O Chamado do Anjo
20. Ferida aberta
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Ferida aberta
Meu mal vem de mais longe.
— FLANNERY O’CONNOR
SAN FRANCISCO
SEGUNDA-FEIRA À NOITE
DUAS HORAS DA MANHÃ
Quando Jonathan tirou os fones de ouvido, se deu conta de que uma lágrima rolava em sua face. Aquele mergulho profundo nos meandros do período mais negro de sua existência fora difícil.
Aquela Alice Kowalski que atravessara seu caminho era realmente Alice Dixon, a vítima do Carniceiro de Liverpool?
Em vão, checou mais de uma vez as datas, mas alguma coisa não batia. Madeline recebera o coração arrancado de Alice em 15 de junho de 2009. Dispondo do perfil genético da vítima, o laboratório identificara categoricamente o órgão como da garota desaparecida. “Não restam dúvidas”, chegava a mencionar o relatório.
Ora, Jonathan encontrara Alice Kowalski na noite de 31 de dezembro de 2009.
Mais de seis meses depois!
Abriu a tampa da garrafa de vodca e tomou um gole revigorante. Ainda sob o choque da descoberta, tentou não se animar, considerando metodicamente todas as suposições que lhe vinham à mente.
Primeira hipótese: as duas Alices não tinham nada a ver uma com a outra. Tudo aquilo era obra do acaso ou da coincidência — o mesmo suéter acolchoado, o mesmo emblema do time de futebol, a mesma paixão pela música, os mesmos traços físicos. Difícil imaginar, mas por que não?...
Segunda possibilidade: Alice tinha uma irmã gêmea secreta. Não. Era estúpido. Por que uma vivera com uma rica família americana, e a outra, num bairro pobre de Manchester?
Terceira opção: as duas Alices eram de fato a mesma pessoa. Nesse caso, ou o laboratório se enganara ao analisar o DNA do coração (pouco provável), ou Alice fizera um transplante cardíaco (tampouco crível, sem falar que o coração que chegou à polícia não fora retirado segundo métodos cirúrgicos, mas completamente retalhado).
Última hipótese: uma explicação sobrenatural, como reencarnação, mas quem acreditava de verdade nesse tipo de tolice?
Jonathan refletiu ainda alguns minutos antes de tomar consciência da hora avançada. Foi para o quarto, onde não conseguiu pregar o olho. Desde o primeiro dia, tivera aquela impressão louca de que a vida de Madeline e a sua estavam ligadas por um fio invisível. Aquela noite conseguira identificar o elo perdido: Alice.
Madeline, Alice...
Ele devia explicações à primeira.
E tinha uma dívida com a segunda.