O Chamado do Anjo

Guillaume Musso · Capítulo 27 de 47

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O Chamado do Anjo

21. The wild side

21

 

The wild side

 

A vertigem é diferente do medo de cair.

É a voz do vazio abaixo de nós que nos atrai

e enfeitiça, o desejo de queda do qual nos defendemos em seguida com

pavor.

— MILAN KUNDERA

 

PARIS, MONTPARNASSE

TERÇA-FEIRA, 20 DE DEZEMBRO

SETE E VINTE DA NOITE

Diante do espelho de seu apartamento, Madeline retocava seu disfarce: maquiagem chique e discreta, salto alto para alongar a silhueta, vestidinho preto de tafetá. Tudo se decidia no comprimento da saia: nem muito comprida, nem muito curta, logo acima do joelho. Aquela noite, ela se considerava “em missão” e, a julgar pelas beldades que desfilavam na cama de George, era fundamental que se mostrasse desejável se quisesse ludibriá-lo.

Vestiu o casaco de gabardine que Raphaël lhe dera de presente e saiu do apartamento, sentindo-se suficientemente insinuante e fatal para iludir o inimigo.

Àquela hora, a cidade estava congestionada. Por isso, apesar do frio, preferiu o metrô ao táxi e entrou na Estação Raspail.

Montparnasse, Pasteur, Sèvres-Lecourbe...

A linha estava lotada. A maioria dos passageiros voltava do trabalho, outros saíam para jantar ou estavam a caminho de um espetáculo qualquer, outros ainda faziam compras de Natal. Madeline abriu a bolsa, que continha sua Glock 17 — sua antiga arma de serviço, que nunca devolvera — e um livro de bolso — O cavaleiro sueco, que a livreira lhe recomendara fazia tempo.

Cambronne, La Motte-Picquet, Dupleix, Bir-Hakeim...

De pé no vagão, olhou em volta. Parecia-lhe que cada vez menos gente lia nos transportes públicos. Como em toda parte, as pessoas examinavam a tela do celular, dialogando, jogando, escutando música. Tentou mergulhar no romance, mas não conseguiu se concentrar. Muita gente, muito tumulto e, sobretudo, o peso da culpa que carregava nos ombros. Desde sábado, mentia a Raphaël. E suas mentiras eram cada vez menos inocentes. Naquela noite, fizera-o acreditar que estava indo à despedida de solteira de uma colega. Felizmente, ele não era uma pessoa desconfiada, caso contrário não teria demorado a desmascará-la.

Passy, Trocadéro, Boissière, Kléber...

Como ela esperava, George LaTulip entrou logo em contato com ela. Algumas horas após o “acidente”, ele telefonara para a loja convidando-a para almoçar. Para provocá-lo, ela primeiro recusara, mas ele felizmente insistira e, daquela vez, Madeline aceitara jantar. Conhecia bem tipos como George. Nos artigos psicológicos das revistas femininas, eram chamados de “sedutores compulsivos”. Na vida real, eram conhecidos como mulherengos. Questão de vocabulário...

Desceu na estação final da linha seis. Na saída do metrô, foi colhida pela explosão deslumbrante da iluminação. Ao longo de mais de dois quilômetros, da Place de la Concorde à Place de l’Étoile, as centenas de árvores da mais bela avenida do mundo estavam tomadas por lanternas de cristais azulados. Nem o parisiense mais blasé conseguia ficar indiferente à magia do espetáculo.

Ela apertou o casaco, entrou na Avenue Hoche e caminhou até o restaurante do Royal Monceau.

— Você está linda — recebeu-a George.

Ele não estava para brincadeira. A sala do palácio causava sensação com suas colunatas, suas poltronas de couro bege e suas combinações de materiais distintos: bancos de bar de metal, balcão transparente...

— Gostou da decoração? — perguntou, enquanto se instalavam a uma mesa, em um canto discreto.

Madeline balançou a cabeça.

— É assinada por Starck. Sabia que ele também “vestiu” meu restaurante?

Não, ela não sabia.

A partir daquele momento, ela quase não falou, limitando-se a ser bonita e a sorrir, fingindo admiração diante do exibicionismo amoroso de George, o chimpanzé. Seu discurso era um clichê só. Completamente à vontade, conversava por dois, falava de suas viagens, dos esportes radicais que praticava, de David Guetta e Armin van Buuren, que ele “conhecia pessoalmente”, e da noite parisiense, que julgava “monótona, taciturna e quase morta”.

— Isso é gravíssimo. Não existe mais uma verdadeira cultura underground na capital. Os melhores DJs e as gravadoras mais criativas estão se mudando para Berlim ou Londres. Quem quiser curtir de verdade, hoje, é obrigado a tomar um avião!

Madeline escutava com um ouvido distraído aquelas palavras formatadas que ele já devia ter pronunciado centenas de vezes. Quando lhe trouxeram o prato — ovos quentes com lagostins e champignons, filé de vitela ao molho com cenouras... —, ela se perguntou o que Jonathan teria pensado.

Após haver se deliciado com cada centímetro da sobremesa — um mil-folhas extraordinário de chocolate e limão —, ela aceitou tomar um “último drinque” na casa de George.

Instalou-se no banco do passageiro do Porsche que o manobrista acabava de trazer. Antes de arrancar, LaTulip se inclinou sobre Madeline e a beijou na boca.

Decididamente, esse cara não desconfia de nada.

Sorriu, fingiu gostar e retribuiu o beijo.

 

* * *

ENQUANTO ISSO, EM SAN FRANCISCO...

Era meio-dia no relógio do aeroporto. Jonathan beijou o filho e o colocou no chão. Com uma passagem de avião na mão, cravou o olhar em Marcus.

— Bom, deixo o Charly aos seus cuidados por dois dias. A Alessandra vai ficar na cidade durante as férias, pode te dar um apoio. Quanto ao restaurante, cancelei todas as reservas até o fim de semana.

— Tem certeza de que quer pegar esse avião?

— Absoluta.

— Não entendo o que vai fuçar em Londres.

— Na realidade, vou a Manchester. Preciso encontrar uma pessoa, verificar dois ou três detalhes...

— E isso não pode esperar?

— Não.

— Não quer me explicar?

Jonathan permaneceu evasivo.

— Tenho uma dívida a pagar, fantasmas a exorcizar, algumas zonas de sombra a esclarecer...

— Tem alguma coisa a ver com essa mulher, Madeline Greene?

— Te conto tudo quando eu mesmo puder enxergar mais claro. Enquanto isso, tome conta do Charly.

— Claro.

— No seu caso, isso significa nenhuma gota de álcool, nenhuma fulaninha em casa, nenhum baseado, beque, bagana...

— Acho que captei.

— E para ele isso significa escovar os dentes de manhã, depois do almoço e à noite, nada de filmes ou desenhos violentos, nada de reality shows, nada de doces a cada cinco minutos, pelo menos cinco porções de frutas ou legumes por dia, pijama e cama às oito da noite.

— Captei.

— Fui claro?

— Como uma nuvem preta — respondeu Marcus, o que fez Charly rir.

Jonathan os abraçou pela última vez antes de passar à área de embarque.

O voo da British Airways com destino a Londres decolou de San Francisco pouco depois de uma hora da tarde. Olhando pela janelinha, Jonathan sentiu um aperto no coração.

Era uma boa ideia abandonar no meio das férias de Natal o filho que ele já via tão pouco?

Possivelmente, não. Mesmo assim, fez um esforço para fugir das dúvidas. Agora não podia voltar atrás. Precisava entender, ir até o fim daquele mistério, para além das lembranças e das aparências. Depois de Madeline, era sua vez de se confrontar com o fantasma de Alice Dixon.

 

* * *

PARIS

George recuou para que Madeline entrasse no minúsculo elevador. Fechou a porta, apertou o botão do quinto andar e grudou a língua na boca da moça. Uma das mãos agarrou seus seios, enquanto a outra procurava subir seu vestido.

Madeline sentiu engulhos, mas conseguiu esconder o nojo. Estava em missão.

EmMISSÃO.

O duplex de George ocupava os dois últimos andares do prédio. Organizado como um loft, era um apartamento moderno com decoração minimalista, pintado com tinta industrial. Uma escada futurista de aço ligava os dois andares.

George recolheu o casaco de sua convidada, depois roçou num interruptor de vidro, que disparou uma música instantaneamente.

— Gosta? É um trance progressivo mixado por um dinamarquês. Carl Karl, o rei da cena berlinense. Na minha opinião, é o novo Mozart.

E você é uma besta quadrada, pensou acidamente Madeline, oferecendo-lhe seu sorriso mais adorável.

Agora que estavam a sós, ela se sentia mal. O coração disparava no peito. Sentia um pouco de medo do que viria a acontecer. Uma parte dela gostaria de estar longe dali, com Raphaël, no doce conforto de seu apartamento. Mas outro lado de sua personalidade, outra entidade pessoal, sentia uma excitação febril sob o efeito do perigo.

— Aceita um pink pussy cat? — ela perguntou, passando para trás do bar.

Ao ouvir a palavra pussy, George emitiu um rugido de satisfação. Posicionou-se atrás de sua conquista, grudou as mãos em seus quadris, antes de subi-las até o peito.

— Espere, querido! Vou derrubar tudo! — ela exclamou, desvencilhando-se com delicadeza.

Apanhou dois copos altos, que encheu de cubos de gelo.

— Tenho um presente para você! — ele disse, tirando do bolso dois comprimidos cor-de-rosa enfeitados com uma estrela.

Ecstasy...

Ela pegou um dos comprimidos e lhe dirigiu uma piscadela cúmplice.

— Que tal abaixar a luz? — sugeriu, fingindo engolir a anfetamina.

Esse brutamontes vai estragar o meu plano.

Despejou rapidamente vodca nos copos de drinque, que completou com suco de toranja e grenadine. Aproveitou-se de um momento de desatenção de George para incrementar a bebida dele com uma boa dose de Rohypnol, poderoso hipnótico muito usado por estupradores.

— Beba de uma vez só! — ela disse, estendendo-lhe seu pink pussy cat.

Por Deus, George não se fez de rogado e tomou o drinque de uma talagada só, mas, mal largou o copo, derrubou Madeline num banco comprido forrado de tecido preto e cheio de almofadas listradas.

As duas mãos agarraram a cabeça da moça, guiando sua boca na direção da dele para um beijo que decerto ele imaginava sensual. Introduzindo a língua em sua boca, ele arregaçou seu vestido até a calcinha, desabotoou o sutiã, acariciou-lhe os seios, chupando e mordendo os mamilos.

Madeline sentiu o tórax se comprimir. Teve falta de ar. O corpo de George imprensado contra o seu era pesado, intrusivo, exalando um calor e um cheiro incômodos. A saliva quente e salgada lhe dava náuseas e ela tinha dificuldade para respirar. Excitado, George a dominava, mordendo-lhe o pescoço, imaginando-se na pele do leão antes de devorar a gazela. Ela sufocava e ao mesmo tempo aceitava. Ninguém a obrigara a vir. Ninguém a obrigava a ficar. Ela poderia interromper a brincadeira com uma única palavra ou grito, mas não o fez.

Para resistir, focou-se no que a cercava, concentrando-se no barulho de um de seus sapatos que caiu no chão, mirando o teto iluminado pelos faróis dos carros que passavam na rua.

O rosto do empresário gastronômico estava colado ao seu. O homem abandonou seus seios e começou a lhe mordiscar as orelhas.

— Gosta disso? — sussurrou.

Ela se limitou a um gemido, sentindo a ereção dele contra o quadril. Com um gesto autoritário, George lhe agarrou a mão e a colocou sobre seu sexo. Madeline fechou os olhos e sentiu como um gosto de sangue na boca.

Procurar. Saber. Compreender.

Investigar.

Essa era sua droga desde que ingressara na polícia. Era tira, e continuaria sendo tira. Era sua natureza verdadeira. Uma coisa incrustada nela que a contaminara como uma doença.

Os dedos de George se dirigiam agora à sua barriga, apalpavam suas coxas, exploravam a raiz de seu púbis.

Madeline voltou a cabeça para o grande espelho do salão e viu seus olhos brilhando na noite. O gosto da vertigem, a ambiguidade da violência, a necessidade de transpor limites — esse lado radical que ela vinha recalcando há dois anos voltava à sua cabeça como um bumerangue. As lembranças e as antigas sensações vinham à tona. O vício e o perigo; a dependência que aquela profissão criava. Quando lidava com um crime de sangue, poucas coisas eram capazes de rivalizar com a adrenalina de seu trabalho. Nem as férias, nem os programas com as amigas, nem o sexo. A investigação a deixava obcecada, o mistério a devorava. Antigamente, quando mergulhava num caso importante, chegava a “morar” na delegacia, a dormir no carro ou mesmo nas celas do distrito. Aquela noite era diferente. Enfim, era o que parecia. Claro, não havia assassinato, mas seu faro lhe dizia para insistir. Francesca se tornara sua obsessão. O que pudera levar aquela mulher a sabotar voluntariamente seu casamento e a desfazer seu lar? Aquele tipo de comportamento com certeza escondia algo muito grave...

Os dedos de George se demoraram mais um momento nas curvas de seu corpo, contornando o tecido da calcinha antes de perderem progressivamente a agilidade. Quando sentiu o corpo do “amante” desabar de repente, Madeline se desvencilhou e abandonou o sofá, como uma mergulhadora com pressa de subir à superfície. LaTulip ficou no sofá, derrubado pelo remédio. Madeline se certificou de que o homem ainda respirava. Só esperava que a mistura de hipnótico e ecstasy não provocasse efeitos muito nefastos...

 

* * *

ONZE HORAS DA NOITE

Não perder tempo. Executar a tarefa. Já.

Madeline começou metodicamente. Aquele apartamento escondia um segredo, ela tinha certeza. Primeiro, desligou aquela música ensurdecedora, que ela odiava, acendeu todas as luzes e começou a busca.

O duplex era grande, mas estava relativamente vazio. Ou melhor, tudo estava no lugar. George era meticuloso e certamente tinha uma faxineira. Tinha um closet imenso, de alucinar qualquer sirigaita. Na biblioteca e nos armários, tudo minuciosamente organizado: material de esporte, aparelhos hi-fi de ponta, DVDs às centenas, alguns livros luxuosos... Madeline revirou todas as roupas, abriu tudo que podia ser aberto, inspecionou todos os cantos. Nunca se perdia esse tipo de “habilidade”. Não sabia realmente o que procurava, mas sabia que havia alguma coisa para encontrar. Quem sabe na papelada abundante que LaTulip guardava em seus arquivos e pastas sanfonadas?

Certificou-se de que George continuava inconsciente, sacou a Glock para o caso de ele ter um despertar brusco e se instalou à mesa para dissecar os documentos: extratos bancários, cobranças de impostos, contas de luz, títulos mobiliários e imobiliários. Aquela busca lhe tomou mais de uma hora, mas não resultou em nada que ela já não soubesse. O empresário tinha rendimentos substanciais como dono de restaurante, mas principalmente como administrador da Fundação DeLillo.

Madeline ficou louca da vida pelo trabalho perdido.

O tempo voava.

Faltava o laptop prateado instalado na mesinha de centro da sala. A investigadora abriu a fera com circunspecção. Quando era tira, mandava que um serviço especializado analisasse o conteúdo dos discos rígidos, uma vez que seus conhecimentos de informática eram limitados. Por sorte, o aparelho já estava desbloqueado, o que lhe poupou ter de adivinhar a senha para abrir os programas. Contentou-se com duas ou três manipulações básicas, inspecionando os dossiês do escritório, consultando a biblioteca de fotos — abarrotada de imagens de mergulho submarino —, examinando o histórico dos sites da internet. Percorreu rapidamente os e-mails da caixa de entrada, mas não descobriu nada interessante.

Investigar é insistir.

Sem desanimar, bisbilhotou o programa de correspondência. A conta de George estava configurada em protocolo IMAP. Madeline fizera a mesma coisa com seu próprio endereço, o que lhe permitia consultar seus e-mails ao mesmo tempo no celular e no computador. Não é preciso ser um perito em informática para saber que, nesse caso, todas as mensagens continuam arquivadas no servidor, mesmo aquelas que o usuário julga ter deletado.

Era então pelos arquivos da conta que Madeline daria uma volta. Havia milhares de mensagens, recebidas e enviadas durante anos. Entrou com diferentes palavras-chave até isolar a mensagem que procurava. A prova de que estava no caminho certo:

De: Francesca DeLillo

Para: George LaTulip

Data: 4 de junho de 2010 19:47

Assunto: Re:

George,

Eu te imploro, desista do plano de ir visitar o Jonathan em San Francisco. Tomamos a decisão certa. É tarde demais para ter remorsos, achei que você tinha entendido lendo os jornais...

Esqueça o Jonathan e tudo que aconteceu conosco. Permita que ele dê a volta por cima.

Se você confessar a verdade a ele, vai colocar nós três numa situação difícil e pôr tudo a perder: seu emprego, seu apartamento, seu pequeno conforto.

F.

A mensagem era desconexa, mas interessante. Sem dúvida havia coisas a descobrir nas entrelinhas. Ela imprimiu o e-mail e, para maior segurança, enviou uma cópia para seu próprio endereço.

 

* * *

UMA HORA DA MANHÃ

Água gelada na cara. Depois uns tapas. George abriu os olhos no momento preciso em que um novo tabefe o acertava em cheio.

— O que é que...

Estava sentado, amarrado com as próprias gravatas numa cadeira da sala. Tentou se libertar, mas as mãos estavam presas nas costas e cada um dos tornozelos solidamente amarrado no pé do assento. A dez centímetros de seu rosto, o cano de uma automática o ameaçava. Estava completamente à mercê daquela mulher que ele tivera a imprudência de trazer para casa e que acabava de lhe dar um “boa noite, Cinderela”.

— Eu... posso lhe dar dinheiro. Tem um pequeno cofre no closet com pelo menos vinte mil euros.

— Eu sei, já encontrei a grana — respondeu Madeline, balançando os maços de cédulas na cara dele.

— E o que mais deseja?

— A verdade.

— A verdade sobre o quê?

— Sobre isso.

Ele abaixou a cabeça para ver o e-mail de Francesca.

— Quem... quem é você? Eu achava que você era florista e que...

— Sou a mulher que está com a arma, só isso.

— Não sei o que lhe interessa nesse caso, mas te aconselho a...

— Na sua posição, acho que não tem nada a me aconselhar. Vamos voltar a este e-mail: por que você queria visitar Jonathan Lempereur em San Francisco?

À beira de passar mal, George transpirava copiosamente. Para incitá-lo a falar, Madeline aumentou a pressão, apertando o cano da arma na testa do empresário.

— O Jonathan é o cara a quem eu devo tudo — ele articulou. — Ele me tirou da merda e me levantou. Ele era jovem e cheio de energia. Na época, era realmente um cara excepcional: generoso, capaz de te arrancar dos seus demônios e extrair o seu melhor...

— E, para lhe agradecer, você roubou a mulher dele?

— De jeito nenhum! — ele se defendeu, enquanto seu coração saía pela boca. — A Francesca nunca se apaixonaria por um sujeito como eu! Ela era louca pelo marido!

Com um movimento da cabeça, George enxugou o suor que escorria pelo rosto.

— Eles formavam um casal estranho e exaltado — prosseguiu. — Um admirava o outro. Um queria deslumbrar o outro. Tinham dividido as tarefas, ele nos fogões e nos estúdios de tevê e ela nos bastidores, encarregada da expansão do grupo. A Francesca venerava o marido, queria divulgar a culinária dele para o mundo inteiro, mas...

— ... mas?

— Querendo crescer rápido demais, ela tomou decisões estratégicas erradas, que levaram o grupo à beira da falência...

Agora, George batia os dentes. Grandes olheiras haviam se incrustado sob seus olhos como um risco de fuligem. A mistura de ecstasy e sonífero não era de fato aconselhável.

— Aquelas fotos de você e Francesca nos tabloides, então, são armação?

— Claro! Um dia, há dois anos, ela me telefonou das Bahamas. Era durante as férias de Natal, justamente. Eu estava nas Maldivas com um colega para mergulhar. Completamente fora de si, ela me pediu para encontrar com ela em Nassau antes das três horas da tarde do dia seguinte. Dizia que era urgente. Bem que tentei saber mais, mas ela me garantiu que, quanto menos eu soubesse, melhor para mim.

— O que te levou a aceitar?

— A Francesca era minha patroa e realmente não me deixou escolha. Lembro que foi um caos: os aviões estavam lotados, e tive que ir por Londres para chegar na hora. Achava que teria mais informações quando chegasse, mas não foi o caso. Ela só armou aquelas fotos ridículas com um paparazzo local e voltamos no mesmo voo.

— E?

— Na chegada, o Jonathan estava nos esperando no aeroporto. Eu não sei quem contou para ele, mas a coisa ficou feia. Ele me pegou pelo colarinho e brigou violentamente com a mulher na frente de todo mundo. No dia seguinte, eles anunciaram o divórcio e a venda do grupo.

— Você nunca contou a verdade ao seu amigo?

— Não. Pensei nisso várias vezes. Eu sentia remorso, sabia que ele estava mal e que vegetava em San Francisco. Falei disso com a Francesca, mas ela sempre me dissuadiu, ainda mais que...

— ... ainda mais que a fundação dela lhe pagava generosamente para manter o silêncio.

— Escute, eu nunca fingi ser honesto — defendeu-se George. — Só o Jonathan acreditou nisso.

— E a Francesca?

— Continua morando em Nova York com o filho. Desde a morte do pai, cuida principalmente da fundação.

— Ela tem namorado?

— Não sei. Às vezes aparece acompanhada em eventos beneficentes ou vernissages, mas isso não quer dizer que saia com esses caras. Quer me soltar agora, porra!

— Abaixe o tom, por favor. A que ela se refere na mensagem quando escreve: “Achei que você tinha entendido lendo os jornais...”?

— Não faço a mínima ideia!

Madeline estava séria. Nesse ponto, tudo indicava que George mentia. Recuperando-se, ele se tornou ameaçador.

— Você tem consciência de que, assim que me soltar, vou correndo até a primeira delegacia que encontrar pela frente e...

— Acho que não.

— E por quê?

— Porque a polícia sou eu, babacão!

Ela precisava se acalmar. Estava numa situação perigosa. Qual era a próxima etapa? Enfiar-lhe o cano da Glock na boca? Despejar água goela abaixo para sufocá-lo? Cortar-lhe um pedaço do dedo?

Um cara como Danny teria feito George falar em menos de cinco minutos. Mas ela não tinha certeza se o próprio Danny teria desejado que ela passasse para o outro lado.

Pegou uma faca de cozinha, arrebentou o primeiro nó que prendia George e soltou sua mão direita.

— Você faz o resto sozinho — concluiu, saindo do apartamento.