O Chamado do Anjo
22. O fantasma de Manchester
22
O fantasma de Manchester
Um segredo que guardamos é como um pecado que não confessamos: ele
germina, se corrompe dentro de nós e só consegue se alimentar de
outros segredos.
— JUAN MANUEL DE PRADA
QUARTA-FEIRA, 21 DE DEZEMBRO
LONDRES
O voo da British Airways pousou em Heathrow às sete horas da manhã, no meio da escuridão, da chuva e do nevoeiro. Esse tempo “inglês” não incomodou Jonathan, não estava ali de férias. Assim que desceu do avião, trocou alguns dólares e foi ao balcão da Hertz para pegar o carro que reservara na véspera pela internet.
De Londres, eram quatro horas de viagem até Manchester. Os primeiros quilômetros foram um pesadelo: Jonathan pensou que nunca se acostumaria a dirigir do lado esquerdo. Alguns sentimentos antibritânicos lhe ocorreram (criticava-se sempre a arrogância dos franceses, mas o que pensar de um povo que se digladiava para recusar o euro, que continuava dirigindo do lado esquerdo e agitava o dedo indicador e o médio para fazer um gesto obsceno?), mas repeliu aqueles clichês etnocêntricos. Respirou e ruminou que bastava permanecer zen, ir mais devagar e se concentrar.
Chegou então a uma rotatória, quase errou o caminho, quis ligar o pisca-pisca e, por causa da inversão dos comandos, ligou o limpador de para-brisa e quase bateu no carro da frente.
Na rodovia, dirigiu com prudência, tomando pé da situação à medida que avançava. Na periferia de Manchester, conectou o GPS e inseriu no navegador as coordenadas da delegacia de Cheatam Bridge. Deixou-se guiar até um prédio acinzentado, diante do qual sentiu certa emoção. O local era como imaginara. Fora ali que Madeline trabalhara, ali que, numa manhã lívida, Erin Dixon aparecera para comunicar o desaparecimento da filha...
No hall de entrada, informou-se para saber se o detetive Jim Flaherty ainda trabalhava ali. Diante da resposta afirmativa, perguntou se o policial podia recebê-lo.
— Tenho novos elementos a comunicar a ele sobre uma de suas investigações.
A recepcionista desligou o telefone e lhe pediu para segui-la. Atravessaram a grande sala, que ele se lembrava ter visto na véspera, na fotografia do aniversário de Madeline. A delegacia continuava tal e qual. Nada mudara aqueles anos todos, salvo que o pôster de Cantona desaparecera e fora substituído pelo de Wayne Rooney.
Pior a emenda que o soneto, camaradas...
A recepcionista o introduziu no escritório que Flaherty dividia com um jovem segundo-tenente.
— O detetive vai recebê-lo.
Jonathan cumprimentou o outro policial e entrou. Flaherty recuperara o velho pôster de “Canto” e o prendera com fita adesiva ao lado do cartaz de um show do The Clash.
Ponto para ele...
No quadro de cortiça, espetara várias fotografias — aniversários, colegas prestes a se aposentar, comemorações diversas... —, todas datando da época em que Madeline ainda estava ali. Por fim, no alto e à direita, também preso com fita adesiva, o cartaz amarelado e rasgado impresso na época do desaparecimento de Alice Dixon. Não apenas Flaherty não o retirara, como o colocara ao lado de um retrato de sua ex-parceira. A evidência saltava aos olhos: as duas mulheres tinham o mesmo olhar, triste e velado, a mesma beleza também, e davam a impressão de estar alhures, num mundo que só pertencia a elas, muito distante daquele que empunhava a câmera.
— Posso ajudar? — perguntou Flaherty, fechando a porta atrás de si.
Jonathan o cumprimentou. O tira tinha uma fisionomia afável, cabelos entre o louro e o ruivo, estatura e compleição imponentes. Nas fotos, parecia “bonitão”, embora agora se percebesse certo desleixo. A barriga, principalmente, sobrava de todos os lados; algumas semanas de “Dukan” não teriam sido um luxo para lhe devolver uma silhueta mais sedutora.
— Temos uma conhecida em comum, tenente — começou Jonathan, sentando-se.
— Quem?
— Madeline Greene.
Uma pequena chama se acendeu nos olhos de Flaherty.
— Madeline... Não tenho notícias dela desde que pediu demissão. Como ela está?
— Bem, eu acho. É florista em Paris.
— Foi o que ouvi dizer.
— Na realidade — continuou Jonathan —, não estou aqui para falar de Madeline, mas de Alice Dixon.
Flaherty ficou perturbado e franziu o cenho de maneira ameaçadora. A tensão era visível nesse instante, e Jonathan não teve a menor vontade de lhe aconselhar a fazer um regime.
— O senhor é um jornalista xereta de merda, é isso?
— Longe disso, sou chef.
— Chefe de quê?
— Chef de cozinha.
O tira o examinou e amaciou um pouco.
— O senhor aparecia na televisão, não é?
— Sim, era eu.
— Então o que vem fuçar no meu gabinete?
— Tenho uma informação que pode lhe interessar.
O tira olhou de esguelha para seu colega, depois deu uma espiada no relógio de parede que acabava de dar uma hora da tarde.
— Já almoçou? — perguntou.
— Ainda não. Peguei o avião em San Francisco e aterrissei em Londres hoje de manhã.
— Só para falar comigo?
— Exatamente.
— Tem um bar frequentado pela polícia a duas ruas daqui. Uma porção de fish & chips é do seu agrado?
— Com prazer — respondeu Jonathan, levantando-se para segui-lo.
— Mas vou logo avisando, não é o Fat Duck...*
* * *
Nesse aspecto, o policial não mentira. O lugar era barulhento e cheirava a fritura, cerveja e suor.
Tão logo se sentou, Flaherty entrou no cerne da questão:
— Você parece simpático, mas vou logo avisando: o caso Alice Dixon está arquivado há dois anos, entendeu? Então, se veio me encher o saco com teorias escalafobéticas ou pseudorrevelações idiotas, explodo a sua cabeça no prato, está claro?
— Como o dia — respondeu Jonathan.
Talvez não seja a expressão mais apropriada, pensou, olhando através do vidro a chuva insistente que grossas nuvens carboníferas despejavam torrencialmente sobre o bar.
— Nesse caso, estou escutando — disse Jim, engolindo um pedaço enorme de peixe frito.
— O que aconteceu com Erin Dixon? — começou Jonathan.
— A mãe da guria? Morreu ano passado de overdose. Torrou em drogas a grana que os abutres da televisão lhe pagaram. Não conte comigo para ter pena dela...
— Por que o caso foi tão rapidamente arquivado?
— Rapidamente? Recebemos o coração da guria há dois anos e meio, no fim da primavera de 2009, dez dias antes da prisão de Harald Bishop, o Carniceiro de Liverpool. Temos prova de que a Alice morreu e um assassino atrás das grades, não é suficiente?
— Li que o Bishop foi acusado de alguns assassinatos que ele não cometeu...
— É, isso costuma acontecer com esse tipo de assassino serial. Não sabemos com certeza tudo que o Bishop fez. Ele fala muito, mas não necessariamente de casos sobre os quais queremos ouvir. Como muitos monstros de sua espécie, é um sujeito ao mesmo tempo insano e altamente calculista. Durante os interrogatórios, ele se diverte com os investigadores: confessa uma coisa, desmente, fala de outro crime... Analisamos todos os restos mortais encontrados no jardim dele. Não identificamos nenhum material genético da Alice, mas isso não significa que ele não matou a garota.
Jonathan provou um pouco de peixe frito e teve náusea. Sentia-se mal naquele lugar exíguo e quente como uma estufa. Abriu um botão da camisa e pediu uma Perrier.
— Continua apaixonado por Madeline Greene? — perguntou, abrindo a tampa da garrafa.
Flaherty olhou para ele, estático. Uma violência surda germinou dentro do policial.
— Vamos, admita, Jim! — continuou Jonathan. — É uma moça bonita, inteligente e determinada, com esse defeitinho que a deixa ainda mais atraente. Difícil não gostar dela, não acha?
Flaherty desceu o punho sobre a mesa.
— De onde está tirando essas...
— Basta olhar as fotografias do seu gabinete. Desde que a Madeline partiu, você ganhou quantos quilos? Quinze? Vinte? Virou um desleixado. Acho que a partida dela te deixou arrasado e que...
— Chega dessa babaquice! — disse o tira, agarrando-o pelo colarinho.
Mas isso não impediu Jonathan de continuar:
— Também acho que você não está nada convencido de que o Bishop matou a Alice. Você guardou o cartaz sobre o desaparecimento dela no seu gabinete, pois, para você, o caso ainda não foi elucidado. Tenho certeza de que você pensa na Alice todos os dias. Acho inclusive que continuou a investigar por conta própria e talvez tenha descoberto fatos novos. Não há provas que permitam reabrir o inquérito, mas elementos suficientemente perturbadores para estragar suas noites...
O olhar de Flaherty se turvou. Desconcertado, amansou um pouco. Jonathan vestiu o paletó, levantou-se e deixou uma nota de dez libras na mesa. Deu alguns passos debaixo da chuva, atravessou a rua e foi se proteger do temporal sob o alpendre de uma escola.
— Espere! — gritou Flaherty, juntando-se a ele. — Você disse que tinha informações para me dar.
Os dois homens se sentaram num banco de madeira, longe do aguaceiro. Eram férias de Natal. A escola estava calma e deserta. O temporal caía com uma força incrível, despejando no bairro uma chuva pesada e torrencial que ameaçava inundar tudo.
— Não sou Papai Noel — avisou Jonathan. — Antes de lhe dizer o que descobri, quero saber exatamente em que pé estão suas investigações.
Jim suspirou, mas aceitou fazer um relatório sobre os progressos de suas buscas.
— Tem razão. Embora o inquérito esteja arquivado, continuei, durante meu tempo livre, a investigar algumas pistas abertas pela Madeline. Uma em particular, relativa ao diário da Alice, que sempre nos intrigou.
— Por quê?
— Porque só continha banalidades, nada de realmente íntimo...
— Mandou analisá-lo?
— Sim, primeiro por um grafólogo, que confirmou a autenticidade do diário, depois por um químico. Embora seja muito difícil datar documentos recentes, podemos extrair muitas coisas de algumas páginas rabiscadas. Por exemplo, sabia que alguns fabricantes introduzem em suas canetas “marcadores químicos” que fornecem o ano de fabricação da tinta?
Jonathan balançou a cabeça. Jim prosseguiu:
— A tinta começa a envelhecer assim que entra em contato com o papel. Seus componentes se degradam em outros produtos, que podem ser analisados por cromatografia e infravermelho. Enfim, vou pular os detalhes. O relatório grafológico foi categórico: as páginas foram de fato redigidas pela Alice, mas esse diário, que lista acontecimentos que se estendem ao longo de mais de um ano, foi na realidade escrito de uma tacada só!
Jonathan não estava certo de ter entendido tudo. Jim explicitou sua descoberta:
— Estou convencido de que se trata de uma cópia “passada a limpo”, feita pela Alice para embaralhar as pistas.
— Concordo que é desconcertante, mas um pouco fraco, não acha?
— Tem outra coisa — acrescentou Flaherty. — O instrumento musical que encontramos no quarto dela.
— O violino?
— É. A Alice tinha aulas desde os seis anos com Sarah Harris, uma solista bastante conhecida que reparou nela ao dar um curso beneficente na escola. Como a menina era talentosa, Harris a presenteou com um violino artesanal de qualidade. Um instrumento que valia entre cinco mil e sete mil euros...
— Mas não foi esse que vocês encontraram no quarto da Alice, certo?
— Certo. Mandei fazer uma perícia no instrumento: é um violino medíocre de estudo, fabricado na China, e não vale um centavo....
Dessa vez, Jonathan foi obrigado a admitir que o fato era perturbador. Alice vendera seu violino antes de desaparecer? Em todo caso, ela não estava com ele nas imagens capturadas pela câmera de vigilância.
— Não adianta, já virei todos esses elementos de cabeça para baixo, mas não compreendo a lógica disso tudo — confessou Jim, desencantado.
— Explorou a pista do coração?
— Está me tomando por um iniciante! Em que pensou? Num transplante?
— Por exemplo...
— Claro que verifiquei! Não era muito complicado, aliás: ninguém faz esse tipo de cirurgia numa garagem, e o pequeno número de órgãos disponíveis obriga a uma transparência total. Fiz uma lista das adolescentes que receberam um coração novo nos meses seguintes ao rapto da Alice. Existem apenas algumas dezenas de casos. Todas essas pessoas foram identificadas e todas respeitaram os procedimentos.
Jonathan abriu o zíper da mochila para pegar um saquinho plástico contendo dois guardanapos de papel amarrotados e manchados de chocolate.
— O que é isso? — perguntou Jim, tentando ler através da embalagem.
Reconheceu a letra agora familiar. As primeiras linhas começavam assim:
Caro sr. Lempereur, quer dizer, Jonathan.
Tomei a liberdade de retirar as balas do seu revólver e jogá-las na lixeira do estacionamento enquanto você tomava seu café...
— Mande esses guardanapos para o seu laboratório. Tente coletar as impressões digitais.
— Fale um pouco mais sobre eles — pediu o policial.
— Veja o que está escrito no verso e compreenderá.
Jim franziu as sobrancelhas virando o saquinho plástico. Uma inscrição em letras douradas dançava no meio de cada guardanapo: “Os postos Total lhe desejam um feliz 2010”.
— Isso é impossível. Nessa data, a Alice estava morta fazia seis meses!
— Me ligue quando tiver os resultados — respondeu Jonathan, estendendo-lhe seu cartão.
— Espere! Vai voltar para San Francisco?
— Vou — mentiu Jonathan. — Tenho uma reserva no voo noturno e um restaurante para tomar conta.
Levantou-se e voltou para o carro debaixo de chuva.
Deu partida, ligou o limpador de para-brisa e arrancou. Com a cabeça longe, ruminava os elementos que Flaherty acabava de lhe fornecer. Aquela história do diário, do violino... Absorto em pensamentos, não se deu conta de que, mecanicamente, mantinha o carro na pista da direita. Como um raio, um ônibus surgiu à sua frente. Jonathan soltou um grito, freou o carro com toda a força e corrigiu a rota. Perdeu um retrovisor na passagem, arranhou a lataria e tomou um belo de um susto.
Mas estava vivo.
* * *
PARIS, QUATRO E MEIA DA TARDE
— Vai visitar a Juliane em Londres! — exclamou Raphaël. — Assim, de repente?
— Vai me fazer bem — respondeu Madeline.
Haviam marcado um encontro num pequeno café da Rue Pergolèse, embaixo do prédio onde Raphaël comandava seu escritório de arquitetura.
— Quando viaja?
— No início da noite, no Eurostar das 18h13.
— Mas estamos a três dias do Natal!
Ela tentou tranquilizá-lo:
— Não faça essa cara. Estarei de volta para a noite do dia 24.
— E a sua loja? Achei que estivesse cheia de trabalho...
— Escute — ela se irritou —, estou com vontade de visitar minha amiga na Inglaterra, ponto-final! Como não estamos mais em 1950, vou dispensar sua autorização.
Perdendo subitamente a paciência, ela se levantou e saiu do café. Atônito, Raphaël pagou a conta e foi ao seu encontro no ponto de táxi da Avenue de la Grande-Armée.
— Nunca te vi assim — ele se preocupou. — Está com algum problema?
— Não, querido, não se preocupe. Só preciso dessa pequena pausa, está bem?
— Está bem — ele concordou, ajudando-a a colocar a bagagem no porta-malas do táxi. — Me liga quando chegar?
— Claro — ela disse, beijando-o.
Ele se debruçou para o motorista e indicou:
— Gare du Nord, por favor.
O carro partiu. Madeline fez um sinal de adeus para Raphaël através do vidro. O arquiteto respondeu lhe soprando um beijo.
A moça esperou que o táxi chegasse à Place de l’Étoile para dizer ao motorista:
— Esqueça a Gare du Nord, vou para Roissy. Terminal 1.
* * *
Madeline apresentou o passaporte e a passagem à comissária da Air China. Naquele período de férias, todos os voos para San Francisco estavam lotados ou com preços exorbitantes. Por menos de mil euros, só encontrara na internet aquela ida simples na companhia chinesa. Um pulinho até a Califórnia que a obrigaria a uma breve escala em Pequim!
Entrou na passarela de vidro que levava ao avião. Jeans velho, suéter de gola rulê, jaqueta de couro — o jogo de espelhos dos vidros da plataforma lhe devolvia uma silhueta em que não restava mais muita coisa de feminino. Estava despenteada, sem maquiagem, quase desleixada. O lado “esfarrapado” de seu aspecto refletia o caos que reinava em sua mente.
Detestava-se por mentir a seu companheiro. Raphaël era um homem exemplar, responsável e atencioso. Conhecia seu passado e não a julgava. Ele lhe restituíra a serenidade e a confiança. Ela não tinha o direito de enganá-lo daquele jeito.
Contudo, não hesitara um segundo em comprar uma passagem de avião para o outro lado do mundo instantes depois de ter recebido o telefonema de Jim Flaherty.
Seu ex-parceiro descobrira o número de sua loja e entrara em contato com ela no início da tarde para avisá-la que um certo Jonathan Lempereur, um homem que dizia conhecê-la, viera interrogá-lo sobre o caso Dixon.
O caso Dixon...
Alice.
Aquela evocação desempenhara o papel de um eletrochoque que dava todo sentido a seu comportamento daqueles últimos dias. Era um sinal do destino! O destino brincara com ela desde o início, trocando seu celular pelo de Lempereur. Investigando sobre George, Francesca e Jonathan, ela voltara para Alice!
Em sua mente, tudo conservava a precisão de antes. A lembrança da adolescente continuava forte. Uma imagem nítida que ela tentara em vão reprimir para proteger sua sanidade mental. Uma chaga da alma ainda viva que nenhum fogo jamais poderia cauterizar.
Ninguém se liberta assim do passado. Ninguém escapa assim das areias movediças de suas obsessões.
Alice voltava para procurá-la.
Alice voltava para assombrá-la.
Da última vez, o horror do episódio do coração a fizera desistir de dar curso à investigação.
Agora, estava disposta a ir até o fim.
Qualquer que fosse o preço a pagar.
Nota
* Restaurante do chef Heston Blumenthal, um dos mais respeitados do
Reino Unido.