O Chamado do Anjo
Terceira parte: Um pelo outro
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O que os mortos deixam para os vivos
O que os mortos deixam para os vivos [...] é decerto um sofrimento
inconsolável, mas também uma intimação a viver, a realizar a porção
de vida da qual os mortos supostamente se separaram, mas que
permanece intacta.
— FRANÇOIS CHENG
MANCHESTER
DELEGACIA DE CHEATAM BRIDGE
QUATRO HORAS DA MANHÃ
Na penumbra do gabinete, Jim Flaherty aumentou a potência da calefação, mas o aparelho, gratuitamente fornecido pela administração pública, acabava de entregar os pontos e agora só expelia ar frio. Paciência, teria de conservar o cachecol e o agasalho polar. Naquela véspera de Natal, a delegacia estava quase deserta. A noite fora calma — o frio que paralisava o noroeste da Inglaterra tinha pelo menos o mérito de refrear a delinquência.
Um tilintar agudo assinalou a chegada de um e-mail. Jim ergueu a cabeça para a tela e seus olhos se acenderam. Era a mensagem que ele esperava: o relatório do grafólogo para quem mandara a fotografia do guardanapo de papel entregue por Jonathan Lempereur. Na véspera, quando preenchera o formulário oficial, vira seu pedido rejeitado a pretexto de que o caso Dixon estava arquivado e de que a administração pública não tinha mais tempo nem dinheiro a lhe dedicar. Escolhera então um caminho oficioso e ligara para uma de suas instrutoras na escola de polícia: Mary Lodge, antiga responsável pela unidade de perícia “Comparação de caligrafias manuscritas” da Scotland Yard. Ela trabalhava como consultora com honorários proibitivos, mas aceitara lhe prestar aquele favor.
Transtornado, Jim leu e releu a mensagem. As conclusões do relatório eram ambíguas. As frases no guardanapo de papel podiam muito bem ser do punho de Alice, mas a letra muda e evolui quando crescemos: a nova caligrafia era mais “madura” que a das amostras do diário, tornando difícil uma identificação inquestionável.
Jim suspirou.
Esses peritos de merda nunca dão a cara a tapa...
Um barulho. Alguém empurrou a porta do gabinete sem se dar o trabalho de bater.
Flaherty ergueu a cabeça e vincou os olhos para reconhecer seu colega, Trevor Conrad.
— Está gelado aqui! — observou o jovem tira, subindo o zíper da jaqueta.
— Terminou? — perguntou Jim.
— Vou logo avisando, é a última vez que você me faz ralar a noite inteira em cima de um processo arquivado há anos. Coletar essas impressões digitais não foi sopa, pode acreditar... — ele disse, entregando-lhe o saquinho plástico contendo a prova material, o famoso guardanapo de papel manchado de chocolate.
— Descobriu alguma coisa promissora?
— Seja como for, trabalhei como um louco. Passei o guardanapo no DFO. Tem muitos vestígios, fragmentos, mas tudo muito parcial.
Estendeu-lhe um pen drive, advertindo-o:
— Copiei para você todos os resultados, mas está tudo misturado. Não espere encontrar um datilograma completo.
— Obrigado, Trevor.
— Bom, estou de saída. Com essas suas besteiras, a Connie vai acabar achando que tenho uma amante — resmungou o jovem inspetor, deixando o recinto.
A sós, Jim inseriu o pen drive na torre do computador. Trevor conseguira isolar uma dezena de fragmentos, dos quais dois ou três pareciam utilizáveis. Jim os arrastou para o desktop do PC. Ampliou as fotos e ficou um longo tempo contemplando, fascinado, aqueles emaranhados de curvas, anéis, cristas e sulcos que percorrem a pele de nossos dedos para dar a cada um de nós nossa singularidade.
Foi com apreensão que se conectou ao cadastro automatizado de impressões digitais. Sabia que era tudo ou nada, mas, na solidão e no frio da noite, ainda queria acreditar em sua estrela. Iniciou a comparação das três formas com as centenas de milhares contidas no banco de dados. O algoritmo começou a varredura numa velocidade alucinante. Naquele domínio, a lei inglesa era uma das mais rigorosas do mundo: impunha a presença simultânea de dezesseis pontos de convergência para autenticar duas impressões digitais como idênticas.
Subitamente, a tela se congelou no rosto triste de Alice Dixon.
Jim foi percorrido por um calafrio: as impressões digitais no guardanapo de papel eram de fato da adolescente.
Aquele Jonathan Lempereur não inventara sua história. Em dezembro de 2009, mais de seis meses depois que lhe haviam supostamente arrancado o coração, Alice Dixon ainda estava viva!
Sentiu as mãos tremerem e as prioridades se chocarem na cabeça. Ordenaria a reabertura do inquérito. Avisaria seu chefe, a mídia, Madeline. Dessa vez, eles iriam encontrá-la. Não havia um instante a perder, ele...
O barulho surdo e difuso de uma deflagração rompeu o silêncio da noite.
Disparada à queima-roupa, a bala matou Jim instantaneamente.
* * *
A sombra se esgueirara pela janela.
Vestindo uma malha preta da cabeça aos pés, o matador prosseguiu com a missão para a qual fora pago. Colocou a automática na mão de Jim para fazer crer num suicídio, depois, como lhe haviam pedido, recolheu o saco plástico contendo o guardanapo de papel, bem como o pen drive. Conectou em seguida um pequeno disco rígido no computador do policial morto e o usou para introduzir o vírus “Chernobyl 2012”, um bug fulminante que, num tempo recorde, infectaria os programas da máquina, deletaria o conteúdo do disco rígido e impediria o programa de reiniciar.
A operação levou menos de trinta segundos. Agora, ele precisava dar no pé. Embora a delegacia estivesse quase vazia, alguém não demoraria a aparecer no gabinete. O silenciador que equipava a Beretta era de eficácia relativa. Moderava e abafava a intensidade da detonação, sem com isso reduzir o chiado breve que se ouvia nos filmes.
A sombra recolheu rapidamente o material do roubo. No momento em que se preparava para sair pela janela, ouviu o celular de Jim vibrar na mesa. Não pôde se impedir de dar uma espiada no smartphone — um nome se estampou na tela:
MADELINE