O Chamado do Anjo
2. Separate lives
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Separate lives
É terrível ficar sozinho quando fomos dois.
— PAUL MORAND
Jonathan enviou a primeira mensagem...
Estou com o seu celular, você está
com o meu?
Jonathan Lempereur
... à qual Madeline respondeu quase instantaneamente:
Sim! Onde você está?
Madeline Greene
Em San Francisco. E você?
Em Paris :(
Como vamos fazer?
Bom, existe correio na França,
não? Mando o seu amanhã por
FedEx.
Muito gentil... Farei o mesmo assim
que possível. Qual é o seu
endereço?
Restaurante French Touch, 1606
Stockton Street, San Francisco, CA.
O meu: Le Jardin Extraordinaire, 3
bis Rue Delambre, Paris, no 14º.
Você é florista, certo? Em caso
afirmativo, você tem uma
encomenda urgente de um tal
Oleg Mordhorov: 200 rosas
vermelhas a serem entregues no
Teatro du Châtelet para a atriz que
se despe no terceiro ato. Cá entre
nós, duvido que seja a esposa
dele...
Com que direito escutou minha
secretária?
Ora, para lhe fazer um favor, sua
anta!
Vejo que é tão grosseiro em suas
mensagens quanto em suas falas!
Quer dizer que tem um
restaurante, Jonathan?
Tenho.
Nesse caso, sua birosca tem uma
nova reserva: uma mesa para dois
amanhã à noite em nome de sr. e
sra. Strzechowski. Enfim, foi o que
compreendi da mensagem, mas o
sinal estava ruim...
Ótimo. Boa noite.
Em Paris, são 7 da manhã...
Irritado, Jonathan sacudiu a cabeça e enfiou o celular no bolso interno do paletó. Detestava aquela mulher.
* * *
SAN FRANCISCO
NOVE E MEIA DA NOITE
Um velho Renault 4L vermelho berrante deixou a Route 101 para pegar a saída que levava a downtown. O calhambeque se arrastava como um bezerro pela Embarcadero, dando a impressão de avançar em câmera lenta. Apesar de a calefação estar no máximo, os vidros estavam embaçados.
— Você vai nos matar com essa sua lata-velha! — queixou-se Jonathan, encolhido no banco do passageiro.
— De jeito nenhum, minha gatinha está tinindo — defendeu-se Marcus. — Se soubesse como a paparico!
Cabelos sujos e eriçados, sobrancelhas espessas, barba de dezoito dias e pálpebras caídas à la Droopy: Marcus parecia teletransportado de outra época — a pré-história —, e até mesmo, em certos dias, de outro planeta. Sobrando numa calça baggy e numa camisa havaiana aberta até o umbigo, a silhueta raquítica parecia ter sido contorcida e desmembrada para caber dentro do carro. Calçando velhas sandálias de dedo, dirigia com um único pé, o calcanhar na embreagem e os dedos apertando alternadamente o acelerador e o freio.
— Pois eu gosto muito do carro do tio Marcus! — entusiasmou-se Charly, saracoteando no banco traseiro.
— Obrigado, irmãozinho! — ele respondeu, dando uma piscadela.
— Charly! Coloque o cinto e pare de zanzar de um lado para o outro — ordenou Jonathan. Depois, voltando-se para o amigo: — Passou no restaurante hoje à tarde?
— Éhh... estamos fechados hoje, certo?
— Mas pelo menos recebeu os patos?
— Que patos?
— As coxas de pato e a rúcula que Bob Woodmark entrega toda sexta-feira!
— Ah! Eu bem que estava achando que tinha esquecido alguma coisa!
— Seu cabeça de vento! — irritou-se Jonathan. — Como pode esquecer a única coisa que lhe pedi para fazer?
— Não precisa fazer um drama por causa disso... — resmungou Marcus.
— É claro que precisa! Woodmark é intragável, mas a fazenda dele nos fornece os melhores produtos. Se dermos um bolo nele, ele vai cismar com a gente e não vai mais querer nos vender nada. Vamos voltar e passar pelo restaurante. Aposto que ele deixou a encomenda nos fundos.
— Posso verificar isso sozinho — garantiu Marcos. — Primeiro, deixo vocês em cas...
— Não! — cortou Jonathan. — Já vi que não posso contar com você, então vou assumir as rédeas.
— Ora, o menino está morto de cansaço!
— Não, não! — alegrou-se Charly. — Também quero ir ao restaurante.
— Bom, resolvido — decretou Jonathan. — Dobre no cruzamento na altura da 3rd Street — ordenou, limpando com a manga o vapor condensado no para-brisa.
Mas o velho 4L não gostava de ver alterado seu itinerário. Os pneus estreitos perderam aderência e a guinada brusca quase provocou um acidente.
— Você não controla mais essa lata-velha! — gritou Jonathan. — Assim vai nos matar, porra!
— Eu faço o que posso! — garantiu Marcus, aprumando o carro e promovendo ao mesmo tempo um concerto de buzinadas estridentes.
Avançando pela Kearney Street, o calhambeque pareceu recuperar uma espécie de estabilidade.
— Você ficou nesse estado porque esteve com a minha irmã? — perguntou Marcus, após um longo silêncio.
— Francesca é apenas sua meia-irmã — corrigiu Jonathan.
— Como ela está?
Jonathan lhe dirigiu um olhar hostil.
— Se acha que ficamos de papo...
Marcus sabia que o assunto era delicado e não insistiu. Concentrou-se no volante para alcançar a Columbus Avenue e estacionar sua “gatinha” em frente à brasserie que ostentava a placa French Touch, na esquina da Union Street com a Stockton.
Como Jonathan presumira, Bob Woodmark deixara a entrega nos fundos do restaurante. Os dois homens recolheram os engradados e os armazenaram na câmara frigorífica, depois verificaram se estava tudo em ordem na sala principal.
O French Touch era um pedaço da França no coração de North Beach, o bairro italiano de San Francisco. Pequeno, mas acolhedor, o lugar reproduzia o interior de um bistrô francês dos anos 30: madeiras, relevos, chão de mosaico, imensos espelhos belle époque, velhos pôsteres de Josephine Baker, Maurice Chevalier e Mistinguett. O estabelecimento propunha uma cozinha francesa tradicional, sem pretensão, sem frescura. No quadro-negro afixado na parede, podia-se ler: “Folheado de escargots com mel, magret de canard à l’orange, torta Saint-Tropez...”
— Me dá um sorvete, pai? — pediu Charly, de frente para o balcão rutilante que atravessava o recinto.
— Não, querido. Você já comeu demais no avião. E depois já é tarde, você devia estar na cama há séculos.
— Mas estou de férias...
— Vamos, Jon, seja legal! — pediu Marcus.
— Ah, não, você não vai se intrometer nisso também!
— Mas é Natal!
— Duas crianças! — Jonathan exclamou, sem conseguir conter o riso.
Ocupou um lugar no canto do restaurante, atrás do balcão da cozinha aberta, que permitia aos clientes acompanharem em parte a preparação dos pratos.
— Do que você gostaria? — perguntou ao filho.
— De uma dame blanche! — entusiasmou-se o menino.
Com desenvoltura, o “mestre-cuca” quebrou alguns quadrados de chocolate amargo numa pequena tigela para derretê-los em banho-maria.
— E você? — perguntou a Marcus.
— Podíamos abrir uma garrafa de vinho...
— Como quiser.
Um largo sorriso iluminou o rosto de Marcus, que se levantou rapidamente para se dirigir ao seu cantinho predileto: a adega do restaurante.
Nesse ínterim, sob o olhar guloso de Charly, Jonathan dispôs numa taça duas bolas de sorvete de creme acompanhadas de suspiro. Derretido o chocolate, acrescentou-lhe uma colherada de creme de leite fresco. Despejou o chocolate quente sobre o sorvete e cobriu tudo com chantili e amêndoas tostadas.
— Enjoy! — exclamou, espetando um pequeno guarda-chuva na cúpula do creme.
Pai e filho se instalaram a uma mesa, sentados lado a lado, num confortável banco. Nas nuvens, Charly se armou com uma colher comprida e começou a degustação.
— Olhe só essa maravilha! — exultou Marcus, voltando da adega.
— Um Screaming Eagle 1997! Por acaso está delirando? Esse tipo de garrafa é só para os clientes!
— Por favor! Fica como meu presente de Natal... — implorou.
Após uma resistência puramente formal, Jonathan aceitou abrir o grand cru. Pensando bem, era melhor que Marcus bebesse alguns copos no restaurante. Pelo menos poderia ficar de olho nele. Caso contrário, era bem possível que o canadense começasse a percorrer os bares, e, quando ele estava sob a influência do álcool, as catástrofes não demoravam a acontecer. Em várias ocasiões, alguns de seus companheiros de copo haviam se aproveitado de sua gentileza e credulidade para trapaceá-lo no pôquer, fazendo-o assinar reconhecimentos de dívida imaginários que depois Jonathan tivera todas as dificuldades do mundo para resgatar.
— Admire a cor desse néctar! — extasiou-se Marcus, vertendo o vinho numa garrafa para decantá-lo.
Filho ilegítimo do pai de Francesca e de uma cantora de country do Quebec, Marcus não recebera um centavo por ocasião da morte de seu genitor, um rico empresário nova-iorquino. Sua mãe havia morrido recentemente, e ele só mantinha contato de vez em quando com a meia-irmã. Sem um tostão furado, vivia numa bolha de despreocupação, não ligava para o visual, ignorava o básico da etiqueta e das regras de convívio social. Dormia doze horas por dia, dava uma mãozinha no restaurante na medida do possível, mas as obrigações e os horários de trabalho pareciam não lhe dizer respeito. Avoado e generoso, simplório e cativante, tinha alguma coisa de patético e desconcertante, ainda que as consequências de sua irresponsabilidade fossem difíceis de administrar no dia a dia.
Durante o período que durara seu casamento, Jonathan não vira em Marcus senão um cretino com quem não tinha nada em comum. Contudo, quando Francesca o deixara, o cunhado fora o único a apoiá-lo. Na época, mesmo tendo Charly, Jonathan mergulhara no abismo negro da depressão. Desempregado e desamparado, afogara as mágoas num mar de Jack Daniel’s e Johnnie Walker.
Felizmente, por um estranho milagre, Marcus deixara a preguiça de lado e, pela primeira vez na vida, tomara a iniciativa. Encontrara um restaurante italiano decadente que acabava de mudar de proprietário e fizera das tripas coração para convencer os investidores a transformar o lugar num bistrô francês e entregar os fogões a seu cunhado. Aquela atitude permitira a Jonathan dar a volta por cima. Tão logo sentira o amigo salvo, Marcus recaíra em sua preguicite aguda.
— À nossa! — ele brindou, estendendo a Jonathan uma taça de vinho.
— Então é Natal antes da hora — concluiu o francês, ligando o aparelho de rádio art déco que desencavara num mercado de pulgas de Pasadena.
Sintonizou o aparelho numa estação de rock que tocava uma versão ao vivo de “Light My Fire”.
— Ah, como isso é bom! — empolgou-se Marcus, afundando-se no assento, sem dar a perceber se estava falando do cabernet ou da música do The Doors.
Jonathan tentou relaxar também. Desabotoou o colarinho e tirou o paletó, mas a visão do celular de Madeline pousado na mesa o contrariou. Essa história de celular vai me fazer perder um monte de reservas!, suspirou. Entre seus clientes assíduos, alguns tinham seu número pessoal — privilégio que lhes permitia conseguir uma mesa mesmo em noites movimentadas.
Enquanto Marcus pegava o aparelho, Jonathan observou o filho dormindo tranquilamente no banco. Gostaria de tirar uns dez dias de férias para se dedicar a Charly, mas não podia se dar a esse luxo. Acabara de sair do abismo financeiro que quase o engolira fazia poucos anos, e aquela derrocada tivera o mérito de vaciná-lo contra empréstimos, cheques especiais, inadimplências e multas por atraso.
Esgotado, fechou os olhos, e Francesca lhe apareceu na mente, tal como a vira no aeroporto. Dois anos depois, a dor continuava viva. Quase insuportável. Abriu os olhos e tomou um gole de vinho para expulsar aquela imagem. Não tinha a vida que esperara, mas era a que tinha.
— Nada mal a belezoca! — exclamou Marcus, enquanto os dedos encardidos deslizavam na tela touch screen para fazer correrem as fotos contidas no celular.
Intrigado, Jonathan passou a cabeça por cima da tela.
— Me deixe ver.
Entre as fotos da moça, algumas eram sutilmente eróticas. Poses sugestivas imortalizadas em preto e branco: rendas finas, ligas de cetim, mão erguida escondendo recatadamente um seio ou roçando o contorno do quadril. Nada muito comprometedor numa época em que havia quem colocasse suas sex tape na internet...
— Posso ver também, papai? — perguntou Charly, abrindo um olho.
— Não, não. Volte a dormir. Não é assunto de criança.
Em todo caso, era surpreendente que, com seu ar petulante de patricinha metida, a desastrada do aeroporto também tivesse feito sua sessãozinha de poses safadas.
Mais espantado que excitado, Jonathan deu zoom no rosto da modelo. Embora aparentemente se divertisse, prestando-se de boa vontade à brincadeira, por trás do sorriso de fachada se vislumbrava um certo constrangimento. Provavelmente aquele gênero de fotos era antes um delírio de seu homem, que se tomara por um instante por Helmut Newton. Quem estava atrás da câmera? O marido? O amante? Jonathan se lembrava de ter notado um homem no aeroporto, mas era incapaz de reconstituir seus traços.
— Bom, basta! — decidiu, largando o celular sob o olhar decepcionado de Marcus.
Sentindo-se subitamente um voyeur, perguntou-se com que direito se intrometia na vida privada daquela mulher.
— Como se ela fosse ter escrúpulos de fazer o mesmo! — comentou o canadense.
— Não estou nem aí. Não tem nenhum perigo de ela encontrar esse tipo de fotografia no meu celular! — ele exclamou, servindo-se de um copo de Screaming Eagle. — Se acha que já me diverti fotografando minhas partes íntimas...
O cabernet tinha notas sutis de frutas vermelhas e pão de especiarias. Enquanto degustava a bebida, Jonathan listou mentalmente o que tinha em seu celular. A bem da verdade, não se lembrava de tudo.
Em todo caso, nada íntimo nem comprometedor, tranquilizou-se.
No que se enganava totalmente.
* * *
PARIS
SETE E MEIA DA MANHÃ
O capô frisado de um Jaguar XF último modelo corria no azul gélido e metálico da marginal parisiense. Forrada com materiais nobres — couro branco, relevos de nogueira, alumínio escovado —, a cabine exibia luxo e conforto. No banco traseiro, malas de lona Monogram dividiam espaço com um saco de golfe e um número da revista Fig Mag.
— Tem certeza de que vai abrir a loja hoje? — perguntou novamente Raphaël.
— Querido! — exclamou Madeline. — Já falamos sobre isso várias vezes.
— A gente podia prolongar nossas férias... — ele insistiu. — Estico até Deauville, passamos a noite no Normandy e amanhã jantamos com meus pais.
— É tentador, mas... não. Além disso, você tem um compromisso com um cliente para visitar um canteiro de obras.
— Você é quem sabe — capitulou o arquiteto, virando no Boulevard Jourdan.
Denfert-Rochereau, Montparnasse, Raspail: o carro atravessou uma boa parte do 14º arrondissement antes de parar no número 13 da Rue Campagne-Première, em frente a um portão verde-escuro.
— Passo para te pegar na loja?
— Não, vou de moto.
— Vai congelar!
— Talvez, mas adoro minha Triumph! — ela respondeu, beijando-o.
O carinho se prolongou até que a buzina de um motorista de táxi apressado os arrancasse bruscamente do casulo.
Madeline bateu a porta do sedã e soprou um beijo de despedida para o namorado. Digitou a senha para abrir o portão, que dava para um pátio arborizado. Ali, no nível do jardim, ficava o apartamento que alugava desde que viera morar em Paris.
— Brrr! Está fazendo quinze graus negativos aqui dentro! — ela tiritou, entrando no pequeno duplex, típico dos ateliês de artista construídos no bairro no fim do século XIX.
Acendeu o aquecedor e pôs a chaleira no fogo para preparar um chá.
Fazia tempo que o antigo ateliê de pintura dera lugar a um bonito dois quartos, dispondo de uma sala, uma pequena cozinha e um quarto no mezanino. Mas a altura do teto, as amplas vidraças na parede principal e o assoalho de madeira lembravam a vocação artística do antigo morador, contribuindo para o charme e a personalidade do lugar.
Madeline sintonizou na TSF Jazz, certificou-se de que a calefação estava no máximo e bebericou seu chá, dançando ao ritmo do trompete de Louis Armstrong enquanto o apartamento aquecia.
Tomou uma ducha rápida, saiu do banheiro arrepiada e pegou no armário uma camiseta térmica, um jeans e um grosso suéter de lã. Pronta para sair, deu uma mordida num Kinder Bueno enquanto vestia uma jaqueta de couro e amarrava no pescoço seu cachecol mais quente.
Passava um pouquinho das oito quando subiu na moto amarelo-fogo. Sua loja não era longe, mas ela queria evitar ter de passar de novo pelo ateliê quando fosse encontrar Raphaël. Cabelos ao vento, percorreu a ridícula centena de metros até a rua que ela adorava. Ali, Rimbaud e Verlaine haviam composto versos, Aragon e Elsa haviam se amado e Godard imortalizara o fim de seu primeiro filme: aquela cena tristíssima em que Jean-Paul Belmondo, “acossado”, desaba, com uma bala nas costas, sob os olhos da namorada americana.
Madeline virou no Boulevard Raspail e percorreu a Rue Delambre até o Jardin Extraordinaire, loja de que tinha orgulho e que abrira dois anos antes. Subiu a porta de ferro com apreensão. Nunca se ausentara por tanto tempo. Durante suas férias em Nova York, entregara as rédeas da loja a Takumi, seu estagiário japonês que estava terminando o curso na escola de floristas de Paris.
Quando entrou, deu um suspiro de alívio. Takumi seguira suas orientações ao pé da letra. O jovem asiático abastecera-se na véspera no Rungis, e o recinto estava abarrotado de flores viçosas: orquídeas, tulipas brancas, lírios, bicos-de-papagaio, heléboros, esporinhas, mimosas, narcisos, violetas, amarílis. A grande árvore de Natal que haviam decorado juntos brilhava com todas as suas luzes, e feixes de visco e azevinho pendiam do teto.
Tranquilizada, tirou a jaqueta para vestir o avental, juntou as ferramentas de trabalho — podadeira, regador, enxadinha — e se concentrou alegremente nas tarefas mais urgentes, limpando as folhas de um fícus, reenvasando uma orquídea, podando um bonsai.
Madeline concebera seu ateliê floral como um lugar mágico e poético, uma redoma propícia ao devaneio, um porto seguro longe do tumulto e da violência da cidade. Mesmo num dia eventualmente triste, ela queria que seus clientes deixassem as preocupações de lado tão logo atravessassem o umbral de sua loja. Na época do Natal, a atmosfera de seu Jardin Extraordinaire era particularmente encantadora, remetendo aos perfumes da infância e às tradições de outrora.
Concluídos os “primeiros socorros”, recolheu os pinheiros para instalá-los na vitrine e abriu a loja às nove em ponto.
Sorriu ao ver entrar o primeiro cliente — no mercado de flores, um velho ditado dizia que, se fosse homem, o dia seria lucrativo —, mas logo se entristeceu diante do pedido: ele queria enviar um buquê à mulher sem cartão. Era o novo estratagema da moda entre maridos ciumentos: enviar flores de maneira anônima para espreitar a reação da esposa. Se, ao chegar em casa, ela não falasse do buquê, eles concluíam que ela tinha um amante... O homem pagou a conta e deixou a loja, desinteressando-se pela composição do buquê. Madeline começou então o arranjo floral — que Takumi entregaria a partir das dez horas da manhã num banco na Rue Boulard —, quando o riff de “Jumpin’ Jack Flash” ressoou na loja. A florista franziu o cenho. A célebre música dos Rolling Stones saía do bolso de sua mochila, na qual estava o celular daquele Jonathan qualquer-coisa. Hesitou em atender, mas, enquanto se decidia, o toque parou. Fez-se silêncio durante um minuto, até que um som breve e áspero indicasse que o interlocutor deixara uma mensagem.
Madeline deu de ombros. Em hipótese alguma escutaria uma mensagem que não lhe era destinada... Tinha mais o que fazer! E depois, estava se lixando para aquele Jonathan qualquer-nota, tão vulgar e antipático. E depois...
Movida por uma irreprimível curiosidade, pressionou a tela touch screen e colou o celular no ouvido. Uma voz grave e hesitante surgiu no aparelho: uma americana, com um leve sotaque italiano, contendo os soluços.
“Jonathan, sou eu, Francesca. Ligue de volta se puder. Precisamos falar, precisamos... Sei que te traí, sei que você não entende como pude estragar tudo. Volte, por favor, faça isso por Charly e por nós. Eu te amo... Você pode não esquecer, mas vai me perdoar. Temos apenas uma vida, Jonathan, e fomos feitos para passá-la juntos e ter outros filhos. Vamos retomar nossos planos, vamos continuar como antes. Sem você, a vida não tem graça...”
A voz da italiana se estrangulou numa tristeza infinita, e a mensagem se interrompeu.
Durante vários segundos, Madeline permaneceu imóvel, abalada diante do que acabara de ouvir e cheia de culpa. Seus braços ficaram arrepiados. Sentiu um calafrio, depois largou no balcão o celular ainda carregado de lágrimas, ruminando o que fazer.