O Chamado do Anjo

Guillaume Musso · Capítulo 10 de 47

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O Chamado do Anjo

7. Lempereur deposto

7

Lempereur deposto

 

Nós dois precisávamos do esquecimento, de uma parada no caminho,

antes de seguir adiante com nossas bagagens vazias. [...] Duas

criaturas perdidas que se apoiavam em sua solidão.

— ROMAIN GARY

 

PARIS, OITAVO ARRONDISSEMENT UMA HORA DA MANHÃ

EM UM APARTAMENTO EM FAUBOURG-DU-ROULE

Uma mistura de chuva e neve caía sobre os telhados da capital.

À luz de um abajur, encolhida sob o edredom, Madeline terminava as últimas páginas das Confissões de um cozinheiro apaixonado, o livro de Jonathan Lempereur que Takumi comprara para ela naquela manhã.

Deitado ao seu lado, Raphaël dormia fazia duas horas. Quando se juntara a ela na cama, na realidade esperara que sua futura esposa abreviasse a leitura diante da perspectiva de um “carinho”, mas Madeline estava absorta no livro e, cansado de esperar, Raphaël acabara mergulhando no sono.

Madeline adorava ler no silêncio da noite. Embora o apartamento de Raphaël ficasse perto da Champs-Élysées, era um recanto pacífico, protegido das sirenes da polícia e de outros alaridos boêmios. Devorara a prosa de Jonathan com um misto de fascínio e repulsa. O livro datava de 2005. Lempereur vivia então sua era de ouro, como atestava a contracapa, que listava as críticas entusiastas e unânimes de que gozava na época: “mago dos sabores”, “Mozart da gastronomia”, “chef mais talentoso do mundo”.

Nas entrevistas que concedia, Lempereur martelava seu credo: a criação culinária é uma arte em si, assim como a pintura ou a literatura. Para ele, a gastronomia não se restringia à satisfação do paladar, mas incorporava uma dimensão artística. Mais que um cozinheiro, ele se definia como um criador, comparando seu trabalho ao do escritor diante da página em branco, e afirmava praticar uma “cozinha de autor”.

“Mais do que o simples trabalho artesanal, quero que minha cozinha conte histórias e provoque emoções”, ele declarava.

Nessa óptica, remontava às fontes de sua criação para identificar as raízes de sua arte. Como se formavam suas intuições? Que processo utilizava para combinar um sabor com outro e obter um desconhecido? Que papel desempenhava a textura do prato e o aspecto estético?

“Tudo me desperta curiosidade”, ele confessava. “Alimento minha criatividade visitando museus, exposições de pintura, escutando música, vendo filmes e contemplando paisagens, mas minha primeira fonte de inspiração é minha mulher, Francesca. Fecho o restaurante durante três meses por ano para me refugiar em meu ateliê na Califórnia. Preciso desse tempo para me revigorar e aprimorar as novas receitas que farão parte do cardápio do L’Imperator no ano seguinte.”

Madeline ficara admirada com o número de capítulos dedicados às flores. Jonathan as empregava em abundância em sua cozinha, articulando parte de suas receitas em torno dos sabores delas: botões de capuchinha confeitados, folheados de foie gras com geleia de rosas, coxas de rã caramelizadas com violetas, sorvete de mimosas e suspiros de lilases, bombons de papoula de Nemours...

Madeline sentiu a barriga roncar. Toda aquela leitura lhe dera fome! Sem fazer barulho, esgueirou-se para fora da cama e se enrolou num cobertor antes de ir até a cozinha americana que dava para os telhados. Colocou a chaleira no fogo e abriu a geladeira à procura de alguma coisa para mastigar.

Hum, nada muito tentador...

Vasculhando os armários, desencavou um pacote já aberto de biscoitos de granola. Esperando a água ferver, deu uma mordida num biscoito e percorreu os anexos das Confissões de um cozinheiro apaixonado, em que estavam impressas em destaque algumas das receitas que haviam feito a reputação do restaurante nova-iorquino de Lempereur. Na época em que Jonathan pilotava os fogões, todas as noites o L’Imperator oferecia uma viagem degustativa organizada em torno de quase vinte pratos a serem saboreados em pequenas porções, segundo uma ordem precisa digna de um roteiro de filme, com surpresas e perplexidades. Consultando o cardápio, Madeline ficou com água na boca.

Ato 1

Gratinado de lagostins com caviar

Crocante de bacon e parmesão

Ovos mexidos com ouriço e crocante de amêndoas

Tempura de flores de acácia com marshmallow

Favinhas salteadas no alho e empanadas com pain d’épices

A verdadeira pissaladière (torta de cebolas, anchovas e azeitonas pretas, típica de Nice)

Ato 2

Fritada de vieiras com macarons e risoto de amêndoas

Risoto de trufas em emulsão de chocolate branco

Pernil de vitela do País Basco confitado ao jasmim

Duo de carré e medalhões de cordeiro com mel e tomilho

Ato 3

Sorvete de marshmallow grelhado em fogão de lenha

Abacaxi com pétalas de magnólia

Morango com capuchinhas e folhas de ouro

Merengue de lilases sobre musse de leite com azeite de oliva e mel

Tuiles de banana e cacau com arroz-doce

Musse caramelizada de coco

Bombom gelado de algodão-doce

Com a xícara de chá na mão, Madeline se instalou em frente à tela do laptop. Pela janela, observou os flocos espiralados que se desagregavam ao cair sobre os telhados. Um pouco à revelia, a moça sentia um fascínio cada vez mais intenso por Lempereur e pelo mistério que cercava sua brusca retirada da cena gastronômica. Por que um homem ainda jovem, no auge da fama e da criatividade, optou por abandonar a carreira de forma tão repentina?

No Google, digitou “Jonathan Lempereur” seguido de “fechamento do restaurante” e iniciou a busca...

 

* * *

ENQUANTO ISSO, EM SAN FRANCISCO...

Às quatro horas da tarde, Jonathan despachou a última sobremesa do dia — uma simples torta de damasco e alecrim — antes de desamarrar o avental e lavar as mãos.

Expediente encerrado!, pensou, deixando a cozinha. Na sala, cumprimentou um cliente e passou para trás do balcão a fim de preparar dois expressos — um para o auxiliar e outro para ele. Escolheu as xícaras, verificou a temperatura para ter certeza de que a perda de calor fosse mínima e o aroma do café fosse preservado. Em North Beach, bairro italiano da cidade, não se brincava com isso! Fora de questão errar num ristretto ou utilizar uma daquelas máquinas de cápsulas que, de Xangai a Nova York, uniformizavam o gosto do café em todo o planeta.

Com a xícara na mão, saiu no terraço e se certificou de que Charly não se entediava muito. Em seu iPad, o garoto mergulhara no universo dos dinossauros e só prestou atenção no pai quando este se sentou perto dele, junto a um dos braseiros.

Acendeu discretamente um cigarro enquanto observava os passantes e as crianças que atravessavam a Washington Square. Adorava aquele lugar e sua atmosfera especial. Embora a maioria dos moradores fosse de origem asiática, o bairro tinha fortes raízes ítalo-americanas, como atestavam os sorveteiros ambulantes, os lampadários enrolados com a bandeira verde, branca e vermelha e os numerosos restaurantes familiares, onde se degustavam massas ao pesto, panna cotta e tiramisu. O lugar era mítico: Kerouac morara ali, Marilyn Monroe se casara na igreja local, e Francis Ford Coppola, diretor de O poderoso chefão, ainda tinha um restaurante e escritórios ali.

Jonathan pegou no bolso o celular de Madeline. Nenhuma mensagem ainda. Abriu o aplicativo misterioso, dessa vez determinado a contornar a barreira da senha.

ENTER PASSWORD

Bom, era preciso agir por etapas. As pessoas buzinavam constantemente que o código que protegia nossas contas era tão importante quanto a senha de nosso cartão bancário. Tudo bem. Martelavam nossos ouvidos com conselhos para escolher uma senha efetivamente segura: evitar palavras muito curtas, não utilizar informações conhecidas de nossos parentes, escolher uma alternância de letras, números e caracteres especiais. Garantiam que, obedecendo a esses preceitos, uma fórmula como Efv(abu#$vh%rgiubfvooalkùs,dCX seria uma ótima senha, quase impossível de hackear.

Só que era igualmente impossível de guardar...

Jonathan engoliu de um trago seu ristretto. Estava convencido de que devia procurar uma coisa simples. A vida moderna impõe que lidemos com todo tipo de senhas: cartões de crédito, redes sociais, contas de e-mail, administração... Para acessar qualquer serviço, é preciso uma senha. É demais para nossa memória. Então, para simplificar a vida, a maioria das pessoas tende a escolher senhas curtas e familiares, facilmente memorizáveis. A despeito de todas as regras de segurança, as escolhas incidem em datas de nascimento, prenome da mulher ou dos filhos, nome do animal de estimação, um número de telefone ou uma série de algarismos consecutivos ou letras contíguas.

Metodicamente, Jonathan tentou “123456”, “abcde”, “raphael”, “greene”, bem como o número do celular de Madeline.

Nada.

Vasculhando no histórico de e-mails da moça, encontrou uma mensagem particularmente interessante: o protocolo de emplacamento enviado por Madeline à concessionária onde comprara sua moto. Continha, entre outras coisas, a fotocópia de sua carteira de identidade. Conhecendo assim sua data de nascimento, Jonathan entrou com “21031978”, “21marco1978”, “21/03/78”, depois em inglês: “03211978”, “march211978”, “03/21/78”.

Novo fracasso.

— Pense! — disse para si mesmo em voz alta.

Como o endereço de Madeline era maddygreene78@hotmail.com, tentou “maddygreene”, depois “maddygreene78”.

Em vão.

Jonathan sentiu a raiva e a frustração aumentarem. Apertou os punhos e suspirou. Era frustrante estar à beira do segredo e não poder alcançá-lo!

 

* * *

Madeline colocou os delicados óculos de leitura para ler confortavelmente os resultados da busca exibidos na tela.

“Lempereur abdica”, “Lempereur destronado”, “A queda de Lempereur”: os jornais franceses haviam rivalizado nos jogos de palavras para anunciar a “aposentadoria” de Jonathan. Clicou no link que remetia à matéria do site do Libération.

CULTURA 30/12/2009

LEMPEREUR DEPOSTO

O prodígio da cozinha vanguardista deu uma entrevista coletiva surpresa,

ontem à noite em Manhattan, para anunciar o fechamento de seu

restaurante, bem como a venda de todos os seus empreendimentos.

Rosto desfeito e carcomido pela barba, bolsas sob os olhos, silhueta um tanto roliça: foi nessa forma lastimável que o papa da gastronomia nova-iorquina, o chef francês Jonathan Lempereur, anunciou na quinta-feira o fechamento imediato de seu restaurante, o L’Imperator (três estrelas no Michelin), bem como a venda de todos os negócios do grupo que fundou com a mulher, Francesca DeLillo. Uma decisão repleta de consequências para os dois mil trabalhadores da empresa.

Um chef à parte

Situado no mítico Rainbow Room, o L’Imperator foi classificado diversas vezes como o “melhor restaurante do mundo” pela revista britânica Restaurant Magazine. Visionário e inventivo para alguns, impostor e charlatão para outros, Lempereur divide o mundo gastronômico há quase dez anos.

 

Cansaço

Para justificar a súbita decisão, o chef se declarou “cansado, desmotivado e desgastado”, exprimindo assim seu esgotamento por estar sempre assoberbado e ser obrigado a trabalhar 18 horas por dia, 360 dias por ano.

“Estou parando com tudo. Definitivamente”, esclareceu Lempereur, descartando categoricamente a possibilidade de voltar à frente de um grande restaurante. “Não sinto mais nenhum prazer exercendo minha arte e não penso que esse prazer possa voltar um dia”, explicou, dizendo-se igualmente abandonado pelos críticos, que não compreendem mais o seu trabalho.

 

Problemas conjugais

Mais do que as críticas, parecem ter sido os problemas conjugais que precipitaram sua decisão de se retirar do mundo da gastronomia. “Eu era muito ligado à minha mulher, Francesca, e não resta nenhuma dúvida de que nossa separação recente pesou em minha decisão”, reconheceu Lempereur, contornando ao mesmo tempo todas as perguntas sobre sua vida privada.

 

Problemas financeiros

“Também levei em conta as questões financeiras. Assim, meu afastamento era só uma questão de tempo”, esclareceu. Nos últimos anos, o grupo Imperator achava-se de fato severamente endividado, engessado num modelo econômico de baixo

desempenho e em investimentos temerários. Foi então, com a corda no pescoço, que Lempereur se viu obrigado a ceder a licença de exploração de seu nome ao complexo hoteleiro de luxo Win Entertainment, que viria a assumir a totalidade das atividades do grupo.

 

Futuro incerto

Ainda com 40 anos incompletos, o que Lempereur vai fazer agora? Descansar? Recuperar as forças? Lançar-se a uma nova aventura? O chef foi evasivo a respeito do futuro. Pressionado a pôr um ponto-final na entrevista, foi um homem solitário, com o olhar perdido, que abandonou a coletiva. Um homem cansado, mas talvez também secretamente aliviado por não ter mais de fazer o papel de “imperador”.

 

Madeline clicou em outro link: uma matéria do site do New York Times, que lançava novas luzes sobre o episódio.

A SÍNDROME DE VATEL

POR TED BOOKER

PUBLICADO EM 30 DEZ. 2009

Líder emblemático da cozinha de vanguarda, Jonathan Lempereur

teria sucumbido à síndrome de Vatel?*

Com efeito, o chef nova-iorquino está longe de ser o primeiro virtuose dos fogões a se retirar subitamente de cena após um

dissabor. De Bernard Loiseau** a Jacques Laroux, vários grandes chefs sentiram antes dele a angústia permanente do declínio. Jonathan Lempereur conseguiu milagrosamente conjugar criação, reconhecimento crítico e rentabilidade durante dez anos. É esse equilíbrio precário que acaba de se romper esta noite.

Seguia-se uma compilação de depoimentos que dava à matéria um aspecto de obituário, todos os entrevistados falando de Lempereur como se ele estivesse... morto.

Michael Bloomberg, prefeito de Nova York, elogiava o formidável talento do grande chef que, com o passar dos anos, se tornara nova-iorquino por opção. Hillary Clinton lembrava o “apoio ativo de Jonathan Lempereur às ações realizadas no seio das escolas para educar o paladar das crianças”. Frédéric Mitterrand, ministro francês da Cultura, saudava nele “um gênio da criação culinária que soube contribuir para a difusão internacional da gastronomia francesa”.

Ao lado dessas reações consensuais, uma opinião destoava claramente: a do chef escocês Alec Baxter, que Jonathan destronara do título de melhor cozinheiro do mundo. Baxter se vingava e não escondia a satisfação: “Lempereur não passou de um meteoro no mundo da cozinha. Um meteoro criado pela mídia, que terminou por se deixar devorar pelo sistema que o levou à fama. Quem se lembrará de seu nome daqui a dez anos?”

Mas o depoimento mais forte, pessoal e pungente cabia a Claire Lisieux, uma das duas sous-chefs do L’Imperator: “Trabalho com Lempereur há dez anos”, explicava a moça. “Foi ele quem me ensinou tudo. Nós nos conhecemos quando eu era garçonete num café da Madison, aonde ele ia todos os dias tomar o café da manhã. Eu não tinha licença de trabalho válida e ele ajudou a regularizar minha situação me contratando para o restaurante dele. Era um homem de uma vontade de ferro, exigente, mas generoso com os funcionários.”

— Ora, minha cara, você devia ser secretamente apaixonada por ele... — resmungou Madeline, antes de retomar a leitura do artigo.

“Jonathan é um misto de força e fragilidade”, continuava Claire. “Uma criatura de temperamento exuberante e contraditório, que adorava e abominava a imprensa e a fama. Nesses últimos tempos, notei que andava muito deprimido. Hiperativo, sob constante pressão, empreendia uma busca incansável pela perfeição, que se tornara uma espécie de escravidão. Estava extenuado, trabalhava sem parar, de manhã até a noite. Quase não tirava férias. Enquanto a mulher o apoiava, estava a salvo de um acesso de loucura, mas, quando ela o abandonou, tudo ficou pesado demais para suportar. Todos se enganam a respeito de Jonathan Lempereur: sua sede de reconhecimento, sua ambição, suas concessões ao star system não são sinais de megalomania excessiva. Acho que ele fazia isso apenas por Francesca. Para agradá-la, para que ela o amasse. A partir do momento em que se separaram, acho que ele se desinteressou por tudo, que nada mais fazia sentido para ele...”

— O que está fazendo acordada?

Madeline levou um susto e se voltou como se tivesse sido flagrada. De roupão e com cara de sono, Raphaël a olhava com uma expressão singular.

— Nada, nada — ela garantiu, fechando precipitadamente a tela do laptop. — Estava... fazendo algumas contas, orçamentos, impostos... Enfim, sabe como é.

— Mas são duas horas da manhã!

— Não consegui dormir, querido — ela explicou, tirando os óculos.

Tomou um gole de chá, agora frio, enfiou o nariz no pacote de biscoito, mas constatou que estava vazio.

Raphaël se debruçou para beijá-la nos lábios. Passou uma das mãos sob o baby-doll e lhe acariciou a barriga. Em seguida, a boca abandonou a de Madeline e deslizou para o pescoço dela. Lentamente, ele fez cair uma alça da peça de seda, depois a outra...

Seu impulso amoroso foi bruscamente interrompido pelo riff de “Jumpin’ Jack Flash”. Raphaël estremeceu com o efeito da surpresa e recuou.

Madeline olhou para o celular de Jonathan, que vibrava ao lado do computador. A fotografia de uma mulher morena, de aspecto grave, olhos escuros e profundos, havia surgido na tela. No alto, um nome:

FRANCESCA

Intempestivamente, Madeline atendeu...

 

* * *

— Papai, estou com um pouco de frio.

Jonathan ergueu a cabeça da tela. Fazia uma hora que estava mergulhado nos meandros tortuosos de sua reflexão, tentando sem sucesso hackear a senha de Madeline. Percorrera boa parte dos e-mails da moça, coletando pacientemente fiapos de informações e tentando, a cada novo indício, descobrir uma senha correspondente.

— Vá pegar um suéter, querido — disse ele, estendendo um lenço de papel para que ele limpasse o nariz que escorria.

O sol desaparecera para dar lugar a um nevoeiro branco e denso que cobria as ruas e o parque para o qual dava o terraço. Não era à toa que San Francisco tinha o apelido de Fog City. Esse era um dos aspectos misteriosos e desconcertantes do lugar: a velocidade com que um nevoeiro espesso podia envolver a cidade e sua célebre Golden Gate em poucos minutos.

Quando Charly voltou, protegido por um grosso suéter de gola rulê, Jonathan consultou o relógio.

— A Alessandra não vai demorar. Quer ver O mágico de Oz com ela?

O guri fez que sim com a cabeça, antes de exclamar:

— Ela chegou!

E, percebendo a babá, pulou de alegria.

A estudante era filha de Sandro Sandrini, dono de um dos restaurantes italianos mais antigos do bairro. Fazia um curso em Berkeley e, quando Charly passava uma temporada na Califórnia, Jonathan recorria a seus serviços.

Ele estava cumprimentando a adolescente quando o celular vibrou em sua mão. Verificou o que a tela exibia e reconheceu os algarismos familiares do número de sua ex-mulher!

— Alô?

Com uma voz neutra, Francesca lhe explicou que, procurando fazer contato com ele, dera com uma parisiense que lhe contara sobre a troca dos aparelhos. Queria apenas se certificar de que estava tudo bem e falar com Charly.

— É a sua mãe — disse Jonathan, estendendo o aparelho para o filho.

Notas

 

* Maître do príncipe de Condé, que passou para a posteridade por ter se

suicidado em 1671 durante uma festividade porque o peixe do dia estava

atrasado e ele temia que faltasse comida.

** Um dos grandes chefs de cozinha franceses da segunda metade do século

XX. Figura assídua na mídia durante os anos 90, suicidou-se sem deixar

explicações em fevereiro de 2003, aos cinquenta e dois anos.