O Chamado do Anjo

Guillaume Musso · Capítulo 35 de 47

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O Chamado do Anjo

29. Um anjo no inferno

29

Um anjo no inferno

 

Luto para não me afogar.

— LEMA DA PROVÍNCIA HOLANDESA DE ZEELAND

 

ENTREPOSTO DE CONEY ISLAND

CINCO HORAS DA MANHÃ

Gelado e úmido, o escuro subterrâneo cheirava a podre.

Com as mãos algemadas no cano, os pés amarrados pelo fio de náilon, Alice puxou com toda força as correntes na esperança de fazer o encanamento enferrujado ceder. Mas a canalização era sólida e a garota desmoronou no chão molhado.

Um soluço de desespero lhe rasgou a garganta, mas foi calado pela fita isolante.

Não chore!

O corpo tremia, percorrido por arrepios. O frio queimava todos os seus membros, pinicava a pele, penetrando até os ossos. Os braceletes de aço machucavam a carne dos pulsos, provocando uma dor atroz que se irradiava até a nuca.

Pense...

Mas o frio e o estresse tornavam difícil qualquer concentração. Um sentimento de angústia e impotência lhe trespassava o peito. Ouviu um grunhido atrás da pia encardida. Alice levantou a cabeça para perceber o focinho de um rato do tamanho de um gatinho. Tentou gritar novamente, sem sucesso. Tão assustado quanto ela, o animal se esgueirou ao longo da parede oposta e se escondeu embaixo da cama de armar.

Fique calma...

Ela engoliu as lágrimas e tentou abrir os maxilares, mas a fita isolante a asfixiava, vedando completamente a boca. Mesmo assim, conseguiu enfiar a língua por baixo de uma das beiradas da mordaça e, com os incisivos, roeu um pedaço da fita até conseguir libertar o lábio inferior. Inspirou profundamente várias lufadas de ar viciado. Respirava melhor, mas, apesar da baixa temperatura, sentia a pulsação cardíaca se acelerar!

Meus remédios!

De repente se lembrou de que não poderia seguir seu tratamento! Desde que fizera o transplante, sua bolsa era uma verdadeira farmácia. Levava uma vida quase normal, com a condição de ingerir religiosamente um coquetel de remédios elaboradíssimo, comprimidos antirrejeição, naturalmente, mas sobretudo medicamentos para pressão alta e arritmia.

Seu médico a advertira várias vezes: se não tomasse os comprimidos, poderia comprometer seriamente os rins em poucos dias, até mesmo em poucas horas! O processo poderia começar de uma hora para outra, sobretudo em caso de desidratação.

Justamente, tinha a garganta seca e irritada. Precisava beber alguma coisa para evitar que a capacidade de filtragem dos rins diminuísse. De quatro, com as mãos imobilizadas, conseguiu se mover ao longo do cano até a pia, mas a torneira era alta demais. Arrebatada por um novo impulso, contraiu os músculos e, com uma força inesperada, tentou mais uma vez fazer o encanamento ceder. No entanto, teve de desistir muito rápido: a cada impulso, as mandíbulas afiadas das algemas lhe laceravam a carne. Desistindo da luta, deixou-se escorregar pela parede. Deitada no chão, teve a impressão de não passar de um animal acorrentado submetido ao capricho do dono. Desamparada, resolveu lamber a água estagnada que transpirava do assoalho.

No canto oposto, o rato a observava.

 

* * *

TRIBECA

OITO HORAS DA MANHÃ

O sol nascera num céu de cristal.

Sob o choque das revelações de Francesca, Jonathan saiu do Excelsior um pouco tonto. Percorreu a calçada até o Smart de Claire. Pôs-se ao volante e arrancou na direção do East Village, onde combinara de se encontrar com Madeline. Pensou em telefonar para saber se ela encontrara seu bilhete, mas achou que ela ainda podia estar dormindo.

Parando num sinal vermelho no início de Little Italy, olhou mecanicamente para o retrovisor e, para seu espanto, percebeu novamente as linhas fluidas e elegantes da Ferrari preta na pista da direita, atrás dele.

Que estranho...

Esfregou os olhos para ter certeza. Impossível se enganar: era de fato o mesmo carro, com o capô frisado, os faróis gradeados e o para-choque feroz, que lhe dava um aspecto reptiliano. Voltou-se. Daquela vez, o conversível permaneceu imóvel, mas o sol que se refletia no para-brisa o impedia de distinguir o rosto do motorista. Quis memorizar o número da placa do Spyder, mas, inacreditavelmente, percebeu que o carro não estava emplacado!

O sinal abriu. Uma buzinada o obrigou a arrancar e atravessar o cruzamento. Quando pôde finalmente dar uma nova espiada no retrovisor, o misterioso bólido havia desaparecido...

 

* * *

ENTREPOSTO DE CONEY ISLAND

Barulho de passos.

Alice abriu os olhos, emergindo em sobressalto do sono precário que terminara por vencê-la.

Que horas seriam? Quanto tempo permanecera inconsciente? Cinco minutos ou cinco horas?

O frio a fazia tiritar. Sentia dormência nas pernas, e as algemas lhe arranhavam os pulsos. Tentou ficar de pé, mas desistiu. Agora, sentia-se fraca demais para tentar se debater.

A porta se abriu com um rangido, e a imensa silhueta de Yuri apareceu no vão.

— Счyĸа!* — ele se irritou, constatando que ela roera a mordaça.

Então a agarrou pelos cabelos, mas ela implorou:

— Preciso de água! Estou sem os meus remédios, posso...

— Cale a boca!

Ele a puxou violentamente para trás, arrancando-lhe um punhado de cabelos. Ela compreendeu que era melhor ficar quieta. O russo pareceu se acalmar. Aproximou o rosto do dela, respirando o perfume de seu pescoço, acariciando sua face com os dedos imundos. Alice sentiu o hálito dele perto de sua boca e não conseguiu deixar de expressar nojo. Virou a cabeça e foi então que percebeu a filmadora que ele tinha na mão.

A sombra escura e espessa de Yuri se destacou na luz fria e lívida.

— Você terá sua água — ele prometeu —, mas antes nós dois vamos fazer um filminho...

Nota

* Sua cadela!