O Chamado do Anjo

Guillaume Musso · Capítulo 19 de 47

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O Chamado do Anjo

16. A caixa

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A caixa

 

Quem banha as mãos no sangue

as lavará nas lágrimas.

— PROVÉRBIO ALEMÃO

 

Em 15 de junho, um estranho pacote chegou à delegacia de Cheatam Bridge.

Era dirigido à “Tenente Madeline Greene, responsável pelo caso Alice Dixon”.

Era um recipiente hermético de plástico parecido com aqueles isopores usados em piqueniques. Madeline abriu a caixa: transbordava de cubos de gelo. Com as mãos, afastou os pequenos cubos translúcidos. A primeira camada era esbranquiçada, e, quanto mais ela escavava, mais um líquido avermelhado contaminava o gelo. Quando percebeu as manchas de sangue, seu ritmo cardíaco acelerou. Tentou não entrar em pânico e deu um tempo antes de voltar à exploração. No fundo havia... um pedaço de carne semicongelado que ela olhou com nojo. Depois compreendeu que se tratava de um órgão.

Um coração grosseiramente arrancado.

Um coração humano.

O coração de Alice.

 

* * *

Daquela vez, o laboratório de Birmingham dispunha de material suficiente e só precisou de poucas horas para confirmar que as amostras biológicas colhidas no coração congelado correspondiam ao DNA presente nos cabelos de Alice.

Agora, não restava mais sombra de dúvida.

Alice estava morta.

 

* * *

Naquele dia, alguma coisa quebrou dentro de Madeline. Ela voltou para casa como uma sonâmbula, engoliu vários copos de uísque e dois soníferos. No dia seguinte, faltou ao trabalho, bem como nos subsequentes. Durante três semanas, permaneceu prostrada na cama, numa espécie de letargia perdida entre o álcool e os remédios. A realidade se tornara intolerável para ela. Nada mais tinha importância. Nem mesmo prender o desequilibrado que se escondia por trás daquele crime. Ela ficou sem chão, sem perspectivas, disposta a apertar o botão “off” da vida.

 

* * *

Em 19 de junho, o Sun anunciou que Erin Dixon fora abordada por uma empresa de produção e recebera um adiantamento de cinquenta mil libras esterlinas para que fosse levada à tela uma história sobre o desaparecimento e o assassinato da filha.

 

* * *

Em 26 de junho, durante uma blitz corriqueira, a polícia de Merseyside parou um tal de Harald Bishop. Em estado de embriaguez, o homem transportava na traseira de sua van instrumentos cortantes manchados de sangue. Afirmou no início ter destrinchado um javali que acidentalmente atropelara na floresta de Bowland. Mas suas declarações eram confusas e suspeitas. O homem foi conduzido à pequena delegacia de Prescot, onde aguardaram que se curasse da bebedeira. Quando o interrogatório começou, os policias em serviço não desconfiaram que tinham diante de si aquele que a imprensa apelidara anos atrás de “Carniceiro de Liverpool”.

No interrogatório, Bishop confessou mais de vinte assassinatos de jovens mulheres ou adolescentes e outros tantos estupros cometidos no período de 2001 a 2009.

A surpresa foi completa. Um simples controle de motoristas alcoolizados acabava de levar à prisão de um dos mais terríveis serial killers que a Inglaterra conhecera. Dezenas de homicídios ou sequestros não elucidados de até dez anos atrás encontravam finalmente solução.

A confissão de Harald Bishop durou a noite inteira. De madrugada, o último assassinato que ele confessou foi o de Alice Dixon. Explicou que jogara o corpo da garota no rio Mersey, após ter enviado seu coração à polícia de Manchester.

 

* * *

O caso foi manchete nos jornais durante semanas. Bishop foi ouvido dezenas de vezes, mas tinha a memória claudicante, quase sempre confundindo datas e permanecendo vago quanto ao desdobramento de alguns de seus crimes. Ao fazerem uma busca em sua residência, os investigadores encontraram tantos restos provenientes de cadáveres que não foi possível identificar todos eles com certeza.

 

* * *

Em 7 de julho, no meio da noite, Madeline Greene amarrou uma corda de varal na viga que atravessava o mezanino.

Aquilo tinha que acabar.

Com um resto de uísque, engoliu todos os remédios de que dispunha, essencialmente soníferos e ansiolíticos. Em seguida, subiu numa cadeira, agarrou a corda do varal e deu um laço. Enfiou nele a cabeça e o apertou.

Aquilo tinha que acabar.

No último mês, imagens de horror lhe invadiam a cabeça. Imagens insuportáveis que não lhe davam trégua. Imagens que a faziam sentir as abominações que Alice devia ter sofrido.

Aquilo tinha que acabar.

Aquilo tinha que acabar.

 

* * *

Então ela saltou.