O Chamado do Anjo
23. O espelho de duas faces
23
O espelho de duas faces
Não sei aonde conduz o meu caminho, mas caminho melhor quando
minha mão aperta a sua.
— ALFRED DE MUSSET
QUINTA-FEIRA, 22 DE DEZEMBRO
AEROPORTO NICE CÔTE D’AZUR
11H55
Um sol exuberante de inverno ricocheteava no calçamento.
Jonathan trocara naquela mesma manhã a garoa inglesa pelo clima ameno do Mediterrâneo. Assim que desceu do avião, pegou um táxi para Antibes. Como o trânsito estava bom, o motorista dispensou a autoestrada, preferindo a departamental que acompanhava a beira-mar. Na Promenade des Anglais, parecia-se estar na Califórnia: os atletas faziam jogging, os mais velhos levavam os cães para passear e, na hora do almoço, vários trabalhadores comiam suas marmitas contemplando a baía dos Anjos sentados sob pérgolas.
Em vinte minutos, o carro chegou a Antibes. Atravessou o centro da cidade e alcançou o Boulevard de la Garoupe. Quanto mais se aproximava de seu destino, mais aumentava a excitação de Jonathan. Quem morava na “casa de Alice” naquele momento? Estavam em período de férias. Quem sabe a garota que ele deixara lá dois anos atrás ainda passava o Natal com os pais?
— Espere um pouquinho — pediu ao motorista, ao chegarem ao fim do beco do Sans-Souci.
Dessa vez, o portão estava fechado. Teve que tocar várias vezes e se identificar diante da câmera de vigilância antes que aceitassem abrir.
Percorreu a pé a aleia de cascalho que atravessava o terreno. O aroma de tomilho, alecrim e lavanda pairava no ar. Na escada da casa, uma mulher de uns cinquenta anos o aguardava. Usava lenço nos cabelos, tinha uma paleta na mão e manchas de pigmentos coloridos no rosto; visivelmente ele a importunara no meio de uma sessão de pintura.
— Em que posso ajudar? — ela perguntou, com um forte sotaque austríaco que acentuava sua semelhança com Romy Schneider.
Chamava-se Anna Askin e era dona da casa desde a primavera de 2001. Uma propriedade que ela alugava boa parte do ano, em geral por semana, para uma rica clientela russa, inglesa e holandesa.
Jonathan não se mostrou admirado. Então, Alice mentira: seus “pais” não eram donos da casa. Sem dúvida, haviam-na simplesmente alugado para uma curta temporada de férias.
— Desculpe pelo incômodo, mas estou tentando encontrar uma família que alugou sua casa há exatamente dois anos. Sr. e sra. Kowalski, isso lhe diz alguma coisa?
Anna Askin balançou a cabeça. Em geral, não se encontrava pessoalmente com os locatários; louco por robótica, seu marido automatizara cada canto da casa. Tudo funcionava por meio de códigos e infravermelho, integrados numa rede controlada por um programa de computador.
— Já não sei, mas posso verificar.
Fez sinal a Jonathan para segui-la até o terraço. Ele a acompanhou até um mirante circular que dava para o mar e para os rochedos. Ao lado de um cavalete instalado sobre uma mesa de teca, um laptop de última geração tocava uma música relaxante. A austríaca abriu uma planilha de Excel com o histórico das locações.
— Sr. e sra. Kowalski, exato. Um casal de americanos que alugou a casa por quinze dias, entre 21 de dezembro de 2009 e 4 de janeiro de 2010. Estranho, partiram antes do previsto; a casa já estava vazia na noite do dia 1º.
Partiram apenas algumas horas depois da volta de Alice, pensou Jonathan.
— Tem o endereço deles?
— Não, pagaram tudo em dinheiro vivo: nove mil dólares, quantia entregue com várias semanas de antecedência no escritório do meu marido em Nova York. Isso não é de praxe, mas já aconteceu com os americanos. Eles têm essa “religião do cash” — disse, com certo desdém.
— E a caução?
— Nunca pediram o reembolso.
Merda...
— Mas a senhora guardou alguma coisa!
— Um endereço de e-mail. Foi assim que nos comunicamos.
Sem muita esperança, Jonathan anotou o endereço eletrônico: uma conta hotmail decerto criada exclusivamente para aquele uso e que se revelaria impossível de rastrear.
Agradeceu a Anna Askin pela cooperação e pediu ao motorista que o levasse de volta ao aeroporto.
* * *
DUAS HORAS DA TARDE
Jonathan se dirigiu ao balcão da Air France para comprar um bilhete no voo das três horas da tarde para Paris. Atravessou a área de embarque e aguardou, mordendo um club sandwich num dos restaurantes panorâmicos que davam para as pistas.
De modo geral, sentia-se mal em aeroportos, mas o de Nice era diferente. Privilegiando a transparência, o terminal tinha a forma de um imenso cone de vidro com ares de disco voador. A fachada envidraçada oferecia uma vista espetacular da Grande Bleue, da baía dos Anjos e dos picos nevados do Esterel. Futurista e reconfortante, o lugar fazia sonhar. A luz se espalhava por toda parte, como num loft de dimensões infinitas flutuando entre o céu e o mar...
Ele puxou o elástico para abrir a caderneta na qual anotara o resumo de sua conversa com Jim Flaherty. Registrou o que acabava de saber da boca de Anna Askin, embora tivesse consciência de que não avançara muito. A história de Alice Dixon também o obcecava agora, mas ele não se saíra melhor que os outros que se haviam debruçado sobre o caso antes; quanto mais ele investigava, mais se adensava o mistério e se multiplicavam as pistas, uma mais desorientadora que a outra.
Fez mais algumas anotações, tentando associar alguns elementos, deitando no papel todas as hipóteses que lhe passavam pela cabeça. Absorto em pensamentos, esperou que chamassem seu nome para se levantar e ir até o balcão de embarque.
Certo de que suas deduções se chocavam com um muro e de que não descobriria sozinho a chave do enigma, uma evidência se lhe impôs: precisava se encontrar com Madeline Greene.
* * *
AEROPORTO DE SAN FRANCISCO
8H45
Com um orgulho não dissimulado, o piloto da Air China anunciou aos passageiros que a aeronave acabava de pousar no terminal, cinco minutos antes do horário previsto.
Mochila nos ombros, Madeline seguiu o fluxo de passageiros nas filas do setor de imigração. Completamente zonza por causa do fuso horário, levou um tempo para perceber que não passava de nove horas da manhã e, quando lhe pediram o passaporte, deu-se conta de que, na precipitação da partida, esquecera de preencher o formulário online ESTA que autorizava sua entrada nos Estados Unidos!
— A senhora esteve em Nova York dias atrás. O formulário é válido por dois anos — tranquilizou-a o funcionário.
Ela soltou um grande “ufa” e tentou se acalmar. Sem bagagem, foi diretamente para o setor dos táxis e deu ao motorista o único endereço que tinha de Jonathan: o de seu restaurante.
Fazia calor e o dia estava ensolarado. Difícil acreditar que, algumas horas antes, estava sob a garoa parisiense. Chegou a abrir o vidro para ter certeza do clima ameno.
Califórnia...
Sempre sonhara estar ali, mas imaginara que seria nas férias, na companhia de um namorado. Não daquele jeito, na correria, tendo mentido ao homem que acabava de pedi-la em casamento.
Porra... Por que eu estrago tudo?
Levara dois anos para reconstruir uma vida estável e serena, mas aquele belo equilíbrio fora pelos ares com o retorno insidioso dos fantasmas do passado. Em poucos dias, perdera todas as referências. Sentia-se perdida no meio de uma no man’s land inquietante, dividida entre duas vidas que não eram mais suas.
O carro rodou uns vinte minutos, atravessando a cidade, depois os bairros da zona sul até North Beach.
Eram dez horas quando o táxi deixou Madeline em frente ao restaurante de Jonathan...
* * *
ENQUANTO ISSO, EM PARIS...
Seis da tarde. O avião saíra atrasado de Nice: uma greve-relâmpago dos controladores de voo imobilizara a aeronave no solo durante quase uma hora. Em seguida, já em Orly, Jonathan teve de esperar uns bons quinze minutos para que instalassem a passarela de acesso ao saguão. Anoitecera, fazia frio, ele estava exausto, a marginal estava bloqueada; educado até dizer chega, o motorista de táxi escutava o rádio a todo volume sem se preocupar com o passageiro.
Welcome to Paris!
Jonathan não tinha a alma parisiense. Ao contrário de Nova York, San Francisco ou das cidades do sudeste, a capital não era a sua cidade. Não se sentia em casa em Paris, não tinha boas lembranças de lá, nunca quisera educar o filho lá.
Transposta a Porte d’Orléans, o trânsito fluiu melhor. Estavam se aproximando de Montparnasse. Ele verificara os horários de abertura da loja de Madeline no “seu” celular. A florista só fechava as portas às oito horas da noite. Dentro de poucos minutos, iria então revê-la, falar com ela. Sentiu um misto de excitação e apreensão. Nunca tivera aquela impressão de conhecer tanto uma pessoa tendo convivido tão pouco com ela. Bastara aquela troca de celulares para que ele se sentisse ligado a Madeline de maneira muito forte.
O táxi passou pelo Leão de Belfort da Place Denfert-Rochereau, seguiu o Boulevard Raspail, depois virou na Rue Delambre. Pronto, só mais uns poucos metros, e já avistava a fachada verde-amêndoa da loja que vira numa foto na internet. Estacionado em frente a um restaurante de sushi, um caminhão obstruía a rua. Com pressa de chegar, Jonathan pagou a corrida e percorreu a pé a pequena distância que o separava da loja...
* * *
SAN FRANCISCO
Um pequeno quadro-negro pendurado na porta do French Touch avisava:
Prezados clientes,
O restaurante fechará as portas até 26 de dezembro, inclusive.
Agradecemos a compreensão.
Madeline não acreditou no que via: Jonathan tirara umas feriazinhas! Então ela acabava de percorrer doze mil quilômetros... para nada?
Merda!
Ela devia pelo menos ter sido menos impulsiva, se informado antes de empreender uma viagem daquelas, mas Jim Flaherty lhe garantira que o chef tomara o voo noturno no dia anterior.
Releu a última linha escrita com giz:
Agradecemos a compreensão.
— Compreensão! Quer saber onde enfiar a minha compreensão? — ela gritou, ante o olhar perplexo de uma velhinha que passeava com o cachorro.
* * *
PARIS
Caros amigos,
Por ocasião das festas de fim de ano, o Jardin Extraordinaire estará fechado
de quarta-feira, 21 de dezembro, a segunda-feira, 26 de dezembro.
Boas festas a todos!
Madeline Greene + Takumi
Incrédulo, Jonathan esfregou os olhos: uma florista que fechava a loja na semana anterior ao Natal! Aparentemente a jovem inglesa sucumbira à inclinação imoderada dos franceses por férias! Sua decepção se transformou em irritação. Enquanto espumava de raiva, ouviu o celular tocar no bolso. Era Madeline...
Ela: Onde você está?
Ele: Ei! Nunca lhe ensinaram a dizer “bom dia”? Ela: Bom dia. Onde você está?
Ele: E você?
Ela: Em frente ao seu restaurante, imagine só! Ele: O quê?
Ela: Estou em San Francisco. Me diga onde mora e vou me encontrar com
você.
Ele: Mas, justamente, não estou em casa! Ela: Quer dizer que...
Ele: Estou em Paris, em frente à sua loja. Ela: ...
Ele: ...
Ela: Não podia ter me avisado, porra? Ele: Então a culpa é minha? Eu poderia lhe retribuir o cumprimento! Ela: Foi VOCÊ que começou a fuçar o meu celular! VOCÊ que se meteu em
coisas que não lhe dizem respeito! VOCÊ que desenterrou um dossiê
que estragou a minha vida. VOCÊ que...
Ele: CHEGA! Escute, precisamos conversar, com calma. Cara a cara. Ela: A dez mil quilômetros de distância, me parece meio difícil! Ele: É por isso que cada um de nós vai dar um passo em direção ao outro. Ela: ...?
Ele: Sugiro que a gente se encontre em Manhattan. É rápido e, com o fuso
horário, podemos estar lá hoje à noite.
Ela: Você está maluco! Em primeiro lugar, os aviões estão lotados, meu cartão
de crédito está no vermelho e vou logo avisando que...
Ele: Tem um voo da United Airlines às 14h30. Já viajei muito nele para pegar
o Charly em Nova York. Tenho um monte de milhas e pago a sua passagem...
Ela: Sabe onde você pode enfiar a passagem? Ele: Bom, não adianta ser grosseira e bancar a durona. Em vez disso, me dê o
número do seu passaporte, data e local de emissão. Preciso disso para reservar a passagem.
Ela: Pare de me dar ordens e de falar comigo como se eu fosse uma débil
mental! Você não é meu pai!
Ele: Graças a Deus...
Ela: E pare de se meter na minha vida particular e nas minhas investigações! Ele: Suas investigações? Acho que você deixou de ser tira há um tempão. Ela: Não entendo por que você está me perseguindo nem o que pretende
ganhar com isso. Quer me chantagear, é isso?
Ele: Não seja ridícula, só quero te ajudar. Ela: Devia primeiro ajudar a si mesmo. Ele: O que quer dizer com isso?
Ela: Quero dizer que a sua vida é um completo caos e que a sua ex-mulher
esconde coisas de você.
Ele: Por que diz isso?
Ela: Também fiz minhas pequenas buscas... Ele: Mais uma razão para conversarmos, não acha? Ela: Não tenho nada a lhe dizer.
Ele: Escute, tenho novas informações sobre Alice Dixon. Ela: Você é louco...
Ele: Pelo menos me deixe explic...
Ela: Vá se foder!
Ela desligara. Ele tentou ligar de novo, mas ela desativara o aparelho. Santo Deus! Ela não facilitava em nada...
Uma série de relâmpagos rasgou as nuvens escuras, e raios riscaram o céu. Continuou a chover torrencialmente. Jonathan não tinha nem guarda-chuva nem capuz, e o casaco estava encharcado. Tentou chamar um táxi, mas ali não era Nova York. Desanimado, caminhou até o ponto da estação Montparnasse e entrou na fila. A silhueta escura e solitária da hedionda Torre Montparnasse desfigurava o céu parisiense. Sempre que ia àquele bairro, perguntava-se como haviam permitido a construção daquela carcaça triste, tão monstruosa quanto inestética.
Acabara de entrar no táxi quando um carrilhão leve e alegre anunciando a chegada de um SMS tocou no bolso úmido do impermeável.
Era um texto de Madeline. Continha uma série de algarismos e letras, bem como a frase: “Emitido em Manchester em 19 de junho de 2008”.
* * *
No Charles de Gaulle, Jonathan pegou o voo da Air France de 21h10. A viagem durou sete horas e cinquenta e cinco minutos, e o avião pousou no JFK, em Nova York, às 23h05.
* * *
Madeline deixou San Francisco às 14h30. Recebera por e-mail a passagem eletrônica prometida por Jonathan. O voo até Nova York durou cinco horas e vinte e cinco minutos. Eram 22h55 quando aterrissou no JFK.
* * *
NOVA YORK
Assim que desembarcou, Jonathan consultou no monitor o histórico de chegadas. O avião de Madeline pousara dez minutos antes do seu. Sem saber onde ela o esperava, hesitou em ligar, mas avistou o restaurante La Porte du Ciel, o estabelecimento no qual entraram em rota de colisão.
Quem sabe se...
Aproximou-se da cafeteria e observou através do vidro. Madeline estava sentada a uma mesa diante de um café e um bagel. Levou um tempo para reconhecê-la. A fashion victim elegante cedera lugar a uma girl next door urbana. A maquiagem desaparecera. Um par de tênis Converse substituíra os escarpins, uma jaqueta de couro expulsara o casaco Prada, e uma bolsa azul-marinho informe, colocada sobre o banquinho, destronara as luxuosas bagagens de lona Monogram.
Presos num coque, os cabelos escapavam em mechas louras, escondendo parcialmente uma cicatriz e, contudo, dando um toque de feminilidade a seu novo visual. Jonathan deu duas batidinhas discretas no vidro, como se batesse a uma porta. Ela ergueu os olhos para olhar para ele, que compreendeu imediatamente que a pessoa à sua frente não tinha mais nada a ver com a moça bonita e vaidosa que ele encontrara no sábado anterior. A detetive de Manchester voltara a prevalecer sobre a florista parisiense.
— Boa noite — ele disse, aproximando-se da mesa.
Os olhos de Madeline estavam vermelhos pela falta de sono e brilhavam de cansaço.
— Bom dia, boa noite... Não sei mais nem a hora nem o dia em que estamos...
— Eu te trouxe uma coisa — ele disse, estendendo-lhe seu celular.
Por sua vez, ela vasculhou no bolso para pegar o aparelho de Jonathan, que jogou para cima e ele pegou no ar.
Agora não estavam mais sozinhos.