O Chamado do Anjo
11. A investigação
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A investigaçao
No essencial, o homem é o que ele esconde: um miserável montinho de
segredos.
— ANDRÉ MALRAUX
SAN FRANCISCO
Hipnotizado diante da tela do computador, Jonathan relia pela terceira vez a reportagem.
MADELINE GREENE, A INVESTIGADORA DO CASO
DIXON, TENTA SE SUICIDAR
GUARDIAN.CO.UK — 8 DE JULHO DE 2009
Cheatam Bridge — Um mês depois da macabra descoberta que reduziu a pó qualquer possibilidade de encontrar viva a jovem Alice Dixon, a tenente de polícia encarregada da investigação, Madeline Greene, 31 anos, tentou esta noite pôr fim a sua vida se enforcando numa viga de seu apartamento. Por sorte, a jovem detetive arrastou na queda um armário de vidro que se quebrou no chão, chamando a atenção de sua vizinha de andar, Juliane Wood, que correu para intervir. Após ter recebido os primeiros socorros, a srta. Greene foi transferida para o hospital de Newton Heath.
Segundo os médicos, seu estado é delicado, mas ela não corre risco de morte.
Sequelas de uma investigação extenuante
Como explicar esse gesto impensado? Sentimento de culpa? Excesso de trabalho? Incapacidade de virar a página após uma investigação extenuante? São possíveis explicações. Henry Polster, superintendente da polícia de Manchester, acaba de revelar que Madeline Greene estava de licença desde que soubera da morte de Alice Dixon, 14 anos, última vítima de Harald Bishop, o famigerado serial killer preso dias atrás pela polícia de Merseyside. Entre os colegas da srta. Greene, a surpresa se mistura à emoção. “Mesmo na cadeia, o Carniceiro de Liverpool quase fez uma nova vítima”, lamentou o parceiro dela, o detetive Jim Flaherty.
Jonathan esfregou a cabeça — aquelas notícias policiais haviam aparentemente galvanizado a atenção da Grã-Bretanha durante meses, mas não haviam atravessado o Atlântico.
— Já ouviu falar do “caso Alice Dixon” ou do “Carniceiro de Liverpool”? — perguntou casualmente ao amigo.
— Nunca — asseverou o canadense.
Claro. Não valia a pena sonhar; pessoas como Marcus viviam num universo flutuante, isolado da realidade. Um mundo em que Bill Clinton continuava presidente, o Muro de Berlim estava de pé e ainda se jogava fliperama ou Pacman nos bares...
A ideia se impôs como uma evidência. Jonathan ligou o celular de Madeline e entrou no programa protegido por senha.
ENTER PASSWORD
Digitou “ALICE” e o aplicativo desbloqueou...
* * *
O celular continha centenas de documentos relativos ao “caso Dixon”: anotações, reportagens, fotografias, vídeos. À medida que os exibia na tela, Jonathan os transferia para o computador a fim de consultá-los mais tarde. No início, pensou que aqueles arquivos constituíam uma espécie de volumoso clipping de imprensa relativo ao sequestro e ao assassinato da adolescente, mas, quanto mais avançava em sua descoberta, mais compreendia por que Madeline fizera de tudo para proteger aqueles dados. A jovem policial escaneara, copiara, duplicara todos os elementos do dossiê de seu último caso! Ali se encontravam misturados suas próprias anotações, registros de impressões digitais, gravações de suspeitos filmados em interrogatórios, dezenas de páginas de investigações in loco. Inúmeros documentos confidenciais timbrados com o emblema da Greater Manchester Police, que nunca deveriam ter saído das dependências de uma delegacia ou de um tribunal...
— O que é isso, papai? — perguntou Charly, preocupado ao ver um monte de fotografias sangrentas desfilarem no computador do pai.
— Não olhe, querido, não é para criança — respondeu Jonathan, virando o notebook.
Verificou a velocidade do carregamento. Apesar do wi-fi, o ritmo não era muito rápido, sendo necessárias ainda cerca de duas horas.
— Vem! Vamos jogar basquete com o tio Marcus — o garoto sugeriu com a voz animada.
Desceram para um dos terrenos gradeados que margeavam o Levi’s Plaza. A partida foi disputada. Charly se saiu bem e, após ter feito umas vinte cestas, voltou esgotado para casa. Tomou uma ducha, mastigou um pedaço do seu peixe e dormiu assistindo a um episódio de Two and a Half Man.
Jonathan o carregou para o quarto. Do lado de fora, anoitecera. Marcus acendera seu baseado, que degustava no terraço como se fosse um havana, conversando com Bóris. Jonathan vasculhou no congelador e pegou uma garrafa de vodca de cereja, presente de uma cliente russa. Enquanto ativava a tela do computador, serviu-se de um copo daquela aguardente que, segundo o rótulo, fora destilada sobre carvão de carvalho antes de ser filtrada num leito de diamantes.
Só isso...
Certificou-se de que o conjunto dos dados fora efetivamente carregado no disco rígido. Não eram dezenas, mas centenas de documentos que Madeline levava consigo. No total, cerca de mil peças formavam um quebra-cabeça macabro e trágico. Visivelmente, ela se dedicara àquele caso por seis meses, trabalhando dia e noite até perder a saúde e a razão. Uma história suja que quase lhe ceifara a vida...
Jonathan abriu as últimas fotos baixadas; eram insuportáveis. Titubeava em seguir adiante. Tinha realmente vontade e coragem de chafurdar numa história de desaparecimento e assassinato infantil?
A resposta era não.
* * *
Ainda assim, tomou de um gole o copo de vodca, serviu-se de outro e mergulhou no inferno.