O Chamado do Anjo
19* Atravessando o caminho
19*
Atravessando o caminho
O sucesso nem sempre é prova de perfeição; muitas vezes é o benefício
secundário de um sofrimento oculto.
— BORIS CYRULNIK
Eu cheguei em Paris no dia 31 de dezembro, no fim da tarde. Naquele ano, fazia um inverno glacial em toda a França. Tinha nevado uma semana antes e, em alguns lugares, a capital continuava com um aspecto de estação de esqui...
PARIS
DOIS ANOS ANTES
31 DE DEZEMBRO DE 2009
Eu havia alugado um carro no aeroporto, um sedã alemão confortável e seguro para rodar em boas condições. Eu poderia ter pego um voo até Toulouse, mas, por causa das festas, o enterro do meu pai fora adiado para 2 de janeiro, e a ideia de passar um Réveillon fúnebre com minha irmã e meu cunhado me dava náuseas.
Decidi então ir para Auch de carro, partindo apenas na noite seguinte. Isso significava que eu tinha vinte e quatro horas livres. Eu não pregara o olho fazia três dias e pretendia afogar minha insônia numa noite sem fim. Sonhava com uma coleção de comprimidos capazes de derrubar um regimento, mas não trouxera remédios, e encontrar um médico àquela hora não seria fácil. Em primeiro lugar, tinha que encontrar um hotel, pois aquele em que eu me hospedava geralmente, no sexto arrondissement, não tinha mais quartos disponíveis.
— Estamos lotados — me comunicara secamente o recepcionista.
Normalmente, mesmo quando eu chegava sem avisar, os responsáveis do hotel se viravam para me receber com pompa, porque eu era Jonathan Lempereur, porque para eles era uma honra que eu escolhesse seu estabelecimento, porque eles tinham minha fotografia autografada exposta no saguão, ao lado da de outros vips que se haviam hospedado ali. Mas as notícias correm depressa, e os empregados deviam ter sido avisados da minha “desgraça”, pois ninguém fez o menor esforço para me ajudar. Eu conhecia bem alguns colegas na hotelaria e na gastronomia de luxo, mas meu masoquismo tinha limites e eu estava resolvido a não lhes oferecer meus despojos de bandeja. Após alguns telefonemas, encontrei finalmente um quarto num hotel modesto, na Place du Château-Rouge, na esquina do Boulevard Barbès com a Rue Poulet. Meu quarto era realmente “modesto”, até mesmo espartano. O pior era o frio que fazia. Tentei aumentar a calefação, mas não mudou muita coisa. Eram cinco horas da tarde e já era noite. Sentei-me na cama e segurei a cabeça entre as mãos. Eu sentia saudades do meu filho, da minha mulher, da minha vida. Em uma semana, perdera tudo. Alguns dias antes, eu vivia com a minha família num loft em TriBeCa, dirigia um império, tinha um cartão de crédito ilimitado e trinta pedidos de entrevista por semana... Aquela noite, minha vontade era chorar, e eu me preparava para passar o Ano-Novo na solidão de um quarto sórdido.
You’ll never walk alone...
Subitamente, uma sinistra evidência se impôs a mim. Saí do quarto para pegar o carro. Enquanto dirigia, entrei com um endereço no GPS, Rue Maxime-Gorki, em Aulnay-sous-Bois, e me deixei guiar pela voz feminina do navegador. No assento ao meu lado se amontoavam jornais franceses e americanos comprados no aeroporto. A imprensa francesa, que frequentemente me ignorara nos últimos anos, dessa vez se esbaldava: “Lempereur destronado”, “Lempereur abdica”, “A queda de Lempereur”...
Era o jogo da mídia, e eu estava preparado para ele. De qualquer jeito, naquele dia as manchetes eram devastadoras e eu as recebia como socos. Não conseguia sequer acreditar numa volta por cima. Afora criar receitas culinárias, o que eu sabia fazer? Nada, ou quase isso... Perdendo Francesca, eu perdera a chama que me impelia a ir adiante, o clique que me fizera passar de chef estrelado “comum” a dono do melhor restaurante do mundo. Havia vinte e cinco restaurantes três estrelas na França e cerca de oitenta no mundo, mas apenas uma lista de espera de mais de um ano. Era a minha casa, e eu sabia que devia isso a Francesca, pois eu só me nutria disso: do amor exclusivo, da paixão, da necessidade incessante de seduzi-la. Eu conhecera Francesca aos trinta e um anos, mas corria atrás dela desde o pátio do colégio. Quinze anos esperando que uma mulher como ela existisse em algum canto do planeta. Uma mulher bela como Catherine Zeta-Jones, em quem houvessem enxertado o cérebro da Simone de Beauvoir. Uma mulher que tivesse dez pares de sapatos de salto no closet, mas que fosse capaz de discutir a influência da música de Haydn sobre a obra de Beethoven ou o efeito do acaso na pintura de Pierre Soulages.
Quando Francesca entrava num lugar, vampirizava todos os olhares. As mulheres queriam que ela se tornasse sua melhor amiga, os homens a desejavam, as crianças gostavam do seu jeito. Vivêramos nossos anos de amor nessa incandescência e nessa extravagante divisão de tarefas: eu detinha a notoriedade, e ela, o glamour e o magnetismo. Nosso amor resistira dez anos equilibrado nesse fio.
* * *
Cheguei a Aulnay em vinte minutos pela autoestrada. Encontrei uma vaga na Rue Gorki, perto do prédio onde morava Christophe Salveyre.
— É Jonathan — anunciei, apertando a campainha.
— Que Jonathan?
— Jonathan Lempereur, seu primo.
Salveyre era filho da irmã de minha mãe. Nunca havíamos nos visto até que recebi uma ligação dele em Nova York, três anos antes. De férias na Big Apple, ele fora detido pela polícia após uma briga num bar. Não conhecia ninguém em Manhattan e estava sem um tostão furado. Por compaixão familiar, paguei sua fiança e o hospedei durante quinze dias numa das dependências do restaurante, esperando que seu caso fosse arquivado. O sujeito abrira o jogo comigo e não me escondera a natureza de suas atividades na França: traficava cocaína. Aquilo me dera um calafrio nos ossos, mas ele me garantiu que estava “limpo” em território americano.
— O que faz por aqui? — ele me perguntou, abrindo a porta.
— Preciso de um favor seu — respondi, entrando no apartamento.
— Chegou na hora errada, porra. Eu tinha voltado para “abastecer”, mas já estava de saída.
— É importante.
— O que você quer?
— Preciso de uma arma.
— Uma arma?
— Um revólver.
— Você viu escrito “loja de armas” na porta? Onde quer que eu lhe arranje um revólver?
— Faça uma forcinha!
Salveyre suspirou.
— É fim de ano, porra! As pessoas estão comemorando e tenho uma quantidade monstruosa de pó para distribuir. Volte amanhã.
— Não, preciso dele para hoje à noite!
— Para hoje é impossível. Tenho que entregar muito pó em pouco tempo.
— Lembre que te ajudei quando você estava na merda...
— E quem vai pagar o que vou deixar de ganhar?
— Fale de quanto precisa.
— Eu te ajudo se me comprar o equivalente a quatro mil euros de pó. E acrescente três mil para o revólver.
— Tudo bem — respondi imprudentemente. — Espero que não tenha nada contra dólares...
Ao partir de Nova York, eu esvaziara minha poupança e tinha nos bolsos mais de dez mil dólares em dinheiro vivo.
— Preciso de uma hora — ele me avisou. — Pode me esperar aqui. Descanse, você está com uma cara horrível.
Segui seu conselho e desabei no sofá. Sobre a mesa, havia uma garrafa de conhaque começada. Tomei uma boa dose, depois outra antes de apagar.
Salveyre voltou pouco depois das oito horas da noite.
— Peguei o que encontrei — ele me disse, estendendo-me um revólver cromado de coronha preta.
A arma era compacta, mas pesada. Com cinco balas, o tambor estava cheio.
— É um Smith & Wesson, modelo 60, calibre 38 Special.
A informação entrou por um ouvido e saiu pelo outro.
Dei-lhe o dinheiro, e ele me estendeu um saquinho plástico fechado com zip, que continha umas vinte doses de cocaína. Pensei em deixá-las com ele, mas acabei resolvendo carregá-las comigo, cogitando destruí-las mais tarde.
Assim ninguém vai consumir, justifiquei-me.
Sei disso, às vezes sou ingênuo...
* * *
OITO HORAS DA NOITE
Coloquei o revólver e a droga no porta-luvas e tomei a direção do hotel. Não valia a pena ligar o GPS para fazer o caminho de volta: A1, saída da Porte de la Chapelle...
Merda.
Eu acabava de perder estupidamente uma saída. O conhaque me derrubara. De repente não tinha mais certeza do nome da rua. Entre a Porte de Clignancourt e a Porte de Clichy, continuei avançando pelos Boulevards des Maréchaux por uns quinhentos metros.
O lugar era decadente. Sob a luz lívida dos cartazes publicitários, um grupo de prostitutas aliciava clientes. Alguns carros paravam depressa: os vidros eram baixados, os caras discutiam o preço da trepada ou do boquete, depois, dependendo da resposta, seguiam com a garota. Ou não. O sinal à minha frente acabava de fechar. Sem querer, eu ficara parado num ponto de ônibus. Uma garota do Leste, de saia curta e botas de couro, deu uma batidinha no meu vidro, oferecendo-me seus encantos. No início, fingi ignorá-la, mas ela executou uma espécie de minicoreografia ao estilo Moulin Rouge. Seus olhos eram tristes e vazios. Fiquei com pena e decidi abrir o vidro para pelo menos elogiar a dança.
Sei disso, sou ingênuo...
* * *
As duas viaturas policiais chegaram num piscar de olhos, vinte metros atrás de mim. Em menos de três segundos, a rua vibrou no ritmo das sirenes azuladas. Os tiras ostentavam seus distintivos, decididos a ser durões numa noite de festa, embarcando as garotas, verificando a identidade dos clientes.
Enquanto eu subia o vidro, uma silhueta feminina abriu bruscamente minha porta e se instalou no assento do passageiro.
— Arranque ou vamos ser presos! — ela gritou na confusão.
Era uma menina. Uma adolescente de uns quinze anos.
Uma prostituta? Com aquela idade?
— Arranque, porra! — ela gritou.
Em que vespeiro eu me metera? Eu devia estar com dois gramas de álcool no sangue, carregava um revólver, um saquinho cheio de pó no porta-luvas e uma menor estava dentro do meu carro.
Iria para a prisão e mofaria lá por um bom tempo.
Nem esperei o sinal abrir e virei no primeiro cruzamento.