O Chamado do Anjo
28. Francesca
28
Francesca
Quando se ama alguém, você o assume por inteiro, com todos os laços, todas as obrigações. Você assume a história, o passado e o presente da
pessoa. Ou você assume tudo, ou absolutamente nada.
— R. J. ELLORY
GREENWICH VILLAGE
CINCO HORAS DA MANHÃ
Jonathan despertou sobressaltado, com a cabeça deitada no ombro de Madeline. Apesar da brutalidade com que saíra do sono, sentia-se espantosamente bem. A casa estava aquecida. Do lado de fora, o barulho do vento e as palpitações da cidade. Olhou a hora, mas durante um momento permaneceu deitado, encolhido contra o corpo macio e quente. Em seguida, violentou-se e deixou silenciosamente a bolha tépida do amor nascente.
Vestiu o suéter e o jeans, antes de fechar a porta do quarto e descer à sala. Do bolso do casaco, tirou a cópia que Madeline lhe dera na véspera: o e-mail roubado do computador de George.
De: Francesca DeLillo
Para: George LaTulip
Data: 4 de junho de 2010 19:47
Assunto: Re:
George,
Eu te imploro, desista do plano de ir visitar o Jonathan em San Francisco. Tomamos a decisão certa. É tarde demais para ter remorsos, achei que você tinha entendido lendo os jornais...
Esqueça o Jonathan e tudo que aconteceu conosco. Permita que ele dê a volta por cima.
Se você confessar a verdade a ele, vai colocar nós três numa situação difícil e pôr tudo a perder: seu emprego, seu apartamento, seu pequeno conforto.
F.
Jonathan se instalou na escrivaninha de carvalho sobre a qual reinava o computador. Claire tinha o costume de emprestar o apartamento aos amigos — um bilhete preso com durex na tela indicava a senha para o convidado iniciar o computador. Jonathan se conectou à internet e aproveitou para reler a mensagem. Quer dizer que Francesca não o teria traído com George... Difícil acreditar naquilo. Por que armara aquela história sórdida? Para proteger outro segredo?
Lendo o e-mail pela terceira vez, sublinhou a frase “achei que você tinha entendido lendo os jornais...”. A que Francesca estava se referindo? O e-mail datava de junho. Madeline lhe contara que dissecara as matérias de jornal publicadas nos meses anteriores, cruzando os nomes de Francesca e George, sem descobrir nenhuma pista concreta.
Ele reprimiu um bocejo e se levantou para fazer um café, antes de começar a consultar, por sua vez, os arquivos dos jornais online. Uma hora depois, deparou com uma reportagem estranha do Daily News:
BAHAMAS: CORPO DE MEGAEMPRESÁRIO É
ENCONTRADO NA BARRIGA DE UM TUBARÃO!
Ao sair para pescar garoupas ao largo da ilha de Colúmbia, um iatista amador fez nesta quinta-feira uma descoberta macabra ao capturar um tubarão em sua rede. Enquanto o içava para a embarcação, o animal cuspiu um longo pedaço de osso que lembrava muito um úmero. Intrigado, o homem avisou a guarda costeira, que abriu o ventre do bicho para lá encontrar outros fragmentos de esqueleto humano, especialmente um pedaço de caixa torácica e um maxilar.
Após a análise do DNA extraído dos ossos, a polícia das Bahamas pôde identificar o cadáver. Trata-se do businessman americano Lloyd Warner, vice-presidente do complexo hoteleiro de luxo Win Entertainment. Aos 45 anos, o sr. Warner não dava sinal de vida desde 28 de dezembro, quando foi visto numa loja no aeroporto de Nova York, justamente quando voltava das Bahamas.
Jonathan não acreditou no que lia. Lloyd Warner morrera dois anos atrás e ele só sabia disso agora! Lloyd Warner, o diretor financeiro da Win Entertainment... O homem que precipitara sua queda, recusando-se a renegociar a dívida do grupo Imperator. Num relâmpago, a lembrança das horas tristes voltou à tona: o círculo vicioso do endividamento, a falência de sua empresa, as dificuldades financeiras enfrentadas por Francesca para lutar contra a tomada de controle de Warner e de seus comparsas, seus ex-sócios que haviam se transformado em predadores.
Seria a essa matéria que a ex-mulher se referia no e-mail para George? Ela desempenhara algum papel na morte de Lloyd Warner? Mas com que objetivo, uma vez que aquele ato não impedira de forma alguma a falência de sua empresa?
Pasmo com a descoberta, Jonathan imprimiu às pressas a matéria e rabiscou no mural algumas palavras para Madeline. Então vestiu o casaco e pegou as chaves do carro, penduradas perto da porta.
* * *
Assim que chegara, Jonathan reparara no Smart verde-amêndoa de Claire estacionado na ruazinha particular. O frio estava cada vez mais intenso. Ligou o minicarro e esquentou o motor, escutando numa estação de notícias o início do flash:
... continua hoje na Califórnia o julgamento da mexicana Jezebel Cortes, herdeira do chefe de um cartel de drogas. Apelidada de La Muñeca, é a filha do chefão...
Mas ele não estava com cabeça para se infligir a ladainha de todos os sofrimentos do mundo. Desligou o rádio e percorreu a Grove Street. Àquela hora da manhã, o trânsito corria bem. Seventh Avenue, Varick, depois Canal Street... Redescobria a geografia nova-iorquina, percorrendo um trajeto que fizera centenas de vezes quando morava ali.
Em meio ao fluxo de táxis amarelos, observou a Ferrari preta pelo retrovisor. Mesmo quando tinha dinheiro, nunca fora um apaixonado por carros, mas aquele era diferente. Seu pai lhe dera uma miniatura quando era criança: um 250 GT California Spyder de chassi curto. Um dos carros mais raros e bonitos da história, produzido apenas em algumas dezenas de unidades no início dos anos 60. Mal teve tempo de girar a cabeça e o conversível já estava à sua direita, imprimindo uma aceleração fulminante antes de desaparecer enveredando pelo SoHo.
Que débil mental...
Não adiantava TriBeCa ser um dos bairros mais caros de Manhattan. Jonathan nunca se sentira realmente à vontade ali, achando o lugar sem charme nem harmonia.
Ocupou a primeira vaga que apareceu nos arredores do prédio onde morava sua ex-mulher. O Excelsior, um imponente apart-hotel de quinze andares, datava dos anos 20. Recentemente, os corretores haviam se apoderado daquele antigo hotel art déco para restaurá-lo e transformá-lo em lofts high-tech destinados a uma clientela multimilionária.
— Hello, Eddy! — saudou, entrando no prédio.
Vestindo um uniforme marrom com galões dourados, o porteiro levou vários segundos para reconhecê-lo.
— Sr. Lempereur! Ora, mas que surpresa... — deixou escapar, ajeitando o quepe.
— Eu gostaria de falar com a Francesca. Pode avisar que estou no hall?
— É que ainda é cedo...
— Por favor, Eddy, é realmente importante.
— Vou ligar para madame diretamente no celular.
De compleição imponente à la B.B. King, Eddy Brock era, em todas as acepções da palavra, o “homem-chave” do prédio, aquele que conhecia os segredos de todos os moradores: discussões, traições, maus-tratos, problemas com drogas... Dependendo de suas relações com ele, ou você tinha a vida imensamente facilitada ou ela virava um inferno.
— Tudo bem, senhor, ela o aguarda.
Jonathan agradeceu ao porteiro com um sinal de cabeça e chamou um dos elevadores alinhados no fundo do hall. Digitou a senha que permitia acessar diretamente o apartamento da ex-mulher, abrindo as portas para a antecâmara do duplex de vidro que coroava os dois últimos andares do edifício.
Jonathan avançou até o salão, um aposento imenso com piso de pedra de lava e mobília contemporânea de madeira clara e nogueira. Ali, tudo era exato e minimalista. Duas compridas lareiras high-tech embutidas numa saliência metálica cuspiam uma dezena de pequenas chamas, enquanto as enormes sacadas envidraçadas, abertas para o Hudson, aboliam a fronteira entre o interior e o terraço. Mesmo com o dia nascendo, a luminosidade era deslumbrante, misto de cor-de-rosa, púrpura e cinza-claro.
Embora houvesse morado ali durante dois anos, Jonathan agora se sentia um estranho no ninho. O jardim interno, o terraço de quatrocentos metros quadrados, a vista arrogante, o serviço de hotelaria a toda hora, os empregados da casa, a piscina aquecida de vinte metros de comprimento, a academia de ginástica, a sauna... Na época em que ele era o “Imperador”, todo aquele luxo lhe parecia normal. Hoje tinha a impressão de haver sofrido de mania de grandeza e de agora não passar de um simples mortal em visita aos deuses no Olimpo.
Saindo do quarto no andar de cima, Francesca se precipitou.
— O que aconteceu com o Charly?
— O Charly está ótimo. Ficou em San Francisco com seu irmão.
Retomando a tranquilidade, ela desceu a escada de vidro, dando a impressão de flutuar no ar.
Considerando a hora, Francesca tinha certamente enfiado às pressas o jeans preto e o suéter com decote V de cashmere bege. Ainda assim, parecia impecável. Tinha o porte altivo e o andar característicos das pessoas pertencentes às famílias que viviam na riqueza havia várias gerações. Seu
dinheiro era marcado com o selo “given, not earned”.* Quem sabe não teria sido isso que os separara? Ele, ao contrário, ganhara o próprio dinheiro... antes de perdê-lo.
— Você o matou, não é? — ele perguntou, estendendo-lhe a folha de papel onde estava impressa a matéria que relatava a morte de Lloyd Warner.
Ela nem baixou os olhos para ler. Simplesmente ficou imóvel alguns instantes, antes de se sentar no sofá e se enrolar num xale.
— Quem lhe disse isso? Aquele imbecil do George? Não... com certeza não...
— Como aconteceu?
Ela fechou os olhos, deixando as lembranças afluírem.
— Foi no fim de dezembro, há exatamente dois anos... — começou. — Você tinha me acompanhado pela manhã ao aeroporto e eu disse que ia a Londres visitar um dos nossos restaurantes. Era mentira. Na semana anterior, eu soube que Lloyd Warner iria às Bahamas, a Nassau, para negociar um contrato relativo a um dos cassinos dele. Decidi ir até lá também para convencê-lo a aceitar uma renegociação do nosso empréstimo. Ao chegar, deixei uma mensagem no hotel dele, pedindo que me encontrasse em Columbus. Na época, você não tinha noção do tamanho abissal da nossa dívida. Nossos restaurantes começavam a prosperar, mas a crise econômica e financeira pôs fim ao nosso crescimento. Eu queria que a Win Entertainment nos desse mais tempo para pagar, e não tinha como falar com ele em particular em Nova York.
— Ele foi te encontrar?
— Foi. Jantamos juntos. Tentei convencê-lo a nos dar mais tempo, mas ele não me escutou. Em vez disso, passou a noite dando em cima de mim descaradamente, de modo que fui embora antes da sobremesa.
Uma camareira entrou no salão, trazendo uma bandeja com um bule e duas xícaras. Francesca esperou que ela saísse para continuar:
— Embora eu pensasse que ele tivesse partido, Lloyd Warner veio me ver no quarto disposto a negociar. Ele concordava em fazer um esforço relativo à nossa dívida, mas com a condição...
— ... de que você trepasse com ele.
Ela concordou.
— Quando o mandei pastar, ele fechou a porta e se jogou em cima de mim. Ele tinha bebido além da conta, com certeza estava cheirado. Gritei, mas fazia muito barulho por causa de uma festa de casamento que estava tendo no hotel. Ao me debater, agarrei uma estátua na mesa de cabeceira, a imitação de um bronze de Giacometti. Dei um golpe na cabeça dele, bem forte. Ele desabou. Achei que tinha desmaiado, mas ele estava morto.
Aturdido, Jonathan resolveu sentar na poltrona mais próxima de Francesca. Embora pálida e encolhida no xale, ela parecia bastante calma. Jonathan, por sua vez, não conseguia saber se estava aliviado ou louco de raiva. Dois anos de mistério acabavam de se resolver em poucas frases. Dois anos sem poder confiar em ninguém porque não vira a iminência da traição da mulher... pela simples razão de que ela não o traíra.
— Por que você não chamou a polícia?
— Você acha realmente que eles teriam acreditado na minha história de legítima defesa? Com as dívidas que tínhamos? Com o bilhete que eu enviei para ele pedindo que viesse ao meu encontro?
— O que fez com o corpo?
— Em seguida, desci até aquela suíte que dava para o píer, onde nós dois nos hospedávamos. Tive a ideia de pegar emprestado o barco que o hotel deixava à disposição dos clientes. Era um pequeno Hacker Craft de mogno, lembra? Manobrei até o píer e arrastei o corpo para a cabine. Era uma noite fechada. Rezei para não cruzar com a guarda costeira e fui jogar fora o corpo daquele... filho da puta, a umas vinte milhas da praia. Antes, tive a presença de espírito de pegar a carteira e o celular dele.
— No hotel, ninguém percebeu que você saiu com o barco?
— Não, o casamento dominou a atenção dos funcionários. Acha que fui cruel?
Atônito, Jonathan desviou a cabeça para escapar do olhar de Francesca. Determinada a pôr o dedo na ferida, ela não deixou o silêncio se instalar.
— Entrei em pânico — continuou. — Se percebessem o desaparecimento do Warner nas Bahamas, chegariam a mim rapidamente. Dezenas de pessoas tinham nos visto jantando juntos no restaurante. Minha única chance era que não encontrassem o corpo logo. Para isso eu lastreei o corpo com uma barra de ferro que achei no barco e, o principal, fiz com que todo mundo acreditasse que o Warner tinha voltado para os Estados Unidos. Consultando os e-mails dele no celular, dei com uma mensagem pedindo que confirmasse o voo de volta. Entrei no site da companhia aérea e cumpri as formalidades. Embora exequível, eu precisava que alguém ocupasse fisicamente o lugar do Lloyd. Então pensei no George, por causa da vaga semelhança dele com o Warner.
— O George foi o seu álibi?
— Foi. Passando a ideia de que ele era meu amante, pude justificar minha presença nas Bahamas e declarar que era ele quem estava comigo no hotel. Daí as fotos para os paparazzi do pedaço. E o principal, ele viajou com os documentos de identidade do Lloyd no voo de volta. E, quando chegamos em Nova York, pedi a ele que efetuasse várias compras com o cartão de crédito que eu tinha pegado no casaco do Warner. Alguns dias mais tarde, quando notaram o desaparecimento dele, os tiras estavam convencidos de que ele tinha retornado de fato a Manhattan. Então ninguém procurou investigar para os lados das Bahamas, até que encontraram o corpo, seis meses depois.
— Em que pé está o inquérito?
Sem tocar o chá, Francesca pegou o maço de Dunhill na mesa de centro e acendeu um cigarro.
— Não sei. Acho que arquivaram o caso. De qualquer forma, ninguém nunca me interrogou, porque, oficialmente, não foi com ele que jantei, mas com o George.
Contida por tanto tempo, a raiva de Jonathan explodiu:
— Por que não pediu ajuda para mim, seu marido? Confiava tão pouco em mim? Não me contar da viagem ainda passa, mas me esconder um assassinato!
— Para proteger você e o Charly! Justamente para não te tornar cúmplice de um assassinato! Para não irmos os dois para a prisão! Meu plano tinha nove chances em dez de fracassar. Quem teria criado nosso filho se fôssemos presos?
Jonathan considerou o argumento. Fazia sentido, e uma parte dele próprio admirava o sangue-frio, a lógica implacável e a inteligência superior graças aos quais Francesca conseguira se safar e proteger sua família. Teria ele sido capaz de levar a cabo aquela trama? Provavelmente não. Sem dúvida teria agido como culpado. Sem dúvida teria se deixado trair pelas emoções...
Subitamente, a sensação de absurdo e de caos na qual a separação o lançara acabava de desaparecer. O que lhes acontecera tinha um sentido. No mesmo instante, porém, Jonathan tomou consciência de que agora via Francesca como uma estranha. Não sentia por ela mais nenhum impulso, nenhum sentimento, como se uma barreira invisível os separasse definitivamente dali para frente.
Nota
* Dado, não conquistado.