O Chamado do Anjo
8. Aqueles que amamos
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Aqueles que amamos
Às vezes o amor é assim: deixar partir aqueles que amamos.
— JOSEPH O’CONNOR
CONDADO DE SONOMA
CALIFÓRNIA
MANHÃ DE DOMINGO
— Você não gosta mais da mamãe, não é? — perguntou Charly.
A minivan Austin percorria a costa acidentada do Pacífico. Jonathan e o filho haviam acordado de madrugada e deixado San Francisco pela Highway 1, atravessando a praia de areia escura de Muir Beach e a aldeia boêmia de Bolinas, cujos moradores destruíam, há décadas, todas as placas de sinalização, a fim de se proteger do turismo de massa.
— E então, ainda gosta da mamãe? — reformulou o garoto.
— Por que essa pergunta agora? — indagou Jonathan, abaixando o som do rádio.
— Porque eu sei que ela sente a sua falta e queria que a gente continuasse a morar junto, nós três.
Jonathan balançou a cabeça. Sempre se recusara a sugerir ao filho que a separação deles podia ser provisória. Por experiência própria, sabia que uma criança sempre acalentava a esperança secreta de que os pais voltassem um dia, e ele não queria que Charly alimentasse essa ilusão.
— Esqueça essa ideia, querido. Isso não vai acontecer.
— Você não me respondeu — notou o garoto. — Você ainda gosta dela um pouco, não é?
— Escute, Charly, sei que é difícil para você e que está sofrendo com essa situação. Meus pais se separaram quando eu tinha a sua idade. Como você, fiquei muito triste e os critiquei por não terem se esforçado para se reconciliar. Admito sinceramente que nós três éramos mais felizes quando sua mãe e eu nos amávamos. Infelizmente, as histórias de amor não são eternas. É desse jeito. É importante que você compreenda que essa época passou e que não vai voltar.
— Hum...
— Sua mãe e eu nos amamos muito no passado, e você é o fruto desse amor. Isso basta para eu nunca me arrepender de nada.
— Hum...
Diante do filho, Jonathan jamais criticava Francesca em seu papel de mãe. A propósito, embora pudesse criticá-la por ter sido uma esposa infiel, era uma mãe maravilhosa para Charly.
— Ao contrário do que acontece com os casais, os laços entre pais e filhos duram a vida inteira — continuou, aplicando ao pé da letra os conselhos dos psiquiatras que lera. — Você não tem que escolher entre nós dois, sua mãe será sempre sua mãe e eu serei sempre seu pai. Nós dois somos responsáveis por sua educação e vamos acompanhar você tanto nos momentos felizes quanto nos momentos difíceis da vida.
— Hum...
Jonathan observou a paisagem através do para-brisa. Sinuosa e selvagem, a estrada serpenteava ao longo do oceano. Com suas escarpas erodidas e fustigadas pelo vento, o lugar lembrava mais a Bretanha e a Irlanda que a Califórnia.
Sentia-se culpado por não saber se dirigir ao filho com palavras mais adequadas. Para Charly, a separação dos pais fora brutal e inesperada. Até aquele momento, Jonathan tomara o cuidado de evitar entrar em detalhes da relação com a mãe do menino, mas aquela era uma decisão acertada? Sim, sem dúvida: como explicar a uma criança a complexidade das relações conjugais e as devastações da traição? Apesar de tudo, arriscou-se a um esclarecimento:
— Não renego nada do passado, mas um dia compreendi que a sua mãe não era mais a mulher que eu acreditava conhecer. Durante os últimos anos do nosso casamento, eu estava apaixonado por uma ilusão. Entendeu?
— Hum...
— Pare com esse “hum”! Entendeu ou não?
— Não sei direito — respondeu a criança, fazendo bico.
Merda, por que falei isso para ele?, arrependeu-se Jonathan.
Passaram por um rebanho de vacas, depois chegaram ao destino: a pequena aldeia de pescadores de Bodega Bay. Situada sessenta quilômetros a noroeste de San Francisco, a localidade adquirira fama mundial depois que Alfred Hitchcock filmara lá a maior parte das cenas de Os pássaros.
Naquela manhã de inverno, a vila costeira ia acordando lentamente. Pararam o carro num estacionamento quase vazio. Charly saiu do carro e correu para o píer a fim de observar os leões-marinhos que se douravam ao sol, emitindo gritos de satisfação.
No porto, várias barraquinhas ofereciam crustáceos ainda vivos, e, sob o alpendre dos restaurantes, alguns “veteranos” se balançavam em cadeiras de balanço enquanto degustavam, apesar da hora matinal, caranguejos
gigantes e clam chowders.*
Como prometera ao filho, Jonathan alugou um barquinho com casco pontudo, parecido com um saveiro marselhês.
— Vamos, grumete, levantar âncora!
O espelho d’água estava tranquilo, perfeito para navegar.
A casca de noz se afastou da costa, depois se estabilizou a duas milhas do porto. Charly pegou a vara de pescar e, com a ajuda do pai, prendeu uma minhoca no anzol antes de arremessar a linha.
Jonathan verificou o celular de Madeline, mas, naquela parte do condado, não havia sinal. Mantendo um olho atento no filho, acendeu um cigarro e saboreou a primeira tragada observando a nuvem de palmípedes que rodopiava em torno do barco. Decididamente, Hitchcock mostrara inspiração: o lugar era invadido por aves de todos os tipos — gaivotas, biguás, maçaricos —, cujos pios se misturavam aos sinalizadores das embarcações.
— Vem cá, por que você fuma, se isso mata? — perguntou Charly.
Jonathan fez que não tinha escutado e perguntou por sua vez:
— Está mordendo?
Mas a criança estava decidida a não desistir de sua cruzada antitabagista:
— Eu não quero que você morra — disse, com os olhos úmidos.
Jonathan soltou um suspiro.
Como lutar contra isso?
Capitulou, esmagando o cigarro após dar uma última tragada.
— Está contente agora?
— Agora estou! — respondeu o menino, recuperando instantaneamente o semblante risonho.
* * *
ENQUANTO ISSO, EM DEAUVILLE...
O relógio da sala acabava de dar sete horas da noite.
Um belo fogo crepitava na lareira. Raphaël e o pai se enfrentavam na mesa de bilhar. Sentada num sofá de couro capitonê, Madeline balançava a cabeça mecanicamente, escutando com um ouvido distraído a falação de Isaure — sua futura sogra —, tendo aos pés Sultan, o cocker inglês da família, que babava afetuosamente sobre seus sapatos novos.
Do lado de fora, a chuva batia nos vidros desde o início da tarde.
— Ah, adoro esse programa! — exclamou Isaure, desviando subitamente a atenção de Madeline para aumentar o som da televisão, que, naquela época de fim de ano, passava a enésima baboseira.
Madeline se aproveitou da brecha para escapar do sofá.
— Vou fumar um cigarro.
— Achei que você tinha parado — protestou Raphaël.
— Isso vai matar você, querida — reforçou Isaure.
— Sem dúvida, mas a gente tem que morrer de alguma coisa, não é?
Com essas palavras, vestiu a capa e saiu no terraço.
Se anoitecesse muito cedo, um sistema sofisticado de spots iluminava o pequeno solar anglo-normando, valorizando o enxaimel e a água turquesa da piscina.
Madeline deu alguns passos ao longo do terraço coberto e se debruçou na balaustrada. A propriedade dava para o hipódromo, oferecendo uma vista impressionante de Deauvillle.
Acendeu o cigarro e deu a primeira tragada. O vento lhe açoitava o rosto. Embalada pelo barulho do mar, fechou os olhos e tentou criar o vazio dentro de si.
O conforto burguês e o marasmo daqueles fins de semana em família lhe provocavam sentimentos contraditórios: serenidade, tranquilidade, revolta, vontade de fugir.
Quem sabe com o tempo...
O ar estava glacial. Subiu até o pescoço o zíper da capa, colocou o capuz e tirou o celular do bolso.
Desde aquela manhã, a maior parte de seus pensamentos convergia para Francesca DeLillo, com quem falara ao celular na noite anterior. Aquela mulher, seu mistério e sua história exerciam uma fascinação estranha sobre ela. A conversa tinha sido breve, mas suficientemente peculiar para persegui-la o dia inteiro. Quando Francesca tomara consciência da situação, pedira-lhe, um pouco confusa, que deletasse a mensagem que ela deixara na secretária eletrônica de Jonathan e, principalmente, não comentasse nada com ele. “Um momento de fraqueza”, confessou. Madeline compreendera.
Entrou no navegador do smartphone e digitou o nome de Francesca na seção “imagens” do buscador. Na mocidade, quando estudava administração, a herdeira trabalhara como modelo para grandes grifes de moda. As primeiras fotografias datavam dos anos 90 e a mostravam em passarelas e propagandas. Dependendo da foto, ela tinha ares de Demi Moore, Catherine Zeta-Jones ou Monica Bellucci. Vinham em seguida várias fotos comerciais com Jonathan, prova de que, durante os anos felizes, o casal não hesitara em utilizar a vida privada para aumentar a popularidade da empresa.
A chuva engrossou. Um relâmpago espocou, um raio caiu perto da casa, mas, mergulhada no ciberespaço, Madeline nem percebeu.
Os dedos deslizaram sobre a tela e clicaram numa vinheta que a transportou para o site da revista Vanity Fair. Alguns anos antes, a Paris Match americana dedicara seis páginas ao casal, com a manchete: “A cozinha é o amor”. Uma longa entrevista e fotos glamourosas que não tinham nenhuma relação com gastronomia. Numa delas, era possível ver que o casal se tatuara com uma inscrição idêntica na omoplata direita. Madeline deu um zoom para decifrar a “epígrafe”:
You'll never walk alone**
Que bonito... se fosse para ficar juntos a vida inteira. Mas hoje, olhando para trás, a fotografia tinha algo de patético.
— Querida, vai pegar friagem! — disse Raphaël, abrindo a porta.
— Estou entrando, coração! — respondeu Madeline, sem erguer os olhos do celular.
Passando de uma foto a outra, uma evidência lhe saltou aos olhos. Dependendo se estivesse sozinha ou na presença de Jonathan, a atitude de Francesca mudava: a top model felina, segura de seu poder de sedução, transformava-se em mulher amorosa, de olhos meigos. Mesmo por trás das encenações feitas para jornalistas, o amor que aqueles dois se devotavam não deixava nenhuma dúvida.
O que foi que os separou?, ela se perguntou, voltando ao salão.
* * *
— Por que eles se separaram? — perguntou Charly, guardando a vara de pescar no porta-malas do carro.
— Quem?
— Seus pais.
Jonathan franziu o cenho. Girou a chave de ignição e, com um gesto, ordenou ao menino que colocasse o cinto. A minivan deixou Bodega Bay e rumou para San Francisco.
Enquanto dirigia, Jonathan abriu a carteira para pegar a foto desbotada de um pequeno restaurante de província.
— Seus avós tinham um restaurante no sudoeste da França — explicou, mostrando a foto ao menino.
— La Che-va-li-ère — soletrou Charly, franzindo os olhos para decifrar a tabuleta.
Jonathan assentiu com a cabeça.
— Quando eu era criança, durante alguns meses meu pai amou outra mulher: a representante de uma grande marca de champanhe que fornecia para o restaurante.
— É?
— Esse amor durou mais de um ano. Como nas cidades pequenas os boatos se espalham com rapidez, eles tomaram cuidado para manter a história em segredo e conseguiram.
— Por que o seu pai fez isso?
Jonathan abaixou o quebra-sol para evitar ser ofuscado pela luz do meio-dia.
— Por que os homens traem as esposas? Por que as mulheres traem os maridos?
Ele deixou a pergunta sem resposta por alguns segundos, um pouco como se refletisse em voz alta.
— Por um monte de razões, imagino: perda do desejo, medo de envelhecer, necessidade de validar a própria capacidade de sedução, a impressão de que uma aventura não vai trazer consequências... Explicações decerto muito válidas. Não posso dizer que desculpo meu pai, mas também não condeno.
— Então não foi por isso que você ficou sem falar com ele até ele morrer?
— Não, querido, não foi por isso. Meu pai tinha outros defeitos, mas, apesar da infidelidade, nunca duvidei do amor dele pela minha mãe. Tenho certeza de que o adultério o fez sofrer muito, mas a paixão é como a droga: no começo, você acha que controla, depois, um dia, é obrigado a admitir que é ela quem controla você...
Ao mesmo tempo impressionado e um pouco incomodado com aquelas confissões, Charly observou o pai com uma cara engraçada pelo retrovisor interno, mas Jonathan não parou.
— Finalmente ele conseguiu se “desintoxicar” daquela mulher. Mas, seis meses depois do fim daquela aventura, achou melhor confessar o adultério à minha mãe.
— Por quê? — perguntou o menino, arregalando os olhos.
— Acho que ele estava se odiando e se sentindo culpado.
Jonathan ligou o pisca-pisca para parar na única bomba de gasolina de um velho posto de combustível.
— E depois? — perguntou a criança, seguindo o pai.
Jonathan retirou a mangueira.
— Ele implorou à minha mãe que o perdoasse. Como eles tinham dois filhos, ele pediu a ela que mantivessem a família unida, mas minha mãe ficou arrasada com a traição. O marido estragou o amor deles e tudo que eles tinham construído. Então ela recusou o pedido de perdão e o deixou.
— Na lata?
Jonathan pagou o tanque cheio e voltou para o carro.
— Sua avó era assim — explicou, dando partida.
— Assim como?
— Uma eterna romântica, uma idealista, exaltada e apaixonada. De repente, tomou consciência de que a pessoa que ela mais amava no mundo tinha sido capaz de mentir para ela e magoá-la. Ela falava muito que a confiança era a coisa mais importante que devia existir num casal. Dizia que, sem confiança, o amor não era realmente amor, e nisso acho que ela tinha razão.
Como não era bobo nem nada, Charly observou:
— Parece a sua história com a mamãe.
Jonathan concordou:
— É, durante anos com a sua mãe fomos apenas um. Dividíamos tudo, e nosso amor nos protegia de tudo. Mas um dia... um dia o amor vai embora... e não há mais nada a dizer.
Charly balançou tristemente a cabeça e, uma vez que não havia mais nada a dizer, permaneceu em silêncio até chegarem em casa.
Notas
* Sopa de mariscos com cebola e bacon, servida dentro de broa de pão sem
miolo.
** “Você nunca caminhará sozinho.”