O Chamado do Anjo

Guillaume Musso · Capítulo 15 de 47

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O Chamado do Anjo

Segunda parte: O caso Alice Dixon

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Alice

 

Aconteceu durante aquele verão verde e louco. Frankie tinha doze anos.

Ela não fazia parte de nenhum clube nem de qualquer coisa no mundo.

Transformara-se numa criatura sem laços, que se arrastava pelas

portas com medo.

— CARSON MCCULLERS

 

TRÊS ANOS ANTES

8 DE DEZEMBRO DE 2008

DELEGACIA DE POLÍCIA DE CHEATAM,

NORDESTE DE MANCHESTER

Madeline levantou a voz:

— Vai ter que me explicar a coisa com mais clareza, porque continuo sem entender. Por que você esperou OITO DIAS para registrar o desaparecimento da sua filha?

Sentada diante dela, a tez pálida e os cabelos emplastrados, Erin Dixon se contorcia na cadeira. Incomodada, trêmula, piscava as pálpebras e triturava o copinho de café de plástico.

— Sabe como são os adolescentes, porra! Eles vão e vêm. E depois, eu já disse: a Alice sempre foi independente, ela se vira sozinha, ela...

— Mas ela só tem CATORZE ANOS! — cortou-a friamente Madeline.

Erin balançou a cabeça e pediu autorização para sair e fumar um cigarro.

— Nem pensar! — decretou a policial.

Ela franziu os olhos e fez uma pausa. A mulher a quem interrogava tinha trinta anos (a mesma idade dela), mas lhe faltavam vários dentes. O rosto, cruamente iluminado pela luz fria do teto, estava devastado pela fadiga e pelos hematomas.

Fazia uma hora que estava nas dependências da delegacia. Erin passara por todas as fases: primeiro as lágrimas, ao denunciar o desaparecimento da filha, depois a agressividade e a raiva, à medida que o interrogatório se prolongava e ela se revelava incapaz de alinhar duas frases coerentes para explicar por que levara uma semana para registrar queixa.

— E o pai dela, o que pensa disso?

Erin deu de ombros.

— Faz muito tempo que ele desapareceu... Para dizer a verdade, nem sei direito quem é. Na época, eu trepava com todo mundo sem tomar precauções...

Bruscamente, Madeline se irritou. Trabalhara cinco anos no setor de entorpecentes e conhecia aquele comportamento de cor: aquela exaltação e aquele olhar fugidio eram sinais gritantes de abstinência de drogas. As marcas em torno dos lábios de Erin eram queimaduras deixadas por um cachimbo. A sra. Dixon era viciada em crack. Ponto-final.

— Bom, vamos até lá, Jim! — decidiu Madeline, pegando a jaqueta e a arma de serviço.

Enquanto dava uma passada no escritório do chefe, o parceiro escoltou Erin até o estacionamento e acendeu um cigarro para ela.

Já eram dez horas da manhã, mas o céu carregado de nuvens pretas dava a impressão de que o dia ainda não nascera de verdade.

 

* * *

— Recebemos a resposta do sistema central de emergências — anunciou Jim, desligando o celular. — Os hospitais não registraram nenhum prontuário com o nome de Alice Dixon.

— Eu podia ter apostado — respondeu Madeline, passando a marcha.

O Ford Focus deu uma brusca derrapada na estrada molhada. Giroflex aceso e sirene ligada, o carro investia em direção aos bairros da zona norte. Com a mão esquerda no volante e a direita apertando um aparelho de rádio, a investigadora tomava as primeiras providências: divulgação da fotografia de Alice para todas as delegacias do país, comunicação de seu desaparecimento à imprensa e à redação dos jornais televisivos, pedido urgente para mobilizar uma equipe da polícia científica...

— Mais devagar, vai nos matar desse jeito! — queixou-se Jim, enquanto Madeline mordia perigosamente o meio-fio.

— Não acha que já perdemos muito tempo?

— Justamente, estamos a apenas dez minutos...

— Você é realmente muito burro!

Os dois tiras chegaram ao cruzamento de um bairro popular. Com suas fileiras de casas de tijolos vermelhos se estendendo a perder de vista, Cheatam Bridge era o protótipo do antigo subúrbio industrial deteriorado. Naqueles últimos anos, os Trabalhistas haviam injetado muito dinheiro para revitalizar os bairros do noroeste, mas Cheatam Bridge não usufruíra muito dessa iniciativa. Vários apartamentos estavam vazios, quase todos os jardins abandonados, e a crise que sufocava a economia inglesa não melhorava as coisas.

Se o setor não ocupava um lugar privilegiado nos guias turísticos, o que dizer de Farm Hill Road, o cortiço onde morava a mãe de Alice? Era um verdadeiro enclave de miséria, corroído pela criminalidade. Madeline e Jim seguiram Erin Dixon através de um conglomerado de barracos entregues aos mendigos, às putas e aos traficantes de crack.

Entrando no barraco, Madeline sentiu náuseas. A sala era esverdeada e repugnante: colchões no chão, janelas vedadas com papelão e pedaços de zinco, comida estragada em todos os cantos... Visivelmente, Erin adaptara seu apartamento para ser uma “cracolândia”, a fim de extorquir um pouco de dinheiro dos junkies que usavam o local. Mas, embora devesse ter desconfiado que a polícia revistaria sua casa, não se dera ao trabalho de maquiar suas atividades: um cachimbo artesanal fabricado com uma latinha ainda estava jogado no parapeito da janela, ao lado de garrafas de cerveja vazias e um cinzeiro onde jazia um baseado quase todo consumido.

Madeline e Jim trocaram um olhar inquieto; considerando o número de viciados que deviam frequentar o lugar, a investigação não seria simples. Subiram até o primeiro andar, empurraram a porta do quarto de Alice e...

 

* * *

O lugar destoava do resto da casa. O aposento era sóbrio e bem arrumado, com uma escrivaninha, estantes e livros. Graças a um aromatizador de ambiente, um cheiro agradável de íris e baunilha pairava no ar.

Um outro mundo...

Madeline ergueu os olhos e observou atentamente as paredes do quartinho decoradas com ingressos e programas dos espetáculos a que Alice assistira: óperas — Carmen e Don Giovanni, no Lowry Theatre —, uma peça — Algemas de cristal, no Playhouse —, um balé — Romeu e Julieta, na sede da BBC Philharmonic Orchestra.

— Essa garota por acaso é uma extraterrestre? — perguntou Jim.

— É — resmungou Erin. — Ela... Ela sempre foi assim: sempre mergulhada nos livros, na pintura, na música... Me pergunto a quem puxou.

Não a você, com certeza, pensou Madeline.

A policial estava hipnotizada diante do que descobria. De ambos os lados da escrivaninha, duas reproduções de quadro se defrontavam: um Autorretrato de Picasso datando da fase azul e o famoso Verrou, de Jean-Honoré Fragonard.

Jim olhava os títulos dos livros nas estantes: romances clássicos, peças de teatro.

— Conhece muitas adolescentes de Cheatam Bridge que leem Os irmãos Karamazov e As ligações perigosas? — ele perguntou, folheando os dois livros.

— Só conheci uma — respondeu Madeline, com expressão ausente.

— Quem?

— Eu...

Ela expulsou a lembrança da mente. As mágoas da infância continuavam vivas e aquele não era realmente o dia para se apiedar de sua sorte.

Vestiu um par de luvas de látex e abriu todas as gavetas, vasculhando o aposento de ponta a ponta.

Nos armários, Madeline encontrou uma dezena de pacotes de biscoito de chocolate recheados de baunilha — Oreo —, bem como garrafinhas de plástico de leite sabor morango Nesquik.

— Ela praticamente só come biscoito molhado no leite — explicou a mãe.

Alice “partira” sem levar nada: o violino estava pousado na cama e o computador — um velho e obsoleto Mac bolha— reinava na escrivaninha. Quanto ao seu diário íntimo, jazia ao pé da cama. Madeline o abriu com curiosidade e descobriu na aba uma nota de cinquenta libras esterlinas dobrada em quatro.

Um fulgor doentio brilhou no olhar de Erin. Visivelmente, recriminava-se por não ter tido a presença de espírito de revistar o quarto antes dos policiais.

Mau presságio, pensou Madeline. Se a garota tivesse fugido, não teria deixado uma soma dessas para trás.

A equipe que ela pedira acabava de chegar, e ela requisitou à polícia científica que passasse um pente-fino na casa. Com suas pinças, bisturis e perfuradoras, os técnicos colheram diversas amostras, que iam colocando em tubos herméticos. Enquanto seus homens levavam as principais provas materiais, Madeline abriu um arquivo de gavetas no qual a adolescente guardava alguns deveres escolares — as notas eram excelentes, e os comentários dos professores, elogiosos.

Alice construíra só para ela uma cidadela de cultura a fim de escapar de seu cotidiano sórdido. A educação e o conhecimento como escudos para se proteger da violência, do medo e da mediocridade...

 

* * *

Cinco viaturas policiais estavam agora estacionadas em Farm Hill Road. Madeline trocou algumas palavras com o responsável pela unidade científica, que lhe assegurou ter encontrado fios de cabelo suficientes na escova de Alice para dispor de amostras de DNA de boa qualidade.

Em seguida, a policial se recostou no capô do carro e acendeu um cigarro, olhando fixamente para a fotografia de Alice. Era uma garota bonita, alta e magra, aparentando ser mais velha do que realmente era. O rosto diáfano, sublinhado por discretas sardas, traía origens irlandesas. Tinha olhos amendoados verde-claros que lembravam os retratos de Modigliani e nos quais era possível ler uma grande lassidão, bem como uma vontade manifesta de esconder a beleza, consciente de que, no ambiente onde vivia, ela lhe traria mais aborrecimentos que gratificações.

O que esperar do futuro quando as condições para dar a largada na vida são tão difíceis? Como era possível crescer naquele pardieiro, em meio a drogados e tresloucados, sem acabar ficando um pouco louco?

Será que você acabou fugindo?, Madeline perguntou mentalmente a Alice. Será que deixou esse bairro podre por onde só circulam arruinados? Será que quis fugir dessa mãe retardada que nem é capaz de dizer quem é o seu pai?

Mas Madeline não acreditava naquela história. Alice parecia ser uma garota inteligente e organizada. Fugir daquele antro? Tudo bem. Mas para onde? Com quem? E para fazer o quê?

 

* * *

Usou a guimba para acender outro cigarro.

O quarto de Alice reavivara as lembranças de sua própria história. Como noventa e nove por cento dos moleques criados no bairro, Madeline tivera uma infância caótica, entre uma mãe depressiva e um pai beberrão. Adolescente, jurara fugir daquele desastre humano, tentar a sorte em outro lugar. Seu grande sonho era um dia morar em Paris! Era boa aluna e passara na faculdade de direito, depois a realidade do bairro a alcançara novamente e ela entrara na polícia, subindo rapidamente na hierarquia, mas permanecendo enraizada no marasmo e na tristeza de Cheatam Bridge.

Não se queixava da sorte, ao contrário. Seu trabalho lhe agradava porque tinha um sentido: tirar de circulação os criminosos, permitir que familiares passassem decentemente pelo luto encontrando os assassinos de seus parentes, salvar vidas às vezes. Claro, não era fácil todos os dias. Ali, como em toda parte, reinava um profundo mal-estar entre os tiras. Não apenas não se sentiam respeitados, como seu status atraía insultos e ameaças. Era uma realidade generalizada, mas sentida com maior intensidade num subúrbio como Cheatam Bridge. Os colegas lotados no pedaço escondiam sua profissão dos vizinhos e pediam aos filhos que fizessem a mesma coisa na escola. As pessoas gostavam muito dos tiras nas séries de tevê, mas cuspiam nos que trabalhavam em sua comunidade... Era preciso então administrar um estresse diário, resistir à hostilidade da população, ao desinteresse dos superiores. Aceitar ver seu carro apedrejado e se virar com peças de outra era: vários camburões não tinham nem rádio, alguns computadores ainda rodavam com Pentium II...

Havia momentos em que era difícil. Você começava a sentir intimamente, pessoalmente, o absurdo das ocorrências mortais, o sofrimento das mulheres espancadas, o horror das crianças violentadas, a dor das famílias das vítimas.

De tanto viver deprimidos e sob pressão, alguns terminavam explodindo. No ano anterior, um policial de sua unidade perdera o controle e matara, sem razão aparente, um pequeno delinquente durante a abordagem; seis meses antes, uma jovem estagiária se suicidara na delegacia com a arma de serviço.

Ao contrário de muitos de seus colegas, Madeline não era nem desencantada nem depressiva. Permanecera voluntariamente naquele bairro “difícil” para ser promovida com maior rapidez. Nem os velhos dinossauros nem os jovens recrutas ficavam ali. O que lhe abria perspectivas de carreira... Com o passar dos anos, conquistara então certa autonomia, que lhe permitia investigar os casos mais “interessantes”, que eram também os mais tristes e sangrentos.

— Ela não fugiu de casa, não é? — perguntou Jim, juntando-se a ela.

— Não. Se fosse uma fuga, já teríamos localizado a garota, e ela não teria deixado suas cinquenta libras para trás.

— Com o que Erin deve ter na conta bancária, penso que também podemos eliminar sequestro.

— Com certeza — ela aprovou —, mas, em todo caso, vamos investigar o bando de drogados que a cerca. Com esses caras, pode se tratar de uma vingança ou de um rapto.

— Vamos encontrar a menina — afirmou Jim, como para persuadir a si mesmo.

Não estavam nos Estados Unidos nem num romance policial — na Inglaterra atual, eram raros os casos de desaparecimento de menor não elucidados.

Dois anos antes, Madeline e Jim haviam supervisionado as investigações sobre o desaparecimento de um menino sequestrado quando brincava no quintal da casa dos pais. O alerta fora imediato; num tempo curtíssimo, conseguiram acionar recursos consideráveis. O sequestrador fora preso poucas horas depois, graças à identificação de seu carro e, em seguida, confessara. Antes do anoitecer, haviam descoberto o garotinho, algemado numa cabana, mas vivo e saudável.

Relembrando esse episódio, que mostrava a importância da capacidade de reação, Madeline explodiu de raiva:

— Porra, que imbecil! — vociferou, dando um soco no capô do Focus. — Esperar uma semana para registrar o desaparecimento da filha! Vou colocar essa mulher atrás das grades!

Em qualquer caso de desaparecimento, as primeiras quarenta e oito horas eram determinantes. Se, transposto esse limite, ninguém fosse encontrado, havia fortes chances de nunca mais vir a sê-lo.

— Calma! — pediu Jim, afastando-se. — Aqui está o número do celular da garota. Vamos ver se conseguimos rastrear as ligações dela.

Madeline olhou a fotografia mais uma vez e sentiu um nó na garganta. Via em Alice uma irmãzinha, uma filha até... Como Erin, ela poderia ter engravidado de um canalha do bairro aos dezessete anos, ao voltar de uma boate no sábado à noite, no banco traseiro de um Rover 200.

Onde você está?, murmurou.

Coisa que raramente lhe acontecia, sentiu-se invadida por uma certeza inabalável: Alice estava viva. Contudo, mesmo nesse caso, Madeline não alimentava nenhuma ilusão. A adolescente não estava num lugar confortável. Devia estar no porão escuro e úmido de um depravado ou nas garras de uma máfia especializada em tráfico de adolescentes e prostituição.

Em todo caso, uma coisa era certa.

Ela devia estar com medo.

Um medo horrível.