e desconfiava de que alguma coisa estava acontecendo pelas suas costas.

— Vou lá ver — decidiu Jonathan, atravessando.

— Não, você está louco!

Merda!, pensou Madeline.

Correu até o Pontiac, lembrando-se da arma no porta-luvas.

Estava um breu. Jonathan se aproximou do Spyder. Estava vazio. Todas as luzes apagadas. Motor desligado.

Onde ela se meteu?

Percebeu um movimento atrás de si. O conversível estava estacionado em frente à entrada de um edifício-garagem. Para aumentar o número de vagas, um engenhoso sistema de elevadores hidráulicos permitia deslocar vertical e horizontalmente cerca de duzentos carros empilhados uns sobre os outros. O vento soprava forte, fazendo ranger os pilares metálicos da imensa estrutura. O lugar era sinistro e dava calafrios.

— Tem alguém aí? — perguntou Jonathan, entrando imprudentemente na área do estacionamento.

 

* * *

— Que idiota! — xingou Madeline, observando-o de longe. Enfiou a chave na ignição, pensando em “resgatar” Jonathan, mas...

 

* * *

Tarde demais.

Ouviu-se uma detonação e uma bala assobiou, passando a um fio de cabelo do crânio de Jonathan antes de ricochetear numa coluna de aço.

Ele se jogou no chão, esquivando-se de um novo projétil. Vinte metros atrás, Blythe atirava nele!

Ele se levantou num pulo e correu sem pensar, enveredando pela primeira escada ao ar livre na entrada do estacionamento. Atrás dele, ouviu os passos da marshal ressoarem. Ela o alvejava, mas a espiral de degraus a impedia de acertá-lo.

No topo da escada, ele se viu diante de uma grade com dois metros de altura.

Não tinha escolha a não ser escalá-la.

Não praticava esportes havia meses, mas a perspectiva de terminar trucidado foi suficiente para lhe dar forças para escalar a cerca. Pulou a grade para se ver...

... na antiga via férrea elevada que passava acima do Meatpacking District, o antigo bairro dos matadouros e açougues. Antigamente a linha permitia aos vagões de carga atracar nos entrepostos. A estrutura permanecera abandonada por cerca de trinta anos, invadida pela vegetação, antes de ser restaurada como calçadão. No verão, era um oásis de verde que oferecia uma vista vertiginosa do rio. Naquela noite, era uma série de lajes de cimento, hostis e lúgubres...

19th Street, 18th Street...

Jonathan corria como um desatinado. Naquela primeira parte, os trilhos eram retilíneos. Estava vulnerável, constituindo um alvo fácil. Quinze metros atrás, Blythe atirou duas vezes. Uma bala resvalou nele, a outra estilhaçou a mureta de proteção de acrílico do lado do rio Hudson. Para a sorte de Jonathan, àquela hora da noite, haviam cortado a iluminação ao longo de todo o percurso para não atrair os sem-teto...

 

* * *

Madeline teve um sobressalto ao ouvir os disparos. Ao volante do Pontiac, espreitava pela janela aberta qualquer movimento na ferrovia. Com os olhos erguidos para os jardins suspensos, tentava adivinhar a progressão da perseguição, avançando em câmera lenta pela pista que acompanhava o High Line. Através do belvedere envidraçado que dava para a rua, percebeu furtivamente a silhueta de Jonathan e deu um suspiro de alívio ao constatar que ele continuava vivo.

 

* * *

Jonathan se distanciara novamente. A neve que caía em pesados flocos deixara o solo escorregadio. O calçadão agora bifurcava para a esquerda e atravessava na diagonal a 10th Avenue, flutuando acima dos telhados, serpenteando por entre os prédios de tijolos, roçando nas fachadas e nos gigantescos painéis de propaganda.

Para que o lugar preservasse a autenticidade, julgara-se por bem conservar trechos inteiros da via férrea. Duas séries de trilhos de aço continuavam a correr a céu aberto em meio ao cimento. Arrebatado pelo excesso de confiança, Jonathan saltou triunfalmente por sobre uma jardineira embutida no cimento, mas torceu o tornozelo ao enfiar o pé numa das traves de madeira.

Merda!

Prosseguiu sua carreira num ritmo mais lento. Blythe se reaproximara, mas, na altura do Chelsea Market, a antiga estrutura industrial mergulhou num túnel por cima de um amontoado de construções, dando uma trégua ao francês.

 

* * *

14th Avenue, Washington Street...

Madeline se esgueirava por entre os prédios, mantendo contato visual com a estrutura de aço do parque suspenso. Por várias vezes, viu-se tentada a parar na altura das escadas que demarcavam o percurso, mas, àquela hora avançada, o acesso estava bloqueado.

Decidiu finalmente ir até a saída e estacionou na Gansevoort Plaza, esperando que Jonathan não fosse morto antes que ela o encontrasse.

 

* * *

Jonathan saiu do túnel, ofegante. Blythe estava menos de dez metros atrás dele. Uma dor aguda o fustigou sob as costelas. Suando aos borbotões, continuou assim mesmo a correr, esbaforido, costurando por entre os arbustos de erva daninha. Chegou às imediações do sundeck, a área reservada ao bronzeamento, onde grandes espreguiçadeiras de madeira fazem face ao skyline de New Jersey. Para frear a progressão de sua adversária, derrubou metodicamente tudo que viu na frente: espreguiçadeiras, mesas de jardim, vasos de flores...

Um novo disparo estilhaçou uma jarra de cerâmica.

Bem ao seu lado.

Extenuado, desembocou na última parte do piso de madeira. Empregou suas últimas forças e atravessou uma passagem de vegetação mais densa. As árvores altas e os arbustos impediram que Blythe atirasse.

Em seguida, a passagem se interrompeu bruscamente.

Jonathan se embrenhou pela escada que dava para a Gansevoort Street. Blythe apareceu atrás dele. Uma última grade a escalar e...

Tarde demais. Blythe saltara quase ao mesmo tempo que ele. Dessa vez, ziguezagueando no meio da rua, ele estava vulnerável e sem defesa.

Ela se deu o tempo de mirar. Daquela distância, não podia errar.

 

* * *

— Stop! Largue a arma ou eu atiro! — berrou Madeline.

A sombra felina de Blythe Blake se voltou, avaliando a situação num piscar de olhos. Madeline apontava para ela o Colt Anaconda de Danny.

Sem hesitar, a marshal ignorou a ameaça e se precipitou na direção de Jonathan, aplicando-lhe uma gravata no pescoço e pressionando a arma em sua têmpora.

— Um gesto e ele já era! — gritou a americana. — Recue!

As duas mulheres se encaravam, ambas inflexíveis em sua posição. Uma neve grossa, fustigada pelo vento, mascarava suas sombras, que se diluíam num céu pesado.

Blythe recuou até o rio, aumentando a pressão no pescoço de Jonathan.

Madeline deu um passo à frente. Os flocos de neve a impediam de distinguir direito a marshal.

— Se matar o Jonathan, você está ferrada! — ela gritou. — Seus colegas do FBI estarão aqui em menos de dois minutos.

— Pela última vez, recue ou ele já era! Estou me lixando para os agentes do FBI, tenho dez jeitos diferentes de me livrar deles.

Madeline tinha escolha? Se largasse a arma, isso não significava que Blythe os deixaria vivos. Ela mataria os dois. A jovem inglesa piscou várias vezes e sua vista se turvou. O cansaço e o estresse prevaleciam. Na hora errada.

Sentiu a mão tremer. O cano do revólver pesava uma tonelada. Era uma arma de “homem”, concebida para caça ou sessões de tiro esportivo. Assim, ela podia tanto arrancar a cabeça de Blythe quanto a de Jonathan. Bastava o erro de um milímetro no momento do tiro para que a bala fizesse a trajetória errada. E aquele era um jogo no qual não havia segunda chance.

Agora.

Ela disparou um único tiro. Antecipando-se ao tranco, Madeline empregou toda sua força para manter o braço firme, impedindo o deslocamento do Colt para trás.

Atingida no meio da cabeça, Blythe Blake foi violentamente cuspida para trás. Tentou se agarrar a Jonathan, mas, no instante seguinte, o corpo sem vida vacilou por cima da mureta e mergulhou no Hudson.

 

* * *

O vento soprava cada vez mais forte, carregando a estridência das sirenes que vinham da rua.

Esmagada por um peso imenso, afogada no meio dos flocos gelados, Madeline tiritava. Acabava de matar a única pessoa que sabia a localização do cativeiro de Alice. Acabava de matar Alice. Com a mão ainda crispada na arma, não conseguia desprender os olhos da água escura. Jonathan, por sua vez, permanecia imóvel sob o efeito do choque, a camisa respingada de sangue. Subitamente, pareceu sair do transe. Diante dele, Madeline vacilava, afundando na angústia. Temendo que ela desmaiasse, ele a arrastou para o Pontiac estacionado na Gansevoort Plaza.

Arrancou a toda, observando pelo retrovisor as luzes azuis e vermelhas que riscavam a escuridão do céu.