O Chamado do Anjo

Guillaume Musso · Capítulo 23 de 47

Páginas do PDF

O Chamado do Anjo

19**

 

A toda velocidade, subi a Avenue de la Porte-de-Saint-Ouen e me misturei ao tráfego da marginal.

— Qual é a sua? — perguntei à minha passageira.

— ‘just wanna escape these fucking cops* — ela respondeu, num inglês com sotaque indeterminado.

Acendi a luz do teto e aproveitei a lentidão do tráfego para examiná-la mais detidamente. Era uma garota de uns quinze anos, com a silhueta frágil e esquiva. Os cabelos eram tingidos de preto, à exceção de algumas mechas carmim. Uma franja comprida lhe caía incessantemente sobre os olhos. Usava jeans slim, tênis Converse de couro e uma camiseta listrada parcialmente coberta por um suéter rosa e cinza com capuz no qual estava costurado o escudo do Manchester United. Um diamante minúsculo brilhava sobre a narina esquerda, enquanto do pescoço pendia um colar medieval de prata e cristal grená. A maquiagem gótica — lápis e delineador preto contra um fundo pálido — dava-lhe um ar cadavérico, mas obedecia a um estilo conscienciosamente estudado.

Observei os tênis: eram quase novos. Aquela garota tinha roupas de grife e joias. Não era uma menina de rua, mas filha de gente rica.

Eu não sabia o que fazer. Não podia abandoná-la no meio da marginal. Precisava saber mais, mas ela não parecia muito loquaz. Peguei a primeira rampa para alcançar o posto de gasolina da Porte de Montreuil e parei no estacionamento.

— Como se chama? — perguntei em inglês.

— Não interessa.

— Escute, foi VOCÊ quem entrou no meu carro sem mais nem menos, então é melhor abaixar o tom, ok?

Ela deu de ombros e desviou a cabeça.

— Como se chama? — repeti com firmeza.

— Alice — ela suspirou —, Alice Kowalski.

— Onde mora?

— Não vejo em que isso pode te interessar.

— Por que teve medo da polícia agora há pouco?

— E você? — ela rebateu.

Pego desprevenido, me defendi:

— Bebi além da conta, só isso.

Nesse instante, a tampa do porta-luvas, que eu não fechara direito, se escancarou. A visão da arma de fogo e da droga fez a garota entrar em pânico. Ela abriu a porta para fugir, convencida de ter caído nas garras de um bandido.

— Espere, não sou quem você está pensando! — eu disse, correndo atrás dela pelo estacionamento.

— Me deixe em paz! — ela retorquiu, refugiando-se na loja do posto de gasolina.

Acendi um cigarro e olhei para ela através do vidro. Estava sentada num banquinho perto das máquinas automáticas. Quem era aquela garota? Do que tentava escapar? Nesse momento, tive a fugaz tentação de voltar para o carro e zarpar dali sem insistir. Nada daquilo me dizia respeito. Afora aborrecimentos a mais, eu nada tinha a ganhar com aquela história.

Suspirei e, apesar de tudo, resolvi falar com ela. A loja estava enfeitada com uma decoração festiva: guirlandas elétricas tristonhas, um pinheiro seco, bolas de Natal de plástico. Um velho e batido sucesso dos anos 80 tocava no rádio.

— Me oferece um expresso?

— Estou sem grana — ela disse, balançando a cabeça.

Peguei a carteira para procurar um trocado.

— Quer alguma coisa? — perguntei, inserindo moedas na máquina.

— Que você me deixe em paz.

Tentei chamá-la à razão.

— Escute, começamos com o pé esquerdo.

— Cai fora, vou me virar sozinha.

— Com o quê? Você não tem dinheiro e não fala uma palavra de francês. Não vou te abandonar assim. É minha responsabilidade como adulto.

Ela ergueu os olhos para o alto, mas aceitou o dinheiro que eu lhe estendia. Na máquina, escolheu uma garrafinha de leite sabor morango e um pacote de biscoitos Oreo. Enquanto ela comia aqueles doces, apanhei um exemplar do Metro jogado numa mesa.

— Olhe, minha fotografia está no jornal. E, como pode ver, não é nas páginas policiais.

Ela deu uma espiada na matéria, depois ergueu os olhos.

— Já te vi na televisão! Num programa em que você acabava com os vegetarianos!

Ela aludia a um duelo épico que me opusera a ativistas poderosíssimos que lutavam para que o foie gras fosse proibido nos Estados Unidos.

— Se você é um astro, o que procura com putas de vinte euros, na noite de Réveillon, com o porta-luvas cheio de pó? — ela perguntou, me provocando.

— Bom, me siga — pedi-lhe.

Deus abençoe a televisão. Minha celebridade restaurara um pouco de sua confiança e, mantendo-se a uma boa distância, ela aceitou me acompanhar até o BMW.

— Em primeiro lugar, eu não era cliente das prostitutas e você sabe disso muito bem, senão não teria entrado no meu carro, mesmo para fugir da polícia...

Ela não respondeu, prova de que eu marcara um ponto.

— Depois, essa droga não é minha — expliquei, pegando o saquinho plástico e o jogando numa das lixeiras públicas do estacionamento. — É uma história complicada, mas fui obrigado a aceitar a coca para poder arranjar esse revólver.

— E para que essa arma?

— Só para me proteger.

Sem dúvida ela era americana, pois aceitou a explicação sem protestar.

— Bom, agora você. Me diga quem é e onde mora, senão chamo os tiras.

— Fiz uma besteira — ela começou. — Eu fugi, pronto. Moro em Nova York, mas estou de férias com meus pais. Temos uma casa na Côte d’Azur.

— Onde?

— Em Cap d’Antibes.

Eu conhecia bem o lugar. Fora lá que tivera meu primeiro restaurante “de verdade”.

— Eu queria voltar para casa, mas roubaram minha bolsa no trem e fiquei sem o celular e sem a carteira.

Ela tinha um ar sincero, ainda que alguma coisa não encaixasse, sem que eu soubesse por quê.

— Ligue para o meu pai ou para a minha mãe se não acredita!

Ela me deu um número, que digitei no celular. No fim de um único toque, fui atendido por uma certa sra. Kowalski, que recebeu meu telefonema como uma libertação. Ela me confirmou toda a história: sua filha fugira de fato naquela manhã, depois de uma briga. Sua angústia era clara, ainda que tentasse não deixar transparecer preocupação.

Passei-a para Alice, a fim de que esta a tranquilizasse. Não querendo ser indiscreto, saí para fumar um cigarro, recostado no capô do carro, mas ouvi a maior parte da conversa. Ficaram longos minutos ao telefone, Alice se desculpou e chorou um pouco. Quando ela me passou de novo o celular para que eu falasse com sua mãe, propus à sra. Kowalski que eu mesmo levasse sua filha em casa. Eu ia “descer para o sul” de qualquer jeito, para o enterro do meu pai, e poderia estar em Antibes pela manhã.

Ela hesitou por um bom tempo, mas acabou aceitando.

 

* * *

Rodamos meia hora.

Sob a neblina e os flocos de neve, pegamos a Rota do Sol e passamos por Évry. Alice mergulhara nos jornais americanos que esmiuçavam meus reveses profissionais e conjugais.

— Sua mulher é bonita — ela disse, espiando uma foto de Francesca.

— É, ouço essa frase pelo menos uma vez por dia faz dez anos...

— E está cheio?

— Você entendeu tudo.

— Por quê?

— Se ela não fosse tão bonita, talvez não tivesse me traído.

— Acho que isso não tem nada a ver — ela julgou, do alto de seus quinze anos.

— Claro que tem. Quanto mais bonita você é, mais requisitada, o que significa mais tentações. É matemático...

— Mas acontece a mesma coisa com você, não acha? Nos seus programas, você fazia o papel do chef sexy que...

— Não! — eu a cortei. — Não é igual. Eu não sou assim.

— Assim como?

— Você está me enchendo.

— Muito construtivo — ela observou.

Diante do meu silêncio, ela ligou o rádio e correu as estações. Achei que procurava uma estação de “música jovem”, mas parou na France Musique. Imediatamente, Alice foi absorvida pela música: uma peça para piano suave e sofisticada.

— Que música bonita — eu disse.

— Schumann, as Davidsbündlertänze, opus 6.

Achei que ela estava gozando com a minha cara, até que a música terminou e a apresentadora anunciou: “Vocês escutaram Maurizio Pollini interpretando as Davidsbündlertänze, de Robert Schumann”.

— Bravo!

Ela se fez de modesta:

— Essa era fácil.

— Não conheço Schumann direito. Em todo caso, nunca tinha escutado essa peça.

— É dedicada a Clara Wieck, a mulher pela qual ele estava apaixonado.

Fez um silêncio, antes de constatar:

— Às vezes o amor destrói, às vezes se cristaliza em obras de arte magníficas...

— Você toca piano?

Ela fez uma pausa antes de responder. Fez isso várias vezes ao longo daquela noite, como se temesse cometer uma gafe ou falar mais do que devia.

— Não, violino. A música é minha paixão.

— E na escola, tudo bem? Em que série você está?

Ela sorriu.

— Está tudo bem, não se julgue obrigado a conversar comigo.

— Essa fuga era para provar o quê?

— Agora é você que está me enchendo — ela disse, voltando a mergulhar na leitura dos jornais.

 

* * *

ONZE HORAS DA NOITE

Alice estava dormindo fazia duas horas, mas despertou na altura de Beaune, enquanto continuávamos na A6 em direção a Lyon.

— Quando é o enterro do seu pai? — ela perguntou, esfregando os olhos.

— Depois de amanhã.

— Ele morreu de quê?

— Não faço ideia.

Ela me olhou de uma maneira estranha.

— A gente não se falava fazia quinze anos — eu disse, evasivo.

Como não me sentia culpado de nada, falei mais um pouco:

— Meu pai tinha um restaurante, La Chevalière, um estabelecimento dos mais comuns, na Place de la Libération, em Auch. A vida inteira sonhou em conseguir uma estrela no Guia Michelin, mas nunca chegou lá.

Passei por uma fila de carros, antes de prosseguir:

— No verão dos meus catorze anos, trabalhei no restaurante como auxiliar. À noite, depois do serviço, eu ficava na cozinha para testar minhas ideias. Criei assim três pratos e duas sobremesas, que, pressionado pelo sous-chef, meu pai aceitou acrescentar no cardápio. Rapidamente, graças à propaganda boca a boca, as pessoas foram ao restaurante exclusivamente para provar esses pratos. Meus pratos. Meu pai não gostou de se sentir ofuscado. Na volta às aulas, para me afastar, me matriculou num internato em Sophia Antipolis, no sudeste da França.

— Deve ter sido duro...

— Foi. E nos meses seguintes o Michelin deu uma estrela ao restaurante dele, citando suas novas criações! Meu pai me detestou como nunca, um pouco como se eu tivesse estragado o melhor dia da vida dele.

— Que idiota!

— Foi a primeira etapa do nosso rompimento.

Ela pegou o exemplar da Time Out New York que estava a seus pés e me mostrou o trecho da matéria que marcara.

— E essa história aqui, é verdade ou lenda?

— Ler ou dirigir, temos que escolher...

— Eles dizem que você conquistou sua mulher graças a um macaron!

— É um resumo bem grosseiro — respondi, sorrindo.

— Me conte!

— Na época, a Francesca tinha acabado de se casar com um banqueiro. Estava em viagem de lua de mel pela Côte d’Azur, no hotel onde eu trabalhava. Me apaixonei por ela à primeira vista, como quem pega um vírus. Mais tarde, durante a noite, eu a vi perto da praia, sem o marido. Ela caminhava ao longo das ondas, fumando um cigarro. Perguntei qual era sua sobremesa predileta. Ela me disse que era o arroz-doce com baunilha que a avó dela fazia...

— E depois?

— Passei a noite telefonando para os Estados Unidos. Consegui contato com a avó dela para copiar a receita exata da sobremesa, e no dia seguinte trabalhei o dia inteiro para criar um macaron de arroz-doce. Fiz uns dez e ofereci a ela. A lenda fez o resto.

— Muita classe — admitiu a adolescente.

— Obrigado.

— No fundo, você é um pouco como Schumann — ela brincou. — Para agradar a amante, ele escreveu concertos. Já você criou macarons!

 

* * *

Charlon-sur-Saône, Tournus, Mâcon... Era meia-noite quando uma placa de sinalização indicou: “Lyon: 60 km”.

— Happy New Year — Alice me cumprimentou.

— Feliz Ano-Novo — retribuí.

— Estou morrendo de fome...

— Eu também. Vamos dar uma parada num posto para comprar sanduíches.

— Sanduíches! — ela exclamou. — Passo o Ano-Novo com o maior cozinheiro do mundo e ele quer me empanturrar com sanduíches embrulhados em papel-celofane!

Pela primeira vez em uma semana, caí na gargalhada. Aquela garota tinha senso de humor.

— O que quer que eu faça? Não posso cozinhar dentro de um carro.

— E se a gente parasse em algum lugar?

Depois de quatrocentos e cinquenta quilômetros sem parar, estávamos ambos cansados.

— Tem razão, merecemos descansar um pouco.

Vinte minutos mais tarde, peguei a saída “Estação de Perrache”, depois continuei em direção ao centro da cidade, onde estacionei numa vaga reservada à descarga de mercadorias.

— Venha.

Apesar do frio, a cidade estava animada: música, baseados, grupos de boêmios, bebuns entoando canções obscenas...

— Nunca gostei de 31 de dezembro — disse Alice, subindo o zíper até o pescoço.

— Eu também não.

Não punha os pés em Lyon fazia uma eternidade. Aos dezessete anos, tinha sido auxiliar de cozinha durante três meses num restaurante próximo ao Opéra, na esquina da Rue Longue com a Pleney.

— Está fechado — constatou Alice, ao chegar defronte do La Fourchette à Gauche.

— Para falar a verdade, eu já esperava por isso. Na época em que eu trabalhava aqui, o dono fechava no Natal e no Ano-Novo.

No início da rua, um pequeno beco se esgueirava na diagonal e se juntava à Rue du Plâtre. No meio da ruazinha de paralelepípedo, eu sabia que um portãozinho permitia alcançar o pequeno pátio que dava para a cozinha. Naturalmente, estava com cadeado, mas aquela noite eu já infringira bastante a lei para me importar com esse detalhe.

 

* * *

A cozinha do restaurante era moderna, imaculadamente limpa e arrumada.

— Tem certeza de que não tem alarme? — perguntou Alice, observando com preocupação o vidro da janela que eu acabava de quebrar.

— Ouça, não tenho certeza de nada, mas se está com medo pode voltar para o carro. Tem todo o direito de ser medrosa.

— Não estou com medo! — defendeu-se.

— Porque foi você quem me encheu os ouvidos para que eu cozinhasse alguma coisa para você...

Ela me fitou desafiadoramente.

— Ok, eu cuido do espaguete e você prepara os macarons, está satisfeito?

— Macarons? Impossível. Eu precisaria de pelo menos vinte e quatro horas para fazer alguns dignos desse nome. Se não descansarem na geladeira, eles...

— Tudo bem, entendi. Perdeu a manha.

Sua observação me irritou.

— Como preferir. Aliás, como pretende preparar seu espaguete?

— Com molho ao pesto — ela respondeu, abrindo um pequeno isopor. — Tem manjericão fresco no congelador.

Ela começou a juntar os ingredientes e fiz o mesmo, preaquecendo o forno.

— Me passe o tigelão! — pedi, apontando para uma saladeira de inox.

A expressão fez com que ela risse. Seu sorriso era tão raro quanto bonito.

No recipiente, peneirei o açúcar, a farinha de amêndoas e o cacau. Ela mergulhou o manjericão na água morna, depois cortou os caules para ficar só com as folhas, que secou num pano de prato.

— Grana padano ou parmigiano reggiano? — hesitou.

— Parmigiano! Por que você fugiu? — perguntei bruscamente, observando-a ralar o parmesão.

— Eu tenho... tenho um namorado parisiense, que conheci durante uma excursão da escola para a França. Queria encontrar com ele, mas meus pais não deixaram.

Constrangida, ela respondera com um tempo de atraso, procurando as palavras, esfregando o nariz e o queixo, evitando me fitar. Vários sinais que me sugeriam que estava mentindo.

— Nós dois sabemos que isso não é verdade, certo?

Seus olhos se cravaram nos meus, suplicando-me que não procurasse saber mais.

Voltei à minha receita, despejando a mistura achocolatada sobre as claras em neve, enquanto ela juntava no recipiente do liquidificador queijo, manjericão, pinholes, alho e azeite de oliva.

Quando a massa ficou homogênea, eu a escorri num saco de confeiteiro e modelei as rodelas.

Ela provou sua receita, colocou sal, pimenta-do-reino e acrescentou mais azeite, continuando a misturar para obter um molho ao mesmo tempo liso e consistente.

— Quem lhe ensinou a fazer isso?

— Aprendi sozinha — ela respondeu, como se aquilo fosse evidente.

Deixando a massa dos biscoitos descansar, ataquei a ganache, enquanto ela mergulhava o espaguete de trigo integral na água fervendo.

Nos armários, encontrei um chocolate amargo bastante razoável. Alice deu uma mordida enquanto eu raspava três tabletes para preparar o creme.

— Para ficar encorpado, ele teria de ficar várias horas na geladeira.

Olhei a hora. Eram quase duas da manhã. Coloquei os macarons no forno e baixei imediatamente a temperatura.

— Você não me contou por que acabou de fechar o seu restaurante e de mandar tudo para o espaço — ela observou, servindo-se de um copo de leite.

— É complicado, você não entenderia...

Nesse instante, pensei nos abutres da Win Entertainment a quem eu fora obrigado a vender todos os meus ativos para evitar a falência, e que haviam confiscado meu nome e meu trabalho. Dali em diante, todos os restaurantes do grupo tinham o direito de incluir os meus pratos em seus cardápios. Uma vida inteira de criação roubada por bandidos sem escrúpulos. O fracasso de uma aventura à qual eu me entregara de corpo e alma desde os dezesseis anos...

Uma longa faca Laguiole de marfim e ébano estava jogada sobre a mesa. Empunhei-a pelo cabo e a arremessei. A faca deu vários giros no ar e foi se cravar no meio da porta, fazendo um barulho seco.

— Só existe um Lempereur. E sou eu.

Sem uma palavra, Alice se aproximou da porta e retirou o punhal no exato momento em que o toque do cronômetro me avisou que os macarons estavam assados.

 

* * *

Despejei um pouco de água sob o papel-manteiga e a emanação de vapor permitiu aos biscoitos se soltarem com facilidade.

— Engenhoso — comentou Alice.

Ela me ajudou a guarnecer generosamente de creme a metade das cúpulas antes de grudá-las duas a duas para formar os macarons.

— Para fazer direito, teríamos que deixar os macarons endurecerem por vinte e quatro horas na geladeira, mas vamos acelerar o processo deixando uma hora no congelador.

Nesse meio-tempo, Alice nos serviu dois pratos de massa, que comemos com apetite. Durante a refeição, ela me contou várias histórias: que aos catorze anos Mozart fora capaz de transcrever a partitura secreta do Miserere de Allegri a tendo escutado uma única vez, que o Adágio de Albinoni não era de Albinoni, que no fim da vida Picasso autografava na pele dos admiradores para evitar que sua assinatura fosse vendida, que na música “Hey Jude”, dos Beatles, a bateria toca apenas na terceira estrofe porque Ringo Starr fora ao banheiro durante a gravação!

Quando estava relaxada e confiante, seu sotaque mudava quase imperceptivelmente. As entonações eram mais “mastigadas”, o timbre se

velava. Nesse aspecto, ela me fazia pensar nos irmãos Gallagher,** e eu poderia apostar que aquela garota vivera no norte da Inglaterra.

Embora tendo uma cultura enciclopédica, não era pedante, mas curiosa, e sentia prazer em compartilhar seu conhecimento. O tipo de filha com que sonham todos os pais...

Notas

* “Só quero escapar desses tiras de merda.”

** Irmãos, um cantor e um guitarrista, do extinto grupo de rock Oasis, ambos

originários de Manchester.