O Chamado do Anjo

Guillaume Musso · Capítulo 16 de 47

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O Chamado do Anjo

13. Sem pistas

13

Sem pistas

 

Everybody counts or nobody counts.

— MICHAEL CONNELLY

 

A última “pessoa” a ver Alice Dixon viva fora… uma câmera de vigilância. No vídeo, recolhido no cruzamento da Pickle Cross, distinguia-se a silhueta franzina da adolescente descendo do ônibus, com a mochila nas costas. Era possível vê-la claramente virando a esquina para entrar na travessa que levava ao colégio. Um itinerário de menos de oitocentos metros. E depois... mais nada. Dias de silêncio, indiferença e mistério. Ninguém vira nem ouvira nada. Como se Alice tivesse evaporado.

 

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Como todas as grandes cidades da Inglaterra, Manchester estava protegida por milhares de câmeras. Havia dez anos, uma política de videovigilância de grande amplitude fora instaurada em cada canto da cidade. Dessa forma, um cidadão podia ser filmado até trezentas vezes por dia. Um recurso inigualável na luta contra a delinquência. Pelo menos no discurso dos políticos, pois a realidade era outra: por falta de verba, o material apresentava frequentes defeitos. No dia do desaparecimento de Alice, todos os aparelhos que cobriam o setor do colégio estavam enguiçados ou desajustados, com as imagens confusas ou inutilizáveis...

 

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Nos dias seguintes, Madeline mobilizou cento e cinquenta policiais para vasculhar apartamentos, porões e quintais num raio de três quilômetros em torno da escola. Foram colhidos depoimentos de centenas de pessoas, pedófilos conhecidos foram interrogados e seguiram a pista de uma van branca suspeita, que vários alunos haviam notado.

 

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Convencida de que Erin Dixon carregava uma pesada responsabilidade na elucidação do desaparecimento de Alice, Madeline a colocou sob custódia, interrogando-a durante mais de vinte horas. Para a policial, Erin era uma vampira, escrava do crack, capaz de tudo por uma dose, até vender a filha a uma rede de prostituição. Mas seu depoimento não trouxe muita coisa. A conselho de seu advogado, Erin exigiu passar pelo detector de mentiras — uma grande enganação — e foi bem-sucedida no teste. Saiu livre do interrogatório e se deu ao luxo, diante das câmeras, de lançar com a voz trêmula um apelo a eventuais sequestradores.

 

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O serviço de informática da delegacia hackeou com facilidade a senha do computador de Alice: HEATHCLIFF, como o herói de O morro dos ventos uivantes, seu romance preferido. Infelizmente, nem a análise do disco rígido nem a da caixa de e-mail resultaram em alguma pista séria.

 

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Percorrendo o diário íntimo de Alice, Madeline descobriu que a adolescente tinha o costume de emendar vários biscates, mentindo sobre sua idade. Era assim que arranjava dinheiro para pagar seus livros e seus programas culturais. Nos últimos meses, trabalhara no Soul Café, um bar da Oxford Road, no bairro universitário. Autuado por ter contratado uma menor, o dono foi descartado no que se referia ao sequestro.

 

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Em 15 de dezembro, mergulhadores vasculharam mais de dois quilômetros da margem oeste do rio Irk. Outros, o lago de Rockwell, situado a quatrocentos metros da escola. Retiraram das águas várias carcaças de carros, carrinhos de supermercado, uma mobilete, duas geladeiras e grades de segurança. Mas nenhum corpo.

 

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Jim dissecou todas as ligações recebidas e transmitidas do celular da menina. Todos os contatos dela foram interrogados. Seus depoimentos não deram em nada.

 

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O Natal passou sem que a investigação progredisse um milímetro.

Madeline abdicou das férias. Começou a tomar remédios para conseguir dormir algumas horas.

Não era, contudo, uma iniciante. Fazia anos que trabalhava naquele bairro sinistro. Anos em que a violência e o horror faziam parte de seu cotidiano. Anos em que ela se via às voltas com cenas de crime, autópsias e interrogatórios de indivíduos da pior espécie. Perseguira homicidas, prendera estupradores e traficantes, flagrara pedófilos, desmantelara redes de narcotráfico. Se fosse contar, trabalhara em dezenas e dezenas de homicídios. Três anos antes, ela quase morrera durante um tiroteio entre duas gangues: uma bala de .357 Magnum resvalara nela, rasgando um pouco a pele do crânio e lhe deixando uma cicatriz que ela pelejava para disfarçar com o cabelo.

Sua vida era a investigação.

Ainda que isso significasse obsessão, solidão e perigo permanente.

Ainda que a transformasse em fantasma para os amigos, a família e os colegas.

Mas, no presente caso, não era justamente este o preço a pagar: virar um fantasma para encontrar outro fantasma...?

 

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Em janeiro, Jim e sua equipe verificaram as chamadas telefônicas feitas da cabine mais próxima da escola nas horas que haviam precedido e seguido o desaparecimento de Alice. O nome de seus autores foi cruzado com os arquivos da polícia. Mais de duzentos eram manjados, quase sempre por delitos menores. Todos foram ouvidos, seus álibis verificados, seus domicílios revistados. Entre eles, havia um homem de cinquenta anos, Fletcher Walsh, condenado por estupro vinte anos antes e dono de uma van branca...

 

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Aparentemente, o álibi de Fletcher Walsh era sólido, mas, farejando sua garagem, a brigada de cães encontrou vestígios de sangue na traseira de seu veículo. As amostras foram enviadas para o serviço médico-legal de Birmingham e a polícia vigiou Walsh vinte e quatro horas por dia à espera dos resultados.

 

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Em 13 de fevereiro, o porta-voz da Manchester Greater Police comunicou que as análises dos vestígios de sangue encontrados na van de Fletcher Walsh não permitiam afirmar com certeza que pertenciam a Alice Dixon.

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A mídia começou então a se desinteressar pelo caso. Os efetivos policiais empregados na investigação foram distribuídos em outros locais. A investigação estagnou.

 

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Todas as noites, Madeline continuava a sonhar com Alice, assombrada por seu olhar. Todas as manhãs, levantava-se esperando descobrir um novo indício ou pista que teriam sido desprezados.

Seus colegas e superiores sempre a consideraram uma policial durona, mas dessa vez ela hesitava. Forjara-se sobre bases instáveis, feitas de uma blindagem protetora que não excluía a real compaixão. Seu desempenho até melhorava quando o sofrimento das vítimas se tornava o seu também. Uma proximidade perigosa, mas que lhe dava eficiência.

Foi o que aconteceu com Alice. Desde o primeiro dia, o desaparecimento da garota a devastara. Ela lhe trazia recordações da adolescente que fora. Uma identificação perturbadora, um elo confuso, um laço visceral. Um sentimento que ela sabia ser devastador, mas contra o qual nem sequer tentou lutar.

Não era apenas um assunto pessoal, era mais do que isso. A certeza de que no fundo ela era a única pessoa a se preocupar de verdade com o destino da menina. A sensação de ter substituído sua mãe, de carregar nos ombros a responsabilidade pelo seu desaparecimento.

Naquela noite, fez uma promessa: se não fosse capaz de encontrar Alice viva, nunca teria um filho...

 

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A impotência a derrubava. Às vezes, era pior do que se houvessem anunciado a morte da menina, pois não parava de imaginar o que Alice devia estar sentindo. Imagens lúgubres e opressoras lhe invadiam o espírito.

Para se agarrar a alguma coisa, chegou a consultar um médium. Apalpando uma roupa pertencente a Alice, o charlatão asseverou que a adolescente estava morta e deu o endereço do canteiro de obras onde repousava o corpo. Madeline mobilizou uma equipe para vasculhá-lo de ponta a ponta. Pura perda de tempo.

 

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Sabendo daquele deslize, seu chefe a aconselhou a tirar alguns dias de folga. “Precisamos encarar a realidade: Alice Dixon desapareceu há três meses. Isso é trágico, mas nesse estágio você sabe muito bem que as chances de encontrá-la são praticamente inexistentes. Há outras investigações e outros casos nos quais precisamos de você...”

 

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Mas Madeline se sentia incapaz de trabalhar em “outras investigações e outros casos”. Estava disposta a tudo para conservar a frágil esperança de encontrar Alice.

 

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Resolveu então visitar o diabo em pessoa.