O Chamado do Anjo

Guillaume Musso · Capítulo 44 de 47

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O Chamado do Anjo

38. Little Odessa.

38

Little Odessa

 

— É duro ter vontade de proteger alguém e ser incapaz disso —

observou Angel.

— Não se pode proteger as pessoas, meu caro — respondeu Wally. —

Tudo que podemos fazer é amá-las.

— JOHN IRVING

 

A van branca avançava com dificuldade na neve pegajosa da Surf Avenue. Apesar das batidas rápidas, os limpadores de neve do para-brisa tinham dificuldade para remover os flocos.

Ao volante, Yuri estava apavorado. Uma hora antes, ficara estupefato ao saber da morte da agente Blythe Blake. Primeiro receara que a polícia rastreasse sua pista, depois decidira rapidamente tirar proveito da situação. Agora Alice lhe pertencia. A putinha bem que tentara escapar de suas garras, mas não tivera forças para isso. Considerando seu estado, era melhor ele não demorar muito se quisesse “revendê-la” por um bom preço. Os irmãos Tachenko haviam prometido que ele poderia ficar com ela. Suborno, prostituição, tráfico de armas — os dois ucranianos dominavam todos os setores do crime organizado. Alice era jovem, bonita, sedutora e, sem dúvida, virgem. Com um tratamento de recuperação, os cafetões poderiam lucrar bastante com ela, destinando-a à prostituição.

Penosamente, a van seguia adiante, sem atolar muito no espesso tapete acolchoado. No console do carro, uma imagem da Virgem com o Menino Jesus dividia espaço com um terço bizantino que tremia com os solavancos.

Yuri respirou ao alcançar a Brighton Avenue. A grande artéria comercial dominada pela ferrovia era bem protegida da tempestade. Fez meia-volta para estacionar em frente a uma loja de conveniência. Antes de sair, deu uma espiada em sua prisioneira.

Atrás, deitada no assoalho do carro, Alice recaíra no delírio da febre. Por várias vezes lhe pedira água.

— Mais alguma coisa? — ele perguntou. — Para comer?

Ela fez que sim com a cabeça.

— Eu queria... — ela começou.

 

* * *

Madeline saiu cambaleando do galpão. Correu para atravessar o terreno onde jaziam os cadáveres dos cinco mastins para vomitar o café da manhã na calçada. Tinha o estômago embrulhado, o rosto molhado de suor, a raiva no coração. O que fazer agora? Dar a volta por cima. Não desistir. Lutar até o fim. O sequestrador de Alice tinha pelo menos quinze minutos de vantagem sobre ela. Era muito, não era nada.

Não se enxergava dez metros à frente. Era inútil pegar o carro. Melhor manter a liberdade de movimentos, ainda mais que não conhecia a região. Avançou pela rua e se viu no dique, de frente para o Atlântico. O oceano estava revolto, a vista tão deslumbrante quanto inesperada. Madeline não estava mais em Nova York, estava na Sibéria.

Por instinto, percorreu o calçadão à beira-mar, com seu assoalho de madeira e suas barracas de fritas grafitadas. O deque estava deserto, a não ser por algumas gaivotas que ciscavam nas lixeiras.

Ela estava encharcada. Em poucos minutos, tomou consciência de que o que julgava ser transpiração era sangue. A cada passo, deixava um fino rastro de hemoglobina atrás de si. A coxa estava seriamente machucada, mas era sobretudo do braço, lanhado e cortado em todo o comprimento do músculo, que vinha a hemorragia. Com o cachecol, fez um torniquete improvisado, que amarrou com o membro são e os dentes. Então, seguiu adiante.

 

* * *

O metrô não ultrapassou a penúltima estação. Dessa vez, os trilhos estavam completamente congelados. O frio paralisara tudo. A neve sufocava a cidade sob uma chapa pesada.

Foi somente ao sair da estação que Jonathan recuperou algumas barras de sinal no telefone. Ligou três vezes para Madeline, mas ela não atendeu. Ele ainda estava longe do ponto de encontro e não fazia ideia de onde ela estava.

Não havia saída.

E se...

Decidiu localizar o celular de Madeline da mesma maneira que haviam feito com o de Alice.

Entrou no navegador do celular.

Por favor, digite o usuário.

Fácil, sabia de cor o e-mail de Madeline.

Agora digite a senha.

Brincara com isso duas horas atrás! Digitou “violette1978” e esperou alguns segundos até ver um ponto piscando na tela. Madeline estava a mais de um quilômetro de distância, ao sul, perto do mar. Esperou alguns segundos para que a página atualizasse e se deu conta de que o ponto se deslocava no mapa.

 

* * *

Madeline corria, enfrentando a neve, que lhe fustigava o rosto. Antes morrer do que se render. Não agora, não tão perto. Deixou a beira-mar para cortar por um estacionamento, depois entrou numa das ruas que conduziam à artéria principal de Little Odessa.

O bairro devia seu nome às primeiras comunidades judaicas que haviam escapado da Rússia por ocasião dos expurgos e encontrado um ar de semelhança entre a baía nova-iorquina e o porto do mar Negro.

Madeline fez um balanço da situação: estava na Brighton Avenue, o coração do enclave russo. Sob as estruturas da ferrovia se alinhavam dezenas de vitrines e comércios com tabuletas redigidas em alfabeto cirílico. Apesar da neve, o lugar formigava de gente e os carros circulavam quase normalmente.

Ela abriu os olhos, procurando se agarrar a um detalhe, vislumbrar um indício, um veículo suspeito...

Nada.

Tão logo parou de correr, acusou a dor. O pior era ouvir os fragmentos de vozes nos quais o russo prevalecia sobre o inglês. Conversas que a visavam diretamente.

Percebendo seu reflexo numa vitrine, compreendeu por quê: sua jaqueta perdera a manga, o torniquete se soltara e ela vazava sangue.

Não podia continuar como um elétron livre, sem bússola e gotejando sangue. Entrou numa delicatéssen na esquina da 3rd Street. Se as primeiras prateleiras da grande mercearia transbordavam de tortas, bolinhos de carne, filés de esturjão e outras especialidades locais, o fundo da loja estava abastecido com produtos de higiene. Para desinfetar os ferimentos, Madeline comprou uma garrafa de álcool, bem como várias caixas de gaze e algodão. Aguardou no caixa atrás de um homem que pagava uma garrafa de água mineral e um pacote de biscoitos.

— бутьілку клубничного молока — pediu ele, apontando para o armário refrigerado atrás do balcão.

A vendedora abriu a geladeira e entregou ao freguês a garrafinha de leite sabor morango que ele acabava de pedir.

Madeline teve um clique.

Era um chamado.

Observou melhor o pacote de biscoitos: eram bolachas redondas de chocolate, recheadas de creme branco.

Oreo.

 

* * *

O coração rufou dentro do peito. Ela largou as compras no caixa para seguir o homem na rua. Era um sujeito alto, com a envergadura de um armário, uma espécie de jogador de rúgbi pançudo e com as faces volumosas carcomidas pela acne. Com passos pesados e enérgicos, ele retornou à van branca estacionada um pouco adiante.

Madeline sacou lentamente a pistola do bolso. Como num gesto de prece, juntou as mãos em torno das ranhuras da coronha e aguardou para tê-lo perfeitamente na mira antes de gritar:

— Freeze! Put your hands overhead!

Nesse momento, ela soube perfeitamente que iria matá-lo.

Porque sabia muito bem que ele não iria erguer as mãos e se render, mas que tentaria fugir, apostando na sorte.

E foi o que Yuri fez. Abriu a porta da van e...

Madeline atirou, mas nenhuma bala partiu. Atirou e voltou a atirar, mas foi obrigada a se render à evidência: o pente estava vazio.

 

* * *

Jonathan subia a avenida coberta pelo metrô elevado quando o celular vibrou. Do outro lado da linha, Madeline gritou:

— A van branca!

Ele levantou a cabeça e avistou a moça, vinte metros à sua frente. Com a arma em punho, ela lhe fazia sinais veementes cujo sentido ele não captava.

Sabia apenas que tinha de ser rápido.

E que tinha um revólver no bolso.

E que estava escrito desde o início que aquela história terminaria em sangue.

Ele pegou o Colt de Danny, engatilhou e apontou para a van, que acabava de arrancar a toda velocidade. Embora jamais tivesse disparado um tiro na vida, os gestos se encadearam mecanicamente. Ele ergueu a arma, apertou o braço para não tremer, mirou com todo o cuidado de que era capaz e apertou o gatilho.

A bala estilhaçou o para-brisa.

A van atravessou a rua e bateu no canteiro central, antes de capotar e trombar no pilar da estrutura do metrô.

 

* * *

O sangue de Madeline jorrava das têmporas. O tempo se congelara. Ela não sentia mais nenhuma dor. Os barulhos vindos de fora não a alcançavam mais, como se lhe houvessem perfurado os tímpanos. Como que em câmera lenta, ela correu até a traseira da van. Uma viatura dos bombeiros despontava na extremidade da rua. Logo seriam as sirenes da polícia e das ambulâncias. Uma espiada à direita. Uma espiada à esquerda. Ainda sob o choque, a multidão a cercava com desconfiança: o açougueiro empunhava o facão, o peixeiro desencavara um bastão de beisebol, o marisqueiro, uma barra de ferro.

Ela arrancou essa última de suas mãos com um gesto determinado e a usou como pé de cabra para arrebentar as portas duplas da traseira do veículo.

Quantas vezes, em sonho, vivera aquela cena? Quantas vezes aquele filme passara em sua cabeça? Era sua obsessão. O sentido profundo de sua vida. Salvar Alice. Ressuscitá-la.

Golpeadas com insistência, as portas terminaram por ceder.

Madeline se jogou para dentro da van.

Alice estava algemada, inconsciente, com as roupas manchadas de sangue.

Não!

Ela não podia morrer agora.

Madeline se debruçou sobre ela e encostou o ouvido em seu peito à procura de um sinal do coração.

E o seu sangue se misturou ao dela.