O Chamado do Anjo

Guillaume Musso · Capítulo 31 de 47

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O Chamado do Anjo

25. A cidade que nunca dorme

25

A cidade que nunca dorme

 

Os homens conversam com as mulheres para conseguir ir para a cama

com elas;

as mulheres vão para a cama com os homens

para conseguir conversar com eles.

— JAY MCINERNEY

 

ENQUANTO ISSO, EM NOVA YORK...

— Não há nada a fazer, o Jim não atende — constatou Madeline, desligando, enquanto o táxi estacionava em frente a um pequeno restaurante de Greenwich Village.

Jonathan abriu a porta do carro para ela.

— Não é de espantar, são cinco horas da manhã em Manchester! O seu Jim ainda está no berço, só isso...

A investigadora seguiu o francês até o interior da brasserie. Assim que chegaram, o dono reconheceu o ex-chef.

— Jonathan! É sempre uma honra, você sabe!

— Bom te ver, Alberto.

O dono os instalou a uma mesinha perto da janela.

— Vou trazer dois Special One — disse ele, afastando-se.

Madeline ligou novamente para o número de Flaherty, sem mais sucesso do que antes. Alguma coisa não batia...

— O Jim é escravo do trabalho. Conhecendo-o como conheço, com o que você lhe contou, ele deve ter feito de tudo para conseguir a intervenção da polícia científica. E, a essa hora, já deve estar com os primeiros resultados.

— Estamos a dois dias do Natal, todo mundo trabalha em câmera lenta. Ligue para ele amanhã de manhã.

— Hum... — aceitou Madeline. — Aliás, onde pretende me colocar para dormir? Porque vou logo avisando, estou exausta e...

— Não se preocupe, vamos para a casa de Claire.

— Claire Lisieux? Sua ex-sous-chef no L’Imperator?

— Exatamente. Ela tem um apartamento perto daqui. Liguei para ela para pedir abrigo. Deu tudo certo, ela não vai estar em Nova York no Natal.

— Onde ela trabalha agora?

— Em Hong Kong, num dos restaurantes de Joël Robuchon.

Madeline espirrou. Jonathan lhe estendeu um lenço de papel. Alice talvez esteja viva..., ela pensou, com os olhos brilhantes. Zonza com as revelações de Jonathan, procurava calar sua voz interior, obrigando-se a refrear a excitação, recusando-se ainda a exultar antes de receber provas concretas.

— Prato quente chegando! — gritou Alberto, trazendo a especialidade da casa: dois hambúrgueres sangrentos num pão crocante, adornados com cebolinhas, pepinos e batatas salteadas.

Situado ao norte de Greenwich Village, na esquina da University Place com a 14th Street, o Alberto’s era um dos últimos diners autênticos de Manhattan. Aberto vinte e quatro horas por dia, o vagão-restaurante de metal atraía, numa atmosfera retrô, um fluxo contínuo de notívagos que iam até lá se regalar com omeletes, french toasts, cachorros-quentes, waffles e panquecas.

O ítalo-americano colocou um milk-shake diante de cada prato.

— Esta noite vocês são meus convidados. Não, Jonathan, não me contrarie, por favor! Aliás, pode ser a última vez...

— Por quê, pode me dizer?

— Também arrancaram a minha pele! — exclamou Alberto, apontando um cartaz afixado na parede.

O aviso anunciava aos clientes que, em razão de um aumento exorbitante do aluguel, o lugar vivia seus últimos dias e fecharia as portas na primavera.

— Sinto muito — apiedou-se Jonathan.

— Paciência! Abrirei alguma coisa em outro lugar — ele garantiu, recuperando o humor jovial antes de desaparecer na cozinha.

Assim que ele deixou a mesa, Madeline avançou no sanduíche.

— Estou morrendo de fome — confessou, dando uma mordida no Special One.

Igualmente faminto, Jonathan não se fez de rogado e a imitou. Degustaram a refeição se deixando conquistar pelo charme do restaurante. Era um lugar fora do tempo, que misturava alegremente elementos art déco, cromados rutilantes e móveis de fórmica. Na parede atrás do balcão, uma série de fotografias autografadas mostrava as celebridades — de Woody Allen ao prefeito de Nova York — que já haviam marcado presença no local para degustar um prato de massa ou de arancini. No fundo da sala, uma velha jukebox tocava “Famous Blue Raincoat”, uma das mais belas canções de Leonard Cohen, apesar da melancolia e da letra obscura.

De rabo de olho, Jonathan observava a jovem inglesa devorar o hambúrguer.

— Estranho, a primeira vez que te vi, eu teria jurado que você era o tipo da garota vegetariana, que se contenta com duas folhas de alface por dia.

— As aparências... — ela sorriu.

Já passava de uma da manhã. Um diante do outro, sentados num banco de couro falso, eles desfrutavam daquele momento de trégua. Apesar do cansaço, ambos tinham a impressão de sair de uma longa hibernação. Nas últimas horas, uma nova adrenalina fazia o sangue correr mais rápido nas veias. Jonathan abandonara o torpor e a aspereza em que mergulhara nos últimos anos. Quanto a Madeline, deixara de acreditar que sua vidinha sem percalços a protegeria de seus demônios.

Aquele instante partilhado, um pouco irreal, era o “olho do ciclone”, a grande bonança antes do retorno de uma tempestade que só poderia ser mais brutal e devastadora. Não se arrependiam da escolha, mas também sabiam que o desconhecido se abria diante deles: o vazio, as interrogações, o medo... O que aconteceria amanhã? Aonde os levaria aquela investigação? Estariam à altura dela ou sairiam daquela aventura ainda mais machucados?

Um celular vibrou na mesa. Eles abaixaram os olhos ao mesmo tempo. Mecanicamente, haviam posicionado os celulares lado a lado. Era o de Jonathan que estava chamando, mas foi o nome RAPHAËL que piscou na tela.

— Acho que é para você — ele disse, estendendo-lhe o aparelho. — Que atrevimento gravar o nome dele na minha agenda!

— Desculpe. Ele me pediu o seu número. Não sabe que recuperei o meu.

A vibração se prolongava.

— Não vai atender?

— Não, não tenho coragem.

— Escute, isso não é assunto meu e não sei exatamente o que você disse a ele ao partir, mas acho que não devia deixar seu namorado sem notícias...

— Tem razão, isso não é assunto seu.

O celular parou de vibrar. Jonathan olhou para a moça com um ar crítico.

— Ele sabe que você está aqui?

Ela deu de ombros.

— Ele pensa que estou em Londres.

— Na casa da sua amiga Juliane, não é?

Ela aquiesceu com a cabeça.

— Ele deve ter falado com ela — adivinhou Jonathan. — Sabe que você não está na casa dela.

— Vou ligar amanhã.

— Amanhã? Mas ele deve estar morrendo de preocupação! Vai ligar para aeroportos, delegacias, hospitais..

— Quer parar com esse teatro?

— Você não tem coração? Não sente pena desse pobre coitado que deve estar arrancando os cabelos?

— Pare de me encher! E o Raphaël não é um pobre coitado!

— Vocês são realmente todas iguais!

— Não é porque você tem um problema com as mulheres que eu devo pagar o pato!

— Você não está sendo honesta com ele! Diga a verdade.

— Que verdade?

— Que você não o ama mais. Que ele era apenas um estepe na sua vida, uma muleta que...

Ela ergueu a mão para esbofeteá-lo, mas ele lhe agarrou o braço, evitando o tabefe por um triz.

— É melhor você se acalmar.

Então se levantou, vestiu o casaco, pegou seu celular e saiu para fumar um cigarro na calçada.

 

* * *

O neon da fachada brilhava na noite. Fazia um frio dos diabos, acentuado por borrascas glaciais. Jonathan juntou as mãos para proteger do vento a chama do isqueiro, mas o temporal estava tão forte que foi obrigado a tentar duas vezes antes de conseguir acender o cigarro.

 

* * *

Furiosa, Madeline se levantou e abriu caminho até o balcão para pedir um uísque duplo, que misturou com suco de abacaxi. Na jukebox, a voz profunda e rouca de Leonard Cohen cedera lugar à guitarra rítmica e à bateria dos Beatles. “I Need You”, cantava George Harrison. Era uma melodia totalmente “anos 60”, leve e ingênua, que o “terceiro Beatle” escrevera para Pattie Boyd quando estavam apaixonados, bem antes de ela o trocar por Eric Clapton.

Com o drinque na mão, Madeline voltou e se sentou novamente à mesa. Olhou através do vidro aquele homem estranho que ela só conhecia havia uma semana, mas que, naqueles últimos dias, não lhe saíra da cabeça, a ponto de obcecá-la. Envolto em seu casaco, ele observava o céu. A luz branca do poste lhe dava um ar lunar, vagamente infantil e melancólico. Ele tinha alguma coisa de comovente e cativante. Um charme simples, um rosto que inspirava confiança. Transmitia alguma coisa de franco, saudável, benéfico. Por sua vez, ele olhou para ela e foi então que alguma coisa mudou. Percorrida por calafrios, ela sentiu um grande embrulho no estômago.

À medida que absorvia aquela emoção inesperada, o coração disparou, as pernas tremeram, borboletas lhe esvoaçaram na barriga.

Levou um susto. Completamente desorientada, perguntou-se de onde vinha aquela agitação que a deixara subitamente sem rumo. Não controlava mais nada. Transtornada, incapaz de lutar, não conseguia mais desgrudar o olhar de Jonathan. Agora, seu rosto lhe parecia familiar, como se o conhecesse desde sempre.

 

* * *

Jonathan deu uma tragada e expeliu uma espiral de fumaça azul que, compactada pelo frio da noite, levou uma eternidade para se dissipar. Percebendo o olhar de Madeline do outro lado do vidro, voltou o rosto e, pela primeira vez, seus olhares se cruzaram de verdade.

Aquela mulher... Ele sabia que por trás da carapaça dura e fria se escondia uma pessoa sensível e complexa. Fora graças a ela que saíra de seu torpor. Novamente, sentiu aquele vínculo inédito que os unia. Naqueles últimos dias, haviam empreendido um aprendizado rápido um do outro. Haviam alimentado uma obsessão mútua, desvendando seus segredos mais íntimos, expondo suas falhas, sua fragilidade, sua tenacidade, descobrindo forças e fraquezas que pareciam ecoar.

 

* * *

Durante alguns segundos, mostraram-se unidos numa harmonia perfeita. Um fascínio, um flash, um instinto de vida. Avaliando o caminho e os riscos para chegarem até o outro, haviam sido de fato obrigados a admitir que eram twin souls, almas gêmeas que se haviam reconhecido e caminhado para alcançar a mesma destinação. Agora, havia entre eles como uma evidência, um impulso, uma química. Um sentimento primitivo que remontava aos medos e esperanças da infância. A certeza vertiginosa de estar finalmente diante da pessoa capaz de preencher o vazio, calar os medos e curar as feridas do passado.

* * *

Madeline capitulou e se rendeu a esse novo sentimento. Era inebriante como um salto no vazio, sem paraquedas nem elástico. Voltou a pensar em como se haviam conhecido. Nada teria acontecido sem aquele esbarrão no aeroporto. Nada teria acontecido se não tivessem trocado os celulares por descuido. Se ela tivesse entrado naquela cafeteria trinta segundos mais cedo ou mais tarde, nunca teriam sabido da existência um do outro. Estava escrito. Um estranho golpe do destino, que escolhera aproximá-los num momento decisivo. O chamado do anjo, como dizia sua avó...

 

* * *

Imóvel na noite, Jonathan se entregava ao devaneio, devorado por uma queimadura que consumia os laços do passado para desenhar o esboço de um futuro.

A magia durou menos de um minuto. Subitamente, o encanto se rompeu. Seu celular tocou no bolso. Era Raphaël, tentando de novo. Daquela vez, Jonathan preferiu atender. Voltou ao restaurante, dirigiu-se à mesa e estendeu o aparelho para Madeline.

— É para você.

Duro retorno à realidade.

 

* * *

VINTE MINUTOS MAIS TARDE

— Não seja criança! Você vai morrer de frio com essa jaquetinha!

O frio estava cada vez mais cortante. Vestindo só um suéter e uma jaqueta, Madeline seguia Jonathan ao longo da 14th Street, mas, teimosamente, recusava-se a vestir o casaco que ele lhe oferecia.

— Vai abaixar a crista amanhã, com quarenta graus de febre...

Na esquina da 6th Avenue, ele parou numa loja de conveniência para comprar água e café, bem como um grande saco de aniagem cheio de gravetos e achas de lenha.

— Como sabe que tem lareira?

— Porque, imagine você, conheço essa casa. Ajudei a Claire a comprá-la, fui o fiador.

— Vocês dois eram muito amigos, né?

— Era uma ótima amiga, sim. Bom, vai colocar o casaco ou não?

— Não, obrigada. É realmente magnífico aqui — ela se extasiou, descobrindo o bairro.

Numa cidade em constante transformação, Greenwich Village representava uma espécie de ponto fixo protegido da modernização. Quando Madeline viera a Manhattan com Raphaël, haviam se hospedado em Midtown, visitaram a Times Square, os museus e as lojas em torno da 5th Avenue. Agora, descobria uma Nova York livre dos arranha-céus. Uma Nova York mais residencial, com suas elegantes brownstones de fachada de tijolos e escadaria de pedra que lembravam os bairros burgueses da velha Londres. O que mais a atraía era que, ao contrário das vias retilíneas que quadriculavam o resto da cidade, o Village pululava de ruelas sinuosas que obedeciam ao traçado das antigas estradas de pastoreio, vestígios da época em que Greenwich não passava de um lugarejo rural.

Apesar do frio e da hora tardia, os bares e pequenos restaurantes continuavam animados. Nas aleias flanqueadas de árvores, cruzaram com praticantes de jogging e seus cães, enquanto estudantes da NYU comemoravam o início das férias de Natal cantando “Christmas Carols” debaixo dos postes.

— É realmente a cidade que nunca dorme! — ela constatou.

— É, nesse ponto a lenda não mente...

Quando chegavam a Washington Square, Jonathan entrou numa ruazinha de paralelepípedos cujo acesso era protegido por um portão.

— Antigamente a MacDougal Alley abrigava as estrebarias das mansões que margeavam o parque — ele explicou, digitando a senha para abrir a cancela. — Parece que foi a última rua de Manhattan a ser iluminada por postes a gás.

Percorreram uns cem metros do pequeno beco. Difícil acreditar que estavam em Nova York no início do século XXI — aquele lugar exalava algo de mágico e atemporal.

Pararam em frente a um pitoresco sobrado. Jonathan seguiu as instruções de Claire, erguendo o vaso de cerâmica encostado na fachada, sob o qual a porteira deixara um molho de chaves.

Ligou o disjuntor para restabelecer a luz e a calefação, depois foi acender a lareira. Madeline circulou por todos os cômodos. A casa fora restaurada com bom gosto. A mobília era moderna, mas haviam preservado alguns elementos originais, como as paredes de tijolos vermelhos, as vigas aparentes e um admirável poço de luz que dava um ar deslumbrante ao ambiente.

Curiosa, a jovem inglesa examinou as fotografias nas paredes. Claire Lisieux era uma moça bonita, alta e atlética. Sentiu ciúme na mesma hora.

— Não acha estranho você aparecer em mais da metade das fotos expostas nesta casa?

— Como assim? — perguntou Jonathan, riscando um fósforo para acender os gravetos.

— Você está em toda parte: Claire e Jonathan nos fogões, Claire e Jonathan no Fish Market, Claire e Jonathan no Dean & DeLuca, Claire e Jonathan na feira orgânica, Claire e Jonathan posando com celebridades...

— Ela é minha amiga. Normal ter guardado lembranças.

— Com exceção do pai dela, você é o único homem em todas essas fotos!

— Vai fazer uma cena?

— Quem é essa mulher? Sua amante?

— Não! Quantas vezes vai me fazer essa pergunta?

— De qualquer forma, ela estava apaixonada por você, isso é evidente.

— Não faço ideia.

— Pois estou lhe dizendo.

— O que isso muda?

— Depois da sua separação, você poderia ter se reaproximado dela. É jovem, bonita como uma estrela, visivelmente inteligente...

— Já chega.

— Não, me explique.

— Não há nada a explicar.

— Quer que eu te explique? — ela o desafiou, debruçando-se para frente.

— Não, por favor.

Jonathan tentou recuar, mas estava de costas para a lareira e o fogo começava a incomodá-lo.

— Vou explicar assim mesmo! Claire Lisieux é perfeita: é uma moça meiga, educada e séria. Seria a mãe ideal se você tivesse outros filhos. Você gosta dela e a respeita muito, mas... como dizer...? Seria muito fácil, muito harmonioso...

Madeline se aproximara mais ainda. Agora, seus lábios estavam a poucos centímetros dos de Jonathan. Continuou:

— Ora, não é isso que você procura no amor, certo? Para você, tem que ter paixão, luta, conquista. Resumindo, a Claire não é mulher para você...

Jonathan hesitou em responder. Sentia o hálito de Madeline se misturar ao seu. Ela levou a provocação ao auge:

— E eu? Sou mulher para você?

Ele colou o corpo ao dela e a beijou.

 

* * *

Jonathan não fazia amor desde o rompimento com Francesca. Foi então desajeitadamente que tirou a jaqueta da moça e a livrou do suéter. Ela desabotoou a camisa dele enquanto lhe mordia o pescoço. Ele se desvencilhou para acariciar melhor seu rosto e provar seus lábios. Ela tinha um cheiro fresco e vibrante de limão, menta e lavanda.

O corpo delicado e esguio de Madeline se enrolou em torno dele e os dois caíram no sofá. Seus quadris ondularam. Seus corpos se misturaram para formar uma escultura em movimento, cheia de curvas e cavidades, que deslizava no claro-escuro da lua.

Cabelos, cheiros, peles, lábios se misturaram. Com os olhos cravados no rosto do outro, deixaram-se invadir pelo prazer.

Do lado de fora, a vida seguia adiante, na cidade que nunca dorme.