O Chamado do Anjo
18. Hipnótico
18
Hipnótico
De todos os males, os mais dolorosos são aqueles que infligimos a nós
mesmos.
— SÓFOCLES
SAN FRANCISCO
SEGUNDA-FEIRA, 19 DE DEZEMBRO
DEZ E MEIA DA NOITE
Jonathan desceu do cable car a duas quadras da Grace Cathedral. A cidade estava mergulhada numa alvura opaca que abafava os sons e envolvia as ruas num véu de mistério. Deixou a Powell Street a pé e percorreu uma centena de metros até o Hospital Lenox.
— A dra. Morales está me aguardando — anunciou-se na recepção.
Como lhe pediram para aguardar no saguão, sentou no sofá da sala de espera e tirou do bolso a folha de papel na qual imprimira o retrato de Alice.
O rosto da garota não o abandonara o dia inteiro. Tentara driblar a memória, dizer a si mesmo que se enganara de pessoa, mas nada adiantava. Quando conhecera Alice Dixon, ela era morena e dizia se chamar Alice Kowalski, mas usava o mesmo suéter cor-de-rosa e exprimia o mesmo sofrimento no olhar.
— Boa noite, Jonathan.
— Boa noite, Ana Lucia — ele respondeu, erguendo os olhos para uma bonita jovem de pele fosca e cabelos de azeviche.
A dra. Morales irradiava elegância e sobriedade. De baixa estatura, usava o jaleco de médica aberto sobre a blusa, como um casaco cintado que valorizasse discretamente sua silhueta.
— Vamos ao meu consultório?
Ele a seguiu no elevador com passos decididos.
— Faz muito tempo — ela observou, apertando o botão do sexto andar.
— Pouco mais de um ano — admitiu Jonathan.
A cabine subiu em silêncio. Conhecera Ana Lucia Morales durante seus primeiros meses em San Francisco. Um período difícil de sua vida. A psiquiatra lhe fora recomendada por Elliott Cooper, cirurgião do hospital, cliente regular de seu restaurante e que terminara seu amigo. “Ela é incapaz de resolver a porra da própria vida, mas sabe ajudar os outros, embora seja um pouco bonita demais para uma psicanalista”, advertira-o o velho médico.
Jonathan fizera algumas sessões de terapia durante as quais se soltara um pouco, depois só aparecia para obter ansiolíticos, depois simplesmente deixara de ir. A psicanálise não era para ele, em todo caso ele ainda não estava pronto.
Uma noite, algumas semanas após a última consulta, ele encontrou por acaso Ana Lucia num bar de North Beach. O lugar estava mais para um ponto de encontro de motoqueiros do que para o Café Costes. No palco, um guitarrista solitário tocava um velho Led Zeppelin, com um pé sobre um cajon e o outro operando um sampler. Jonathan acabara de se separar de Francesca; Ana Lucia acabava de ser abandonada pelo namorado, um trader possessivo e egoísta que morava na outra extremidade do país, mas pelo qual ela era louca. Beberam algumas cervejas, flertaram um pouco e se viram dispostos a fazer uma besteira. Todos nós temos esses momentos de fraqueza...
— Você não parece muito bem — disse ela, para romper o silêncio.
— Já tive dias melhores — ele admitiu. — Na verdade, preciso lhe pedir um favor.
As portas do elevador se abriram para um longo corredor que dava acesso ao consultório de Ana Lucia, uma sala pequena com luz suave, que dava para a Hyde Street.
— Estou ouvindo.
— Se bem me lembro, quando eu vinha para a análise, você gravava nossas sessões, certo?
— Certo, mas elas foram raríssimas — ela observou, digitando o nome de Jonathan no teclado.
Acessando seu dossiê, foi mais precisa:
— Tenho três gravações.
— Pode me mandar os arquivos?
— Claro, envio agora mesmo por e-mail. Isso faz parte da sua terapia. Precisa de mais alguma coisa?
— Obrigado, isso basta — ele respondeu, levantando-se.
— Bom, não vou insistir.
Ela se pôs de pé também, tirou o jaleco e o pendurou num cabide.
— Encerrei o expediente, quer uma carona? — sugeriu, vestindo um impermeável de couro marrom que a deixava mais parecida com uma top model do que com uma médica.
— Com prazer.
Ele a seguiu rumo ao estacionamento subterrâneo até um Audi Spyder reluzente de novo.
— Quantas consultas você precisa fazer por semana para comprar uma máquina dessas?
— Não é minha — ela desconversou, dando partida.
— Entendi, seu trader voltou.
— E a sua mulher, não?
Julgando a pergunta absurda, Jonathan deu de ombros.
O conversível saiu na Bush Street e virou na Leavenworth. Ana Lucia gostava de viver perigosamente. Aproveitou-se da longa reta da California Street para acelerar abruptamente.
— Que brincadeira é essa?
— Desculpe — ela disse, reduzindo a velocidade.
Pensativa, adotou um ritmo mais lento, percorrendo em silêncio a Grant Avenue, depois a Lombard. Passado um instante, arriscou-se a uma constatação:
— Você é igual a muita gente, Jonathan: perdido em suas zonas de sombra. Só vai melhorar de verdade quando se livrar do peso de seus fantasmas.
— Fantasmas não devem pesar muito — ele brincou.
— Mas as correntes que eles arrastam pesam toneladas — ela replicou.
Ele meditou sobre aquela réplica o resto do percurso e ela o deixou no topo de Telegraph Hill.
— E você, melhorou? — ele perguntou, abrindo a porta do Spyder.
— Não — ela reconheceu —, mas isso é outro problema.
— Bom, não vou insistir.
Ela esboçou um sorriso e arrancou a toda em direção às luzes da cidade.
Aliviado por estar de volta ao lar, Jonathan empurrou a porta de casa. Marcus dormira no sofá vendo um episódio antigo de Jornada nas estrelas. Desligou a tevê antes de enfiar a cabeça no quarto do filho para verificar se ele estava bem. Charly dormia a sono solto. Desabara sobre o videogame ajudando os angry birds em sua luta contra os porcos verdes.
Com certa raiva, Jonathan desativou o equipamento eletrônico. Quando tinha aquela idade, dormia sobre um livro, não em frente a uma tela! Voltou a pensar naqueles momentos distantes, quando mergulhava em Tintim, Os três mosqueteiros, Marcel Pagnol, Júlio Verne, mais tarde em Stephen King e John Irving. Todas essas coisas pareciam um passado remoto. Hoje, entre tevê, consoles, computadores e celulares, as telas e redes invadiam nossa vida desde a mais tenra idade. Mais para o mal do que para o bem.
Virei um velho babaca?, interrogou-se, antes de sucumbir à sedução do computador, instalando-se em frente ao laptop para verificar se os e-mails de Ana Lucia haviam chegado.
Havia de fato três arquivos mp3 correspondentes às três sessões que ele fizera com ela. Sabia exatamente o que procurava. A passagem que ele queria escutar novamente se encontrava no início da segunda sessão.
Conectou o fone de ouvido, apagou as luzes e sentou no sofá para escutar a gravação.
Nos primeiros minutos, ouvia-se principalmente a voz de Ana Lucia, incrivelmente tranquilizadora, tentando mergulhar o paciente naquele estado de relaxamento completo, análogo a um leve sono hipnótico.
Então ela entrou no cerne da questão:
Na última sessão você me contou a pior semana da sua vida: os poucos dias em que perdeu ao mesmo tempo sua mulher e seu emprego. Uma semana na qual você também soube da morte do seu pai, com quem não falava fazia mais
de quinze anos. Você me disse que hesitou muito em ir ao enterro dele. Depois, finalmente, pegou o avião para Paris, certo?
Após um silêncio, Jonathan começou sua confissão. Na época de sua fama midiática, estava acostumado com os estúdios de televisão e se saía bem em suas entrevistas. Mas fazia dois anos que não se “escutava falar”, e lhe pareceu bizarro constatar como na época sua dicção e sua pronúncia eram carregadas de emoção e sofrimento:
Eu cheguei em Paris no dia 31 de dezembro, no fim da tarde. Naquele ano, fazia um inverno glacial em toda a França. Tinha nevado uma semana antes e, em alguns lugares, a capital continuava com um aspecto de estação de esqui...