O Chamado do Anjo

Guillaume Musso · Capítulo 38 de 47

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O Chamado do Anjo

32. A verdade sobre Danny Doyle

32

A verdade sobre Danny Doyle

 

Os espinhos que colhi vêm da árvore que plantei.

— LORD BYRON

 

CAIS DO RIO EAST

— Você não presta mesmo! Como pôde me fazer acreditar que a Alice estava morta?

— Maddie, calma...

— Nunca vou te perdoar, Daniel!

— Me deixe explicar.

Madeline e Danny caminhavam pelo cais de Williamsburg. Perto da água, a temperatura estava nitidamente mais fria, e Madeline se embrulhou na jaqueta. Dez metros à frente e atrás deles, dois “guarda-costas” faziam a segurança do lugar, conforme eles avançavam.

— Quem são esses palhaços?

— Agentes do FBI que trabalham para o Marshals Service.

Com os nervos em frangalhos, ainda sob o choque do acidente e das revelações da manhã, Madeline desafiou o ex-marginal:

— Me diga onde está a Alice, AGORA!

— Vou explicar tudo, mas pare de gritar, ok?

Danny tirou do bolso uma cigarrilha já começada, que reacendeu com o isqueiro.

— Tudo começou há três anos e meio — declarou, sentando-se num dos bancos que margeavam o rio. — Foi um mês antes da morte da minha mãe. Ela estava no fim da vida, no Christie’s Hospital, devorada por um câncer terminal. Eu sabia que ela estava vivendo suas últimas semanas e ia visitá-la diariamente.

Danny deixou que as lembranças dolorosas viessem à tona. Ele emagrecera. Os cabelos estavam mais compridos e emolduravam o rosto moreno com traços puxados. Madeline consentiu em se acalmar e se sentou ao seu lado. Ele deu uma tragada antes de continuar:

— Todas as noites, eu saía do hospital um pouco mais acabado. Adquiri o hábito de ir afogar minha angústia no Soul Café, um pub na Oxford Road, a cem metros da clínica. Foi lá que vi a Alice pela primeira vez. Ela dava uma mãozinha no serviço, recolhia os copos e talheres. Na época, ela não tinha nem catorze anos, ainda que lhe dessem quinze ou dezesseis. Era evidente que não tinha idade para trabalhar, mas ninguém se preocupava muito com isso.

— Você reparou nela desde o início?

— Sim, estava intrigado com o comportamento dela. Sempre que tinha um tempo livre, ela se instalava numa mesa para ler ou fazer os deveres. Além disso, me olhava de um jeito estranho, como se me conhecesse...

— Você falou com ela?

— No começo ela se limitou a me observar, então, uma noite, veio conversar comigo de um jeito desafiador. Disse que sabia quem eu era. Depois me perguntou se eu lembrava da mãe dela, Erin Dixon...

— Eu nunca soube que você tinha ficado com essa mulher.

— Eu mesmo tinha esquecido. Aliás, precisei de alguns segundos para associar o rosto ao nome. Realmente, eu tinha transado com a Erin duas ou três vezes, uns quinze anos antes. Era uma mulher da vida, que se entregava sem criar caso. Era bonita antes das drogas, ainda que nunca tivesse sido muito esperta...

— Foi o que você respondeu à filha dela?

— Não, claro que não. Eu estava constrangido, mas ela não fez rodeios. Me contou que tinha interrogado a mãe, feito uma investigação e que, na opinião dela... eu era seu pai.

— E você acreditou?

— Antes mesmo que ela me dissesse. Era evidente.

— Por quê? Acha que ela se parece com você?

— Não, acho que se parece com você.

Madeline perdeu a linha.

— Não brinque com isso, Daniel!

— Não negue! Você também era ligada a essa menina! Por que teria teimado nessa investigação se inconscientemente não tivesse se reconhecido nela?

— Porque era a minha profissão.

Mas Doyle persistiu:

— Essa guria era a filha que poderíamos ter tido juntos! Ela era inteligente, pensativa, culta, completamente diferente dos animais que me cercavam. Ela encarava tudo, enfrentava a vida com coragem. Para mim, foi um presente dos céus.

— Então vocês começaram a se encontrar?

— Sim, quase todos os dias, sem que ninguém soubesse. Era nosso segredo. Aprendi a conhecê-la melhor, e não menti para ela sobre as minhas atividades. Ela me deu uma razão para me levantar de manhã. Pela primeira vez, minha vida fazia sentido.

— Você lhe dava dinheiro?

— Eu a ajudei um pouco, mas não queria despertar suspeitas. Estava realmente decidido a pagar os estudos dela numa boa universidade. Pensei até em assumi-la legalmente, mas, considerando o número de pessoas que queriam a minha pele, isso teria representado um perigo para ela. E depois, tinha um problema de saúde que me preocupava...

— O coração, não é? — adivinhou Madeline.

Com os olhos cravados nas águas escuras do rio East, Danny aquiesceu com tristeza.

— Ela ficava ofegante ao menor esforço. Não reclamava, mas volta e meia estava cansada e passou mal duas vezes na minha frente. Mandei-a para o Primary Care Trust. O médico identificou um sopro cardíaco, mas não de anomalia específica. Para ficar mais tranquilo, pedi ao cardiologista que acompanhava minha mãe que realizasse outros exames. Eles revelaram uma cardiomiopatia dilatada: o coração da Alice funcionava em câmera lenta. A doença já estava num estágio avançado e ela podia morrer a qualquer momento.

— O médico aceitou prescrever um tratamento sob um nome falso?

— Todo homem tem seu preço, Madeline.

— E funcionou?

— Nos primeiros meses, a Alice reagiu bem aos medicamentos.

O vento começou a soprar. Pouco a pouco, Madeline reconstituía a cronologia dos acontecimentos, mas muitas perguntas permaneciam sem resposta.

— A Alice sabia das suas falcatruas?

— Sabia. Nunca trapaceei com ela.

— E isso não era um problema para ela?

— Digamos que ela era suficientemente inteligente para não ter uma visão maniqueísta das coisas.

Madeline tomou a observação como uma crítica pessoal, mas preferiu relevar.

— Em nenhum momento você pensou em tomar jeito?

— Claro que sim! Mas o que você acha? Que era fácil? Que bastava estalar os dedos? Eu estava num beco sem saída: os tiras atrás de mim, as gangues rivais querendo minha pele, até meus próprios homens só esperavam a primeira oportunidade para me trair.

— A Alice tinha consciência disso?

— Mais do que eu imaginava. Foi ela quem me trouxe a solução.

— Como assim?

— Uma noite, ela chegou em casa com um enorme dossiê, com dezenas de artigos baixados da internet. Textos de direito da jurisprudência, estudos de caso, um autêntico trabalho de advogado. Ela dizia ter encontrado a fórmula mágica que nos permitiria começar uma vida nova.

— E que fórmula mágica era essa?

— O WITSEC, o programa americano de proteção a testemunhas.