O Chamado do Anjo
17. A orquídea negra
17
A orquídea negra
Sozinha [...]. Estou sempre sozinha, aconteça o que acontecer.
— MARILYN MONROE
SAN FRANCISCO
MANHÃ DE SEGUNDA-FEIRA
O dia nascia em Telegraph Hill. Os primeiros raios de sol refletiam nos cromados da geladeira, fazendo a cozinha passar brutalmente da penumbra à luz. Ofuscado por aquele reflexo, Jonathan levou a mão ao rosto.
Já é de manhã...
Esgotado pela noite insone que passara diante da tela do computador, massageou as pálpebras. Seus olhos queimavam, seus ouvidos zumbiam, seu cérebro estava saturado de horrores.
Levantou-se com dificuldade, ligou a cafeteira, mas, como um pugilista grogue após uma saraivada de socos, permaneceu um bom minuto sem reação, o olhar no vazio, sob o choque daquele mergulho nas trevas. Sentiu um calafrio; o fantasma de Alice, escoltado pela sombra de Madeline, ainda pairava no ar. Em sua mente, tudo se embaralhou: a demência assassina do Carrasco de Liverpool, a miséria de Cheatam Bridge, as devastações do crack, a ambiguidade de Danny Doyle, o sangue, as lágrimas, a morte... Apesar dessa lama, sua única vontade era voltar ao computador e continuar a explorar os poucos documentos do dossiê que ainda não abrira. Mas Charly não demoraria a se levantar e, antes de preparar o café da manhã do filho, precisava tomar uma chuveirada para se lavar daquela sandice. Deixou-se ficar um tempo sob a água escaldante, ensaboando-se até esfolar a pele para se desvencilhar das imagens de pesadelo que se agarravam ao seu cérebro. Perguntas lancinantes o dilaceravam e voltavam à carga. Que atrocidades Bishop impusera àquela pobre garota antes de matá-la? Fizera outras revelações sobre Alice? Madeline voltara a atravessar o caminho de Danny e, sobretudo, como a policial obstinada de Manchester se transformara na gentil florista parisiense?
* * *
PARIS, 16º ARRONDISSEMENT
DEZ HORAS DA MANHÃ
Madeline estacionou sua Triumph nas vagas reservadas aos veículos de duas rodas, no início da Avenue Victor-Hugo. Tirou o capacete, sacudiu os cabelos e empurrou a porta do L’Aiglon, um pequeno bistrô tradicional de aparência popular que destoava naquele bairro mais para chique. Sentou-se na primeira mesa perto da janela. De lá, tinha uma vista privilegiada do Café Fanfan, o restaurante de George LaTulip, cuja placa prestigiosa reinava do outro lado da rua. Pediu um chá, um croissant, tirou o laptop da mochila e...
O que eu vim fuçar aqui?
Feita pela outra metade do cérebro, a pergunta a desconcertou. Por que saía subitamente dos trilhos confortáveis de sua vida? Seu lugar era na loja, com Takumi e seus clientes. Não de tocaia, em frente ao restaurante de um sujeito que ela não conhecia nem de vista.
Você não está mais na polícia, minha cara! Você não está mais na polícia!, ela repetiu para si mesma para se convencer. Mas será que se abandona realmente uma profissão como aquela?
Resolveu deixar por alguns minutos entre parênteses o lado racional de sua personalidade. Pegou no bolso a matéria do tabloide que comentava o caso entre George e Francesca.
Ponha o cérebro para funcionar!, ordenou a si mesma, desdobrando o jornal sobre a mesa.
Mais uma vez, esmiuçou as fotos, provas irrefutáveis do adultério de Francesca. Alguma coisa não se encaixava naquelas fotos. Tinham um lado exageradamente artístico. Como ex-modelo, Francesca possuía um sexto sentido para fazer poses e jogar com a luz. Embora supostamente aquela série de fotos tivesse sido feita por um paparazzo, Madeline tinha convicção de que, longe de serem “roubadas”, elas participavam de uma encenação minuciosamente estudada.
Mas por quem? E com que objetivo?
Deu uma mordida no croissant enquanto conectava o laptop à internet. No site do Café Fanfan, descobriu com facilidade o número de telefone do restaurante. Ligou e pediu para falar com George, mas lhe responderam que o sr. LaTulip não chegaria antes das onze. Ela aproveitou o tempo disponível para aprofundar um pouco suas buscas. O site era a cara do restaurante: moderno e luxuoso. Observando os créditos, constatava-se que o estabelecimento pertencia na verdade ao complexo hoteleiro de luxo Win Entertainment.
O grupo que comprou todos os negócios de Lempereur...
No cardápio — cujos preços eram estratosféricos —, reconheceu algumas receitas que haviam concorrido para a fama de Jonathan. George lhe roubara não só a mulher, como também suas receitas mais famosas!
Que injustiça...
Madeline fez uma nova busca com “George LaTulip” e caiu num blog... de mergulho. Aparentemente, LaTulip era apaixonado por fotografia submarina. Assiduamente atualizado, o site era uma vitrine de suas diferentes viagens e apresentava centenas de fotos sublimes de peixes multicoloridos, tartarugas imensas e corais de cores exuberantes. LaTulip explorava o mundo havia anos. Mergulhara em Belize, no Havaí, em Zanzibar, nas Maldivas, no Brasil, no México... Tudo era classificado, arquivado, comentado. Percorrendo as páginas do site, Madeline se deteve na foto de um magnífico tubarão-zebra. Segundo a legenda, o seláquio havia sido fotografado nas Maldivas, em 26 de dezembro de 2009. A data chamou a atenção da ex-policial. De acordo com o tabloide, as fotos com Francesca datavam de 28 de dezembro de 2009. Haviam sido tiradas numa praia em Nassau, nas Bahamas. Só que as Maldivas e as Bahamas ficavam a pelo menos quinze mil quilômetros de distância, em dois pontos totalmente opostos do globo terrestre... Ir de um ponto a outro de avião em menos de dois dias era certamente possível, mas difícil, considerando as diversas conexões. Ficou com a pulga atrás da orelha. Procurou aprofundar sua intuição. Clicando de página em página, observou que nenhuma das viagens de LaTulip durava menos de uma semana. O que é natural para alguém que vai ao fim do mundo para mergulhar... Ora, sua viagem às Maldivas durara apenas dois dias. Tudo, portanto, sugeria que George interrompera bruscamente suas férias para ir ao encontro de Francesca.
Madeline sentiu uma fisgada no estômago. Uma queimadura angustiante e deliciosa, um arrepio intenso, que sempre a acometia quando descobria a primeira pista de uma investigação. Você não é MAIS tira, repetiu sua voz interior.
Mas ela preferiu não escutá-la e, satisfeita com sua descoberta, saiu por alguns minutos até a calçada para fumar um cigarro.
* * *
SAN FRANCISCO
— Bom dia, papai.
— Bom dia, filhote — disse Jonathan, erguendo Charly nos braços para beijá-lo antes de pousá-lo num dos banquinhos altos da cozinha.
A criança esfregou os olhos e mergulhou a cabeça na caneca de chocolate quente. Jonathan besuntou uma torrada com manteiga e mel e lhe passou. Charly agradeceu e perguntou se podia ver desenho no pequeno televisor. Naquela manhã, Jonathan tinha uma boa razão para lhe poupar seu sermão anticatódico.
— Claro, querido — respondeu, ligando o aparelho com o controle remoto.
Charly se aproximou da tevê. Jonathan aproveitou que o filho estava absorto no Bob Esponja para se instalar diante da tela do computador e voltar à exploração do “dossiê Dixon”.
Entre os documentos que lhe restava percorrer, estava um arquivo de vídeo zipado que ele abriu após colocar os fones de ouvido. A qualidade da imagem não era essas coisas. Sem dúvida o filme fora feito com um celular ou uma câmera digital em meados dos anos 2000. O som, contudo, era audível.
Em primeiro plano, distinguia-se Madeline, de olhos fechados. Deitada num leito de hospital, parecia ainda em coma ou pelo menos profundamente dopada. Em seguida, o homem que segurava a câmera a pousava sobre a mesa de cabeceira e filmava a si próprio. Era um sujeito moreno, viril, de rosto quadrado, olhar triste e cansado.
— Você vai sair dessa, Maddie... — começou, com uma voz neutra.
Jonathan compreendeu imediatamente se tratar de Danny Doyle...
* * *
PARIS
O Porsche Panamera parou em frente ao restaurante às onze e meia da manhã. George LaTulip saiu do carro e entregou as chaves ao manobrista.
Sentada atrás do vidro do café, Madeline franziu os olhos para vê-lo melhor. Envelhecera um pouco se comparado às fotos, mas continuava em forma: aparência cuidada, silhueta atlética. As têmporas estavam ligeiramente prateadas, decerto, mas não o suficiente para ser catalogado como “velho bonitão”.
Decidiu dar um tempo e observá-lo. Considerando a hora em que chegara ao restaurante, George provavelmente se dedicava mais às relações públicas do que aos fogões. Portanto, ela estava convencida de que ele não se demoraria além do necessário, uma vez terminado o serviço.
Quanto mais se aproximava da hora do almoço, mais apinhado ficava o L’Aiglon — o pequeno café no qual ela encontrara refúgio. A dona perguntou se ela queria comer alguma coisa, o que ela aceitou para não perder seu posto de observação. Pediu o prato do dia. O cardápio não era o mesmo do outro lado da rua, mas ela estava com tanta fome que devorou rapidamente a “salsicha de Toulouse com tomilho e cebolas caramelizadas”.
Pronto, de volta ao trabalho de campo: os esconderijos, as perseguições, as conjecturas, as refeições na birosca... Embora convencida de haver riscado tudo isso de sua vida, os antigos reflexos voltavam a galope. O que pretendia provar a si mesma? Que não perdera o faro? Que ainda era capaz de desemaranhar os fios de um mistério?
Aquilo a excitava tanto que a assustava. Nos últimos dois anos, fizera de tudo para apagar seu passado e agora temia que ele ressurgisse bruscamente, como um palhaço que pula da caixa. Sentia-se como uma junkie ou uma alcoólatra: nunca totalmente curada, suscetível de ter uma recaída ante a menor tentação.
Aquela evocação do passado a emocionou. Manter o sofrimento longe. Sobretudo não pensar mais em Alice. Sua última investigação a levara ao fundo do poço. Ela despertara no hospital após dois dias em coma, em consequência do suicídio fracassado. Quando abrira os olhos, estava com o celular na mão. Ainda um pouco zonza, olhara para ele sem compreender. Na mesa de cabeceira, ao lado de um buquê de violetas simples, repousava um envelope, de onde ela puxara um cartão:
“Semp re temos escolha.”
Se cuide,
Daniel
Verificou o celular e constatou que alguém usara o aparelho para filmar alguma coisa. Quando abriu a gravação, o rosto de Danny apareceu na tela. Nunca o vira tão cansado, tão “humano”.
— Você vai sair dessa, Maddie... — ele começou, com uma voz neutra.
* * *
— Você vai sair dessa, Maddie, mas não vai ser sempre assim. Conheço os tiras; eles não diferem muito de gente como eu. Sei que no fim das contas a maioria termina percorrendo o mesmo malfadado caminho: o caminho das trevas, da violência, do sofrimento, das obsessões, da morte...
Sei que você dorme com sua arma. Sei que morre de medo. Sei que suas noites são agitadas, povoadas de fantasmas, cadáveres e demônios. Conheço sua determinação, mas também seu lado obscuro. Você já o possuía quando adolescente, e seu trabalho só fez intensificá-lo. Mas você também se transformou numa morta-viva. Perdeu a pureza, o frescor e a luz. Agora, o único fulgor que se acende em você é o do pavor. No fundo, você não é muito diferente da mãe viciada em crack dessa garota. Você virou um abutre, uma viciada que precisa de sua cota de caça e de prisões para obter sua dose de adrenalina. É sua seringa, seu baseado, seu pó. É com isso que você se pica e é disso que vai morrer...
Danny se interrompeu, dando a impressão de procurar as palavras, enquanto acendia um cigarro. Estava num hospital, onde fumar era naturalmente proibido, mas aquele tipo de lei, embora valesse para os simples mortais, não dizia respeito a alguém como Doyle.
— Você tem sede de verdade — ele continuou —, mas essa busca pelo absoluto te corrói e não vai terminar nunca. Depois de Alice, haverá outras mortes, outras investigações, outros criminosos para prender... E a cada vez você vai se sentir mais melancólica, solitária e perdida. Você quer perseguir o Mal, mas o Mal está se lixando para você. Ele vai te destruir e te deixar sozinha, e isso é tudo. O Mal sempre ganha no final, acredite...
Você vive à margem da vida, Maddie. Precisa sair dessa espiral antes de cair num precipício sem volta.
Não quero que você tenha essa vida. Não quero que seja esmagada.
Fuja desse bairro, Maddie. Fuja dessa porra de cidade. Viva seus sonhos. Vá para Paris. Abra a floricultura que você deseja há tanto tempo! Não deixe que seja só um sonho. Você já tinha até arranjado um nome para ela, eu me lembro... Como era mesmo? O nome de uma antiga canção francesa, acho que era Le Jardin Extraordinaire...
A frase permaneceu em suspenso. Danny abriu um botão da camisa e deu algumas tragadas nervosas no cigarro, desviando o olhar da lente. Esfregou os olhos, suspirou, procurou alguma coisa para acrescentar, aproximou a mão do aparelho para desligá-lo, depois voltou atrás. Tinha o aspecto de um homem desesperado. Uma lágrima de cansaço o pegou de surpresa e rolou pela face. Ele a enxugou com um gesto desajeitado, quase infantil. Danny não devia ter chorado muito na vida. No fim, murmurou simplesmente:
— Eu te amo.
Depois a imagem pulou, antes de se embaralhar.
E Madeline compreendeu instintivamente que Danny havia morrido.
Do leito de hospital, olhou o buquê de violetas, depois novamente o cartão. Virou-o e descobriu uma série de algarismos. Um número de telefone, que ela discou atabalhoadamente. Era o de um banco na Suíça. Ela forneceu seus dados, e eles lhe comunicaram que uma conta fora aberta em seu nome e que nela se achava creditada a soma de trezentos mil euros.
* * *
SAN FRANCISCO
A imagem pulou antes de se embaralhar.
Durante alguns segundos, Jonathan ficou pasmo diante da tela, sentindo, mesmo sem querer, uma espécie de admiração pelo meliante.
Esse Danny Doyle... Que cara esquisito...
O que acontecera com ele naqueles dois anos e meio?
Nessa época louca em que vivemos, a maioria das perguntas não resiste muito tempo à internet e, daquela vez também, o Google lhe deu uma resposta quase instantânea.
MACABRA DESCOBERTA NA PERIFERIA DE
MANCHESTER
A reportagem datava de 10 de julho de 2009. Um ou dois dias depois da gravação do filme. Danny não estava blefando; sabia que sua vida corria perigo. O jornalista explicava que o cadáver do chefão da máfia Danny “Dub” Doyle fora encontrado com as mãos e os pés decepados e todos os dentes arrancados com alicate. A gangue dos ucranianos se vingara cruelmente...
Sentindo um calafrio na espinha após aquela descoberta, Jonathan voltou ao desktop do computador. Só lhe restava um último documento a abrir. Um arquivo jpg: uma fotografia. Deslizou o cursor sobre a tela, clicou na imagem e seu sangue congelou.
* * *
PARIS
AVENUE VICTOR-HUGO
George LaTulip deixou o restaurante pouco depois das duas horas da tarde. Imediatamente, Madeline montou na moto e grudou na traseira do carro para não perdê-lo de vista. Seguiu-o até a Rue Clément-Marot, no coração do Triângulo de Ouro. O Porsche estacionou por alguns segundos em frente a uma imobiliária de luxo. A moça que foi ao seu encontro no carro o beijou avidamente. Sem dúvida, uma corretora de imóveis. Alta, loura, jovem, saia curta e charme eslavo. Chamativa, mas suficientemente distinta para vender apartamentos de três ou quatro milhões de euros para uma clientela abastada. O carro deixou o oitavo arrondissement e alcançou a Rive Gauche e o estacionamento da Escola de Medicina. De mãos dadas, o casal percorreu a Rue Saint-Sulpice, virou na Bonaparte e se engolfou sob o pórtico de entrada de um prédio da Rue de l’Abbaye.
Madeline aguardou cerca de vinte minutos antes que uma senhora entrasse. Esgueirou-se atrás dela a fim de verificar as caixas de correio. Uma delas estampava o nome de LaTulip. Decididamente, George levava uma vida de príncipe: carrão, jovem amante, apartamento em Saint-Germain-des-Prés. Nada mal para um ex-vendedor de cachorro-quente.
A recreação erótica durou pouco: quinze minutos depois, os dois amantes já estavam na rua. Com passadas céleres, dirigiram-se ao estacionamento, depois George deixou a parceira no trabalho. Sem notar que estava sendo seguido, foi até o bairro de Ternes pela Avenue Wagram, virou na Rue de la Néva e entrou pelo imponente portão de um belo palacete creme.
Subindo na calçada, a moto de Madeline estacou diante da placa dourada do casarão, na qual estava gravado em letras modernas: Fundação DeLillo.
A “policial” estacionou a máquina perto da Sala Pleyel e voltou por onde passara. A neve da manhã dera lugar ao sol, mas o frio cortava como navalha e fazia sair vapor da boca da jovem inglesa.
Aquele era um dos bairros chiques, onde não faltavam restaurantes de primeira linha: Maison du Chocolat, Mariage Frères... Atenta para não perder de vista a entrada do prédio, mas querendo se aquecer, Madeline se instalou a uma mesa da mais famosa casa de chá de Paris.
Atrás do balcão, havia uma parede de armários de carvalho maciço decorados com dezenas de caixas metálicas encerrando os mais preciosos vinhos. O lugar cheirava a incenso e jasmim. O cardápio de chás era interminável. Um pouco ao acaso, Madeline se deixou guiar pela poesia dos nomes e optou por uma xícara de “brumas do Himalaia” servida com amanteigados.
Como por reflexo, pegou o laptop, que conectou na rede wi-fi para acessar a internet.
Fez uma busca sobre a Fundação DeLillo e ficou sabendo que Frank DeLillo, pai de Francesca, criara aquela instituição poucos anos antes de morrer. A intenção era ajudar alunos brilhantes e desfavorecidos a continuar seus estudos, concedendo-lhes bolsas. A associação — uma das mais pródigas do mundo — tinha sede em Nova York, mas contava com uma sucursal parisiense cujo administrador era... George LaTulip.
Pensativa, Madeline bebeu um gole da infusão com sabor de avelã e almíscar. O cerco se fechava em torno de LaTulip, para quem convergiam todas as pistas. Que milagre fizera com que aquele homem saído do nada conseguisse cair nas graças tanto do grupo que “demitira” Jonathan quanto de Francesca?
A excitação aumentava ao ritmo das descobertas. A investigação a magnetizava. Agora, não pensava mais nos buquês, nos arranjos ou na loja. Só pensava em descobrir o segredo de George LaTulip, o qual, ela tinha certeza, era também o segredo da separação de Francesca e Jonathan.
* * *
DUAS HORAS E MEIA MAIS TARDE
Já era noite quando George saiu do prédio da Fundação DeLillo. Nesse ínterim, Madeline tivera tempo de provar vários chás diferentes. Pagou às pressas uma conta salgada e chegou à moto no momento em que o Porsche arrancava a toda velocidade pelo Boulevard de Courcelles.
Merda!
Montou na Triumph e saiu feito uma louca, mas, quando chegava à Place des Ternes, perdeu de vista o Panamera.
Não entre em pânico.
Logicamente, George retornaria ao restaurante para o turno da noite.
Na mosca! Encontrou o sedã na altura da rotatória da Étoile. Mais uma vez, sentiu aquele pequeno arrepio de excitação. Cada vez mais, entrava no âmago de sua “investigação”. PRECISAVA desvendar o segredo de George, revistar seu apartamento, interrogá-lo e forçá-lo a abrir o jogo...
STOP! Você não é mais tira!, gritou uma voz em sua cabeça.
Era verdade: empreender uma investigação era muito mais difícil sem a carteira de policial. Impossível convocá-lo à delegacia ou fazer uma busca em seus aposentos. Porém, se não tinha a autoridade, podia utilizar a astúcia e descobrir um jeito de abordá-lo e ganhar sua confiança.
Mas qual?
Com o rosto varrido pelo vento, Madeline seguiu o carro pela Avenue Victor-Hugo e parou ao seu lado no sinal vermelho. O Café Fanfan estava a apenas vinte metros.
Invente alguma coisa. Agora.
Quando o sinal abriu, ela acelerou para alcançar o Panamera.
Pelo amor de Deus, não vá quebrar um osso!
Contudo, uma força a impeliu a continuar.
E vê se não destrói a moto!
Quando o Porsche reduziu a velocidade, Madeline lhe cortou a trajetória, freando bruscamente para bloquear a roda traseira. O para-choque atingiu a moto no momento em que esta caía. Madeline foi ejetada da Triumph, que derrapou no asfalto e terminou se espatifando contra um poste. A moça rolou na rua. A cabeça bateu no chão, mas, como estava bem protegida pelo capacete, o impacto foi atenuado no momento do choque.
Os pneus do Panamera cantaram, largando um pouco de borracha no asfalto, e pararam subitamente. Atarantado, George saiu de seu monstro de aço e se precipitou para Madeline.
— Eu... eu sinto muito! Você me deu uma fechada!
Madeline constatou a extensão dos prejuízos: a jaqueta estava rota, o jeans rasgado, as mãos e os antebraços ralados. Mas nada além disso.
— Vou chamar uma ambulância — disse George, ligando o celular.
— Acho que não é necessário — ela garantiu, tirando o capacete.
Sacudiu os cabelos e lhe ofereceu seu mais belo sorriso.
Um fulgor de desejo se acendeu no olhar de George, a chama do caçador.
Aceitando a mão que ele lhe estendia para ajudá-la a se levantar, Madeline compreendeu que já estava com um pé na porta.
Havia cumprido a etapa número um: se infiltrar no lado inimigo.
* * *
SAN FRANCISCO
Jonathan clicou no último arquivo. A foto se abriu na tela cheia. Era a cópia do cartaz afixado aos milhares nos quatro cantos do Reino Unido para divulgar o desaparecimento de Alice Dixon. No centro da página, a fotografia de uma garota de aproximadamente quinze anos, cabelos louros e escorridos, sorriso cansado e rosto pálido e sardento. Haviam escolhido aquela foto porque nela a adolescente usava a blusa que vestia no dia do sequestro: um suéter acolchoado com capuz, rosa e cinza, da grife Abercrombie & Fitch. Um suéter largo que ela customizara costurando um escudo da equipe de futebol do Manchester United.
Dentre os diferentes documentos do “dossiê Dixon”, Jonathan se concentrara sobretudo nas anotações pessoais de Madeline e nas provas oficiais do inquérito. Era o primeiro retrato de Alice em que ele se detinha de verdade.
Assim que a foto apareceu na tela, o coração ricocheteou no peito. Invadido por uma onda de mal-estar, seu olhar encontrou o de Alice e ele sentiu o estômago embrulhar.
Ele conhecia aquela garota.
Já esbarrara com ela.
Já conversara com ela.
Aterrado pela angústia, fechou precipitadamente o computador. O ritmo cardíaco ficou descompassado, as mãos tremiam. Respirou profundamente para recuperar a calma. Em vão.
A recordação de um encontro que o marcara como uma cicatriz indelével subiu à tona com força. Ele tentou repeli-la, mas seu corpo foi percorrido por um calafrio glacial, como se congelasse sob o efeito do medo.
Precisava tirar tudo aquilo a limpo.